terça-feira, 18 de abril de 2017

As idas e vindas de um fluxo chamado VIDA!!!!!

Já faz um tempo que tenho pensado na importância de elaborar uma vida frugal sem sair de casa. Afinal, em idos de consumo desenfreado, o tudo que se constrói ultimamente no imaginário popular em termos de "criatividade" tem perpassado dinheiro e ansiedade, cobrança e expectativa. 

Crianças trocam pipas, jogos de queimada e peões por jogos eletrônicos de toda sorte. Adultos trocam a ludicidade da contemplação da Natureza e do ócio criativo por longos passeios em shoppings centers. 

Casais e famílias teclam nervosamente seus celulares, indiferentes uns aos outros, em uma simples mesa de almoço. O mundo, enfim, tornando-se cada vez mais robótico, as relações mais frias e líquidas e o humano se diluindo na paulatina desconexão com o Todo.

Nunca fui muito fã disso, mas, agora, na fase madura da vida, tenho sentido necessidade vital de manter uma rotina de tranquilidade no pequeno grande mundo mágico em que sempre vivi. 

Não se trata de uma polarização. Não "saio" ou "entro" em uma redoma ou abóboda, indo e vindo do trabalho para casa. Nada disso. A egrégora vai junto, para onde quer que eu me dirija. A magia, a Deusa, os elementos e a energia estão sempre em meu coração a partir da imersão feita no imanente sagrado, muitas vezes invisível para quem não se permite enxergar a vida com os olhos da alma. 

Algumas pessoas podem perguntar como... sim, enfim, como sentir isso? 

Como elaborar isso? 

Não sei dar a receita (aliás, sou péssima nisso de estratificar a vida em metodologias que envolvem intuição), pois não tenho respostas para toda a humanidade. No máximo posso pensar no que me faz verdadeiramente feliz e, a partir daí, compartilhar a experiência, sempre certa de que isso é apenas uma descrição para quem não experiencia no coração a presença de algo maior do que a própria existência.

Coração...

Sim, primeiramente o coração, músculo mais forte do corpo humano, lar sagrado da expressão de amorosidade, emotividade e sentimento. 

Epicentro orgânico do quarto chacra ou vórtice energético a representar a transição do plano material ou terreno (imantado nos vórtices da raiz, umbigo e do plexo) para a ascensão no laríngeo, frontal e da coroa (apenas para citar os mais conhecidos, já que as camadas energéticas se ampliam ad infinitum).

O coração vem e vai em reveses durante a vida, compondo a singularidade de nossa senda ao longo de várias dimensões de existência, em encontros e desencontros responsáveis pelo aquilatamento da alma. Amar, nesse sentido, é o objetivo a se confundir com o caminho, pois trata do combustível a alimentar a vivência no plano da lapidação do espírito.

Se estamos aqui para amar, amemos, pois. 

Isso passa necessariamente por uma permissão que nos damos, uma licença poética para a felicidade. Só é possível amar quando abrimos nosso coração para as experiências do amor, ainda que contingenciais e momentâneas. Não importa a duração, pois o tempo é uma mera conjectura humana para dimensionar reações de dimensionalidade não compreendidas além da racionalidade. 

O medo de abrir o coração e de se permitir acaba nos congelando e alojando em quartos obscuros de fuga, quase sempre confundidos com sabedoria e parcimônia em "saber fazer escolhas" diante de rotas de sofrimento. Mas, ao menor sinal de carência e solitude (somos gregários), quedamos a pensar na (in)felicidade de não estar ao lado de alguém que amamos. 

Não, não se trata de "(in)felicidade em estar só", bem diferente. 

Somos paradoxalmente solitários em nosso sentimento gregário, dada a singularidade com que formulamos a sensação de ego apartado da experiência una. 

Ser uno e íntegro nessa solitude é tal qual essa foto ao lado: olhando para o alto percebemos o calor da Natureza que nos abraça e diz "estou com você nessa caminhada". 

Refiro-me à sensação de não estar ao lado de quem amamos incondicionalmente na experiência dual de compartilhamento afetivo.

Para além das relações de parentesco e de amizade, coleguismo ou de empatia, as relações afetivas de comunhão global (emocional, mental, sexual, intelectual etc.) nutrem a alma para o amor encontrar fértil terreno. Abrir, portanto, o coração para isso constitui uma ímpar experiência de plenitude. 

Quando o amor escolhe não escapamos ao inevitável: as idas e vindas que nos alojam no mesmo eixo de permanência do sentimento intacto. Passam os anos, somam-se as desavenças, mas, ao final dos ciclos, o que é é e, nesse sentido, tudo volta.

Permeiam-nos as separações e os atropelos mas, enfim, tudo volta no giro da roda que nos move para o mesmo ponto de uma espiral: os giros e vórtices vão para a frente, mas os encontros entre os nodos formando a constância de uma linearidade da perpetuação do sentimento...

Quando nos permitimos viver isso com alguém que comunga do horizonte de percepções e valores sobre o viver, é uma benção dos deuses. Esse é o vetor do que acima pontuei como uma diversão caseira despretensiosa e sem sair da vibração de plenitude e aconchego.

Um singular final de semana com a pessoa certa no lugar certo (lugar de alma) marcam a felicidade que não tem preço. Nada de televisão (desapeguei-me da minha mês passado), internet ou sequer música. Apenas (e que apenas!) Natureza em estado de graça ocupando seu lugar de rainha absoluta de nossas ocupações e atividades. 

Nada como dividir a sensação de renovação na cachoeira a limpar nossa alma e depurar o espírito cansado pela rotina do automatismo! Cada dia em que compartilhamos a Cachoeira do Falcão aqui no condomínio mostra uma novidade a ilustrar nosso caderno de experiências inenarráveis. 

Desta vez ousamos andar pela trilha do rio - uns 6 ou 7 km até a Administração do Condomínio - em uma aventura mágica e acalentadora, silenciadora da mente para uma verdadeira abertura ao desconhecido. 

Saímos por entre as pedras em direção ao leste, percorrendo, durante uma hora e meia, os contornos do condomínio, numa jornada espiritual de imersão no Todo. Não sabia ao certo o que nos aguardaria no decorrer do trajeto, mas a confiança deu a tônica do percurso de pura descoberta. 

Encontramos lindas borboletas azuis e aranhas em suas teias bem arquitetadas. Umas chegavam a cruzar as margens do rio por cima, fazendo com que tivéssemos que ter cuidado em nos abaixar para não desafazer o que a tecelã havia construído.

Seguimos o fluxo descendente da água a nos revelar o caminho. No coração, de início, aquela ansiedade em relação ao que não se conhece ou compreende. 

