terça-feira, 30 de outubro de 2018

É tempo de se ressignificar: a noite mágica de Samhain e as mudanças internas no giro da roda da vida


Fáilte, Samhain!

Dia 31 de outubro é, sem dúvida, o dia mais preciosamente mágico para as comunidades e famílias pagãs que reverenciam a roda celta do viver-morrer: trata-se do giro para Samhain na roda do Norte, o dia de reverência ancestral às casas, bem como de desnudamento dos véus que separaram os mundos dimensionais a contrapor a primitiva divisão entre os mundos dos vivos e dos mortos. 

Já estou vivenciando internamente o momento da finalização e, diante dela, desse fim do ciclo, que é auspicioso para muitas culturas [aliás, nunca é demais repisar a coincidência de celebrações em culturas e países distintos, Dia de Finados, Dia de Todos os Santos, Dia dos Mortos], o inexorável: preparar-me para ele, com o agradecimento pela colheita do ano e a projeção do que desejo para minha vida na outra roda

Esse é o sentido de Samhain!

Nada simbólico, mas vivencial: não se trata de metáfora, analogia, representação ou simbolismo. 

Viver a roda é experienciá-la em cada ponto em nosso corpo e alma, coligando emoção, necessidade e o conhecimento sobre a data, para que a magia seja plenificada. 

É sentir a morte de nossas células, bem como a revitalização de nossas almas no ressurgimento, firme, forte e pleno, de nossos corpos restaurados em sua plenitude e força. 

Viver a morte, sim, superar um tabu para boa parte das expressões religiosas e de algumas práticas espirituais que a evitam falar no assunto, por trabalharem, ainda, com a ideia dualista de total separação entre dimensões e espaços conscienciais. 

O viver mágico consiste no percurso de uma senda que nos aloja cada vez mais conectados com o Sagrado e mais distantes do que se convenciona chamar de "mundo". Não há palavras para traduzir essa bem-aventurança em estar presente no aqui e no agora, experienciando a roda da vida e edificando a sina que nos leva ao passeio frugal até a casa de nossos ancestrais. 

Não se trata de "Dia das Bruxas" ou simplesmente "Halloween", como muito se pretende agregar à ideia, mas, antes, de uma finalização dos oitos festivais de colheita que sinaliza o término do ano celta. A sazonalidade bem marcada do cerrado tem me levado a construir uma egrégora mista, que contempla a estação do ano por aqui, bem diferente das outras cidades. 

Assim, os pequenos sabbats tenho seguido pelo sul, pois as estações do ano aqui se aproximam mais deles. Os grandes sabbats, a exemplo de Samhain, mantenho tanto a tradição do norte, de Gwydha, Farrar, minhas matriarcas anglófilas, quanto os festejos celtíberos da minha família.

Isso porque, em outras postagens tive oportunidade de comentar a simplicidade da estrutura temporal para os celtas: inverno e verão, dia e noite, início e fim. 

Seguiam o curso/fluxo de uma Natureza percebida nas dicotomias cujas nuances e meio-termos pontuam a mandala da roda (a exemplo da modificação gradativa do gelo para a floração, ou, ainda, do dia para o entardecer). 

O fim, com isso, não sela extinção, mas, antes, sela o impulso criativo para outros e novos ritmos. O fim não é tristeza, mas o enredo adocicado do júbilo celebrado entre irmãos que concebem a morte como parte de um processo natural e inexorável de retorno aos braços do Sagrado para o renascimento em outra vida, ou, melhor, configuração!

Girando pelos oito sabás, Samhain marca, para o neopaganismo, a morte sacrificial do Cornífero - símbolo fálico de fertilidade - que, adiante, em Yule renascerá no ventre fecundado da Grande Mãe provedora. O Cornífero atingiu seu ápice de espargimento seminal, cumprindo a tarefa de povoar e disseminar. 

Como adulto e macho, Ele ruma para o direcionamento consciente do seu fim. Tragédia, fatalidade ou evitabilidade? 

Não importa, pois a narrativa celta marca - ao contrário da pegada grego-romana -  a adoração pelo abraço da morte, já que o destino nos encaminha para as moradas de nossos antepassados, apogeu de uma vida de honra e glórias. 

O Deus morrerá no invólucro de uma roda para despontar revigorado em outra existência, razão pela qual Samhain e Yule se dão tanto as mãos!

Para a bruxaria tradicional inexiste a referência dual de adoração a aspectos da Sagrada Mãe e do Deus Cornífero, sendo o ritual uma conexão com a ancestralidade pura e simples. 

Isso porque não se trata de uma religião estabelecida como protocolo de devoção aos arquétipos, mas a uma vivência de práticas mágicas e de conexão à Natureza, reverenciando-se, por assim dizer, deidades locais, não de maneira litúrgica (como, por exemplo, ainda se tem em alguns setores da wicca), mas de acordo com o que a herança familiar transmite como legado.

A tessitura das fronteiras encontra-se tênue, ao mesmo tempo em que as vibrações findam por formar egrégora forte de conexão com o Outro Mundo na noite do dia 31 de Outubro, possibilitando toda sorte de comunicação com os antepassados. 

Sim, claro, já que a senda vivificada nesse dia invoca o perecimento do Deus Cornífero, o ato reverencial consiste na devoção aos que já foram. Por isso Samhain remonta ao silêncio, à austeridade e, sobretudo, ao respeito a quem não está mais em carne. 

O acionamento dessa egrégora é essencial para compor, noutro giro, a polaridade da realização do devir em Yule. 

Afinal, só podemos seguir e cumprir nossas metas fortalecidos e confiantes, tarefa assumida pela coligação ao passado e catalisada pela colocação de velas acesas (na cor laranja, roxa ou preta) nas janelas das residências [guiando os caminhos e abençoando os liames consolidados na noite sagrada].

