quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Dia de sol, dia de chuva

Os ciclos da Natureza estão aí para serem experienciados, não necessariamente compreendidos ou dissecados pela nossa intensa "fome" de conhecimento "racional", que mais parece um saco sem fundo - e sem respostas!

Aqui no cerrado a chuva está se preparando para cair, é o que basta. Basta para as aves, que estão procurando abrigo nas copas e nos ninhos. Basta para as árvores de caules entortados, que retiveram sabiamente o líquido prateado, mês a mês de seca, calor e frio, para, agora, poderem repor seus reservatórios internos com o bálsamo para a próxima estação de seca.

Basta a todos os reinos...por que, então, não basta ao nosso?

A moda por aqui, em dias de pré-chuva (sim, uma garoa tem sido o abre-alas da estação das águas que exsurge), as conversas emergentes nos arredores da cidade têm sido, quase sempre, um festival de esquizofrenia. "Ai, que droga essa chuva, vai estragar meu cabelo!" - ouvi de uma alma com formol no cabelo, pois, segundo consta da pauta de "embelezamento", após a escova progressiva não é "de bom tom" o cabelo pegar chuva.

Não entendo, então, qual é a desse povo, pois, uma hora, conclama chuva, outra, tripudia dela, em torno da ideia egoica de não poder pegar um respingo por conta de um cabelo alisado às custas de formol, uma substância que, aderida ao corpo e cujos resultados nos são desconhecidos, pode intoxicar e matar.

A eterna insatisfação humana com os desígnios da Natureza que, afinal, não está nem aí para quem deseja controlará: é arredia, inalcançável aos dedos escorregadios de uma humanidade que fez questão de se desplugar dela.

Penso que o momento de "retorno" em todos os movimentos reconstrutivistas e reconstrucionistas - druídico, celta, pagão etc. - marca, de certa maneira, a tomada da consciência em relação à vivência de uma vida integral, holista, não mais fragmentada em torno da ideia de dominação da Natureza.

Enquanto pensava nisso, vi-me perdida, ou achada, em contemplação, olhando o céu e suas nuvens, avisando que, dali a pouco - falta pouco, muito pouco mesmo - o elemento égua brindará nossos corpos aquecidos com sua profusão de sensações.

O céu está acinzentado, a temperatura caindo e a umidade, outrora em torno de 5%, começa a subir. Momento propício e auspicioso para verter água dos portões das casas das linhagens ancestrais de todas nós...

Que venha a abençoada água, que venha o elemento primordial do útero da Grande Mãe, derramando sua emotividade em nossos corpos e cabeças!

Querer, a chama passional do Fogo


Elemento fogo, veículo catalisador de eventos...

Lânguido e sereno em um simples aquecer de corpo num dia de intenso frio, como o abraço amado no final do dia. Tórrido e descontínuo numa queimada que avassala e destrói. Assim é o domínio do Fogo na dualidade...Aquece e queima, na polaridade dos que, incautos, oscilam, ainda, entre binômios.

Mas, fora, deles, ah, o fogo, chama crepitante que transmuta, inova, transforma tudo ao seu redor, fazendo vibrar com mais intensidade cada átomo do Universo. Afinal, com energia térmica, a cinética aumenta também! É o fogo que impele para as realizações, no impulso primordial da ação criativa, trazendo a síntese mais perfeita do movimento criador que transforma tudo ao redor.

O fogo não apenas move (isso seria atributo do ar, segundo maciça literatura), mas, o faz - alimentando-se de ar - repleto de desígnios de vontade, querer, impulso. Por que não dizer, paixão? Afinal, aquece os corações e, no coito, corpos elevam sua temperatura, fazendo girar vórtices de energia em nossos pontos básicos de conexão com a Terra e, portanto, com a egrégora primordial da criação, da reprodução. Da origem, enfim!


Num átimo de segundo, tudo desaparece aos olhos sob o signo do fogo, transformado em outras tantas possibilidades. Senda iniciática do espírito, o fogo crepita numa dança colorida, com matizes que vão desde o azul quase violácea, até o amarelo-alaranjado, a síntese perfeita de um arco-íris completo em si mesmo!

Regente de áries, leão e sagitário, o elemento se irradia, em cada qual, com uma propriedade peculiar. Em áries, o impulso de se lançar, mover em si, inadvertidamente. É, afinal, a regência dos guerreiros e das guerreiras, pois, nas batalhas, precisamos, a dado momento, da energia da propulsão ígnea e quase irrefletida. Em leão, a seara do movimento de liderança dos arautos, o comando com a transmutação da energia para a sabedoria. É o fogo que se orienta já para a transcendência da alma. Em sagitário, enfim, a total percepção da espiritualidade, o "cardeal" litúrgico para alguns.

Guerreiro, Rei e Sacerdote, a trina regência do espírito que se faz no fogo!

Hey ho!

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A lei trina e a ação e reação na bruxaria

Em minhas andanças por aí sempre escuto a invocação da lei trina, segundo a qual desejamos a outra pessoa sempre o triplo do que nos deseja. Também chamada de Lei Tríplice, pode ser compreendida como uma espécie de Lei do Retorno aplicada três vezes - em nível causal - para cada ação ou pensamento direcionados de uma pessoa a outra.

Já li e escutei de tudo.

Que o número de forças do Universo é trino, que o desejo de triplicidade diz respeito ao triskle, o ciclo de espiral cósmica de renascimento. Que a três são as faces da Deusa criadora que, com sua força, envia poder de ação e reação triplicado. Ou, ainda, já ouvi que a lei é tríplice "porque é", numa míope percepção que apenas se reveste de dogmatismo, como se a vida, em si, bem como o Universo, seguisse algum dogma, ainda mais revelado por nós, humanidade. São, enfim, percepções que mostram o quanto somos criativas em nossas crenças.

Acho importante, porém - deixando a brincadeira um pouco de lado - compreender e situar espaço ocupado pela lei trina como dogma apenas da expressão religiosa e prática de wicca, que se distingue, em muitos aspectos, da bruxaria.

Não sou expert em liturgia e religiosidade wiccana (ou wiccaniana), mas, dentro do que me proponho a fazer em termos de bruxaria (como prática, arte e conhecimento hermético familiar), pretendo, por contraste, articular algumas diferenças a partir da minha percepção.

De antemão, não concordo com as denominações "bruxaria tradicional" ou "bruxaria familiar", apesar de usar essas categoria para apresentar e diferenciar meu lugar de fala a partir do panteão da minha linhagem ancestral, como "marcação de território" dentro de tantas linhagens e tradições.

Daí entendo existirem muitos "troncos" de bruxaria, cerimonial, tradicional, familiar etc. que, na miscelânea a-crítica, podem dar a falsa sensação de pertencimento a uma religião específica, ou, ainda, confundirem- se com a wicca. Essa distinção, contudo, não traz o propósito de denegrir ou criticar a wicca, pois respeito a diversidade religiosa - que é até preceito constitucional - bem como o maravilhoso trabalho de estabelecimento institucional da wicca no Brasil.

Situo, ainda, com respeito, o trabalho wiccano como resultado de um movimento maior de restauração do Sagrado Feminino, bem como da movimentação das primeiras ecofeministas, a exemplo de Starhawk no famoso A dança cósmica das feiticeiras, obra de importante respaldo aos movimentos feministas de cunho religioso da década de 70.

Mas o argumento que pondero diz respeito à prática ancestral não constituir religião em termos institucionais, mas, antes, concentrando em sua essência a tradição do conhecimento transmitido geracionalmente, ou seja, transmitido de mãe para filha, sobretudo nos locais de cultos antigos em que o conhecimento herbal e hermético da transformação do real permaneceu intacto (Dinamarca, Irlanda, Inglaterra, Escócia, País de Gales, Gália, Espanha, Portugal e Itália).
Religião, no sentido de (re)conexão, pressupõe distanciamento da Natureza (Physys), de modo que, pela liturgia consensuada e transmitida pela ancestralidade sacerdotal é feito o vínculo, não sem que o praticante se vincule e adira ao dogma.

Importante dialogar, aqui, com a clássica distinção entre sagrado e profano, assunto bastante corriqueiro na literatura antropológica, principalmente a partir da articulação feita por Émile Durkheim, pois entendo que, a partir daí, equivocadas compreensões foram lançadas a respeito da vivência na seara da bruxaria.

Segundo ele, sagrado e profano “são gêneros opostos" (2000, p. 19), que refletem mundos distintos, numa dicotomia que marca a incomunicabilidade entre os assuntos ligados, de um lado, à religião, magia, bem como aos mitos e às crenças, virtudes e, de outro - campo do profano - ao que não está inserido nesse mundo extra+ordinário e metafísico.

Mais adiante, para ele, fenômenos que são tratados como fatos "naturais", biológicos e "normais" Quando o processo é tratado como um fato natural, biológico, normal, estamos no campo do profano, de tudo aquilo que não é sagrado.