Aos poucos, contudo, tudo foi silenciando e o coração passou a comportar apenas a calmaria na confluência em relação aos mistérios que a Natureza, pouco a pouco, passou a compartilhar conosco. Encontramos construções abandonadas, que me levaram longe, aos henges antigos cuja construção ainda hoje é mistério. 


Cada curva do rio uma nova surpresa se esquadrinhava bem diante de nosso  olhos! 

Ao mesmo tempo observei a ação humana que motivou a Natureza a dar sua bem elaborada resposta nos processos erosivos de acomodação do solo para que a Grande Mãe pudesse seguir seu curso sem pedir licença. Ou, ainda, esculturas modeladas pela ação dos elementos em harmonia embelezaram o caminho ao longo do rio. 

Descomunal e grandiosa Natureza, que deixava para trás todo e qualquer vestígio de relevância do mundo de urbanidade, trazendo, com isso, aquela sensação maior de desapego em relação ao que não constitui relevância no plano de harmonia e conexão com o Todo. 

A racionalidade que tanto nos destroçou em termos de descompromisso com o outro nesses idos de pós-modernidade sequer constituiu lembrança durante esse passeio nutridor de egrégora. 

Em seu lugar veio a sensação de bem-estar em meio à paz necessária para se reelaborar uma vida de desalojamento e atemporalidade, o essencial para a desprogramação mental em rede que se calcificou em nossas mentes ao longo dos vinte últimos anos de artificialidade confundida com vida. 

Ao final do dia e do passeio, as luzes cederam espaço à transmutação operada pelo fogo ardente imanado pela dança sibilante das salamandras. Não precisa muito para uma fogueira: um pouco de pedras colhidas por aqui mesmo no jardim, um buraco para assentar o fogo, gravetos e cascas providos pelas árvores do quintal. E muita inspiração do ar que alimenta o fogo!

Enquanto percebia a dança dadivosa, os pensamentos já desacelerados voltavam-se para a certeza de estar no caminho certo. 

O sinal? Sim, a prosperidade da alma a imantar no plano material tantos resultados agradáveis. 

Passeios, fogueira, horta, conversas, tudo flui quando estamos de bem com nossa chama interna. 


A horta não passou incólume e, juntamente com todo o rol de vastas experiências agradáveis compartilhadas ao lado de quem se ama verdadeiramente, 
deu o tom de diferenciação em relação ao cenário de benignidade. A escolha das verduras, a forma de plantio, o horário, tudo fluiu no consenso e no diálogo. 

Agora é só esperar o crescimento das plantas de acordo com o ciclo da Mãe Terra, a verdadeira forma de organização que está longe, bem longe do calendário gregoriano artificial, forjado na efêmera e ilusória tentativa humana em controlar a sazonalidade. O ciclo lunar que me guia em meu ventre é o leme desta saga maravilhosa de comunhão com a terra rumo à subsistência simples, saudável e definitiva. 

O mais interessante em tudo isso diz respeito ao lapso de tempo, pois a intensidade de toda essa atividade pode dar a entender se tratar de um período de tempo longo. Mas não. 

Toda essa intensidade feita em singelos dias do final de semana em que ficamos em televisão, internet e música. Apenas ouvindo o coração um do outro e nos embalando pela voz interior a nos coligar à Natureza que tão amorosamente nos brindou com sua abundância de propósitos. 

Não precisamos de muito para a felicidade: apenas nos predispor a ela a partir da abertura docilizada de nossos corações, ouvindo o que a alma murmura como norte a nos elevar! No fluxo e refluxo da vida, tal como as idas e vindas das sazonais águas de um rio, reside a constância em se contemplar a vida com sabedoria...Bem-vinda, Natureza! Gratidão por tudo a compartilhar!




quarta-feira, 22 de março de 2017

Fazendo as pazes com o próprio coração...

"O que nos cabe é decidir o que fazer com o tempo que nos é dado" - sempre que assistia à saga Senhor dos Anéis, lembrava-me dessa providencial frase do mago Gandalf, ao conversar com Frodo sobre o destino de Gollum. Por mais que achasse bela e enfática a sentença, muito ainda me distanciava e - em muitos muitos distancia - da internalização da importância disso para a tomada de importantes decisões em relação à vida e às escolhas. 

Hoje fui - como sempre faço - tomar um modesto banho na cachoeira, aproveitando para expurgar algumas energias que, até então, ingenuamente achava serem as únicas dentro de mim. Fiz meus ritos, pedi refúgio na mata densa e úmida, entrei e percorri o mesmo lindo caminho.

Escolhi um horário muito bom, podendo usufruir daquele santuário sem que ninguém estivesse presente. Conjurei a egrégora, arrepiando-me em cada momento de recitação emocionada do ritual. 

Lancei-me na cachoeira e ali, hoje, mais uma vez e de outra diferente vez, pude sentir a força da Natureza impregnando minha alma de plenitude para produzir rupturas em minha alma. 

Aos poucos me peguei me perdoando e perdoando tantas pessoas que, um dia, julguei terem aviltado minha alma. Uma espécie de mantra foi entoado, ao mesmo tempo em que imergia na água forte e fria, sentindo-a penetrar por cada ponto longínquo do meu corpo. 

Nesse processo, percebi que o melhor que podemos fazer por nosso coração é ficar em paz em relação ao que sentimos pelas outras pessoas: afinal, o sentimento é nosso. Podemos amar e continuar amando, independentemente de estarmos - ou não - com a pessoa. Que podemos respeitá-la, admirá-la, trazer um pouco dela para nosso coração, mesmo que o convívio tenha se rompido. 

Quanto mais a água limpava as arestas de minha vida, mas ampliava a lista de pessoas com as quais precisava me compor. Já estava nesse processo a algum tempo, procurando retomar contato com algumas pessoas que me eram caras e estimadas. Consegui, nesse sentido, conversar por alguns minutos ao telefone, enviar e-mail ou whatsapp. Mas a lista se ampliava...

Um estalo, enfim, pegou-me de sobressalto: a impermanência que passei a sentir dentro de mim. Mesmo falando nesse velho clichê de impermanência e da finitude, acomodamo-nos a entoar o mantra da efemeridade sem agregá-lo incondicionalmente às nossas vidas como constância. 

Ficamos nas conversas falando em aproveitar cada minuto da vida, enchemos a boca para falar em qualidade de vida, curtimos posts de alimentação saudável, mas somos incapazes de promover rupturas... 

Comemos papel crepon e isopor, trabalhamos 15 horas achando que isso mudará o mundo. Não muda... O que muda é nossa alteração interna, para que vejamos a vida e a possamos experienciar de outra maneira. De uma forma em que firamos menos o outro e a nós mesmos, de uma forma em que silenciemos o ego para ouvir mais. 