A tradição recomenda, ainda, a colocação de comidas (à base de abóbora, cereais e carnes), acepipes e bebidas (vinhos quentes) a serem partilhados durante a noite para os ancestrais se nutrirem do alimento abençoado. 

Pode soar ingenuidade acreditar que não, mas a sabedoria ancestral preza a ideia de que os espíritos se nutrem dos alimentos consagrados, ou, numa reconfiguração quântica, das nuvens eletromagnéticas que permeiam todos os corpos.

Noite de queima, por excelência, dos agradecimentos pelas colheita, em ervas auspiciosas para tanto, como manjerona, manjericão, louro. Se a Lua estiver bem aspectada, faço, ainda, outra queima, de tudo de desejo alcançar e construir no ciclo seguinte, queimando com cravo, canela, gengibre, mirra ou alecrim. 

Escrevo tudo em uma lista, imanto a vontade em uma rima entoada ao som de tambores e sopro três vezes antes de jogar no caldeirão ou na fogueira. De resto, reúna quem você mais ama e glorifique suas ancestralidade nessa noite auspiciosa! 

Seja feliz, forte e pleno!

(...)
Eu me lembro, ó fogo,
Como tuas chamas uma vez inflamaram minha carne,
entre bruxas retorcidas por tuas chamas,
agora torturadas por ter contemplado o que é secreto.
Mas para aqueles que viram o que vimos
sim, o fogo nada era.
Ah, bem me lembro dos edifícios iluminados
com a luz que nossos corpos emitiram.
E sorrimos ao contemplar o vento das chamas por trás de nós,
O fiel entre os infiéis e cegos .
Ao salmodiar das orações
No frenesi das chamas
Cantamos hosanas a vós, nossos Deuses,
Em meio ao fogo doador de força,

Dedicamos nosso amor a Vós da Pira"
(GARDNER,2003:119)


domingo, 21 de outubro de 2018

(Re)visitando Alto Paraíso e redescobrindo novas aventuras no constante mergulho na alma!

Vista da trilha da Cachoeira dos Cristais - Alto Paraíso - Outubro 2018
Sempre fui uma grande entusiasta da Chapada dos Veadeiros. Desde 1993, ocasião em que lá estive pela primeira vez, tenho o hábito de deixar o stress de Brasília - com todas suas relações truncadas de poder - para relaxar mente, corpo e espírito nas cachoeiras e paisagens maravilhosas dessa terra absolutamente mágica.

De início, costumava ficar no Povoado de São Jorge, distante aproximadamente 30 km da cidade de Alto Paraíso. Antigamente, o acesso era feito apenas por estrada de terra, o que era, por si só, uma aventura a parte. Agora o asfalto chega até o povoado, facilitando o deslocamento de quem não se afeiçoa ao esquema off road de ser.


Almécegas - Faz. São Bento - Outubro 2018
A partir de 2005, fui convidada pelo ar curativo e terapêutico de Alto Paraíso, cidade que despontou, aos poucos, desde 1750, a partir das expedições dos bandeirantes pelo interior do Brasil. 

A partir de então, a região foi cenário da incessante busca por cristais e pedras preciosas, culminando, assim, com o povoamento da região.

Detalhe interessante sobre a Chapada dos Veadeiros: é possível ver refletida, como um espelho, a imensa placa de cristais brilhando, segundo rumores da NASA. Uma região de intensa atividade ufológica, com episódios narrados, muitas vezes, pelos próprios moradores da região. 

Essa verdadeira profissão de fé, aliada ao movimento hippie e esotérico (sobretudo na virada para o "fim do mundo do ano 2000"), produziu um encontro entre culturas: de um lado, os herdeiros da terra, Kalungas, Avá Canoeiros, Crixás e Goyazes; de outro, ufólogos, budistas, sanyasis, bruxas e muitas outras culturas e identidades espirituais. 

Todos convivendo no espaço gentilmente ofertado pela Natureza...

Alto Paraíso, nesse cenário, sempre esteve relacionada às atividades de cura, bem como às terapias alternativas ou holísticas, agremiando pessoas em busca o silêncio meditativo, focadas no autoconhecimento e na imersão paradisíaca nas cachoeiras como Poço Encantado, Loquinhas, Almécegas, Anjos e Arcanjos e muitas outras.

A cidade, bem rústica, sempre manteve seu aspecto bucólico, com temperatura amena - dada sua posição no sopé de vales de planaltos. 

As opções de pousadas, restaurantes e supermercados eram poucas, geralmente oferecidas para a manutenção local, pois a ideia, ali, era exata e pontualmente sair do fluxo das comodidades da matrix tridimensional, para que se pudesse penetrar na esfera mais íntima de despojamento, que não demanda dinheiro, conforto e agitação. 

Costumava me hospedar na Pousada do Sol, local muito agradável, ao final da cidade, ofertado pela querida Vazu, uma representante daqueles que migraram para lá saindo da estrutura urbana e do caos antagônico ao processo de autoconhecimento e calmaria. 
Araras - Pousada do Sol - Alto Paraíso 2018

Bem rústica, construída sob o conceito de sustentabilidade, a Pousada do Sol oferece um espetáculo à parte: todos os dias, araras azuis lindas pousam para o café-da-manhã, produzindo um colorido inesquecível, que nos traz ao elo perdido, àquela sensação de comunhão com o Alto. 

Alto + Paraíso mesmo!

Depois de 3 anos sem voltar para Alto Paraíso, retornei com minha família terceiro-milênio (hahahaha, meu esposo e enteado) e, nesse caminho de volta, experimentei sensações muito interessantes. A ideia era apresentar a Chapada para eles, fazer umas filmagens e aproveitar o contato direto com a Natureza. 