Numa percepção consensualmente tida como pagã (que não incorpora o sagrado - no sentido de extra+ordinário ou transcendente) a bruxaria não seria religião, mas prática profana, situada no aqui e no agora. Isso porque, não tendo havido rompimento de vínculo com a Physys (Natureza), não existiria a necessidade de estabelecimento de ligação, conexão, elo ou vínculo algum. Dentro disso, liturgias são desnecessárias, bem como os dogmas questionados.

Uau! Como assim? A bruxaria, dentro disso, não seria "sagrada"? Ou, ainda, não atuaria no sentido de modificar realidade?

Simples.

Muito simples, bastando lembrar que Durkheim analisou ritos a partir de uma visão dualista de conhecimento, que separa humano e Natureza, típico do movimento que a ciência tomou no século XIX. Nunca é demais lembrar que o dualismo começou a integrar a maneira de pensar e fazer ciência, bem como, mais profundamente, marcou a separação entre ciência, filosofia e religião, desde a embrionária cisão sofística na Grécia.

Dentro disso, a ciência passou a catalogar e segregar observador e objeto, tendendo, com isso, para segregações do mundo, da vida e, sobretudo, do humano e suas práticas. Estando, portanto, dentro de um modelo dual, religião é assunto relacionado ao que se convencionou chamar de sagrado apenas porque se relaciona com o domínio do que é incompreensível para a mente racional em termos de causa e efeito.

Daí o sentido de conexão outrora perdida. O profano, por seu lado, residiria no campo do conhecido e visível em termos causais, o imanente, em contraponto à transcendência religiosa, que nos transpõe de um mundo material para a sutileza do etéreo.

Com isso, receio, toda a compreensão de culto à Grande Gaia, Anu, Danu, Mater etc. como tentativa de "religação" apenas reproduziria a dicotomia que apartou a humanidade de um Todo muito mais amplo, mais especificamente em relação à Natureza. Dentro disso não concebo ou vivencio a bruxaria como religião, mas, antes, como prática de vida, modus vivendi.

Mas, quando se observa outras perspectivas, mudando-se o paradigma cartesiano para uma dimensão holista de mundo - sem fronteiras entre "observador e objeto", não faz mais qualquer sentido a apartação de galerias.

A bem da verdade, a "descoberta" da física sub-atômica, mais precisamente a física quântica vem sedimentar o caminho da superação de divisões entre religião e ciência, por meio da reinvenção de novas concepções, que demandam, de um lado, a ciência se reinventar no holismo e, de outro, a religião não mais pretender religar o que já está ligado. Eis oa arautos do Milênio de crise endêmica nas religiões...

Por que, então, manter a dualidade?

Bom, diante disso, enfim, como observar a lei da ação e reação?

Na bruxaria não existe lei trina ou tríplice, porque o Universo - material e etéreo - é composto de uma só substância, energia, que se comporta em regime de coexistência de "possibilidades quânticas", partículas (matéria) e onda (etéreo).

Esses estados quânticos por sua vez, revelam a paridade de forças presentes no Universo, pois, grosso modo, se o número de forças do Universo fosse trino - e não dual - haveria desequilíbrio suficiente para implodir o caos, mais precisamente, a entropia (medida do grau de agitação atômica e desagregação). Tudo bem que ainda estamos falando de dualidade até mesmo porque nossa formação cartesiana de separação entre mente e corpo ainda é forte, mas lembro que, na física quântica, essa "dualidade", na verdade, é perspectiva, e não realidade.

Ou seja, não existiria nada além de puro caos, o parece contrariar a existência factível e visível de não-caos.

Eis a razão pela qual entendo que a perspectiva da Lei Trina encontra-se muito equivocada, além de não fazer parte da temática "bruxesca". Ela pode, quando muito, ser um refoço mítico de simbolismo em relação à cosmogonia celta, mas que nada tem a ver com energia e força triplicada, e sim aspectos no ciclo de vida-morte-vida, ou seja, de processos naturais de nascimento, crescimento e morte.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

A delicada relação entre mestre e discípulo

A senda do conhecimento possui vários caminhos, mas o sentido de compreensão das relações humanas que envolvem mestre e discípulo convergem para uma só direção: estamos aqui para compartilhar experiências, mas as experiências de vida dentro da própria vida fazem com que o mestre se coloque em um espaço de confiança, segurança e, sobretudo, calmaria na relação delicada com o pupilo que, de fato, é a metáfora do próprio espelho de seu mestre.

Quando burlamos a lei natural de fluxo constante - subvertemos a relação e, com isso, abrimos espaço para a torrente existencial de intempéries de nossos egos, colocando-nos em relações truncadas de causa e efeito, projetando no outro, de fato, expectativas que não podem - porque não devem - cumprir.

Aliás, nós mesmas não precisamos cumprir as nossas, se, no fundo do coração, já sabemos serem cobrança (e não evolução). Quem dirá, então, em relação a quem está em nossa frente.

Quando o mestre se desloca de sua posição para mergulhar no lago profundo da esquizofrenia projetiva, a relação com o discípulo se converte em um mar tumultuado de desequilíbrio. O mestre não mais consegue cumprir suas metas - cobranças (?) - e, com isso, rompe-se a relação. Invertem-se papéis e, com a polarização, estabelece-se o limbo entre pessoas...

Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece...Mas, e quando o mestre não se encontra mais pronto? O pupilo, então, desaparece, tal qual poeira que se esvai no ar, em pleno voo.

Calar, a virtude da Terra



Terra, base, eixo de sustentação e suporte para todo o bioma que Nela se assenta.

Berço ancestral de muitas eras, espectadora assídua do devir dos mundos, num eterno ciclo de destruição e renascimento que, para esse plano dimensional, projeta-se para o Infinito em termos de continuidade. Estamos, com isso, fadadas ao perpétuo da impermanência, por mais paradoxal que seja...

O elemento Terra relaciona-se a uma deliciosa dimensão de estabilidade, fixação, estruturação, bem como solidez e, em estados mais profundos de arraigamento, de rigidez e comodismo na imutabilidade. Elemento de orientação dos signos de Touro, Virgem e Capricórnio, em cada qual manifesta um aspecto de seu multifacetamento. Em Touro, a necessidade do conforto. Em Virgem, o cuidado e cultivo da terra, como "cuidador" eterno. Em Capricórnio o sacrifício em prol do trabalho árduo...São muitos aspectos de um mesmo elemento...

Nosso vórtice de poder - para alguns, do chackra-raiz até o plexo - providencialmente nos conecta à Terra, assim como a planta de nossos pés. Não é à toa que são órgãos regidos por esse elemento, e, quase sempre, estão relacionados à nossa necessidade de aterramento, de conexão com o aqui e o agora, na harmonização da alma que deseja levantar voo com a experiência de estar no plano material.

É o elemento Terra que nos faz pensar em nossos dividendos, bem como na história da "formiga labutadora" que, enquanto a cigarra esbanja charme cantando, segue inflexível e completamente focada em seu propósito de guardar provimentos para o inverno superveniente.

Seara elemental dos gnonos, duendes e outros devas que habitam em suas entranhas, a Terra também se relaciona à riqueza, ao plantio e à colheita, já que dela extraímos frutos para nossa subsistência.

Os metais nobres são colhidos Dela.

O petróleo corta suas entranhas, como sangue valioso que deu impulso a tudo até agora em termos de tecnologia e "desenvolvimento" (desenvolvimento entre aspas porque, proporcionalmente ao "avanço" tecnológico, vimos o ser humano - nós - decaindo em meio à nossa ganância).

A Terra é a própria materialização do silêncio, em face da energia cinética presente dentro dela tender quase a zero, ao passo que a potencial expande-se ao infinito.

A virtude de calar realciona-se à Terra por conta do Vazio que está presente no silêncio, ocasião em que recebemos da Grande Mãe o preenchimento da alma, acessando estados mais sutis de formas-pensamento e, com isso, não necessitando muito mais dispender energia com palavras desnecessárias.

Quando estamos equilibradas nesse elemento, tudo flui em termos de relacionamento com o material. Nem lá, nem cá. Não temos medo do desconhecido "estado de privação", por sabermos que da Terra tudo brota e que, assim, Ela nos proverá, sempre, sempre.

Quando em desarmonia, olhamos para a geladeira, pensando sempre no que comprar "para enfrentar o fantasma da privação". Ou, ainda, empanturramo-nos de alimentos, enchendo nossos corpos de comida, que, não digerida, apenas comporá a "capa de gordura" de nosso invólucro.

Sim, a ansiedade está relacionada aos vórtices básicos. A necessidade de consumo e de "guardar para o dia de amanhã" (quando, a bem da verdade, nem amanhã temos, pois é especulação e arrogância pretender realmente achar que se sabe o tempo que Gaia nos dá) é típico de desencaixe do eixo com o elemento terra.

Toda compulsão relacionada ao estoque, a guardar, esconder, armazenar - como os gnomos - reflete o descompasso com nossa egrégora interior, trazendo o medo aos nosso eixos de poder.

Por isso cultivar o silêncio é marcar conexão com a Terra.

