domingo, 29 de abril de 2018

Lua Rosa e Samhaim: preparando a alma para o fim da roda do ano e o início de mais um ciclo!

"The night is dark, the way unknown
I journey with no light or sign, no fear or hope,
Without knowing if I'm near or far from you, Mother, 
For I see the path behind,
But not where you are leading me[1]"
Mirella Faur (2016, p. 17)


Às 21h58min a Lua resplandece e fica Cheia, marcando o Plenilúnio em Escorpião, nesta, que é a primeira Lua Cheia do outono e, por esta razão, chamada de Lua Rosa, marcando a mudança de estação. 

Por aqui, a temperatura está progressivamente baixando, a chuva escasseando e o ar ficando mais seco: é a Natureza se preparando para a chegada do Inverno, a estação da latência e da hibernação, ocasião em que guardamos nossas reservas energéticas para enfrentar as baixas temperaturas.

Nos locais de alto inverno, onde a oferta de comida fica rarefeita - como nas tundras e florestas geladas -, o outono marca o finalzinho da preparação do estoque de alimentos para que, diante do clima adverso, não falte alimentação. 

Aqui não neva, ainda, mas o momento é de internalização, onde a gratidão pela colheita farta do ano cede espaço para a mudança drástica de estação, com a finalização do ciclo da roda para os antigos celtas, que tinham no calendário agrícola e nas estações marcantes (inverno e verão) sua forma de marcar o tempo e o curso da história. 

Dia 1o. de Maio no Hemisfério Sul comemoramos Samhaim, fim e início do ano celta, noite sagrada em que os véus dos mundos se abrem para que as dimensões e o seres possam se comunicar entre si. 

É o início da estação escura do ano, dedicada às deusas que representam a face escura da Grande Mãe, a sombra presente em todas nós. 

Mirella Faur no livro As faces escuras da Grande Mãe: como usar o poder da sombra na cura da mulher, lembra que a sombra é a parcela reprimida de nossas características psíquicas, reprimidas tanto individual como socialmente

Creio que a metáfora do quartinho de despejo seja a mais adequada para tentar retratar o que a sombra significa, um lugar onde "jogamos" tudo aquilo que desejamos negligenciar ou não enfrentar: uma hora, ao abrir a porta, tudo cai em cima de nós, lembrando-nos que não podemos fugir de nós mesmas. 

Nosso elo de comunicação com a sombra reside, quase sempre, nos sonhos, insights, bem como nos movimentos inconscientes nos quais nos vemos "lançadas", bem como nos atos falhos e em tudo que representa uma materialização de algum impulso que não sabemos muito bem de onde tiramos: uma espécie de padrão contra o qual passamos boa parte do tempo em luta.

Escrevi, certa vez, um conto chamado O monstro e a face, retratando nele meu encontro com minha sombra, quase sempre feito de maneira conflituosa, de início, mas, depois, ao compreendê-la melhor (por me compreender melhor), harmonizando-me com ela. 

Nessa fase de Samhaim (sem luz, sombra), cultivamos a conexão com as deusas escuras, tais como Andraste, Morrighan, Cailleach, Cerridwen, Macha e Maeve, além das emblemáticas figuras de Morgana, Rhiannon e Sheela-Na-Gig, todas reunidas em torno da ideia de deusas escuras, que nos colocam em contato com nossas sombras e fazem aflorar o que reprimido foi pela herança patriarcal de controle.

Essa época do ano marca a introspecção para que nos renovemos...

O horizonte iluminado pelas velas mostra o caminho para quem já deixou essa egrégora poder encontrar sua senda. Tudo é austero e lembra o findar dos dias, para que novos dias se avizinhem.

Reza a lenda que Morrighan e Dagda deitam-se em Samhaim às margens do rio Shannon para selar uma união mágica entre vida (Dagda) e morte (Morrighan). 

Tudo envolto em magia, mas, também, em reverência e calmaria. Tempo de meditação, sobretudo nesta noite auspiciosa de Lua Rosa, que marca a vinda do novo. 

Por aqui o mundo giro, a roda se une, tal qual um grande ouroboros. 