A cidade se expandiu em termos de negócios e turismo, com muitas lojas e novidades. 
Eu, Leandro e Mikhael

As antigas banquinhas no início da cidade, onde os descendentes dos garimpeiros vendiam os cristais, passaram a compartilhar espaço com lojas novas, repletas de artigos manufaturados, alguns típicos da cultura pop alternativa e neo-sustentável, a exemplo do que se tem nas cidades grandes como lojas alternativas mainstream (não vou citar nomes aqui para não fazer propaganda, mas, para bons entendedores, fica a dica).

Hoje se encontra de tudo lá: castanhas, grãos, diversos tipos de arroz, lembrando as prateleiras das franquias de famosas "lojas alternativas". 

Nesse sentido, creio que a cidade tenha perdido, um pouco, seu charme bucólico, pois o artesanato gastronômico acabou cedendo para o fast food natureba (nada contra, sou vegetariana, ativista e blá-blá-blá, mas, confesso estar sentindo um desconforto com a maneira ortodoxa de se impelir, à fórceps, a cultura terceiro-milenista de paz e amor, pois, daí, nada tem de paz e amor). 

Pois bem, para quem deseja visitar esse local maravilhoso, eis a razão da postagem hoje: procurem visitar a Chapada dos Veadeiros fora dos feriados

Hã? Alô? Como assim? 

Afinal, é exatamente no feriado que existe "tempo" para viajar! Como, então, ir para a Chapada fora do feriado? 

Eis minha missão, como andarilha da Chapada há bons 25 anos, compartilhar dicas valiosas sobre a viagem para lá. 

Claro que existem pessoas que gostam da agitação, do conforto urbano transportado para o interior. Para elas, obviamente, Alto Paraíso e, sobretudo, São Jorge, serão sempre um convite para boas noites de estrelas e lua. 

Mas, por certo, não é para esse público que estou a escrever, até pela vibe do blog. Refiro-me aos que desejam descanso, paz, autoconhecimento e, sobretudo, comunhão com a Natureza. 

Para quem deseja calmaria de alma, basta viajar para Alto Paraíso numa boa sexta-feira, pois o efeito prático em relação a um feriado que comece numa...sexta-feira é o mesmo! Com a distinção do número de visitantes que lá se encontra. 

Não se trata de preconceito, mas uma espécie de pós-conceito. 

Encontramos o Poço Encantado com muita gente em cima de stand up paddles, boias, gritos, berros, agitação. São Bento, então, fora de cogitação, pois a fila (sim, fila, algo que nunca antes havia visto), beirava a estrada, o que me faz pensar no tanto que o pessoal teve que andar até chegar às cachoeiras básicas, a exemplo da própria São Bento. 

Trilhas cheias de pessoas aos gritos, tirando selfies e simplesmente deslocando a outrora atmosfera de comunhão para de zoológico. Sim, foi essa a sensação que tive, ao menos enquanto permanecemos no mainstream do feriado. 

Como, então, sair da caixinha?

Eis, então, enfim, as dicas:

1) Aproveitar a Chapada e, sobretudo, Alto Paraíso, fora dos feriados. Para tanto, é possível, sim, uma básica visita a partir da sexta-feira. Para quem desejar já começar o dia nas cachoeiras, pode chegar numa quinta à noite, lembrando que a quinta já conta como uma diária. 

2) Optar por pousadas mais bucólicas e rústicas. A exemplo da Pousada do Sol, existem muitas opções fora do cenário Matrix 3D, com preços acessíveis e efeitos terapêuticos e meditativos. Sempre indico a Pousada do Sol, pois amo a Vazu, adoro o iogurte natural que ela me ensinou a fazer e o café-da-manhã de lá é muito saudável, saboroso e farto. 

3) Preferir os restaurantes que estão fora da avenida principal. Esses, a exemplo da Massas da Mama, Cantinho das Delícias e Vila Chamego, são opções com preços justos, sabor agradável e fora do burburinho. Existe uma exceção, o Restaurante Moinho, pois ele fica mais embaixo, ao lado de um outro restaurante meio babilônico, mas com preço e sabor mais palatável.

4) Preferir cachoeiras cujo acesso é mais difícil, pois o aparente desconforto da estrada afasta o pessoal do bafafá e só atrai quem realmente não mede esforços para preferir estar com a Natureza. Isso aconteceu conosco quando estávamos no burburinho da São Bento: chegamos a entrar na propriedade, vimos uns 100 carros ou mais, daí voltamos. Como eu tinha um terreno no Moinho (que dista uns 14 km de estrada de chão ruim), fomos para lá visitar a Anjos e Arcanjos. Não nos arrependemos de forma alguma, pois, além de percorrer uma trilha maravilhosa e em profundo silêncio, deparamo-nos apenas com umas 10 a 15 pessoas dispersas em uma área enorme. 

5) Preferir retornar para a cidade na segunda-feira e aproveitar melhor o domingo fazendo circuito de cachoeiras nas proximidades de Alto Paraíso. Decidimos isso na hora mesmo, porque, diante da multidão no feriado, optamos por prolongar nossa estadia, voltar para casa no contra fluxo e, aproveitar a cidade de Alto Paraíso no domingo, enquanto o restante do mundo muggle (trouxas na linguagem de Harry Potter) voltava para casa-matrix-3D. 

6) Sem medo de ser feliz, escolher a época das águas! O início das chuvas, quando ainda as bacias estão vazias e a água não está contínua, é muito bom, tanto pelo clima ameno da cidade (calorzinho pela manhã e chuva durante a noite), como por espantar os turistas predatórios. Quem lê isso aqui pode pensar que estou louca, pois, vendo no youtube notícia sobre tromba d'água e tragédia, mas, para quem é do cerrado, da terra, enfim, esse é o pulo do gato. Basta ter sempre cuidado em respeitar a Natureza e os sinais que Ela dá: o restante, basta curtir!!!

Acho que essas dicas são preciosas, mas, claro, são apenas sensações de quem está na estrada da Chapada há 25 anos e viu muita coisa se transformar na cidade. 