Em investir nos momentos como esses da cachoeira, de limpeza e conexão. Não temos o amanhã por certo, mas somos arrogantes o bastante para fazer planos certos, na tentativa, talvez, de driblar a única certeza que temos de algum amanhã.

Enquanto tudo segue o fluxo da tentativa humana de contar a inefável impermanência, sigo plena na percepção do que me é relevante no viver. Nada além de focar o instante efêmero, sem passado ou futuro para especular. Os momentos são o segredo. Perpetuá-los é tentar sufocar uma criança em descoberta de sua respiração. 

Plenitude, gratidão, ode à Grande Mãe Natureza, rainha do que é maravilhosamente mundano e imanente. a divindade está aqui, no Ar, na Água, no Fogo e na Terra, em cada voo solitário de um pássaro, em cada flor que desabrocha. 

No agradecimento. No estar, simplesmente estar.


domingo, 19 de março de 2017

O altar pleno da Natureza em expansão

Desde que me mudei para uma nova casa tenho experienciado os momentos mais mágicos e inexplicáveis de minha vida na Arte: uma espécie de abertura de portais, permitindo o acesso a uma série de aventuras e sincronicidades que me colocam em constante júbilo. 

Sonhos, premonições, desdobramentos, encontros providenciais com as mais distintas almas, tudo fluindo numa teia de surpresas (?) que trazem elevação e aquela sensação de paz constante, mesmo diante dos solavancos que vivenciamos durante a existência. 

Dentro do condomínio existe uma cachoeira de fluxo intenso e forte, um santuário de profunda conexão com os ritmos da Natureza. Ali os elementos se harmonizam em um bailado ímpar de beleza e devoção. 

Segue-se uma trilha que se inicia na estrada, com um portal de onde é possível saudar a Natureza e pedir refúgio para a entrada na mata. O microclima é sui generis ali, pois ainda que esteja calor, a umidade e o frescor já anunciam presença logo de início. 

O rio é a própria estrada, refrescando os pés de quem se permite retirar os calçados para sorver a benignidade que exala do contato entre terra e água: pequenas pedras massageiam as solas, enquanto o Sol refletido na água ilumina nossa trajetória até a cachoeira. 

Enquanto caminhamos, é possível esvaziar a mente e silenciar o espírito tagarela, aproveitando o embalo da respiração para oxigenar os órgãos internos e acalmar os pensamentos do dia-a-dia. Comecei um hábito que quase todos os dias chegar da rotina de trabalho, colocar o biquíni e partir para uma purificação na cachoeira. 

A água refrescante acaricia o corpo eventualmente enrijecido pelas tensões da vida. O fluxo cai em uma banheirinha bem generosa, onde é possível ficar horas e horas apenas aproveitando e sendo grata à benignidade de Anu, a grande Mãe. 

Muitos condôminos vão ali para meditação e socialização, em um espírito de comunidade muito bom. Levo meu japamala e fico ali, mantrando, meditando e silenciando, o que tem feito muito bem à alma. 

Os rituais ali são muito poderosos e belos! isso porque a cachoeira fica numa espécie de fenda, a permitir que Sol (Fogo) e Vento (Ar) venham comungar com a Terra e a Água, na diatônica da harmonização para a abertura do círculo. 

Em uma transmissão de legado tempos atrás, o clima estava tão maravilhoso com minha irmã-na-arte que a borboleta azul residente da cachoeira veio pousar em cima da minha cabeça, significativo sinal de receptividade. Prova disso foi o dia maravilhoso que passamos juntas, amarrando ervas de proteção e as consagrando para a Grande Deusa. Que dia mágico e feliz!

Na cachoeira é possível consagrar instrumentos, purificar jóias e cristais, além, claro, da profunda limpeza feita em cada ponto do corpo e das camadas anímicas componentes do ser. Uma verdadeira varredura de energia pode ser realizada por meio da conexão com a água. 

Quando não é a cachoeira é a chuva a cair no vale a nos brindar com o bálsamo do frescor. Um dia desses, ao som de Loreena Mckennitt, pedi à chuva que levasse embora os nodos ainda presentes na administração interna de minhas mazelas. 

Dançando e rodopiando com a água a percorrer meu corpo senti-me livre de tudo o que não me pertence, desalojando-me até mesmo de mim para ser a própria água quedando ao solo. Refeita, senti a força da criação presente em mim, empoderando-me para novos desafios que a senda mágica oferta para o aquilatamento da minha alma. 

Isso tudo sem deixar de mencionar as lindas araras, os tucanos e saguis que passeiam, para lá e para cá, alegrando a vida e tornando possível pensar que a vida está para além da mesmice de uma programação mental intensa, que nos assola e avilta se não tomarmos o cuidado de acalentar a alma com a reserva de amorosidade que somente a Mãe Natureza é capaz de nos oferecer graciosamente. 

Dias de plenitude! 

Sim, sei que sempre volto a falar neles, haha.

Mas, agora, estou sendo agraciada com o aconchego deles em minha escolha de morada. Aqui da janela posso apenas olhar para o horizonte e suspirar, esquecendo de tudo que não é vital, para simplesmente me entregar à maravilhosa experiência da liberdade. 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Mudanças, enredos e magias na casa abençoada!!

Fim de ciclo gregoriano bem significativo! 

Mudança de ares, mudança de lares! No coração o sopro de novos ventos, numa saga nômade que já faz parte da minha vida, por ser, em si, um dos grandes temas da minha vida. 


MUDAR! MOVER! CRESCER!


Decidi partir, ainda mais, para o mato, pois adoro estar próxima à Natureza. No caso, agora, Ela adentra minha casa, brindando-me, todos os dias, com novos espetáculos, desde o dia em que saí da casa antiga... 


Minha amiga Rosi ajudou-me com a mudança, desde o primeiro momento em que o caminhão saía da rua numa noite de sábado, até o último minuto de domingo, quando, certa de eu me encontrar bem instalada e segura, voltou com sua família para seu lar. A ela e à sua família vai minha gratitude, porque estiveram presentes o tempo todo em que eu precisei.


Sozinha em uma casa de dois andares, um chalé. 


E agora? Agora é lidar com os novos desafios, dentre os quais as mordidas dos meus labradores no dia 25, quando entrei no meio deles para apartar uma briga e levei várias mordidas na mão e coxa direitas. 


E agora? Agora vamos lá! Sem problema! 


A vida é assim, o mundo é assim e os desafios são assim. Para serem vividos. Na primeira mordida (mão), meu irmão me levou ao hospital, juntamente com um casal de amigos que tinham ido para lá para Yule. Nada de Yule, mas, hahaha, comemos loucamente antes do entreveiro. Nesse dia, nessa noite, creio, algo começou a mudar em mim. Ou, ao menos, algo latente começou a vir à tona. 