Não precisa muito. Basta ficar em silêncio consigo mesma. Já experimentou passar um dia inteiro em casa sem se "distrair" com a televisão ligada?

Ou, ainda, sem falar? Quando fazemos isso trazemos para nossa alma a quietude e, dentro disso, conectar-nos ao Todo não fica lá tão difícil. Calar é Terra...

Blackberry news...

Num mundo onde o mais próximo que uma blackberry é o bloody celular que usamos, trouxe uma notícia da fruta, mais especificamente do chá, pois ontem comecei a série de experiências - em mim, claro - com o chá da folha de amoreira.

Segui a receita de três folhas para cada litro de água, esperei esfriar e coloquei na geladeira. O gosto é leve, quase uma água com corante bem suave, de sabor levemente cítrico. Lembra bastante chá de barba de milho.

O mais dignificante, claro, não poderia deixar de ser o provimento que a Mãe Terra dá em oferecer as folhas, já que a árvore, além de estar fecunda de frutas, ainda oferece uma imensidão de folhas verdes, àsperas e prontas para graciosamente serem colhidas.

Sinto uma gratidão enorme ao colher as folhas, como se Gaia estivesse, em pessoa, cuidando de mim e me acalentando. Isso é marcadamente importante, pois me sinto conectada visceralmente à Terra e aos seus sagrados preceitos.

No fundo, nada mais me importa nessa existência a não ser vivenciar o estado de bem-aventurança que deriva de uma quietude interna, bem como do bem estar em precisar de muito, muito pouco, para manter meu corpo sagrado nesse invólucro!

That's blackberry news time!

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Mais uma da festa!


Com autorização expressa dos modelos - hehehe - estou postando mais uma foto da noite do lançamento do livro. Nossa, como foi maravilhoso encontrar meus amigos e minhas amigas!
Hey ho!

Chá de amora nos hormônios!!!


Já que minha "onda" agora é curtir a amoreira que plantei em meu jardim, fui pesquisar sobre os benefícios da morus alba (nome cientifical-moogle) da frutinha. Fiquei surpresa com a versatilidade da amora quando conversei com uma amiga de Alto Paraíso, que chamou a atenção para a "adequação" dos pássaros de lá à prolongada seca.

Segundo ela, a Natureza dá um jeito de se reinventar para driblar as marcas da destruição e, diante da escassez de alimentos (devido à falta da "chuva do caju"), a aves passaram a comer amoras. Daí, minha querida amiga não teve dúvidas: tratou de imitar o ritmo da Natureza e se empanturrou de amora!

Conhecida como uma planta reguladora hormonal, atua, em função disso, com muito êxito, em processos de menopausa (não gosto de falar "sintomas" porque não acredito que menopausa seja doença): ressecamento da vagina, irritação, ansiedade, nervosismo, memória fraca, dores musculares e das articulações, calores e algumas vezes suores frio, dor de cabeça, diminuição da libido, dificuldades para dormir, depressão, problemas urinários.

Ainda conhecida por ser anti-cancerígena, combate a osteoporose, depurativa do sangue, anti-séptica, vermífuga, digestiva, calmante, diurética, laxativa, refrescante, adstringente e muito, muito útil nos problemas da tireóide.

Além disso, possui poderosas propriedades anti-oxidantes por sua combinação de vitaminas C, além de alto teor de potássio.

Sem deixar de mencionar que previne infecção urinária, reduz o risco de úlcera e câncer no estômago.

Mãos à obra?

Ferva três folhas em 1 litro de água. Lembrando que, como se trata de folha verde, é necessário fervê-la para extrair o sumo (se fosse folha seca bastava a infusão. Posso tentar aqui isso). Sugiro tomar frio 3 vezes ao dia!


Venda do livro Ensaios anárquicos sobre o Sagrado e o Feminino

Adquira já seu exemplar do livro "Ensaios anárquicos sobre o Sagrado e o Feminino", lançado pela Editora Ícone no dia 23 de setembro no Espaço Cultural e Taberna Mittelalter, Brasília - DF.

Trata-se de uma coletânea de reflexões sobre relações humanas dentro de uma perspectiva de gênero e simetria, a partir do diálogo com algumas histórias de deusas celtas. Nesse primeiro ensaio articulo percepções sobre conhecimento, espiritualidade, paganismo e relacionamento.

Como se trata de um trabalho independente, estou vendendo os livros pelo valor de R$36,00 (trinta e seis) reais, incluídas as despesas com os correios. Para o caso de outras localidades, basta entrar em contato comigo pelo e-mail: adlvmiranda@yahoo.com.br, bem como pelo telefone (61) 8105-9668 - para combinarmos.

Ou pelo PagSeguro no site: Sagrados Segredos da Terra

Slàinte!

domingo, 26 de setembro de 2010

Ar e fogo na complementaridade da respiração

O princípio vital de vivência e sobrevivência é a respiração lânguida, sorvendo o néctar que os fluidos etéreos têm para nos ofertar graciosamente. Para a cosmogonia hindu, é o prana, o elemento substancial presente no cosmos, responsável pela renovação celular, nem como pelo equilíbrio entre mente e corpo.

Independentemente do nome atribuído - nossa "necessidade" de catalogar tudo em nossa volta, não é mesmo? Hoje separei espaço para a transmutação do ar em fogo, a partir da respiração.

Um mecanismo simbiótico onde inspiramos, movimentando o ar e o introduzindo em nossos corpos, e permitimos, com isso, a entrada de energia que se transmuta em fogo, criação e, por resultado, em movimento.

Ar e fogo, complementares e opostos que, na respiração, dão-se as mãos em uma sincronia ímpar. Basta perceber a respiração ofegante, aquela na qual sentimos até mesmo o suor brotando de nossas têmporas, tamanho o aquecimento.

Dizem que os monges, no inverno, para se aquecer, respiram ofegantemente, colocando ar na região abdominal e, com isso, aquecendo-se para a proteção do frio.

Por outro lado, quando estamos já ofegantes, estressadas - com pulsações e calores próprios da movimentação - basta a renovação de ar para a calmaria. Ou seja, o ar move, movimenta, mas, também, acalma. Lembro-me sempre da máxima: o ar alimenta o fogo, mas, também, apaga-o.

Eis a síntese do equilíbrio perfeito entre os elementos ar e fogo, presentes, como se fossem lados de uma mesma moeda, na respiração sagrada que nos mantém em pé!

Hey, ho!

O livro mágico

Primavera, Ostara, flores e livros! Cada uma dessas flores do campo foram ofertadas junto com o livro, para que as pessoas queridas pudessem secá-las entre as páginas do livro, utilizando-as como marcadores de texto.

Agradeço imensamente aos queridos Caio e Marcelo que, com invulgares sensibilidade, carinho e sutileza, ainda nos ofertaram a mesa repleta de arranjos de violeta, nas cores rosa e lilás, o que me remete ao amor (chama rosa), bem como à transmutação (chama violeta), atributos essenciais para os dias de transformação que está bem diante de nossos olhos inacutos.

O Mittelalter estava, como sempre, irradiando seu vórtex de poder nas cores terracota, trazendo para a memória o grito ancestral das casas sagradas de nossos antepassados, convocados para a noite, em meio aos ventos de novos tempos, em que as relações humanas, por certo, serão mais claras, sinceras e despojadas.

A entrada parecia aquelas deliciosas feiras medievais, onde os artesãos comungavam de suas riquezas. Senti-me honrada em me ser permitido mostrar meu artesanato, o artesanato de ideias, palavras e pensamentos, levados pelo vento para o Cosmos sem fim.
Noite de (re)encontros com amigos e amigas de longas eras, que se somaram à egrégora de amor, harmonia e paz!

A noite na taberna...


Dia 23 de setembro, chegada de Ostara, a deusa plena da renovação e da prosperidade.

Junto com ela, a lua cheia em áries nos brindou com um espetáculo mágico à parte, derramando em nossas almas o júbilo de sua força e beleza. A taberna estava iluminada com tochedos e estandartes, abrindo a passagem para um vórtice de poder ancestral de criação plena, impulsionando projetos e realizações.

O lançamento do livro foi inesquecível, reunindo pessoas maravilhosas, numa diversidade harmoniosa que abriu espaços de confraternização.

A Grande Mãe, sempre presente, abençoou nosso momento, por meio da tranquilidade da noite, bem como pela sintonia entre as pessoas ali presentes. Momento de FE LI CI DA DE, êxtase e transe profundos!

E a Natureza se prepara...


Há dias o elemento ar tem dado o sinal, acalentando com um fino frescor de renovação nossos corpos aquecidos pelas chamas avermelhadas da abóboda solar, que insiste em queimar o solo sem pedir licença.

Afinal, fizemos tanto pela desagregação ambiental que a Grande Mãe, cansada, decidiu fazer o que tem sabe de melhor: ser implacável em sua atitude de devolver à humanidade a resposta de tantas agressões. Isso ficou bem claro na movimentação da Natureza, manifestada no clime oscilante, de temperaturas desérticas e um frio incomum para uma cidade que sempre teve um clima ameno, pero no mucho.