Tudo se transforma, é bem verdade, de modo que não são malefícios, muito menos benefícios. São a vida, em si mesma, sem julgamentos. A grande questão é não dicotomizar as mudanças que a cidade experimentou, mas se moldar, como a água em curso, ao fluxo das transformações da vida. 

Essa foi, ao final, a lição, pois, de tudo que aconteceu de providencial, vínculos foram alimentados e reforçados, bem como ciclos finalizados para que outros possam se alojar.

Acabei encerrando o ritual em torno do antigo terreno no Moinho, mergulhando a fundo em minhas contradições internas projetadas na alteridade e, ao final, compreendendo melhor minha alma. 

Isso é, enfim, viver!


Eu e Leandro


Céad mille fáilte!


segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Do mito à História, do xamanismo à Medicina, da bruxaria à quântica: mudança paradigmática em idos de ruptura


Se Heisenberg vivo estivesse, ficaria atônito com a quantidade de referências à expressão Física Quântica, termo que se popularizou nos últimos 20 anos, sobretudo, por intermédio da apropriação feita por alguns segmentos espiritualistas e/ou religiosos, sobretudo a partir de "clássicos" como A Profecia Celestina, Quem somos nós e, em certo sentido, O Segredo

"Física Quântica e Holismo", "Física Quântica e saúde", "Física Quântica e Espiritualidade" são os temas híbridos que vêm colorindo a pauta dos debates e estudos pós-modernos, numa tentativa sempre legítima de responder às perguntas que sempre povoaram o imaginário da humanidade: quem somos, de onde viemos e para onde vamos

Sobretudo a resposta a uma nova pergunta, qual seja, "como bem viver" num mundo que experimenta viradas geodésicas, demográficas, cosmogônicas e espirituais no momento chamado de Transição Planetária. Todos respiramos Física Quântica, que exala pelos poros de um planeta cada vez mais ligado por questionamentos dessa magnitude. 

Como compreender melhor, então, a Física Quântica, essa "estranha" conhecida?

Compreendendo e sentindo a mudança paradigmática que possibilita a (re)discussão sobre ciência, saber ancestral, mito e história no limiar dessas transformações. 

De maneira bem simplista, tenho que a mudança agora espelha uma tentativa de reconstrução de um modelo de ciência que passa pela relocação do observador no ambiente pesquisado: esse seria, para mim, o "marco zero" da dissociação entre ser humano e Natureza, operado, sobretudo, no Ocidente e, mais precisamente, a partir dos socráticos. 

Isso porque a escola ocidental pré-socrática (VII a V a.C) - de onde provêm o início das reflexões sobre Physis (Natureza enquanto Cosmos), ocupava-se em  adentrar os aspectos mais conectivos entre ser humano e Natureza, unindo ciência, religião (na expressão mais legítima de religare = re + ligare), espiritualidade e conhecimento ancestral.

Seja na figura de Tales de Mileto, Parmênides, Demócrito ou, ainda, em Heráclito de Éfeso com sua percepção sobre rios e homens em estado de fluidez e impermanência, a marca essencial do pensamento pré-socrático relacionava-se ao monismo idealista, ou seja, a percepção de junção ou comunhão entre todas as coisas no Universo.

Concepção esta que, aos poucos, diante do alvoroço trazido pelo pensamento socrático e, mais além, pelo questionamento do estado de ilusão da caverna platônica, vai cedendo espaço ao dualismo que encontra, lá na frente, entre os séculos VX e VXII o apogeu de sua História.

Saímos do estado de comunhão com a Physis, do aprendizado artesanal, hermético e sacro para a consolidação de uma "nova ciência" no Ocidente. 

A fórmula cartesiana do ergo cogito suum (penso, logo sou, e não existi, como alguns repetem) trouxe ao pensamento ocidental a cisão definitiva entre espírito e matéria, ao passo que o Positivismo do século XIX sedimentou o império da separação entre ser humano e ambiente, transformando aquele em "observador" e esse em "objeto de ciência". 

A matéria e, mais precisamento, o materialismo, passou a ditar um modelo de ciência em que a dita "realidade" passa a ter vida própria, apartada do ser humano e sujeita a relações de causa e efeito cuja mensuração ficou a cargo da ciência.

O conhecimento ancestral em suas mais distintas vertentes - xamanismo, bruxaria, paganismo, curandeirismo etc. - tornou-se obsoleto, pecaminoso e proibido, sendo descredenciado pelos doutores da ciência - homens, europeus e originários de alta aristocracia - em nome da neutralidade, imparcialidade e busca da verdade, separando Natureza e ser humano e, com isso, dando impulso ao chamado realismo dualista, paradigma até então reinante.

E por que paradigma

Eita, palavrinha usada como água escorrendo de uma torneira com vazamento!!!! Paradigma para lá, paradigma para cá. Chique demais falar em paradigma, mas, diga-me, afinal, o que é um paradigma e qual ou quais os paradigmas que hoje estão a se enfrentar na pós-modernidade?

Thomas Kuhn, físico teórico que escreveu o livro A estrutura das revoluções científicas, apropriou-se do termo grego paradigma (παραδειγμα) para se referir a propostas de modelos explicativos provisórios, que convivem com outros modelos científicos, numa relação de coexistência, contradita e, não raro, tensão. 

Ou seja, paradigmas coexistem e são validados pela comunidade acadêmica até o momento em que um deles substitui totalmente a visão de mundo do anterior, porque passa a mostrar uma forma melhor de mundo. Com isso, ao mesmo até o momento de ruptura, paradigmas coexistem no mundo como formas peculiares de explicar e sentir esse mundo.

Com essa fluidez metodológica, Kuhn produziu, a exemplo de Prigogine, Stemler, Capra, condições para que, agora, possamos repensar a vida e nossa relação com a Physis, a partir da proposta que os físicos quânticos começam a apresentar no início do século XX. 