Na segunda mordida - mais séria, quase na femoral, rendendo 09 suturas e uma rouxidão digna de um manto de Morrighan - estava sozinha em casa e, mais uma vez, fui apartar os cães. Só que fui mordida pelo que mais amo, o Meladinho. 


E agora???? Ó!!!!


Agora - o agora - foi eu simplesmente pegar a chave do jipe e ir até o hospital. Simples assim, sem drama, sem "e se", ou seja, sem julgamentos. Aproveitei até a receita de antibiótico, sô! Uma benção. Tudo calmo, fui bem atendida, vacinas tomadas. Tudo certo. E o retorno para meu lar, mais calmo ainda. 


Mas dentro de mim...MUDANÇAS!!!


Meu pai e a esposa estiveram comigo nos almoços, algo que curti muito. Sempre que via a maletinha térmica, ficava imaginando o que tinha de almoço. Que delícia ser cuidada e me deixar ser cuidada por meu pai! Incomum a sensação de integração e harmonia. reaprendi a usar a mão esquerda, a andar mais devagar e, com isso, estou até mastigando e comendo mais devagar. 


"Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso"... bem por aí.


No mais, já estava sem televisão por uns 3 meses e cá continuo. Agora, também, sem internet. E sem celular TIM, pois o local da casa não pega. Que legal! Ares de mudança, pois fiz as pazes com a VIVO e vivencio o melhor dos dois mundos: meu titim e meu vivo para falar com o mundo. 


Vivo na benignidade das músicas da playlist do lap top, quase todas celtas, lounge ou zen. Trilha sonora melhor é impossível. Elas me elevam, alojam para um lugar dentro do meu coração em que estou segura, plena e em paz. Sem atropelos. Sem julgamentos. Sem "mas", "e se" e "quando".


Acordo com a aurora, pois não coloquei nem vou colocar cortina. O vasto verde da mata é a melhor cortina, não para apartar, mas para harmonizar os ambientes dentro e fora da casa. Estou voltando a me reger por meu relógio biológico, bem como o romper da alvorada a trazer os cantos dos inúmeros pássaros, bem como a revoada de tucanos passando bem em cima da casa. 



Os gatinos estão felizes em sua enorme suíte, vivendo bem ao meu ladinho, no cantinho deles. Com segurança, torres para afiar unhas, catnips e tudo mais... Essa noite (04) tive um espetáculo sem precedentes em minha vida. Ali à direita é uma serra onde posso avistar os relâmpagos durante a noite. Uma particular e natural queima de fogos, com a vantagem de não incomodar os ouvidos sensíveis dos cachorros e dos gatos (eles sempre sofrem). Fiquei acordada parte da noite escutando o som da chuva, vendo a paisagem e me sentindo bem demais, em júbilo!

Estou revivendo dias de benignidade, em que me sintonizo tanto com a Natureza que já escuto o sibilar da cantiga das copas das árvores em sinfonia e harmonia, sempre ao som do vento que lhes acaricia a fronte. 


Que maravilhosa sensação de viver no meio disso tudo! 


Quando acordo, celebro a Deusa e o Deus, reverencio minha ancestralidade no altar e preparo meu desjejum, não sem antes olhar pela janela da cozinha, para ver se os amigos saguis e macacos-prego estão lá fazendo artes. Os labs estão felizes, os gatinos estão felizes. Minha família está feliz. Cada tribo em seu espaço e todos nós em torno da egrégora de força e felicidade. 




Estou relendo livros já esquecidos, revisitando algumas questões que estão adquirindo outra significação por agora. Uma percepção menos dura e severa da vida e em relação a mim. Aos outros. Apenas a leveza de seguir no fluxo e na confiança de estar num movimento que me eleva, marca e depura (não no significado crístico, mas na simplicidade da água, que tudo leva).


Focando mais minha alimentação também. A necessidade de me nutrir com os ingredientes certos, no momento em que minha alma e meu organismo desejam. Fazer a minha comida, meu iogurte!!! 


Que beleza comer uma granola com mamão e iogurte feito em casa! Leite fervido no meu fogãozinho de duas bocas (para que desejo um de 6 se apenas eu estou ali?). Maravilhoso beber água no filtro de barro novamente. Tempos felizes de outrora que estão de volta, ainda mais intensos!


Já sei os horários do lixo orgânico, do seco, bem como entrei no grupo do bairro. Tudo artesanal e orgânico. Uma vida de calmaria, oásis no meio da tribulação da urbanidade. Tudo isso é o que basta para que eu seja e esteja feliz a todo o tempo! 


Com isso, sei bem ao certo que meu retorno não será mais possível. O mundo não será mais o mesmo a partir de toda essa vasta experiência que tem me impelido à jornada de crescimento, bem como de gratidão. Hoje olho para os processos que ficaram para trás e agradeço. Tudo agradeço. Sou gratidão. 


A casa é o nosso local de descanso, conforto, segurança e de calmaria. O ventre da Grande Mãe, que diariamente se abre para que nos lancemos à trilha de nosso destino. ao final do dia, ela nos conforta, lambe nossas feridas e nos encaminha para o repouso necessário às novas batalhas. Céad mille fáilte!





terça-feira, 22 de novembro de 2016

Liberdade, Arte e Soberania

Quando lemos - a partir do paradigma "oficial" - as histórias deturpadas sobre bruxas más que tentam corromper as princesas, logo nos deparamos com um retrato caricato: velhas, corcundas, verruguentas, rabugentas, antissociais e... solteiras

A "velha bruxa" invejosa sempre deseja diluir os sonhos casamenteiros das princesinhas adormecidas, que esperam inertes pelo beijo de despertar. A partir daí, um mundo novo se apresenta para as noviças, que supostamente alcançarão o ápice de suas vidas na legitimidade que lhes confere o garboso príncipe beijoqueiro. 

Antes do beijo, princesas imaculadas...

Depois do beijo, a felicidade que só faz sentido se existir um príncipe que torne a existência da princesa factível. Absurdo? Até uns tempos atrás, inspirador de gerações de mães que, desejosas em recriar a fábula, transformavam suas filhas em princesas resignadas, condicionando-as ao caminho do automatismo emocional...

Os contos de fadas e a mitologia celta operam no contra fluxo desse modelo estereotipado de final feliz, sendo até mesmo considerado pouco sangrentos, por reunirem elementos excêntricos de narrativas. Um dos ingredientes principais - revelador dos mistérios e segredos mais abscônditos - reside na total inversão de perspectiva quanto à aparência: nas histórias celtas, usualmente a beleza guarda perigos, enquanto a feiura esconde segredos revelados usualmente por uma quebra de algum encantamento.