A Natureza em seu magistral recado, enviou uma enxurrada para o condomínio, que fez com que o curso do rio mudasse e, com ele, a cachoeira secasse. Foi assustador, de início, mas marcou dentro de mim a ideia de mudança no fluxo da minha própria vida. 

Mergulhei, a partir disso, em minha sombra, para compreender, ao final, a razão interna das projeções que, por afinidade, encontraram outras projeções, na reciprocidade de relações. Decidi estar e permanecer comigo e, por certo, tenho sido minha melhor amiga e companheira. Eu e minha sombra.

É hora de deixar o antigo sair e brindar o novo na mudança produzida por Samhaim e potencializada pela Lua Rosa. Esse é o sentido de tudo. 

Céad mille fáilte!!!!


[1] "A noite é escura, o caminho desconhecido, eu sigo sem luz ou qualquer sinal, sem medo ou esperança, sem mesmo saber se estou perto ou longe de ti, Mãe, pois eu vejo a estrada atrás de mim, mas não sei para onde Tu me levas, Mãe" (tradução da autora)

domingo, 22 de abril de 2018

Fáilte! Dia da Terra e gratidão

Hoje é mundialmente comemorado o Dia da Terra, uma iniciativa do Senador estadunidense Gaylord Nelson, que propôs a data para que possamos, como planeta e comunidade, celebrar a Terra e nos conscientizar da necessidade de preservá-la.

O evento, que teve seu primeiro formato em 1970, reuniu 20 milhões de participantes. 

Hoje, cada vez mais motivada pela atividade em mídia e redes sociais, o Dia da Terra mobiliza algo em torno de 500 milhões de pessoas, crescendo a cada edição.

Data auspiciosa para que possamos nos reconectar à Terra, ao sagrado e ao elemento estabilizador. 

Terra nos remete ao silêncio da montanha, imersa em sua sabedoria no calar, bem como à prosperidade, fartura, abundância e fertilidade. 

Não se trata do aspecto financeiro e do consumismo: aliás, estes elementos, tão mal compreendidos no materialismo em que vivemos atualmente, são antagônicos à ideia de prosperidade de estado de alma, que supõe um preenchimento do espírito com a abertura de estados de consciência para a verdadeira compreensão de nossa senda aqui nesse planeta. 

Trata-se da amplitude consciencial, o verdadeiro sentido de prosperidade que nos conecta à energia da Terra. Ela esbanja, mas também retém, mantém, poupa para mais tarde. 

Quem já não se pegou observando a latência de uma semente, que pode ficar embaixo da terra por tempos antes de explodir e explorar o mundo fora das entranhas da Grande Mãe criadora? 

Terra que esteia cada passo nosso, deixando paradoxalmente as marcas de nossa impermanência nesse solo, que acolhe a semente para germinar, e a raiz para entranhar. De onde parte o caule, os frutos, lembrando-nos dos frutos que nós mesmos elaboramos com nosso labor.

Terra que recebe, todos os dias, nossa cabeça para o repouso merecido do corpo e que acolherá nossas cinzas no dia incerto em que nossos olhos se cerrarem para esta realidade. 

Sobretudo, Terra da ancestralidade, daqueles que aqui estiveram antes de nós, preparando o caminho, na historicidade helicoidal, para que estivéssemos neste exato momento, aqui e agora. 

Terra do foco, da firmeza e da determinação. 

O dia hoje - sobretudo aqui no cerrado, onde ainda chove - está propício para andar descalço, colocar os pés no solo para aterramento. 

Ou, seja, para plantio, silêncio, introspecção. 

Para preservar Gaia, usando velas e poupando energia elétrica. 

Para se prostrar na postura da Montanha, que nos mantém firmes e conectados aos objetivos de senda mágica...

Para celebrar colheitas! Comer raízes, brotos, tudo que se entranha para nascer!!!

Para imantar cura em nossas vidas, visualizando a frequência de onda e a pigmentação verde enquanto repetimos "eu me curo, recupero e regenero". 

Para agradecer, enfim, por tudo até aqui realizado. 

Dia de leitura oracular, sim, por que não? Afinal, podemos acessar a Lua Crescente, bem como a sabedoria da Terra para que, de suas entranhas, possamos enxergar nosso caminho a seguir.