O clima, para quem percebeu, mudou consideravelmente, pois a seca, este ano, assolou - de maneira intensa - a todas nós. A Chapada arde em brasas, como um rastro de destruição, espetáculo digno de uma ode à Dante Alighieri...

Mas algo está sendo prenunciado... Algo novo e mágico está sendo anunciado na sutileza do vento.

O movimento do ar traz o vetor de uma nova era. Junto com a sensação de sufocação e a umidade beirando os 5%, eis que baila, em pleno cerrado, uma brisa leve que anuncia a mudança.
Ontem estava andando e, de repente, parei, de início, atônita, sendo arrebatada pela sensação de final de ciclo - mais uma vez, o ciclo de vida-morte-vida. Senti a brisa percorrendo cada ponto longínquo do meu corpo, ao mesmo tempo em que me sintonizava com os desígnios da Grande Deusa. Era o elemento ar a compor a matiz do fogo (calor), da terra e do espírito, avisando que, daqui a pouco, choverá.

Choverá... As nuvens estão carregadas, lembrando-me da amoreira que, de repente, dentro de seu ciclo, encheu-se de frutos saborosos. A terra está com novos cheiros: é o novo que pede passagem para a renovação da vida!

A Natureza se prepara, enfim, para a estação das águas!

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Decisões, Sandra Maia via Yahoo! Colunistas

Decisões, Sandra Maia via Yahoo! Colunistas

Acabei de ler esse texto e vi nele uma simplicidade muito grande, bem como uma "chamada" para responsabilidade em relação às escolhas que fazemos durante nossa vida de relacionamentos que, juramos, "poderiam dar certo", mas que, segundo nossa mente inquieta, "não dão" porque, talvez, na dualidade certo-errado, percamo-nos no que são, na real, nossas "limitações" projetadas nos outros.

Reproduzo a parte inicial, que achei clara e bastante objetiva.

Segundo a autora, "Antes de começar, vale ressaltar que toda escolha tem como base uma decisão formatada em cima de uma crença errônea. Aquela que trazemos da infância e que, se não “resignificadas” ao longo da vida, nos fazem repetir e repetir o mesmo padrão de comportamento indefinidamente, as mesmas escolhas."

Dialogando a partir do trecho, é forte essa questão de repetição de padrões, que vão longe, em imemoriais tempos de tenra idade. Somos condicionadas a repetir uma "história", quase sempre relacionada aos dramas familiares mais profundos, que se projetam, anos a fio, em nossas vidas.

Para a autora, a saída é o autoconhecimento, bem como a providencial saída de afastamento "daqueles que a amam – sim, porque esses não a deixarão em “paz”. Além disso, Sandra Maia chama a atenção para os "jogos mentais" que fazemos, escolhendo "viver para um outro “egoísta”, abandonando-nos e deixando de lado família, amigos, etc, como se a decisão de fazer tudo sozinho já não bastasse para uma vida de sofrimento…"

As histórias que ela reproduz no texto bem poderiam ser histórias de nossas vidas.

E como são!

Sugiro a leitura URGENTE!

domingo, 19 de setembro de 2010

O fogo na Chapada e a transmutação do coletivo


Acabei de chegar da Chapada, tendo acompanhado um espetáculo da Natureza, materializado em labaredas de fogo a consumir alguns cinturões de cerrado. O fogo estava espalhado por muitos lugares, sempre alimentado pelo elemento ar, porque, afinal, o ar é o veículo de espargimento das chamas, além de ser comburente que reage com o carbono. Daí o ditado hermético que "ar alimenta o fogo"...
De início, coloquei-me muito reflexiva, pois, enquanto passávamos por corredores de fumaça e aspirávamos um ar com muita densidade, pensei que tudo estaria caminhando para "um fim", sem, contudo, perceber que o fim contém, em si, sempre a possibilidade de começo.
Isso porque, como bem sabemos, o cerrado é o bioma mais resistente e que mais facilmente se regenera, dentre tantos outros biomas. Uma verdadeira Fênix, que ressurge literalmente das cinzas, erguendo-se em meio a tanta adversidade.

Enquanto conversava hoje com uma dessas "almas de luz" que transitam entre nós, obtive uma síntese - talvez a mais perfeita - até agora, do que representa esse caldeirão ebulindo em plena seca.
Foi quando estávamos em um local sagrado chamado Vale Dourado http://www.valedourado.com/web10/valedourado, cerca de 12 km de Alto Paraíso, local onde se pratica boia-cross, um deleite para a alma que deseja se espreguiçar no balé de uma corredeira...
A prosa estava tão boa que, a certa hora, nem bem sabia se havia ido para lá para nadar na água cristalina, ou, ainda, (re)encontrar figuras tão ilustres como os habitantes do local. Sei apenas que me encontrei com um gentil cavaleiro e, com ele, conversei sobre coisas do céu, da terra, do ar, da água e de todos os elementos alquímicos. Um passeio!
A certa hora, ele me disse que o fogo, ao contrário de trazer sofrimento pela "destruição do cerrado" e além de não ser culpa de ninguém, é, ao contrário, a possibilidade de transmutação de tudo. Ele me disse, ainda, que poderíamos aproveitar para "jogar na fogueira" tudo, para a transmutação.
Isso ficou em mim como uma grande lição, assim como tantas outras que aprendi com ele, numa conversa que parecia não ter fim, tamanha a sensação de bem-aventurança que me invadiu após o contato com alma luminosa.
Os anjos são assim mesmo, vêm e vão, trazendo com a palavra o ensinamento despretensioso, mas que adere ao espírito e depura a alma, convertendo em aprendizado até mesmo as mais duras aparências de sofrimento!

Quando saí da Chapada e vi mais cinturões de fogo, confesso, depois da sensação de perda em face da destruição ígnea, meu coração se apascentou, porque me lembrei dessa maravilhosa lição de vida, para ver no bioma o renascimento, e celebrar no rito cósmico de lançamento do que desejo depurar na "fogueira".

Dali adiante tudo se converterá, como sempre, na elevação da alma para o alcance das dimensões mais inimagináveis...

Entre ipês, labaredas e bem-aventuranças

Viajar sempre é maravilhoso... Contemplar cada momento de uma trilha, contudo, torna o trajeto repleto de surpresas, se nos permitirmos navegar nos mares desconhecidos para sair da zona de segurança (pero no mucho) que insistimos em agregar em couraças fortes.

A chegada da primavera no Planalto Central surpreende a cada dia.

Os ipês lançam flores dançantes, que se soltam ao som do vento acalentador, galgando espaços nunca antes percorridos nas térmicas da seca incomum que experimentamos esse ano.

Na Chapada, as labaredas de fogo nos lembram do poder de destruição são as mesmas que nos remetem ao poder divino de criação e transmutação que o elemento ígneo apresenta: levando tudo ao seu redor, o corredor de chamas de 5, 6 ou até 8 metros aponta para a capacidade - ali adiante - de recuperação do cerrado.

O que é forte permanece, enquanto o que é contingente se esvai em pleno ar.

O sentido de bem-aventurança nessa jornada de fogo segue a regra básica de uma Natureza que se apresenta em sua plenitude como sendo a expressão máxima da criação divina.

Os pássaros que, não tendo o cajuzinho do cerrado, alimentam-se das amoras fecundas de hormônios; os mamíferos, que fogem do fogo insistente; os seres humanos de luz, que nos abraçam e deixam perfume de sândalo em nossos corpos.

Tudo é bem-aventurança, nas jornadas que meu invólucro terrestre me permite experienciar...

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O desafio da contemplação da própria "carne"

Cada dia nesse lindo Planeta de Gaia é mais um dia de contemplação de nossas essências, porque, em cada aurora renovada, podemos acordar com a sensação de renovar os votos de agradecimento pelas experiências enriquecedoras que podemos agregar a nossa estrada.

Em cada sol a despontar jaz o filete de calor que alimenta a vida e nessa ciranda nada permanece da mesma maneira, apesar de, indiferentes, às vezes acharmos que existe automatismo no raiar do dia.

Do alto de nossa arrogância como espécie tecnocratizada, mecanicizamos tudo ao nosso redor, talvez, porque, no fundo de nossas almas, estejamos robotizadas e alheias ao compasso perfeito da Grande Mãe sacral.

Daí, nessa alienação, o sol é apenas um sol, as árvores são apenas espetos de pau com "bolotas" em cima e o humano, ah, esse ser tão desconhecido... O humano é simplesmente um "ente" em cima do qual despejamos nossa intempérie egóica autômata, num fluxo e refluxo de mero behaviorismo.

O resultado da indiferença com o Todo reflete no desprezo essencial que passamos a nutrir pelo sentimento do outro. Pelo fel da falta de zelo, tato e cuidado em relação a verdadeiramente expor nossa essência e dizer "a que viemos" e, dentro disso, com a pieguice de invocar anjos, santos e deidades, sempre achamos que nossa conduta está pautada numa "reta razão" de moralidade, quando sequer sabemos a origem de nossa estirpe, de nossa "moral". Esse é o "sol" que achamos ser o mesmo em nossas vidas...