Trata-se do retorno ao monismo idealista, a partir da compreensão da natureza dual do elétron, partícula E onda, ou, melhor dizendo, ondícula

Mas o que isso tem a ver com os movimentos de espiritualidade?

Muito simples, a reversão da chave materialista e dual, a partir da qual o mundo ocidental passou a ler o ambiente, as coisas e os seres como matéria na qual se aloja o espírito.

A partir da proposição de que o elétron é dual, a depender de um observador para colapsar em um dentre vários locais onde se encontra possivelmente, a física quântica trouxe a ideia de que, ao contrário, não somos matérias a alojar um espírito, mas consciência que escolhem se apresentar provisoriamente me matéria.

Da consciência que se apresenta a matéria, não como produto definitivo, mas como probabilidade dentre várias formas de manifestação, a síntese da UNIDADE com a qual tanto se fala: somos todos um. Uma consciência alojando possibilidades manifestadas, conectadas pela percepção de apartação e pessoalidade a partir da reminiscência do paradigma dualista.

Consciência = matéria, e não matéria criando consciência. 

Muito menos consciência determinando matéria. 

Não se trata disso, mas de coexistência e possibilidade de apresentação a partir da escolha de quem cria e colapsa uma onda).

Não é sem propósito que o séc. XX - mais especificamente a segunda metade - trouxe a popularização de saberes ancestrais (xamanismo, reconstrucionismo celta, bruxaria), numa espécie de "retorno" ao caldeirão cosmogônico, no qual a História (nome da ciência, do saber academizado) é apenas um elemento da Mitologia (narrativa poética de criação dos mundos e dos fenômenos), assim como a Medicina alopática constitui apenas UMA formulação do curandeirismo. 

Com as descobertas da neurociência e da conscienciologia, percebemo-nos ENERGIA colapsada em matéria, ou, como Teillhard de Chardin já prenunciava, somos seres espirituais vivendo uma experiência humana e material. As pesquisas nos anos de 70 do século passado, nas mais diversas áreas do conhecimento, permitem afirmar que somos seres sencientes, conscientes, co criadores, em estado provisório de materialidade

Elaboramos o mundo, portanto, a partir de nós mesmos, do que imantamos como opção criativa. Esse é, para mim, o maior sentido da contribuição que a Física Quântica tem trazido para nossa experiência. 

Tudo existe, pois, no plano consciencial e, a partir dele, é plasmado na perspectiva material (não acho mais sequer necessário falar em "mundo real" e "mundo espiritual" nesse modelo de percepção, porque a palavra "mundo" reproduz a noção de separação). 

A Física Quântica não refuta a Clássica: são dois paradigmas coexistindo!!!! 

Esta, explicando e detalhando os processos visíveis do mundo atômico que, depois, se estrutura no celular, molecular e sistêmico. Aquela, imergindo no mundo sub atômico, para formular explicações sobre como o processo dual depende da existência e da intervenção do tal observador (prefiro a expressão cocriador consciente). 

Novas terminologias, que correspondem a novas formas de viver a superação da dualidade: consciência no lugar de espírito, protagonista ou cocriador no lugar de observador, por aí vai. Uma infinitude de termos para designar ou representar a unidade.

Porém, um aspecto nesse contexto todo talvez seja o mais importante: a internalização, bem como a percepção e o "sentir" legítimo da UNIDADE. Se somos energia plasmada em matéria, por que, então, ainda agimos como matéria que aloja espírito?

Por que acreditamos mais no que a tridimensionalidade mostra, por meio dos olhos, para o cérebro decodificador de ondas? Por que temos medo, congelamos, mantemo-nos num sistema dogmático de crenças duais?

Simples: porque o paradigma do realismo monista ainda está presente em nosso plano (in)consciencial, como estrutura simbólica e arcaica (arcaica aqui no sentido de ser ancestral e registrada num lapso atemporal, formando a mítica que explica a criação dos mundos). 

Todas as narrativas - percebam - mitos, mitologias, registros históricos, religiosos e arqueológicos nos levam para sagas de criação de mundos a partir de perspectivas duais. Um mundo sobrenatural e, por isso, acima do natural. Um local de heróis, deuses e entidades mais poderosas do que a expressão humana. 

Com isso, passamos a nos afastar da Physis, a nos perceber como matéria diminuta do Universo, ao invés de sentirmos e cocriarmos nossas especiais formas plasmadas de bem viver. Passamos a nutrir medo do mundo invisível, chamando-o de transcendente, ao invés de termos a percepção da imanência de nossa potencialidade criativa. 

Adoecemos porque acreditamos na doença, batemos o carro porque alimentamos o script do medo de bater o carro. Somos assaltados porque nos colocamos a pensar em como a sociedade está violenta e desamparada. 

Como diria Stephen King, "monstros existem. Fantasmas também. Eles vivem dentro de nós e, às vezes, vencem". Colapsamos, pois, exata e pontualmente o que nossa consciência é capaz de concretizar, de modo que a auto percepção e o autoconhecimento são a forma de realizar as mudanças desejadas. 

Eis o sentido da ruptura na pós-modernidade, na medida em que internalizarmos (dentro de nós, sendo bem redundante mesmo), o VIVER UNICISTA, sem medo de criar, a partir de estados conscienciais profundos (sem culpa, medo ou desconhecimento de nosso potencial), uma "realidade" conjunta, comunitária, que abarque a plenitude, o amor e a compreensão, veículos de manifestação de uma linguagem cósmica para além da precária forma com a qual a fala (onda mecânica e unidimensional) nos limita.