Agora há pouco tirei minha runa do dia, saindo Inguz...

Inguz está diretamente relacionada aos processos de finalização de começos, sendo a eclosão de um caminho que se finda para a abertura de outro, demandando energia de término, quer seja de um sentimento, relacionamento, hábito, projeto ou o que o valha.

Aliás, bem providencial, pois, segundo Thorsson[1], Ingwaz é o nome de Nerthus, Deus-parceiro da Mãe Terra, o sacerdote que a acompanha. Nada mais representativo para a data de hoje, agregar a energia do masculino à fonte primordial. 

Equilíbrio entre polaridades na eclosão do que está latente e que vai, mais à frente, vir à tona.

Biancardi[2] remete à essência da runa, que nos motiva a trabalhar nossa herança divina, sendo necessários desapego, fé, confiança e comprometimento para acionar a energia de Inguz. A vibração é "Eu sou uma criatura divina e mereço o melhor", materializando, assim, o bem-estar e a plenitude.

Neste Dia da Terra desejo a todos e todas plenitude, bons auspícios e conexão!

Céad mille fáilte!

[1] O oráculo sagrado das runas: autoconhecimento e orientação pelo sistema divinatório milenar dos povos nórdicos. THORSSON, Edred. São Paulo: Editora Pensamento, 2013, p. 141.
[2] Runas, magia e transformação. BIANCARDI, Rosa Maria. São Paulo, Editora Alfabeto, 2002, p. 136.

domingo, 15 de abril de 2018

Apenas GRATIDÃO!!! O sentido da vida...


Há tempo essa sensação benigna instalou-se dentro de mim e não mais foi embora. Acredito que tenha encontrado, enfim, um lugar de pouso e, no auge da calmaria, resolveu ficar. 

É indescritível tal constância: mesmo que passasse horas postando, não conseguiria retratar ou sequer detalhar, de maneira opaca, como a vida tem sido uma defluência direta de estar plena e íntegra.

Oscilações vieram e se foram, afinal, esse é um dos sentidos da vida. É a resposta a eles, as escolhas diante desses percalços que definem quem somos e nosso papel diante do Universo.

A sensação de benignidade calma e lânguida faz ressoar a GRATIDÃO diante do que se desenrola neste espetáculo do viver. 

Hoje estava escutando uma música linda, chamada Eu agradeço, da Marie Gabrielle e não pude conter as lágrimas de intensa felicidade ouvindo "(...) Deste jardim cujo eu sou jardineiro e de amor eu sempre vou regar(...).

Mas não uma alegria histérica, rompante. 

Não!!! 

Um regozijo de compreender, enfim, o sentido de tudo isso aqui. 

Sim, mas, então, qual é sentido?

Ahhh, tão irredutível em palavras, quem dirá em um texto! 

É uma sensação, um sentimento, sentimentos não são fidedignamente retratados em prosa ou verso. São sentidos, vividos, escorridos. Vão e vem no fluxo, tal qual um rio cujas águas chegam até o mar sem que precisemos perguntar onde se encontram as gotas.

Gratidão, Grande Mãe Sagrada, por me acalentar na palma de suas mãos!!!

sábado, 14 de abril de 2018

Criando a própria senda dentro de um mundo muito mágico!!!


Essa semana fiz algo bastante incomum, a despeito de ser simples, tão simples: ao me dirigir para a loja de óculos a fim de buscar uma encomenda, num lugar  bem distante de onde resido, decidi fazer um percurso para rever lugares antigos, os quais não visitava já fazia um tempo.

Escola antiga, ex-casa de avó, faculdade onde lecionei, médico que frequentei, escola de inglês e muitos outros lugares que estão hoje bem diferentes de tempos atrás. 

Desacelerei o jipe, coloquei o braço no vidro do carro e comecei a respirar profundamente, tentando, com isso, sorver o ar daqueles que, um dia, foram ambientes bem próximos.

Com isso, magicamente me transportei para cada cenário representativo de uma fase da minha vida: infância, adolescência, vida adulta. 

Não importa. Tudo ali se transformou, de súbito, numa egrégora atemporal, que me trouxe uma doce sensação de estar de volta ao pequeno lar dentro de mim. Observando atentamente minhas reações, senti ter gerado uma egrégora que está me acompanhando até o presente momento...