A reprodução do mesmo sol da nossa mesquinhez em não nos olharmos no espelho e, nessa cegueira, ainda insistirmos em tecer teorias e vomitar os escombros de nossas idiossincrasias mais estúpidas nas pessoas que estão à nossa volta, subjugando-as em sua inteligência e nos achando, ao final, senhoras da verdade inconteste...

Na Genealogia da moral, Nietzsche fala da providencial "dicção" do critério de estipulação da bondade por parte de quem, aproveitando-se dela, taxou os demais - fora de seu clã - de maus, num critério muito "útil" de catalogação de verdades.

Segundo ele, "o juízo do bom não provém daqueles aos quais se bem o 'bem'", tendo sido os "superiores" em posição que estabeleceram o critério, tomando para si - apropriando-se historicamente, diga-se de passagem - o monopólio de criar valores e "cunhar nomes para os valores, tendo em vista que, o que importava, era a utilidade" (2002, p. 17-18)

E assim, na espiral de um eterno retorno de uma ida-que-nunca-existiu, penduramos etiquetas nos outros e colocamos preços e prazos de validade, segundo nosso 'grandioso' umbigo egóico que, para nosso crivo, é o melhor, the very best.

Daí, forjamos uma armadura intransponível ao redor de nossa fragilidade e, com isso, tal qual uma guerreira intrépida, ceifamos as pessoas de nossos caminhos, ao menor sinal de discrepência. Ou, então, pior, dentro de nossa cegueira e da sufocação que toda armadura provoca, enxergamos o que melhor nos convém em relação ao Outro e, com isso, insistimos em transformar sapos em príncipes-escorpiões, tornando-nos sabedoras de nosso destino fatal, dada a picada inevitável em nosso pescoço.

Sempre me pergunto por que mulheres plenas em si incorrem na falácia se se acovardarem em seus propósitos pessoais e, ao final, sempre se punirem em face de uma "compaixão" ao outro... Seria o medo inconsciente de ficarmos sós? Ou a temeridade da morte, que traz a grande necessidade de reprodução da espécie? Ou seria o mais básico... burrice? Imbecilidade? Reprodução de um paradigma androcêntrico de dominação de corpos e docilização da alma feminina? Sei lá!!!! Nem estou a fim de falar em Foucault, Bourdieu, Scott e sei lá mais quem... O dia de hoje é que festividade dionísica de uma língua feroz chamada F. Nietzsche, senhor que desvendou boa parte de nossa pequenez...

Não tenho respostas, mas há tempos que deixei de me seduzir por uma ludicidade de propósitos do gênero masculino. Deixei de ter "piedade" por, talvez, ter percebido que minhas provisórias valorações sobre isso estavam maquiadas de perversidade recalcada, de arrogância, etnocentrismo e pífio sentimento acovardado de puritanismo weberiano proselitista, judaico-cristão de porta-de-cadeia, ou, então, de enunciados búdicos e vedânticos que, num Ocidente decadente e repleto de seres papagaios-de-pirata, apenas recitam fórmulas mágicas (orando, rezando, mantrando, enfim), sem a decência de fazerem de seus caminhos - eles EM SI - a própria verdade da conexão com Deus.

Na formação que a empiria tem trazido em termos de observação de mim e do Outro, confesso, a palavra compaixão perdeu-se no espaço em termos de conteúdo semântico, porque, sob a alcunha do termo ter se convolado em sinônimo de pactuação de mediocridades nos relacionamentos. Eis a constante do mundo. Quase sempre, claro, por parte das maravilhosas mulheres inteligentes, ou seja, NÓS.

Não que não acredite em compaixão, em amor, em compreensão... Longe disso, o que me move em direção aos espaços etéreos é a leveza de sentimentos nobres, que advém, contudo, do corte de navalha que, todos os dias, dou em minha carne, para que a impáfia natural ceda espaço à compreensão da vida em suas dimensões. Amor sem aspas é sentimento que brota das entranhas de uma alma que se libertou de seus atropelos, e não de uma falange de espíritos que apenas transitam pelo mundo, como se estivessem num confortável 'parquinho de diversões'.

Esse é o sentido do que repudio em termos de leviandade emocional e afetiva, nas inúmeras e providenciais materializações de situações do dia-a-dia, que mostram uma precariedade moral em relação à consciência de si... Viva o amor, claro! Viva a compaixão! Claro! Mas ABAIXO A HIPOCRISIA e, sobretudo, abaixo o sentimento de "querer se dar bem às custas das boa-fé alheia". Abaixo a máscara de bondade iconoclasta que as agremiações religiosas transmitem, como cancros purulentos, às mentes incautas e desconhecedoras de sua essência. Isso não tem nada a ver com amor...Muito menos com relacionamentos e, mais ainda, nos relacionamentos entre homem e mulher.

É bem verdade que relacionamentos são feitos em base de troca - sim, isso é legítimo e saudável como base de consenso e articulação de dissensos - mas toda troca, para se fazer justa e saudável, pressupõe igualdade e liceidade de propósitos. A dissimetria gera insatisfação para um ou ambos os lados, pois ao lado da aparência de civilidade de uma "discussão racional" jaz a artimanha inconsciencial de nosos piores e mais arraigados propósitos escusos de destruição do outro.

Afinal, tanathos está sempre presente, escondido em um poço profundo do Hades de nossa mente, pronto para nossas sabotagens internas. Daí, sabedoras disso, interagimos na fossa com o outro, e, num lamaçal de intempéries e ignorâncias em relação a nós, matamos, pouco a pouco, o outro, por desejarmos, com isso, matar, talvez, nossa essência. Que "compaixão", que "pena" e, sobretudo, que "amor" é esse? O que é isso?

Mais uma vez, pergunto-me...como me pergunto, dia a dia, porque a insistência em não nos encararmos diante de nossos espelhos. Quem sabe, um dia, nós, maravilhosas Deusas, filhas de Anu, Danu e Gaia, possamos, enfim, acordar para um mundo novo a ser construído por nós, onde os pactos de mediocridade e perversidade cedem espaço para a clareza nas relações entre homens e mulheres.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O vestido de carne e a Lady Gaga


Eu nunca havia ouvido falar em alguém chamada Lady Gaga até me deparar com uma epifania cinematográfica que tomou o holofote na noite de entrega do Oscar.

Tá, tudo bem, já tem tempo isso, mas ando tão desconectada disso que a notícia veio à tona em meu universo deliciosamente autista apenas agora, quando abri uma nota de rodapé sobre o famoso "meat dress" que a cantora (?) usou na noite faraônica.

Feito com 11 quilos de carne argentina, especialmente "cortada" (poderia dizer em outras palavras, vinda de um animal "especialmente assassinado para satisfazer nosso desejo por ingestão de substância putrefata") para o evento, ao custo de módicos U$100,00, consta de algumas reportagens que "cheirava mal", além de chocar a comunidade vegana e vegetariana.

Um detalhe, contudo, chamou minha atenção em relação ao evento e, de fato, não sei se decidi postar algo por outro motivo que não tentar compreender o que o vestido e sua utilização significaram para a moça.
Particularmente não me atrai a estética da decomposição em detrimento da vida que é ceifada, mas, de fato, intriga-me uma frase comentada por ela numa entrevista para Ellen Degeneris que, nesse dia, presenteou Lady Gaga com um vestido vegano.

"Se não defendermos nossas ideias e se não lutarmos pelos nossos direitos, logo teremos tantos direitos quanto carne sobre nossos ossos. E não sou um pedaço de carne" - expressou a moça. Daí meu diálogo com a subversão a uma dimensão de estética, ao mesmo tempo em que se arranha outra, a da coexistência estética com a preservação de direitos, sejam humanos ou ambientais.

Não sei, realmente, o que isso significou para ela, considerada e tida, por muitos, como uma "transgressora". Estou pensando nisso até agora.
O vestido não me agradou, por conta das minhas convicções em relação a matar um boi, mesmo que ainda eu seja extremamente hipócrita e incoerente ao voltar a comer peixe. De qualquer maneira, penso, acho que estou num espaço de fala confortável - no lá e cá do questionamento interno sobre matança, de modo que a reflexão, aqui, é bem oportuna.
O que me intriga é a repulsa que gerou em mim, pois denota a intensidade com a qual me identifico com a situação, pois, longe de passar como um momento de respeito à opinião da moça (mesmo que, sem saber - ou sabendo - ela também esteja desrespeitando a dos outros), olhar o montante de carne em cima dela me fez contemplar minha própria miséria enquanto ser em constante estado de putrefação.
Será?

O vôo libertário dos Ensaios anárquicos do dia 23 de setembro


Estou passando para começar a contagem regressiva para o dia do lançamento do livro "Ensaios anárquicos sobre o Sagrado e o Feminino" no dia 23 de setembro, a partir das 20h00min no Espaço Cultural e Taberna Mittelalter (http://www.mittelalter.com.br), localizado na SCLN 203, bloco C, loja 59. A capa, reproduzida logo abaixo, traz uma idéia do caldeirão de textos e pensamentos reunidos durante dois anos de introspecção.