A partir do momento (ou melhor, do momentum descontínuo de escolha) em que o interno coincidir com o externo, o acima confundir-se com o abaixo, bem como as direções e dimensões fragmentadas forem apenas piscar de olhos para nos projetarmos em várias formas e manifestações, teremos superado, enfim, o dualismo e, com isso, o paradigma quântico se estabelecerá até que um novo sopro traga ao mundo mais formas de sentir e explicar o mundo.

Fáilte!

Céad mille fáilte!

Sláinte!!!





domingo, 30 de setembro de 2018

De ervas, plantas e caldeirões: a sagrada arte da cura e do bem-estar a partir das tradições ancestrais de utilização de ervas


Um dos maiores ofícios da arte sagrada da cura e do bem viver consiste no contato, conhecimento e manuseio das ervas, quer seja por conta das propriedades curativas, como, também, para alimentação, ritualística ou aromaterapia.

Qualquer que seja a finalidade, a manipulação herbal revela a conexão sagrada, bem como o contato com a Natureza na imanação de seus dons e aspectos mais mágicos, demandando do(a) iniciado(a) uma imersão profunda em um universo ímpar de informações e, sobretudo, sensibilidade e intuição. 

Isso porque a mera apreensão de técnicas como instrumento racional não se revela o bastante para penetrar nesse mundo rico e complexo, cujo acesso se faz, sobretudo, pelos portais da mente não-racional ou analítica (eterna julgadora), mas por processos intuitivos e sensitivos. 

A cisão entre uma "ciência" oficial, usualmente androcêntrica, patriarcal, cartesiana e compartimentada e o conhecimento ancestral, unicista, matriarcal, holística e circular relegou a herbolária para um aspecto místico ou mágico. 

Basta ver como a indústria farmacêutica mainstream desqualifica os ingredientes herbais, focando medicação que não estimula o sistema imunológico, tornando-nos passivos e meramente expectadores das prescrições médicas, usualmente replicadas com certo ar blasé de incompreensão das reais necessidades da nossa alma. 

Outrora tratada como sobrenatural, a herbologia, no âmbito das práticas de bruxaria e dos sistemas xamanísticos, marca a retomada desse aspecto vivencial, uma senda iniciática que nos encaminha para a conexão com nossa ancestralidade e nos aloja para uma posição de protagonismo de nossa própria cura. 

Além disso - desse aspecto curativo - a herbologia nos conduz a um universo mais amplo de práticas e vivências cotidianas, nas quais o caminho de conexão com a Natureza é muito mais do que a extração de ervas para procedimentos terapêuticos.

Isso se manifesta de forma mais perceptível na utilização de ervas para temperos, elaboração de produtos de higiene, limpeza doméstica etc. Ou seja, a verdadeira ideia de comunhão com a Natureza pela experienciação Dela em nossa vida diária. 

Egrégora atemporal, a herbologia constitui um acervo de informações presente no consciente coletivo imemorial, presente na historicidade dos saberes tradicionais, que comungavam com a Natureza e, a partir Dela, recebiam, por conexão, as revelações herméticas sobre os usos e as propriedades de cada erva ou planta.

Eis a razão pela qual boa parte desse conhecimento se replicou na chamada bruxaria familiar, aquela transmitida por herança mágica, ora consciencial, ora por rememorização, no âmbito de clãs e famílias, quase sempre femininas: o caldeirão no centro da cozinha é o coração de uma casa e o segredo de todos as receitas herbais. 

Hoje trouxe para nossa conversa o processo de secagem de algumas plantas especiais, compartilhando um pouco das práticas da minha tradição. Antes, porém, vou trazer algumas referências que considero credenciadas para que igualmente possam fazer suas pesquisas e, aos poucos, reunir um bom acervo de consulta.

Tomo sempre a cautela de registrar no meu livro familiar cada uma das pesquisas a respeito do uso de ervas, concentrando os aspectos diferenciados e as intuições que vêm à tona quando estou manipulando cada uma das ervas.

Lendo alguns trechos, voltei-me ao uso de ervas em óleos essências, bem como às utilizações no dia-a-dia, tanto no aspecto mágico (de transformação específica de uma realidade plasmada), como no tratamento de adversidades. 

Alguns livros de cabeceira sempre povoaram meus estudos. Além do que me foi transmitido pela minha casa ancestral, sobretudo por minha mãe, gostei de ler alguns compêndios, desde W.B. Crow no livro Propriedades ocultas das ervas e plantas: seu uso mágico e simbolismo astrológico, além de Nutrição Vital: uma abordagem holística da alimentação e saúde, da Soraya Vidya Terra Coury.

Também costumo me debruçar sobre o compêndio Plantas Medicinais no Brasil: nativas e exóticas de Harri Lorenzi e F.J. Abreu Matos. Eles me deram um norte no encontro entre os horizontes do conhecimento ancestral e o chamado científico (que é caracterizado por teses e repetições laboratoriais). 

Sem deixar de mencionar o clássico As plantas mágicas: botânica oculta de Paracelso, acervo quase mítico do rol de práticas do séc. XV-XV, que se dedicou ao estudo sistematizado das ervas. Muitos outros livros existem à disposição, mas sempre lembro que é muito interessante - até mesmo por formação esotérica familiar - buscar as raízes no que a casa ancestral de cada um de nós guarda em termos de conexão e egrégora.

Essa semana dediquei-me à secagem de ervas, separando da nossa horta aqui em casa endro, tomilho, manjericão, sálvia, boldo, lavanda e alecrim: todas são plantas com atributos bastante significativos e caraterísticas próprias.

Para quem se conecta aos aspectos astrológicos, bem interessante seguir as lunações e entrada da Lua nos signos para fazer a colheita, sempre agradecendo à Natureza pelo compartilhamento das ervas. A aspectação da Lua na casa dos signos revela o ponto de apoio anímico da energia que poderá ser imantada em determinado trabalho mágico.