Ao chegar em casa, comecei a pensar na importância de elaborarmos nossa senda a partir da elaboração desse vórtice contínuo de energia e informação chamado egrégora, que nada mais é do que o caminho sagrado que será nossa própria lição de vida. 

O que realmente é relevante para se viver uma vida mágica? 

Afinal, são tantas receitas de "magicalidades" que ficamos à deriva quando não sabemos, ao certo, o caminho que estamos a percorrer. 

Lembrei-me de alguns grupos mágicos dos quais participo, quase todos com inúmeras postagens sobre dúvidas em relação a feitiços, rituais, deidades. Cada postagem espelhando uma dúvida bem pragmática, um desejo incontido, não importa. 

Ao final, o que percebo nesses anos todos de Arte mágica é o acesso pragmático a receitas sem, contudo, o aprofundamento necessário para se refletir sobre como efetivamente viver uma senda. 

Hangouts, lives, talk shows e cursos, geralmente on line

Livros, livros e livros. Apostilas e conversas ao pé do caldeirão. 

Tudo tão fácil e acessível!!!! 

Tão disponível FORA de nós, ao mesmo tempo em que revela muito sobre o que está dentro da gente: escolhas, medos, anseios e expectativas.

Em idos de pós-modernidade, acessar informações sobre magia não é mais artigo de luxo ou tabu: tudo está disponível na rede, bastando garimpar os locais onde procurar informações fidedignas.

Mas acessar informações, acionar dados, ritos, feitiços, rituais e deidades está longe de, solitariamente, trazer mágica em nossas vidas. A Arte é uma senda, ou seja, um caminho iniciático (quer seja em grupo ou individualmente) no qual imersão e reflexão são pressupostos da trajetória.

Não basta saber o que se faz com canela, alecrim ou arruda: é penetrar nos mistérios que a Natureza tão amorosamente compartilha conosco, a partir do significado que Ela mesma atribui a cada elemento, erva, artefato ou ingrediente.

Mais do que isso, é se render à formação de uma verdadeira egrégora, saindo, assim, do cotidiano de uma vida programada e robotizada, na qual a ligação com a Natureza e seus ciclos não mais ocupa espaço central. A vida mágica é vivenciada a cada lapso temporal contido entre o nascer e o pôr-do-sol, momentos de eternização da magia, da transformação energética e, sobretudo, da auto realização.

Quando internamente elaboramos esse pequeno-grande mundo, tudo em volta se ressignifica, na medida em que ambiente/observador passam a se harmonizar em uma só realidade. As fronteiras se dissipam para que tudo sibile em consonância com uma plenitude que ultrapassa qualquer limite.

Tudo passa a ser uma só frequência e, dentro dela e para além dela, podemos empreender aos atos verdadeiramente mágicos. Mas, para isso, a motivação interna, baseada na constância de uma vida plena, é o ponto de apoio: emoção, necessidade e conhecimento, os vetores de magia que sempre estão na lembrança. 

Quais os anseios de nossas almas? De que realmente precisamos? Qual o real significado de se adoecer, ter um acidente, perder ou ganhar um emprego ou, ainda, ganhar na loteria? 

Em um mundo regido por essas relações de implicação causal (à exceção, claro, da teoria e magia do caos), tudo promana de nossas próprias redes ocultas e internas, em simbiose com Gaia, nosso ambiente primordial. 

Criar a própria senda, a partir disso, consiste em vivenciar todos os dias a benignidade contida em um nascer do sol. 

É fazer um almoço em tom de devoção e agradecimento à Grande Terra nutriz em suas várias nomenclaturas (reverencio Dana, Danu, Ana, Anu, Eriu, Fodla, Banba, Badb, Madb, Morgana, Morrighan, Maeve, Cerridwen, Macha, Aine, Fand, Andraste, Brighid, Ategina, Deirdre e tantas outras deusas celtas que tão fortemente ligadas à terra e à Soberania são). 

É tomar o banho diário com a sensação de efetiva limpeza, amando-nos e nos enaltecendo como pequenas pérolas de divindade. 