Não se trata "tradicionalmente" de um trabalho acadêmico, estudo ou de uma estatística, mas do que meu coração e minha mente produziram durante o tempo de latência para o doutorado.
Por outro lado, não posso deixar de considerar que minha concepção sobre direito, ciência, academia, filosofia e conhecimento pretende articular galerias e superar a tendência "engavatadora" e dogmática com a qual fui adestrada na faculdade.

Entendo que isso somente é possível a partir da apropriação de alguns paradigmas emergentes de superação de limites epistêmicos, na compreensão a que Boaventura de Sousa Santos faz referência, quando aponta para o autoconhecimento que cerca o processo de conhecimento, encurtando distâncias empirícias (e por que não as reduzindo) entre observador e "objeto".
Subverte, é bem verdade, um pouco (mentira, muito) a zona de segurança e conforto que o chão representa para os pés, mas liberta, como o vôo solitário da humana que se descobre transcendente ao violar o interdito da gravidade!

Como o tempo é de "crise" e toda crise supõe entropia (estado de desagregação de sistema), senti-me confortável em escrever porque, de fato, sinto-me confortável na entropia, afinal, estudar sistemas dissipativos, teoria do caos e mecânica quântica traz esse conforto.
Meditar e praticar yoga alimentaram o alento diante da potestade do vazio. Pronto! Eis que surge, assim, a mágica da superação da fragmentariedade e é com essa sensação que me lanço, mais uma vez, em mais uma aventura!

Esse será o primeiro de muitos que virão pela frente, com a repaginação de alguns paradigmas em minha vida pessoal, profissional, acadêmica e espiritual.

Decidi transformar minha perspectiva sobre a vida e o Direito em escritos de facilitação para as pessoas que desejarem ingressar nessa "senda".

Estou me preparando para os escritos em direito penal, processual penal e, sobretudo, a querida lei Maria da Penha, carro-chefe de todo um trabalho profundo de reflexões.

Mas, para o novo ingressar, o que está aqui dentro precisava sair e, dentro disso, lancei-me na tarefa de colocar em textos esparsos compreensões - ainda que muito provisórias - de mundo. Elas vêm e vão, no giro da roda da vida, lançando ao mundo - talvez a partir do meu pequeno mundo - mais diversidade.

O livro - uma subversão entre ensaio e pequena autobiografia - dialoga com temas importantes na atualidade em que se discute gênero e relacionamento, ciência e crise, com o diferencial de se articular com um dos meus temas preferidos, a mitologia celta, dentro da qual a figura da mulher-deusa apresenta peculiaridades desconhecidas do nosso Universo simbólico.

Ele foi feito artesanalmente, sem subvenção alguma a não ser de minhas economias, maravilhosamente suadas! Na cara e na coragem, corri atrás e descobri que tudo é possível nessa vida, conquanto lidemos com as limitações que colocamos no caminho e, sobretudo, dentro de nós.

Nessa tarefa estiveram diretamente presentes o Tulio, elaborando poeticamente um prefácio para situar o leitor e a leitora sobre os escritos, bem como a Juliana, que escreveu a orelha do livro, fazendo com que as lágrimas sempre vertam por conta da singeleza do texto. Esse é um diferencial enorme, que aponta para um sentido de COM PAR TI LHA MEN TO. É um opúsculo familiar, a bem da verdade. Da família que escolhi por desígnio do coração...

Falando mais sobre o livro, achei interessante esse diálogo como uma maneira simples de cumprir uma missão de que me imbuí, há tempos: ajudar, dentro da minha esfera de atuação, mulheres que, como eu, algum dia, experienciaram momentos de violência, em qualquer nível.
Autoconhecimento e conhecimento, ajuda e autocura.

Mas, ao invés de narrar dor e amargura, as páginas irônicas e nietzschianamente coroadas de sarcasmo são a maior prova da transformação dos medos e das dores em lições de crescimento. Por isso a perda do medo em me expor e compartilhar com quem amo tudo isso.

Como diria Cora Coralina, estou recriando minha vida, sempre, sempre, plantando roseiras e fazendo doces!

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O mundo em uma amoreira...


Com a Primavera, chega por aqui, finalmente, a primeira densa florada de amoras, povoando a terra com a fecundidade do roxo quase negro, fertilizando o solo e produzindo um espetáculo de satisfatividade para a fauna invisível dessa casa.

Parece que não sou só eu que me deleito...

Outro dia deparei-me com o Mel comendo uma amora no pé, sujando sua boca de lilás, ao mesmo tempo em que se lambia todo, deliciando-se com a fruta docinha, cuja chegada foi tão esperada por todos nós. Os gatos também gostaram e, volta e meia, alguém sobre no pé para pegar, quem sabe, junto com a fruta, algum dos inúmeros passarinhos que vêm tomar café-da-manhã aqui conosco.

Quando as frutas pendentes caem, outro pitoresco cenário lúdico se apresenta, pois os calangos e as lagartixas, bem rápidas, saem das tocas feitas no muro do quintal, apenas para "beliscar" um pedaço desse mundinho que está ali, acessível, bem na palma da mão.

Ao colher cada frutinha, o olhar aparentemente atento voltava-se para os cachos cheios e os captava vorazmente, com certeza de ter pego tudo que estava sendo ofertado, de bom grado, pela Grande Mãe. Mas qual não era a grande surpresa, quando, ao me deparar novamente com o mesmo galho, ele estava repleto com mais e mais frutas!

O que mudou, então? Minha atenção? Desatenção? Será que não havia percebido isso? Impossível, claro, afinal, num mundo de tantas cores, olhar para o roxo perolado é exercício diário de contemplação.

Foi quando finalmente compreendi que o mundo inteiro era a própria amoreira, com seus segredos e desconhecidas situações, que se multiplicam em inúmeras possibilidades, num passe de mágica tão abrupto que não dá tempo de piscar os olhos: tudo muda, o tempo inteiro, no mundo complexo de uma amoreira.

E gira, então, a roda do mundo! Gira o mundo em meu particular universo.
Na imensidão de um mar de pérolas roxas de um grande oceano de escolhas, as escolhas contidas em cada uma das amoras sela o que a Natureza, ao final, prepara como banquete para cada um de nós!

terça-feira, 7 de setembro de 2010

As bruxas de Eastwick

Em uma das cenas do filme As bruxas de Eastwick, a personagem de Jack Nicholson - Daryl Van Horne (adivinhem o anagrama) fala para Alexandra (Cher) sobre o casamento e a sociedade machista, na qual o homem sempre utilizou a mulher para "auferir vantagens para si próprio".

"Uma vantagem para o homem", diz ele, e "para a mulher, a morte" porque, aos poucos, a fagulha interna da criação, o poder inato da criação, esvai-se diante da progressiva opressão do patriarcado. Aos poucos, então, para o Daryl, a mulher em seu poder criativo morre, o homem percebe e, com isso, dali adiante, olha para o que sobrou e percebe que está casado com um cadáver, "um cadáver que ele mesmo ajudou a matar". Genial!

Eis a armadilha do patriarcado na desqualificação progressiva da mulher outrora empoderada que, pouco a pouco, transforma-se em um farrapo humano, "colérica" e "histérica", atributos que seriam inatos à posição que ocupa na escala da evolução (nessa escala misógina, a da "inferioridade", por certo, não é mesmo? Afinal, nossos homens "racionais" usam o cérebro, enquanto a nós cabe o domínio da emoção - clichê)

Depois dessa tirada de "tirar o fôlego", ele prossegue, dando uma preleção para Susan Sarandon, ao comentar a caça às bruxas como sendo um mecanismo de "reserva de mercado", já que bem sabemos que boa parte das "bruxas" eram, de fato, parteiras e exímias conhecedoras dos segredos das ervas e da Natureza. A medicina, portanto, não poderia competir com a ancestralidade. Queimemos as bruxas, então!

Não quero aqui fazer apologia contrária a casamento, muito menos desejo firmar ou reafirmar o conúbio, mas, antes, ponderar sobre o que significa uma união baseada na percepção de igualdade. Para os celtas, o casamento era renovado anualmente, cabendo ao homem ou à mulher, de maneira equânime, finalizá-lo depois desta data, se não estivessem satisfeitos em suas pretensões.

Depois de um ano, os nubentes prostravam-se diante da comunidade e, revelando seus votos - de ruptura ou renovação - decidiam o destino do enlace, motivados pelo que significava para esse povo a noção de COMO UMA UNIDADE = comunidade. O casamento, bem como toda a estrutura clânica, não se voltavam para a satisfação pessoal, mas, antes, para o sentido de solidariedade que, depois de certo tempo, é conclamada para ungir - ou não - o casal que se enamorou em Beltane.

Até hoje em certas comunidades a cerimônia é seguida do enlace ritual - com o uso de uma fita em torno das mãos justapostas dos enamorados - para que ali seja firmado o contratctus entre homem e mulher. E, depois de um ano, os noivos voltam para o coven, ou até mesmo para a família, para dizerem sim, ininterruptamente, ano após ano. Essa é a sabedoria ancestral que conclamo para explicar minha percepção de um enlace matrimonial.