Não recomendo o processo de lavagem das folhas das plantas, sobretudo nos grandes centros e cidades, onde a água é fluoretada, pois esse ingrediente se incorpora às ervas, modificando sobremaneira sua constituição. Preferível a secagem ao sol, porque o flúor evapora no processo. Particularmente colho a planta e a uso diretamente, aproveitando a energia telúrica e o prana sempre presentes na biosfera.
Depois da coleta, separo ramos generosos e os amarro com barbante, fazendo a entonação rimada que costumo realizar, por intermédio da chamada magia dos nós. 

O nó concentra energia entoada e densificada, agregando em sua extensão o direcionamento da vontade. Por intermédio dele podemos canalizar vontade focada e plasmada, agindo como um verdadeiro gatilho subconsciencial, o que, de fato, representa a síntese da magia e dos processos xamanísticos.

O processo de secagem depende das condições climáticas. Aqui no cerrado a maturação da erva leva, em média, 10 ou 15 dias, extraindo-se daí um excelente componente para chás, extratos e comburentes para fogueiras. Sem deixar de mencionar a utilização como defumadores e incensos. 

Geralmente destino a sálvia e o alecrim para fazer defumadores, amarrando-os na forma de bastões, ao contrário dos ramos de manjericão e endro, que amarro generosamente em forma longitudinal. 

Depois de prontos, basta dedicar ao propósito, por intermédio da imantação na erva de sua destinação plasmada: com isso está feita toda a mágica. É simples! Acessível a todos. Nada de complexo, mas, antes, um exercício cotidiano que nos encaminha para a liberdade, o autoconhecimento e a plenitude!

Tudo de bom para todos!

Que todos em todos os mundos sejam plenos e felizes!

Sláinte!!!!


terça-feira, 25 de setembro de 2018

A carne que sangra e renasce na superação resiliente


Uma das frases mais belas e paradoxalmente tristes que já tive a oportunidade de ler é de José Saramago e diz literalmente o seguinte: "Se tens o coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia". 

E por que o paradoxo? 

Afinal, poderia ser mais uma frase a colorir um estado profundo de tristeza em face do sofrimento, representado na frase pela expressão "...e sangra todo dia", não fosse um detalhe curioso, que diz respeito ao simples fato de igualmente ser libertador ter um coração de carne: a capacidade de amar pura e simplesmente, sem a interferência do mental comprometido pelas sombras de nossas limitações

Sem interesse algum que não seja o bem viver, o bem querer, a manifestação idílica de um estado de calmaria da alma. Uma realização do espírito. A verdade que promana do coração de cada qual.

Essa potente frase, desse potente e sensível escritor, traz à luz um lampejo otimista de observarmos que, independentemente do que as outras pessoas elaboram dentro de si como justificativa para estar ao lado de alguém, isso, de fato, é uma demanda ou um dilema do outro. 

O nosso dilema, derivado da maneira como vivenciamos esse estado pleno, consiste em simplesmente compreender os desafios que são plasmados pelas consciências de cada um de nós, que ilustrarão a maneira como, durante a vida, construímos verdades, histórias e caminhos.

A minha sempre foi e é viver sem medo de encarar a verdade, pois, afinal, ela é libertadora e clarificante. O que traz a contingência do medo, contudo, é a sombra, a não verdade, o truncado, não dito e acobertado. A torção que se faz dos fatos para, com nossa interpretação deles, gerarmos outras verdades, mitos e ilusões.

Eis a grande lição da frase de Saramago: o coração forjado no ferro duro das vicissitudes e dos desafios da vida e que passa a moldar nossa forma de agir, tanto em relação a nós mesmos, como, também, em relação aos outros é o coração que não se permite amar.

É o coração que se movimenta pela escolha mental de racionalmente optar, diante de possibilidades quânticas, o que reside de bom para o usufruto de ônus, numa balança de custo-benefício incompatível com a nobreza de levemente sentir.

É com o cardíaco, e não com a pineal, que nos projetamos para a experiência incondicional do amor. 

A pineal nos aponta, juntamente com a coroa, para a experienciação da consciência, mas, de outra sorte, no movimento interno de alocação energética dos chackras, é de baixo para cima e, especificamente, do cardíaco para cima que o fluxo de transmutação se faz.

Um mental avantajado, expandido e senciente, sozinho, não quer dizer muito. Seríamos como o Dr. Spock, o grande conhecedor da saga Star Trek, dotado de grande conhecimento enciclopédico, mas frio. Ou seríamos como grandes magos negros, que detém conhecimento, pineal e coroa amplos e irrestritos, mas ausentes de sentimento verdadeiramente altruísta.

Tal qual o ferro... 

Esse elemento, aliás, é bem interessante, dado o coeficiente de sua dureza. 

Com eles muitas armas foram forjadas e, por meio delas, muitas vidas foram ceifadas ao longo da espiral cármica do mundo. Ou seja, corações sangraram pela força do ferro penetrando naquele que é o músculo mais forte e, ao mesmo tempo, mais sensível do corpo humano.

Em Kali Yuga o império do ferro encaminha os fortes de coração de ferro para a luta pela sobrevivência, pelo uso estratégico da mente potente no sentido de buscar a vida, o bem estar, a realização. Para se fazerem escolhas pelas oportunidades que se apresentam nessa balança de custo-benefício.

Essa é a vida em seu sentido mais terreno, árduo e duro. Como o ferro.

Eis o sentido da frase de Saramago, bom proveito para quem tem uma couraça no peito, para quem faz escolhas pela privação e pelo direcionamento proposital da consciência expandida. Bom proveito...

Pois somente quem sofre e lacera a alma em função da nobre arte de amar pode saber, de fato, o caminho para a superação e transcendência. Sangrar, pois, é libertário. E nós, mulheres, sangramos em todas as luas. 

Sangramos, sentimos dor, retornamos. 

Vivenciamos a resiliência ante o impacto diante do ferro, pura e simples. 