É honrar a ancestralidade e as deidades que prepararam a terra para nós no aqui e no agora. 

É, enfim, ter sempre ínsita aquela sensação de se estar entre-mundos, aqui, na tridimensionalidade, bem como no além-matéria, nos confins dos sídhes e nas florestas onde cultuamos a Natureza em seus atributos essenciais.

Quando isso tudo é realizado, todo o resto passa a ser secundário: notícias de tragédias, guerras, política. Tudo passa a ser olhado em perspectiva, a partir de uma tomada de consciência incomum, que traz a brisa da CALMARIA.

Por isso que a Arte, a sagrada Arte, sempre representou para minha senda um continuum de languidez, calmaria e paz, ainda que estivesse sob as intempéries e sazonalidades da vida e de mim mesma. Quando tudo está oscilando, a senda iniciática nos ancora, lançando-nos fora desse vórtice de inconstância e turbação que a dissonância vibracional traz. 

Esse sentimento...livro algum irá ensinar. Hangout algum compartilhará. Live alguma trará para nosso peito, sabe por que? 

Porque se trata de experienciar, viver! Realizar, fazer! Ou, nas palavras ancestrais, saber, ousar, querer e calar, pilares de toda nossa vida nessa e em outras existências.

Trata-se de produzir uma centelha interna, faiscante e contínua, a partir da qual acionamos a egrégora, onde quer que possamos ir. Ela estará sempre conosco, acalentando-nos nos dias difusos , bem como reforçando a alegria interna nos dias de glória.

Eis o segredo essencial que não é muito compartilhado: somos nós o epicentro de nossa senda mágica, bem como o vetor da transformação do mundo. Basta que nos transformemos em fontes primevas de consciência pura expandida, que o Universo, os Multiversos se abrem para nossas escolhas e vontades.

So mote it be!

Blessed be!

Céad mille fáilte!



sábado, 7 de abril de 2018

Entre experimentos, experiências e experienciações: a senda mágica do viver






Acredito que viver uma senda mágica é, antes de qualquer tentativa de explicação racional ou teorização (que acabem virando livro ou hangout de autoajuda), uma experienciação. 

Não, não, não é uma experiência, mas experienciação: um profundo abismo separam essas percepções, muitas vezes vividas e compreendidas como sinônimas, o que traz confusões enormes no momento em que nos lançamos para interagir com o mundo e as pessoas. 

Uma experiência é algo que nos retira de nosso usual, um feito, rito ou experimento, baseado em uma rotina distinta, um teste que acarreta um binário: tentativa/erro. 

A experiência, portanto, reside na capacidade que temos de sair de nosso script de vida para abraçar uma nova realidade, ainda que momentânea, logo retornando para nossa zona de conforto, nossos hábitos e nossas rotinas mentais, emocionais e espirituais. 

Vamos, sorvemos e, a seguir, voltamos para nosso casulo perpétuo de imobilidade espiritual, deixando vidas e vidas se seguindo, sem que nossos dilemas sejam, enfim, encarados e geridos. 

A experienciação, ao contrário, consiste em um estado prolongado de um modus vivendi: saímos de nossa zona de conforto para abraçar uma nova vida, deixando para trás tudo que representou, até então, internamente, nossa forma de ver e sentir o mundo. 

Trata-se de uma ruptura, algo brusco e que rompe padrões internos, tornando impossível retornar ao que já se viveu, por se ABANDONAR internamente os padrões que estavam contidos nessa antiga vida que já se viveu...

Comprometemo-nos a olhar internamente, romper com nossos padrões, superar nossos medos mais abscônditos, pois, assim, podemos deixar o novo entrar, fazendo com o que seja arcaico e obsoleto dê espaço para novas percepções de vida. 

De vida...

Isso supõe prática, ação, envolvimento e compreensão de si mesmo: experiencia em ação, experienciação: eis o segredo! 

A senda torna-se mágica quando ousamos agir, no aqui e no agora, olhando para nós mesmas e nos superando, a partir de um profundo mergulho na alma.