Ontem postei sobre as intervenções cirúrgicas pré-nupciais...Hoje posto sobre outro tipo de plástica: aquela invisível, que pretende deformar nossos corpos etéreos e sutis, demarcando áreas de "conquista", como se fôssemos territórios de domínio masculino. Sob tal perspectiva, bem difícil que eu, algum dia, case... Não quero "ser conquistada" como a Gália foi por Júlio César...

E, o que resta, então?

Cair na real...

Em uma entrevista, um repórter perguntou para Janis Joplin porque ela, até então nunca havia se casado. Ela respondeu com uma bem-humorada metáfora...

Para ela, nós, mulheres, empunhamos - usando um anzol e uma vara - na frente de um jumento empacado uma linda cenoura, motivando-o a ir atrás dela, sempre, sempre, sem a perspectiva, contudo, de pegá-la (claro, pois, se comê-la, nada garante que o jumento, depois, ande).

Somos o condutor e os homens machistas, o jumento. Daí a tirada de Janis: nós sempre sabemos que não podemos cobrar do jumento que ande, e, dentro disso, sempre vivemos a ilusão de empunhar uma cenoura, enganando-nos o tempo inteiro cobrando dos machistas o que eles nunca, nunca, poderão nos dar...

Perfeito!

Olhando para a herança céltica do Sagrado Feminino

Hoje pretendo dialogar com Pedro May que, em sua obra Os mitos celtas, inicia um mágico percurso a partir de uma incomum proposição a respeito de como enxergamos o Império Romano: "o homem comum gosta de vangloriar-se de qualidades que não possui, mesmo quando acredita sinceramente desfrutar delas. Gostamos de pensar que somos corajosos e imparciais exploradores da verdade e que estamos dispostos a fazer o que for preciso para chegarmos a ela; que estamos abertos a tudo que o mundo nos oferece de novo nesse sentido"

A História "oficial" sempre foi elaborada discursivamente pelos grandes vencedores, num escrutúnio de verdade que, ultrapassando tempo e espaço, trouxe para o presente a sensação de bem-estar e a zona de conforto necessários para que, com um ingênuo anacronismo, utilizemos a memória do passado segundo puro arbítrio, catalogando culturas e pessoas, acenando, assim, para nossa "superioridade romanística".

Somos bem mais "bárbaras" do que supomos ser, dada a mescla cultural que a vaga avassaladora romana trouxe para nossa herança, quer seja na passionalidade com que contemplamos o mundo e sua poesia, ou, ainda, na devoção com que algumas de nós, eternecidas, olha para a Natureza e se alia ao som que as folhas em queda produz.

Afinal, não foi no Império ou na sociedade romana que nós, mulheres, encontramos alento para a demanda de igualdade, mas, antes, posições dissimétricas no espaço público. Pedro Silva, pesquisador da cultura, lembra bem a herança de Boudicca, rainha dos Iceni, guerreira destemida que guiou sua tribo para uma das lutas mais famosas contra Suetônio.

Por que, então, diante de tanta História, insistimos em nos olhar com a percepção latina de subserviência? Da "timidez" disfarçada em naturalização de heranças genéticas de características que seriam "inatas" a homens e mulheres? É importante perguntar em relação a quais homens e mulheres estamos anacronicamente nos comparando.

Eis o sentido do perigo de se trabalhar com rótulos internalizados. "A mulher deve ser assim". "O homem deve ser homem". Espera-se, com isso, a assunção de papéis, com a reprodução perpétua de modelos que sempre estão a favorecer o desequilíbrio - pelo menos há 2.000...

O que realmente significa isso? Dentro de uma perspectiva binária de compreensão de dissimetria, significa olhar para o mundo de desigualdades e mantê-las, usando o reforço histórico que - com a "legitimidade" dos livros e dos "doutores" colocam-nos no calabouço da sociedade... greco-romana, aceitando, de bom grado, o acervo cultural e patrimonial de sectarização de gêneros, onde a igualdade é nominal, nunca exercida com voz.

Basta observar o panteão mitológico greco e, posteriormente, o ctrl c + crtl v mais famoso da História, o panteão copiado pelos romanos para observar que, a despeito das nuances, a posição da mulher, nossa posição, é secundária, pois as deidades são comandadas por um Deus - Zeus - infiel, manipulador da verdade e opressor.

Hera é tomada como a esposa corneada que, em nome de seu infortúnio, age ao arrepio do seu "maridão", sendo "manipuladora, perversa e vil", atributos que ainda hoje são relacionados à figura da mulher, como vemos, por exemplo, no Martelo das Feiticeiras de Sprenger e Kramer: "mulheres são, por natureza, mais impressionáveis e mais propensas a receberem a influência do espírito descorporificado; e quando se utilizam com correção dessa qualidade tornam-se virtuosíssimas, mas quando a utilizam para o mal tornam-se absolutamente malignas" (2002, p. 115).

A fortaleza de uma mulher no panteão greco-romano, traz a ela a identidade com "atributos masculinos", pois, segundo o mito, a melhor amiga de Zeus era sua filha Athenas, que providencialmente havia sido 'gerada pelo pai' a partir de sua têmpora esquerda, empunhando armas e sendo racional e calculista (atributos tidos como masculinos apenas o bastante para aproximá-la do seu genitor "perfeito").

A história perfeitinha romana esquece, contudo, da potestade de Morrighu, a deusa soberana que paira por todas as batalhas e, senhora delas, sela o destino dos heróis, a exemplo de Cuchulain. Ou, ainda, o poder de Cerridwen, empenhado no caldeirão de onde exsurgiu a gota solitária para seu filho, sorvida por Taliesin...

O que dizer de Brighit, senhora da poesia? Afinal, para a cultura latina, poesia e palavra elaborada não poderiam ser marcas de mulheres, por natureza sem alma e estúpidas, que "serviam apenas para procriação". Quem dirá uma Deusa de poesia? Ou, ainda, uma deusa ferreira? O que significa isso?

Em tempos de redefinição de locais e papéis, importante olhar para trás, pois, talvez, nossa herança seja muito mais densa e complexa do que julgamos ser. Talvez sejamos mais bebeoras de malte e cevada do que ambrosia e néctar.

Hey, ho!

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O "dia da noiva" e seus preparativos

Não poderia começar a semana de outra maneira a não ser comentando a notícia postada no site Goodsurgeon.co.uk, que revelou uma estatística intrigante: 58% das noivas da Inglaterra e cerca de 39% dos noivos estão dispostos a fazer uma cirurgia plástica ou outro procedimento estético, como preparativo para o casamento.

Além disso, os resultados também revelaram que 11% das mulheres e 9% dos homens que participaram da pesquisa já haviam feito alguma intervenção cirúrgica, em virtude do fato de um casamento ser um momento especial, para o qual se torna importante (?) aplicar toxina botulínica, implante de silicone para aumento das mamas, clareamento dental, lipoaspiração, dentre outros.

Fico imaginando como seria o "dia da noiva" e suas ofertas interessantes...

Como diria Cássia Eller, "o mundo está ao contrário e ninguém reparou"... Todo mundo fazendo esforços para dilaceração do corpo, no sentido de se "amoldar", de alguma forma, a uma ditadura lançada pela propaganda beligerante da anorexia levada às últimas consequências. Pena que dentro do pacote não haja a previsão de transplante de cérebro...

Algumas pessoas precisam disso urgentemente!

A farpa e a harpa

"O som dos cânticos ancestrais ecoaram de uma harpa desconhecida.
Galgaram espaços, transpuseram mundos, viveram o ritmo da efemeridade...
Sobre as montanhas selaram o destino, fulgurando chamas que, um dia, sibilaram
Troféus envoltos em êxtase profundo
Marcando o chão das entranhas por onde passaram
O espinho, latente, vigoroso em cena
Instalou-se em grito sufocado
Latejou, doeu e se firmou
Lado a lado de um vôo
De brado
Solitário
A farpa penetrou
Garganta dentro do toque outrora aveludado
Sangrou as vísceras de amor fecundo
Semeou o pórtico de um sonoro encontro
Veio em terna centelha
retornando ao mundo
Os deuses de antes que já se esvaem
Onde anda a farpa?
Ninguém sabe, mas a harpa continua ali
Eternamente, tocando a alma"
"Um homem não pode tocar numa pétala sem mudar o curso de uma estrela"
BLAISE PASCAL

domingo, 5 de setembro de 2010

Quando tentamos engarrafar o tempo


Quem já tentou engarrafar o tempo?

Algumas pessoas dirão que é fisicamente impossível, diante da linearidade e da cronologia que marcam o passar de horas que não volta mais. Contudo, mesmo em cima de uma noção antropomorfizada de tempo - que, afinal, não é bem linear - e a impossibilidade de "se voltar atrás nos processos", ainda existem pessoas acreditando que determinado momento pode ser "resgatado", ainda que seja à fórceps, e vivenciado, sobretudo, com alguma pessoa.