Vejam a narrativa do Casamento de Gawain, por exemplo, uma história conhecida também pela Soberania (Ou Sir Gawain e a Dama Abominável), na qual o rei Arthur é concitado por uma velha feia a romper um feitiço, não se antes prometê-la em casamento a um de seus cavaleiros, Sir Gawain. Na noite de núpcias em que a horrenda mulher se apresenta para ele, deve Gawain decidir se deseja tê-la bela durante o dia e feia à noite ou o contrário. 

O cavaleiro, resignado com seu destino selado pelo monarca, fala para a anciã que ELA poderia escolher o estado que melhor lhe aprouvesse e, a partir de tal fala, sem perceber e de boa-fé, quebra o encantamento que um bruxo lançou sobre a anciã - na verdade, uma princesa. Caso clássico de encobrimento por intermédio da ilusão da aparência, mote das histórias celtas.

Outro ingrediente importante - e ponto de reflexão dessa postagem - diz respeito à posição das mulheres nos contos celtas. Ao contrário das histórias tradicionais europeias em que a mulher é submissa, ingênua e fadada ao destino de se coligar ao homem para compor a completude, os contos celtas apontam heroínas protagonistas de suas histórias, que não demandam complementariedade binária para serem íntegras.

As deidades celtas - Morrighan, Macha, Ceridwen, Maeve, entre outras - estão longe de encarnar o papel de acessoriedade com que elaborou um arquétipo de mulher empoderada. 

Morrighan deita-se com Dagda na vau do Shannon e abençoa os Tuatha em uma das batahas contra os invasores do Eire. Enamora-se de CuChuláin e, diante da ofensa contra ela irrogada pelo guerreiro, envia o séquito de corvos para se alimentarem das vísceras do herói ferido em sua última batalha.

Macha vive com Crunniuc até o momento em que o marido dá com a língua nos dentes e revela ao Rei Conchobar que a esposa corria mais que os cavalos reais. Exposta ao ridículo e obrigada a correr estando grávida de gêmeos, a deusa não perdoa o marido: retira-lhe todas as bençãos (colheita, fartura, abundância e felicidade), amaldiçoa os homens do Ulster e simplesmente vai embora com seus filhos.

Maeve, a rainha plena, tanto se deitava com quem bem entendesse, como, também, era o cabeça do casal, pois no casamento celta que liderava a família era o consorte que trouxesse um dote maior, independentemente de ser homem ou mulher. Ceridwen era a deusa anciã, guardiã dos segredos do caldeirão do conhecimento, que engravida e dá à luz a Taliesin, uma das personificações de Merlin, sem ser fecundada por um encontro carnal com um homem. 

São muitas as histórias de bem sucedidas "solterices" e não é sem propósito que, na maior parte dos contos e das histórias celtas, as mulheres constroem suas sendas na solitude, sem o vínculo matrimonial, a despeito - como no caso de Ceridwen acima narrado - de exercitarem, por exemplo, a maternidade.

As "bruxas" solteiras, nesse paradigma, dão o alerta para o véu ilusório da aparência de beleza que se encerra por trás das historietas medievas: finais felizes de nulificação do feminino, que soterra a sabedoria ancestral encoberta pela feiura da bruxa má. É um recado iniciático: desnude o véu da ignorância sobre as questões do mundo físico que a senda dos segredos etéreos se revelará para quem ultrapassa a fronteira do que é visível apenas para os olhos físicos. 

Dito de outra forma: da transcendência da obviedade que a aparência física mostra reside a sabedoria do conhecimento do oculto e do sagrado, tangível apenas pelo acesso que os olhos da alma revelam. O vórtice frontal aloja fisiologicamente - entre as sobrancelhas - a glândula pituitária que, associada à pineal, concentram enorme capacidade cognitiva em nível de processos intuitivos conscientes, um bom começo para se falar em transcendência do visível.

Laurie Cabot em seus dois livros (O despertar da bruxa em cada mulher e O poder da bruxa), compartilha técnicas interessantes de acionamento dessas glândulas. Batidinhas leves no meio da testa, com o polegar indicador, dedo médio e anular unidos também produzem um despertar de consciência do terceiro olho, que se abre, aos poucos, para perceber os processos quando nossos sentidos basilares não conseguem. Automassagem com unguento ou óleo essencial de sândalo ou alfazema produzem um efeito catalisador da abertura subconsciencial, sendo de grande valia para a abertura ou conexão. 

Quando nos permitimos "olhar" com os olhos da alma o que se nos apresenta, começamos a observar detalhes passavam outrora despercebidos, como, por exemplo, no meu caso, tenho me dedicado - ao longo da trajetória - a me observar melhor nessa questão de lidar melhor com a liberdade e soberania, o bastante para não mais cogitar em sequer permitir qualquer arranhão em minha essência, sobretudo, nas escolhas em termos de afetividades.

A questão é bem simples: não existe uma regra para a vida em liberdade na Arte e no Sagrado Ofício iniciático. Conheço bruxas solitárias, bruxas noivas, enamoradas, viúvas (hahaha, boa parte da minha família materna) e casadas. Também conheço bruxas solteiras, mães solteiras. Cada uma com seus desafios, bençãos e propósitos, levando-me a piamente crer - por experiência própria - que o caminho de cada uma lhe é inerentemente peculiar, não existindo uma lei - ao contrário das histórias infantis - apregoando que "bruxas não se casam", ou, ainda, "bruxas não têm filho/as". 

Esses "mantras de certeza" trazem cobrança e violação à alma, além de impedirem a experienciação de novos horizontes. Creio que estamos aqui de passagem, nessa que é uma, dentre várias possíveis existências e, por conta disso, a viver a senda, com todos seus desafios, é essencial para a lapidação da alma. Com ou sem alguém. Mas sempre na plenitude de percorrer com dignidade o caminho.

O caminho é o objetivo, estar ou não com alguém é a contingência. Para a mulher empoderada, a "bruxa" plena e consciente de seu poder, percorrer com liberdade e soberania o caminho é a única forma de se conhecer, de compreender suas sombras e seus desafios e, com isso, galgar voos cada vez mais altos. 

Compartilhando minha experiência, gosto de viver na solitude, sinto-me extremamente bem no aconchego do meu lar e na companhia de meus familiares. Ao elaborar um relacionamento, não busco completude de alma, pois me encaro como plena, não me faltando pedaço. O outro não é uma muleta para mim e, dessa forma, procuro manter sempre a autonomia - não porque seja uma meta, mas porque minha alma é assim. 

Tive relacionamentos que iniciaram tal qual as fábulas das princesas, desnudando-se, pouco a pouco, para situações em que minha boa-fé foi colocada à prova, bem como minha sacralidade. Findaram-se, mostrando que, para a alteridade, pode ser complicado efetivamente viver uma senda ao lado do feminino liberto. 