A senda mágica, para alguns (muitos), a própria ideia de bruxaria, nada mais é do que a vivência imanente desse mergulho, sem que ofusquemos os elementos componentes de nossa psiquê (luz e sombra) em nome de uma necessidade transcendente de sufocar aspectos que não gostamos em nós mesmas.

Ao contrário, é se assumir em todos os pequenos cantos de nossa alma, ainda que sejam aqueles desconhecidos ou colocados embaixo do tapete. 

Eis a razão pela qual a senda é mágica: pressupõe coragem para olhar de frente em um grande espelho e conversar com ele, no firme propósito de olhar para esses cantinhos ali projetados e, com isso, crescer, amadurecer: viver!

Quando nos relacionamos, quer seja afetivamente, ou, ainda, em um clã ou coven, é necessário fazer essa nítida distinção entre tais dimensões de agir, para que não incorramos em uma confusão de propósitos de vida e, portanto, de ilusões, tanto projetadas no outro, como no grupo, formação uma egrégora de pura neurose.

Por isso sempre gostei de caminhar solitariamente na bruxaria...Nas vezes em que participei de grupos, logo advinha o despontar dessas projeções, reciprocamente consideradas, fazendo vir à tona, no grupo, as desavenças, o desgaste e a ruptura. 

Na senda afetiva, da mesma forma: reciprocidade projetiva, umas em medidas mais explícitas, outras em questões ainda opacas para a consciência. Pouco a pouco, vamos descobrindo que lidar com os outros é, em muita medida, lidar com a profundidade de nossas próprias almas. 

Agora, mais amadurecida pela senda de experienciação, tenho, a cada experiência (sim, a de ir e vir), descoberto o quão valiosa é minha experienciação (a languidez do estado de constância na alma que está numa senda). 

Isso porque a interação traz à luz os resquícios que precisam ser clarificados, os aspectos de sombras a integrar. Quando isso acontece, podemos prosseguir ou simplesmente olhar, agradecer e seguir o fluxo, retomando a experienciação. Ou, então, prosseguir na ilusão de achar que estamos crescendo apenas evitando o olhar para dentro de nós. 

Ledo engano, pois, como um pedalar eterno, andamos, andamos, mas não saímos do lugar. Podemos olhar para belas paisagens, tirar maravilhosas fotos, mas sempre estaremos a pedalar rumo a nós mesmos, sem, contudo chegar ao cerne, ao bulbo do que realmente precisamos encarar em nossas vidas. 

O caminho na bruxaria solitária é essa senda mágica de experienciação: é um ethos de vida, ou, melhor dizendo, um próprio modo de ser, estar, viver. 

Não se trata de fazer poções, ritos, mas de se unir ao sagrado eterno da Natureza, sentindo cada um dos elementos, bem como o registro eterno da ancestralidade a reforçar essa egrégora de plenitude. 

Assim, contemplar a lua, celebrar estações, ritos sazonais e se conectar é estar nesse fluxo, e não apenas acioná-lo quando conveniente, quer seja para acrescentar conhecimento, sabedoria, grandiosidade ou poder. 

Muitas pessoas de boa-fé se perdem ao longo do caminho, quando tentam, com sofreguidão, sair de um estado de alma de pura ignorância e desconhecimento de si, para transcender e negar suas mazelas, sem saber que estão negando sua totalidade.

Já ouvi muita conversas de "ego", muita gente acreditando realmente que sua alma é "de luz", que "campo mórfico" de encarnação é ilusão e outras tantas banalidades, repetidas, contudo, com tamanho despreparo e desconhecimento do mergulho em si que, de fato, acabam criando para si um personagem que, ao menor aperto de botão - geralmente na convivência - deixam extravasar esse "pior" que reside dentro delas. 

Aliás, não é o "pior", é apenas a sombra não aceita porque formulada uma máscara de beneplácito e benevolência. Puro discurso, ao final, que aloja a pessoa para bem distante de uma senda contínua e, portanto, da experienciação.

Vivem, assim, experiências. Relacionam-se na experiência, uma espécie de test drive do viver: se colar, colou. Dando "errado", a desculpa (ex + culpa, ou seja, a retirada da culpa interna) se dá pelo script de "foi uma experiência, um aprendizado" e, logo a seguir, incidem na mesma...experiência!!!!