Quando isso acontece?

Quando deixamos de respeitar o momento do outro e, ao arrepio da liberdade, agimos numa macabra auto-ilusão, tecendo tramas e teias para onde levamos o outro, quase sempre tentando forçar uma barra que, no fundo (ou no raso) não tem o menor sentido.

Nesse instante somos cronológicas, lineares e cartesianas, quando percebemos as situações de uma maneira estanque, sem observarm contudo, a grande gama de vínculos causais desencadeados apenas pelo que seria "um evento", umzinho só, "tiquim de nada".

Daí achamos que isso não será relevante para a tomada de posição, principalmente quando é o outro que se posiciona. Na verdade, o posicionamento do outro é irritante, não é mesmo? Destrói nossa estima, porque, afinal, queremos "ter o controle" de tudo, inclusive da vida e da vontade da outra pessoa.

Isso me lembra um episódio em minha vida. Aliás, todo o post diz respeito a este, que foi um episódio muito pitoresco, talvez o único evento dessa sorte em minha trajetória.

Uma pessoa "forçou a barra" em relação a mim, tentando, tentando, tentando e, mesmo diante de tudo, ainda, na batalha, tentando. Quando eu pensava que a sabedoria seria seu guia, tal pessoa, como uma fênix, ressurgia tentando. Daí pude ver o real significado da frase "sou brasileiro, não desisto nunca", porque nunca entendi bem como uma frase tão ridícula pode embalar toda uma nação, sustentando, algumas vezes, a teimosia da imbecilidade.

De tão perdida em seu ego atingido pelo fracasso iminente, ou, melhor - pelo que construiu como sendo uma diretriz de fracasso, dentro de um paradigma machista e androcêntrico de um mundo a cobrar êxito irrestrito - essa pessoa se esqueceu de observar um sutil detalhe em relação ao fato de eu estar ali e... uau! Existir!

Sim, claro, também tinha vontade, mas, diante de uma insistência pueril, ela se escondeu nos meandros da minha mente, cedendo espaço ao pior sentimento que pode unir dois seres: a pena e o desejo incontido de sair dali correndo diante do da completa falta de tato diante da minha vontade. Taí, depois de muito consultar meu coração - pois isso nem é tão recente - o que ficou, hoje, foi a certeza do desrespeito, mesmo que inconsciente, em relação à minha vontade, pois não se tratava mais de tentar, e sim respeitar meu tempo, meu momento.

Depois de então, penso, tudo dentro de mim mudou, pois, aos poucos, toda a sensação legal de troca, de afinidade cedeu espaço à necessidade de distanciamento. Afastar é necessário para colocar o coração em dia e observar a real motivação por trás dos motivos.

Dentro disso, o tempo não volta mais. A noite de tentativas infrutíferas não mais retornará, pelo simples fato de não se poder engarrafar o tempo, ainda mais quando a lembrança emocional é cercada pela cena digna de Nelson Rodrigues: tentativa por trás de tentativa, sem que eu sequer estivesse ali sendo consultada...

Esse é o recado da vida para quem acha que tudo volta: nada permanece o mesmo, porque tudo flui, num contínuo que, pouco a pouco, deixa momentos e pessoas para trás. A lição aprendida segue para a frente, pois é impossível restaurar o que foi quebrado.

Para vaso quebrado não existe cola que remende os cacos... Ainda mais quando o vaso diz respeito ao tempo...

Let it be!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Os motivos por trás dos motivos...

Dizem que o coração tem "razões que a própria razão desconhece" e, com isso, não obstante a racionalidade "fria e seca" apontar para um lado, o desejo sagrado e secreto de nosso coração deve ser o guia de nossas escolhas, pois suas motivações são as mais acertadas.

Nietzsche passou boa parte de sua vida e de sua obra falando sobre a vontade de poder, sobre o ímpeto que surge da centelha contida no humano, apontando para o que chamou de "instinto", que nada mais é do que o lançamento passional a partir da expressão mais ancestral de emotividade. Para ele, a "racionalidade" nos levou a nos posicionar como os seres mais arrogantes na escala do mundo, a partir do momento em que olhamos para o céu e nos arvoramos do direito de sofismar.

Sem fazer um tratado sobre Nietzsche, mas apenas transpondo a racionalidade, o que me preocupa por hoje são os chamados "caminhos do coração", quando eles não são conhecidos e, ainda, dentro do desconhecimento de sua natureza, escolhemos, na ignorância, algum caminho e superficialmente o taxamos de "caminho do coração" e, a partir da inserção nele, caímos em redemoinhos de sofrimento e dor.

O que nos move, em um primeiro momento, para nossas escolhas? Teríamos realmente algum arbítrio livre em sua origem? Conseguimos a depuração de todas - ou, que seja - ou de alguma das mazelas que nos perseguem ao longo da vida e escolhemos de maneira clara e cristalina? Ou, ao contrário, será que agimos num automático tão bem elaborado pelo ilusionismo mental que somente nos damos conta disso após um suceder de eventos que retiram nossas lentes?

Penso que não fazemos escolhas com liceidade de propósitos, mas, antes, em decorrência de pulsões desconhecidas e inconscientes, que são muito bem justificadas por nossa mente racional, que logo trata de arrumar uma convincente gama de argumentos para legitimar a escolha que, no fundo, sabemos não ser a legítima para nos lançar nos caminhos com os quais deparamos. Somos uns malas, umas malas sem alça numa desonestidade com nossas vidas e missões. Nossa, ops, falei!

Nossas couraças defensivas criam realidades em relação às quais a mente precisa gerar uma narrativa convincente, tanto para manter a farsa, como para apregoar a fraude para as outras pessoas. Quando não nos damos conta disso usualmente embarcamos em uma ego-trip que pode durar uma vida, talvez duas, três, não sei. Talvez seja a odisséia sem fim de vidas e vidas de repetição de padrões, pois, afinal, somos imortais, né?

Uma das falácias diz respeito a isso chamado "caminho do coração", "caminho da intuição". Claro que existem e claro que são eles que nos conectam às reais escolhas da alma. Porém, o que pondero é: não estaríamos confundindo o caminho do coração com o caminho do "ego-sem-ação"? Afinal, essas duas construções atém rimam ao final...

Pegamos algum atalho dentro da zona de conforto e embarcamos, achando que realmente estamos seguindo nosso coração, quando, a bem da verdade, podemos estar seguindo nosso medo de ficar só, medo de morrer, medo fracassar. Medo, frustração, desolação, bem como outros sentimentos que trazemos em nossas vidas e colocamos recalcados em alguma sala de espera de nossa psique. Quando não enfrentados ou desmascarados, eles voltam, cada vez com mais força.

Segundo Stephen King, os "fantasmas e monstros existem e estão dentro de nós. Eventualmente eles vencem". Como? Penso que no momento em que não escutamos a primeira voz - sim, aquela que fala baixinho lá dentro e que, essa sim, É A VOZ DO CORAÇÃO - e nos lançamos nas intentadas apenas e tão somente para aplacar os monstrinhos e fantasminhas dentro de nós.

Daí, toda vez que o Anjo da Casa vem e comanda a subserviência - "seja um doce, seja parceira, seja isso, ou aquilo" na verdade, ao invés da narrativa crística de compaixão, está anestesiando a capacidade de ação.

Com isso tentemos muito a confundir amor, compaixão e compreensão com baixa auto-estima e submissão. Com um arremedo de caridade que, de fato, está longe de ser qualquer lição espiritual que Buda, Jesus, Gaia, Maomé etc. transmitiram.

Basta um teste: alguém já viu ou leu em alguma escrita algum dessas ilustres personalidades numa confusão "passional", estilo "novela mexicana", agarrando todo mundo, beijando todo mundo? Acho que não, não é mesmo? Uma olhada de piscadela para perceber que, muitas vezes, para algumas pessoas, esses seres passariam até por austeros demais. Não se trata de frieza, porém, mas sim de superação da demanda humana do desespero existencial de se lançar num tornado de apreensões. Com isso, despojaram-se.

Nosso ego não ama... É importante sempre lembrar disso. Ele apenas deseja tomar para si e apreender o "objeto" para se preencher, pois pensa ser aterrador saber que não existe. É uma criança o ego e, com isso, prega-nos inúmeras peças ao longo da vida.

E quanto mais evoluímos, tirando as cascas da cebola para libertar a essência, mais o ego tenta comprar caminhões de cebola para se cobrir, agasalhar-se. Acha que precisa "ficar quentinho" e não viver. Daí, sempre procura viver por meio do outro...

Os reais motivos do coração? São os caminhos opostos aos do ego. Basta "apenas" decifrar o mais complexo, que é o discernimento em relação a qual, de fato, é um e outro. Até descobrirmos, muitas vezes escolhemos com o ego e sufocamos o coração, até o dia em que ele salta de dentro do peito, explode e se esvai, deixando-nos a tarefa de, numa outra vida, fazermos o caminho de onde paramos...