É assim que verdadeiros guerreiros moldam o espírito e a consciência para a projeção rumo ao crescimento...

O sentido do triskle, a espiral que movimenta a roda para mais um giro...

domingo, 12 de agosto de 2018


ENTREGO
CONFIO
ACEITO
AGRADEÇO!!!

A indescritível leveza do estar...

Quem está acostumado a assistir aos filmes românticos mainstream - sejam os oficiais hollywoodianos, ou, ainda, os que se apresentam como alternativos "alla Diablo Cody" ou outra que o valha - sempre se deparam com algum tipo de cena de casamento, onde os enamorados, entusiastas do amor, trocam juras e proferem a frase emblemática "até que a morte nos separe".

Trata-se de uma significação que nos traz à lembrança a reflexão: o que, exatamente, significa isso? 

Significa estar ao lado, fisicamente, até o momento em que um desencarna? Um contrato de almas, escrito no livro das estrelas? Uma fatura a nos lançar, vidas e vidas, num trampolim de compromissos eternos com alguém?

Ou seria uma linguagem figurada a espelhar o fim do relacionamento em si mesmo? O fim de um ciclo, talvez?

Isso se aplica à toda sorte de relacionamentos? 

Não sabemos se existe uma resposta de valor universal, e, em meio ao desconhecimento, uma míriade de interpretações se lançam no ar. 

Gostaria de explorar uma delas, a que melhor expressa a sensação que ultimamente tem sido uma constante em minha vida, a constância da impermanência, o paradoxo que sempre está a nos desafiar.

Primeiro, que tipo de relacionamento está sujeito a esse recall?

Acredito serem todos, desde a mais branda interação entre colegas de trabalho, passando por amizades de longa data, relações de parentesco e relacionamentos em geral. 

Afinal, tudo está sujeito à impermanência, ao movimento, à consolidação e, sobretudo, à superação de si, sem que necessariamente seja um dramático fim.

Transformação... trans + forma + ação, a nova forma que a ação toma.

Como tudo que rege os Universos, relacionamentos se transformam, sobretudo, quando NOS transformamos. 

Não no sentido melodramático de avaliar ou julgar o outro e, na comparação, justificar o fim na conta da desqualificação do outro, mas de nos compreendermos de tal sorte que, a partir disso, simplesmente seguimos outros caminhos, sem dor, sem latência de mágoa ou frustração.

Talvez com o remanescente de uma sensação de "poderia ter sido se não fosse", mas nada que não seja facilmente compreendido como uma tentativa do ego em se apegar ao que toma como certo sentido de identidade e segurança no passado. 

Quando nos damos conta desse peguinha do ego, tudo fica bem mais clarificado e, a partir daí, podemos seguir em frente para novas aventuras, novos contextos e novos rumos. 

Tudo dentro do fluxo!

Minhas primeiras experiências de seguir em frente estão sendo mais profundas com meus círculos mais próximos de amizades. 

Melhor dizendo: com minhas expectativas ilusoriamente elaboradas em relação aos meus círculos mais próximos de amizade

Melhor dizendo, ainda mais: com a desconstrução do que EU inventei como sendo um modelo de amizade, considerando meus amigos como se projeções do meu ego fossem.

Daí, obviamente, a cobrança interna projetada na cobrança da alteridade. A sensação de que o outro, meus amigos e amigas, não me compreendem, entendem, não lidam direito comigo etc. 

Os três últimos meses de imersão profunda nos rincões da minha alma têm me trazido a consciência a respeito dessas criações de mundo: do meu pequeno grande mundo, para o qual procuro trazer as pessoas que amo. 

Uma redoma de Alê, na qual todos protagonizam parcelas egoicas fulgurantes, uma espécie de Game of Thrones em relação ao qual, ao final, o ego se perde, tamanha a confusão em termos de identidade e expectativas. 

Descobri, em meio a isso, que simplesmente tudo passa, amigos, parentes, namorados, amores platônicos, colegas, pessoas, seres, sensações.

Tudo está sempre passando no fluxo dessa impermanência...

Quando tentamos dar o "freeze" da câmera fotográfica, ilusoriamente retemos uma pequena parte disso tudo e, se não nos acautelarmos, vivemos pálidas sensações estagnadas no passado, no contra fluxo desse viver exponencial. 

Somos, assim, tomados pela angústia, que nada mais é do que a retenção do passado, na medida de saudosismo e nostalgia que passam a nos assombrar no aqui e no agora, dada a dissintonia entre o que estamos a experienciar no HOJE e a carga emocional trazida do PASSADO

Lembro-me de um sonho em que estava sentada numa pedra no topo de um penhasco, observando o fluxo de estrelas cadentes que estavam simplesmente passando muito rápido, como se fossem água num caudaloso rio em correnteza. 

Esse sonho me impactou e hoje, 20 anos depois, consigo entender o que isso realmente representa: o fluxo da vida, de uma vida, da energia que emana da consciência e que nos leva a vários rumos, várias vidas, várias formas, várias experiências e a vários protagonismos. 

Como lidar com eles? 

Sendo grata pelo desvendar desses gatilhos egoicos, bem como pela sabedoria escondida em cada pequena parcela de experiência que vem, chega, traz o ensinamento e simplesmente se vai. 

Esvai...

O que fica?

Lembranças, saudade? Não, pois isso também é o holograma atemporal lançado pelo ego para tentar sustentar a ideia de individualidade.

Fica o (...)

O que é (...)? É a tentativa de escrever o que não encontra palavras, teclas e linhas nas quais possa se estruturar. 

Trata-se de uma sensação leve, sopro de brisa que acolhe e me remete ao penhasco do qual observava as estrelas em perspectiva... tal qual percebo, ultimamente, a vida, nos contornos que minha consciência entrelaçada ao coração me encaminha, assim, de maneira lânguida, rumo de encontro ao desconhecido!