Nesses casos, meus olhos da alma me mostravam o que eu mesma, com os olhos físicos, recusava-me incessantemente a ver. Pode demorar um pouco, ou, então, até mesmo várias eras e existências, mas, em algum momento, a sensação de volta à morada da alma passa a compor a deliciosa melodia da plenitude. Eis o segredo: sensação constante de bem-aventurança.

Quando passei a sentir isso sistematicamente, em cada rompimento de um relacionamento que me ocupou durante quase três anos, percebi o quanto é valioso não lutar contra minha alma, mas, antes, ouvi-la.

Percebi isso numa tarde de paz em que estava no yoga, um caso interessante. Estava em casa e iria faltar ao yoga, por estar cansada. Mas, a certa altura, percebi que estava me sabotando e, com isso, levantei-me e segui para minha aula. Levei meu celular comigo, e, depois da aula liguei para meu então namorado. 

Muito gentil e atencioso, ao final, deu aquela facada: disse que meu celular havia tocado e que eu não precisava fazer aquilo... Que eu estava mentindo, que não estava no yoga. Em um impulso, retornei à sala e pedi para minha professora falar onde eu estava. Nem mesmo assim ele acreditou. E, com isso, foi-se o fim de uma história que, a bem da verdade, lá atrás, sempre me mostrou ser fadada a esse retumbante fracasso.

Falta de confiança. Falta de escuta e de compreensão. Talvez uma projeção da conduta dele, não sei, pois o retrospecto dele - não meu - acena para desdobramentos de verdades. Mas não se trata disso e, naquele dia, aos 43 anos de idade, descobri que sou eu quem deve decidir mudar a vida, e não a concepção das pessoas sobre a vida. 

Fiquei tão envergonhada em pedir para a professora de yoga fazer isso e me senti tão constrangida com minha fúria em expor minha vida para minhas colegas - não por elas, que são uns amores, mas por mim - que decidi não mais lutar. Não mais aparar arestas que sempre estão dirigidas a mim e à minha plenitude. 

Eis o sentido de ser livre: não me submeter à desconfianças de quem é inseguro com sua própria existência. Não devo provar inocência diante de um Tribunal do Ofício da Santa Inquisição androcêntrica, não mais. Esse incidente só revelou, ao final, o que estava embaixo do tapete e que apenas eu não desejava ver: o quão custoso é para minha plenitude e paz de espírito me colocar à disposição para a lâmina do algoz. Não serei vítima, mas protagonista da minha liberdade, corolário da soberania tão incompreendida pelo masculino atávico, que não se reelabora ou reinventa...

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Dia de Super Lua, dia de renovação!


A noite hoje promete! 

Hoje teremos uma Super Lua como nunca mais foi vista em quase 70 anos (1948)! Em uma super lua como essa, o perigeu lunar - ponto da órbita mais próximo da Terra - coincide com o plenilúnio, acarretando um aumento visual entre 10% a 30%. 

Um espetáculo!

A partir das 10h53, ela ficará um pouquinho fora de curso, ao mesmo tempo em que fica cheia (aqui por volta de 11h22), entrando em Gêmeos às 22h24. Como não poderia deixar de ser, o plenilúnio sempre marca a expressão máxima de potencial a ser explorado em termos de ação, mudança, movimento!

Alojada em gêmeos, lembra-nos da comunicação, de nossa capacidade de transmitir ao mundo nossos pensamentos, verbalizando as ideias e opiniões. Império ao ar e do mental, a combinação lua cheia e gêmeos tanto traz a facilidade de expressar, como a inquietude lunar aliada à pulsação geminiana. 

Assim, tanto podemos ter muita facilidade para expressão de pensamentos no dia de hoje, quanto entrar em confusão pelo excesso verborrágico. As emoções estão para lá de exacerbadas nessa segunda-feira, dia 14 de novembro, dia de Super Lua, recomendando a consciência no processo de oitiva interna. 

Dia maravilhoso para lunações, celebrações, ritos e potencialização de pedidos, pois o ar geminiano leva aos deuses e às deusas nossas mensagens e nossos pleitos. Ainda é véspera de feriado, viabilizando, assim, o aproveitamento máximo da noite! 

Com isso, desejo a todos e todas uma segunda-feira fantástica!

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Meus tesauros de felicidade: a arte do desapego

Fonte da imagem para créditos: http://www.frasesparaoface.com/wp-content/uploads/2015/02/pratique-o-desapego.jpg
Finalizo no domingo meu recesso na faculdade, uma espécie de semana sabática na qual alunos, alunas, corpo docente e administrativo recarregam as baterias para a finalização do semestre (do ano até! Como 2016 passou rápido mesmo...). 

Estou em casa, aproveitando a ida do jiponguinha para a oficina e dando prosseguimento à minha semana de desaceleração, componente integrante e vital dos meus tesauros de felicidade.

Tenho percebido esse ano que a seca não conseguiu ceifar o jardim de ervas, a seguir seu ciclo, firme e forte, provendo-me com tanta dádiva: usando comedidamente a água -  tivemos racionamento aqui - consegui manter as plantinhas nutridas e floridas, mesmo com todo contraste que o clima do cerrado nessa época oferece. 

As próximas etapas serão os retornos da compostagem e da reciclagem, pois ainda não experimentei as técnicas nessa nova casa. Na antiga casa, fiz uma composteira de chão, onde as minhocas fizeram a festa da oxigenação. Com isso, plantei e adubei uma amoreira, uma bananeira e um mamoeiro, destruídos pelos labradores maluquetes.  

A reciclagem tem sido feita, sobretudo, com o reaproveitamento das garrafas de suco de laranja que tanto amo. Minha geladeira está abastecida com muita água, bastando abrir a porta e observar o tanto de garrafas de plástico, que poderiam estar no lixão, mas que são úteis demais para nós.

Aliás, essa birra de plástico e de consumismo está atingindo patamares bem nítidos em mim. Recuso plástico. Lembro-me até, num ímpeto de desespero diante do plástico, de ter recusado um presente que meu irmão queria me dar: uma garrafinha plástica com um compartimento para chá. Ou seja, bem diferente, pois tanto acomoda água como chá, quente ou gelado.

Quando vi a garrafa - nada tem a ver com meu irmão oferecer - tive um surto de "plasticofobia", pois assustei e neguei. Estou fora do plástico sedutor (canecas, garrafas, copos, compartimentos, a vida se plastificou intensamente nos últimos tempos), tentando sensibilizar, ainda, colegas de trabalho, para que adotem a garrafinha. 

A cultura do consumo de canecas e repositórios bonitos é intensa e covarde, pois os formatos, as cores e as dimensões acariciam nossa mente-que-nem-sente que consome a pedir "mais, eu quero mais plástico". Evito sacola, optando pela mochila ou pela sacola reciclável. Mas, quando preciso de saco de lixo para banheiro, ao invés de comprar aqueles fardos, uso as sacolinhas armazenadas.