Eis a distinção, ao final, no caminho mágico, entre experimentar e experienciar: a possibilidade de verdadeira mudança no mais abissal ponto de nossas almas!

Por fim, gosto de compartilhar sempre uma lembrança do saudoso Scott Cunningham, autor renomado na wicca, que nos deixou cedo, não sem, antes, registrar o que, para ele, é uma senda mágica. Tenho-o registrado em uma louça em cima do fogão, ali em minha cozinha, para sempre olhar e contemplar. Mas, acima de tudo, para viver:


"Conheça a si
Conheça sua Arte
Aprenda
Aplique seus conhecimentos com sabedoria
Atinja o equilíbrio
Mantenha suas palavras em boa ordem
Mantenha seus pensamentos em boa ordem
Celebre a vida
Sintonize-se com os ciclos da Terra
Respire e alimente-se corretamente
Exercite corpo e mente
Honre a Deusa e o Deus"

Céad mille fáilte!!!


sexta-feira, 6 de abril de 2018

O singelo som do coração


O vento sopra, leva e traz mudanças, quase todas sentidas como uma espécie de alento. Brisa leve que torna a alma cheia de paz e esperança...

Tempos atrás rumei para o interior e tentei ali me encontrar. Rodei, dirigi, voei bem alto nas asas de um amor prometido e indelevelmente promissor. Saí de mim para mim mesma, achando mesmo que os quilômetros iriam me levar a outro lugar que não fosse à autofagia do meu ego.

Vivenciei experiências, observei a vida. Travei contato com energias empaticamente situadas no grandioso universo da palma da mão. Depois disso, um atropelo que me fez percorrer outo caminho, rumo, talvez, a mim mesma, mas por outra estrada.

Rodei de volta para casa, achando, novamente, que o retorno me impeliria ao status quo ante. Assim como nunca somos as mesmas, o rio também não corre intacto. Os banhos na caudalosidade dos vários rios pelos quais passamos em vida também nos brindam com a diversidade. 

Agora, tempos depois, volta o rio e voltam os banhistas. Configurações de uma mesma história, revisitada pelos banhos que não conseguem, ao final, tirar a poeira incrustada na alma...

Mesma máscara, talvez, quem sabe? São tantas histórias de projeção! Tantas miscelâneas de um espelho que se quebra e cola, sempre e sempre, lembrando que o outro é o caco eterno de nossas próprias mazelas. Identidade? Aversão? Projeção?

Talvez...

Afinal, o que encanta, depois, desencanta o mundo, faz com que desejemos nunca ter olhado para trás.

A estrada, porém, constrói-se para frente, no andar pausado de quem se caleja com a sombra forte da alteridade que em nós se espelha. Olhamos para as possibilidades infinitas que expandem nossos corações e nos fazem trazer à tona o pulsar do coração que se elastece a cada mordiscada...

Sim, coração, eixo central da criação!!! Órgão cujo tom de reverberação nos amedronta todas as vezes em que a taquicardia insiste em mostrar nossa vida em sua maior plenitude...

E quando nos damos conta, cá estamos a agradecer por mais e mais experiências, que nos apontam, lá na frente, a sincronicidade do Universo em nos avisar gentilmente que tudo quedado em retrospectiva foi acertado. Bom, correto. Justo.

Nada, enfim, é em vão.

A alegria advinda da calmaria com a qual a ressonância se equilibra é inesgotável.

Cumpre, então, a mim, apenas dizer: gratidão, gratidão, Gratidão!!!!
Cai a chuva em meio à lágrima que insisto em represar
Olho o céu e, entre estrelas
e me pego a perguntar...
Como pode o Infinito ter tanto
A nos falar...

Rumo em vagas, eterno assombro, sibila a luz 
A faiscar
O apogeu de tantas sombras
Vindo à tona a ofuscar
Corpo em brilho
Olhos fortes
Insistentes a bailar
Pelo mapa de teu mapa
Que sumir sem me falar

A ponte nova do velho tempo 
que faz a bruma se dissipar
Olho o espelho de um forte
Rui em plano a se livrar
Agora é certo que não nos fomos
Sempre estamos a chegar
Vidas vêm e almas somam
Mesmo estando a se chocar