Outra maneira que encontrei de reciclar consiste em repassar as roupas que, por ímpeto, adquiri, nunca ou pouco tenho usado. Não se trata de doação para instituição - esse é outro tesauro - mas sim de um mercado de trocas, pois sempre estou ganhando algo e, portanto, sinto a necessidade de dar em troca. Compartilhar. Ganho tanto mimo da galera no trabalho que poderia abrir uma loja com tudo que lotaria!

Brinco, colar, bata, lenço, casaco, caneca, corujinha: tudo muito lindo e amoroso, pedindo, de outra sorte, o retorno ao Universo provedor. Falando em brechó, uma excelente maneira de não estimular a indústria têxtil, pois a aquisição de uma roupa usada retira da linha de consumo a aquisição de outra recém-saída da fábrica. 

Existem excelentes opções de brechós aqui em Brasília. 

Vou muito ao peça Rara, que tem uma proposta muito legal de movimentação e também de doação. Podemos entregar as roupas não selecionadas para que eles possam encaminhá-las às instituições necessitadas no DF. As lojas ficam nas comerciais da 307 sul, 408 sul (feminino, casa e infantil, além de outra masculina), 204 norte (feminino e infantil) e Águas Claras (feminino e infantil). 

Você se cadastra e pode levar as peças (dependendo da quantidade, precisa marcar o dia, ou, então, aguardar o encaixe, mas nada demorado não). O valor é recebido em espécie, depósito ou convertido em crédito para ser gasto na loja. Olha que legal a cadeia de sustentabilidade!


Fonte: https://2.kekantoimg.com/zB3gz4F016eXpXOB9u7JFJPwG_s=/fit-in/600x600/s3.amazonaws.com/kekanto_pics/pics/994/33994.jpg





Na 307 norte tem o Lixo Valioso, um lugar muito diversificado também. Fica num subsolo, bem underground, legal demais. O valor das peças é bem justo e honesto e você pode passar o dia todo olhando que não conseguirá exaurir o potencial do lugar. 

Além deles, a moda agora em Brasília é a feira múltipla, que reúne brechó, foodtruck, sustentabilidade etc. Nas entrequadras direto temos notícia de uma, geralmente nos finais de semana, momento em que a feirinha da Torre de TV também abre, com opções artesanais.

As roupas e os sapatos e sandálias artesanais são um ofício geralmente transmitido de geração para geração. Converso muito e descobri isso. Ou seja, sustento de famílias, por intermédio da confecção de peças únicas, exclusivas, ao contrário da padronização industrial, que nos aloja como robôs em uniformes. 

Trabalho belo!

Tem uns 10 anos, por aí, que minha arara acomoda roupa usada e artesanal, sobretudo tay day (aquele efeito borrado que ainda arriscarei fazer com água sanitária, tinta e barbante). Além disso, amo as botinhas da Torre, pois duram, são confortáveis e protegem os pés no dia-a-dia das atividades, sem deixar de mencionar que são estilosas mesmo! Lembram o bom e velho estilo bretão de ser, hahahaha.

Já que não posso ser bretã e andar a cavalo, optei por trocar meu carro urbano pela proposta de um jipe Bandeirante a diesel, mais eficiente em termos de sustentabilidade. "Nossa, não é muito velho?" - ouço sempre. Um carro. Estamos falando de UM carro com longevidade, fabricado para durar, não carro playmobil.

Vida útil de motor que pode perpassar minha própria existência, deixo de retirar da fábrica um carro novo a poluir o meio ambiente. Ainda mais aqui em Brasília, onde a média é 1 carro para três habitantes - apesar de eu sempre ver, a começar de mim, 1 motorista no carro. 

Quando buscar o jipe na oficina vou adotar um critério misto e, em alguns dias da semana, descer de baú, pois adorei a experiência de prestar mais atenção à vida e às paisagens. 

Investimentos? Bicicleta para ir ao yoga perto de casa, que também traz acréscimos, já que voltarei a fazer minha comida e, com isso, não terei tanto gasto na rua. Uns barris para começar a coletar água da chuva, a despeito de não estar sequer chovendo (um dia choverá cântaros, tenhamos fé!). Amaciante feito em casa: tenho saudade de quando fazia o meu, com a fragrância que me dava na telha.

Aliás, que semana agradável mesmo, cozinhando e voltando a me nutrir: o corpo agradece e a alma canta de suavidade! O foco, por agora, é continuar na senda quando as aulas retornarem.

Mas, claro, sobretudo, para que tudo isso dê certo, necessário um grande desapego do dinheiro, bem como das comodidades que ele oferece. Nesses dias sem televisão, em que apenas leio, medito e silencio, percebo o quanto é importante alimentar o espírito de simplicidade, pois dela exsurge o despojamento...

Eis uma síntese do tesauro desapego, elaborado progressivamente, sem dogmas, violência ou opressão à alma. Sendo apenas eu, nas idas e vindas dos ciclos que sempre se renovam dentro de mim!

domingo, 2 de outubro de 2016

Meus tesauros de felicidade: de carona na sustentabilidade, cada qual faz sua parte

Esses últimos meses tenho desacelerado: compreendido a necessidade de focar minhas prioridades, dentre as quais, o retorno gradativo à alimentação saudável, orgânica e fresquinha, necessária para a sensação de pertencimento à Gaia e aos benefícios que ela nos traz. Perto daqui de casa tem a Feira do Produtor, onde todo sábado uma comunhão de pessoas se forma em torno desse bem comum: natureza.

Lá é um espaço bem democrático, com todos os credos, todas as tribos e as pessoas mais diversificadas e lindas que em um lugar podemos encontrar. Sacolas recicláveis, sandálias de tecido, brincos, piercings, alargadores. Tudo em um lugar só, coexistindo com as famílias em seus carros importados, celulares caros. 

Que legal! 

Independentemente de qualquer estereótipo, observar o fluxo dessas pessoas em relação à consciência sobre alimentação traz um baita alento. Quer seja na senhora japonesa que vende sushi fresquinho, ou na banca de caldo-de-cana gelado, ou, ainda, na senhora do leite na garrafa pet - que faz um queijo para lá de fresco e de delicioso - tudo exala o frescor de uma vida alternativa ao sistema que tenta sucatear nossas almas.

Sim, existe um contra-fluxo! 

Uma contra-cultura alternativa, a motivar quem tem sensibilidade suficiente para perceber que o mundo está demandando uma conscientização coletiva, sob pena de simplesmente explodir de tanto consumo desenfreado e predatório. E ela começa aqui, dentro da gente!

Nessa vibração, certas revoluções são silenciosas, partem de um movimento interno de incômodo com a situação, ou, ainda, da simples necessidade de se reformular a alma. 

Trocar de pele é necessário para se manter a troca de oxigênio e conexão com a Natureza. 

Nesse sentido, a adoção de boas práticas de sustentabilidade e de desaceleração é algo cada vez mais premente em nossas vidas, pois mudar o padrão vibracional passa muito mais por se reconhecer protagonista da própria história do que baluarte de movimentos coletivos.

Ultimamente tenho feito uma senda de desapego, que veio como uma leve brisa, sem pressão, incômodo ou sofrimento. Já tentei o caminho à  fórceps, que utiliza a racionalidade do convencimento, mas confesso não ter dado certo. 

Descobri, então, que a revolução silenciosa da alma se faz pelo caminho do coração, por intermédio da empatia com a qual podemos nos enxergar no outro e, no caso, na Natureza que tanto nos dá: só assim conseguimos amar este planeta o bastante para transmutá-lo em prol de sua sobrevivência (e da nossa, claro!)

Estou sem sky em casa, não vejo mais os programas de tv por assinatura. Quebrei o controle  (desconfio que foi ato inconsciente para me desapegar mesmo) e estou esperando chegar outro que perdi de vista. Bom, bom, bom demais. Um dia ele chegará. Mas, até lá, tenho me observado mais, recolhido mais. 

Sem distrações para me desviar, assisto a filmes na internet, leio, interajo com o povo daqui. Tenho cuidado melhor da alimentação (hoje mesmo comemos uma bacia de salada e maionese caseira, algo que nunca imaginei conseguir fazer). 

Plenitude, eis o sentido.

Fiquei e estou sem carro: meu jipe ficou sem freio, eu e meu namorado protagonizamos uma cena de Flinstones e até minha coluna se contorceu, o bastante para me mostrar, em mais um processo de somatização, que preciso me despojar, ainda mais, das cobranças internas. Da vida de tensão que levo no dia-a-dia. 

Coluna se recompondo, tenho andado muito de ônibus e até encontrei alguns alunos, que se assustaram em ver a professora de baú. Cada viagem é realmente uma viagem, pois observo atentamente as pessoas ao redor, envolvo-me com a vida que está aí, pulsando.

Cheguei a marejar lágrimas nos olhos com a simples despedida do meu namorado na rodoviária. Momento inesquecível de despojamento de tudo. Não havia conforto ou segurança que compensasse o aperto no coração de um "até logo" em um terminal lotado. isso é divino e belo! É a síntese da percepção do quanto somos queridas e amadas, o bastante para o sacrifício de outrem por nossa felicidade...

Realizo-me na simplicidade de um movimento esquecido na contemporaneidade, tão ocupada com facebook, whatsapp e redes sociais. 

Passei a observar mais o que, de súbito, dentro de um carro, não consigo, ainda que dirija um jipe, de onde é possível imergir no horizonte sem fim... As cores, as flores, a vida: tudo passa, como em uma estação de metrô, átimos de segundo que ficaram para trás, mas que trazem do desejo, cada vez maior, de simplesmente deixar tudo de pesado, de desconfortável e inútil, também para trás.

Quando não estou em um ônibus estou à pé: outra aventura. Fui a uma aula experimental gratuita de yoga perto de minha casa - não tão perto, uns 5 quilômetros. Peguei o baú de integração e desci na parada,  fazendo o restante do percurso - 1 quilômetro de estrada de chão - a pé. 

Essa foto aí ao lado é de lá. Caminho providencial, pois em cada passo, uma respiração, uma percepção sobre minha vida e o que realmente é necessário de bagagem nela. 

Cheguei a tempo...O tal do tempo que sempre marca as desculpas para nossos processos de sabotagem. mas, desta vez, levei a melhor e adivinhem? 

Não me sabotei! 

Andei com meu tapetinho surrado pelas unhadas dos gatinhos daqui de casa até encontrar o Empório da Mata, lugar lindo, maravilhoso, que me remete à primeira Festa Medieval que fui (a melhor e mais lúdica, com direito a trapezistas de fitas e tudo mais).

Aula boa, vento soprando e pássaros cantando em harmonia com a minha alma...Belo, pleno e vigorante! Presença da Natureza em cada ponto mais abscôndito da minha alma. O que está havendo comigo? Bem-aventurança, simples assim.

Como não amar o caramanchão com tsurus pendurados? O céu beijando as copas das árvores e a grama verdejante? Como não sentir nas entranhas a energia vital deste planeta a colorir o espírito com a suavidade do amor?

Eis a questão: sentimos... É necessário sentir para saber. Uma vez escutar de uma pessoa a seguinte frase: "para saber, tem que voar", lembrando-me dos desafios que um sistema consumista e predatório nos impõe. 

Nesses momentos de crise pandêmica, a potencialidade humana de resiliência sempre fala mais alto, acalentando-nos com a esperança de que tudo ficará melhor quando nossa alma está disposta a ser melhor.

Tenho desejado falar menos. Aliás, a irritabilidade com a falação dos outros só mostra minha agitação interna, bem como o desejo de pacificar minha alma da reverberação que eu mesma provoco com a tonelada de pensamentos que ora me fazem retornar para o passado, ora me impelem para a ansiedade de um futuro em relação ao qual não tenho o menor controle.

Tenho comido mais orgânicos e me desintoxicado com a culinária vegetariana e vegana. Tomado óleo de côco (também passo nas pontas do cabelo, nutrindo e hidratando), própolis e pólen, já exausta de organismos mortos que se veiculam a partir do paradigma alopático.

Dia desses fomos - turma de yoga - almoçar em um restaurante chamado Veg Gourmet, que fica no Brasília Rádio Center. Preço justo, executivo vegano de primeira linha, lindo, belo, nutritivo. Uma comida que dialoga conosco e nos remonta à felicidade trazida para o estômago.

Meu desafio, por agora, resume-se a comer mais devagar, a mastigar mais e melhor. Isso ajuda, creio, na paciência que me falta. Mas, pouco a pouco, ao esvaziar alguns quartos de despejo da minha vida, creio que irei naturalmente me desestressar. 

Aliás, a revolução silenciosa já começou, ainda que preparada por intensas discussões. Tenho procurado me desestressar com o que não faz parte do meu círculo de variáveis modificáveis. 

Passo até por alienada política, mas, de fato, estou contemplando os últimos dias de  Pompéia, tal qual uma atenta observadora prostrada no Monte Vesúvio, esperando o movimento planetário de mudanças somente perceptíveis para quem desistir de achar responsabilidade fora de si...

Tenho olhado até mesmo para o sistema com amorosidade. Sem ira, indignação, afinal, querendo, ou não, ainda sou grata a ele, com todos os defeitos. Assim como sou grata por minha existência, com todos os meus defeitos, como sou com outras pessoas. 

Apenas respirando. Acho que realmente precisamos respirar mais...