sexta-feira, 29 de julho de 2016

Meus tesauros de felicidade: integrando corpo e alma no fluxo do yoga

Fonte para créditos da imagem: https://www.osegredo.com.br/wp-content/uploads/2015/04/flor-de-lotus-branca.jpg
Comecei minha senda no yoga em 2005, por indicação de um grande amigo, que me sugeriu a prática da querida Kátea Barros na Universidade de Brasília. Antes do yoga já tinha feito um pouco de muita coisa: ginástica olímpica, ballet, jazz, andado de patins, natação, atividades físicas necessárias para a manutenção da saúde (e, por resultado, da forma física). 

De todas essas atividades, a natação sempre foi a minha preferida. 

Gostava da liberdade, do silêncio e da solitude em cada braçada dada, deslizando na superfície e me desconectando do mundo sólido. Chegava a nadar 8.000 metros - quando competia, na adolescência. Dedicação, disciplina, foco, eis o que me guiava.

Em 2005, contudo, meu mundo se abriu para algo novo, que nunca havia imaginado fazer: yoga. Aliás, dada minha hiperatividade, eu achava - de forma preconceituosa - que yoga seria um tédio...afinal, ficar "parada", "falando om" não parecia me apetecer em termos de atividade "física" (lembram dos 8.000 metros de natação?).

Nossa, como eu estava completamente enganada! Hahaha, e como estava, em todos os sentidos!

Logo no primeiro dia de aula de yoga, levei um susto: descobri que não sabia respirar direito. Enviava o ar para os pulmões, alojava tudo no tórax, como o instrutor de natação orientava. 

Resultado: sempre ofegante, nervosa, não conseguia me concentrar direito fora da piscina. Como não poderia ficar a vida toda dentro d'água, fui quicando de atividade em atividade, torcendo para que algo aplacasse minha ansiedade incontida.

Foi um renascimento observar a ondulação dos músculos abdominais: o ar entrando, os músculos da barriga dilatando, o ar saindo, a barriga encolhendo. Ar entra, preenche tudo, a retenção me preenche, o ar sai, seca tudo e o vazio se plenifica. 

Pouco a pouco essa atividade aparentemente simples foi mudando minha vida, pois o afã descomedido começou a ceder espaço para a busca de momentos de quietude, como o da respiração. Com o yoga veio a meditação, a arte de conexão com o sagrado, por intermédio do esvaziamento da mente, para focar apenas a respiração

A partir dela - claro, tudo gira em torno da respiração, pois é ela que nos mantém vivos no agora - meus músculos foram se irrigando, tonificando, minha elasticidade se ampliando e cada parte do meu corpo foi se soltando, pouco a pouco.

O incentivo para uma reelaboração da dieta alimentar foi enorme no yoga, sobretudo quando comecei a me inteirar sobre a ayurveda, bem como sobre os sistemas de doshas, energias primordiais que nos estruturam. Foi, então, que descobri ser o yoga uma SENDA, um caminho integrativo da mente, do corpo e do espírito.

Yoga é uma palavra em sânscrito com plurais significados: integração, união, junção, senda que utiliza o pranayama (respiração) e os asanas (posturas) para integração da mente e do corpo, superando, assim, o dualismo, e nos ancorando no aqui e no agora para a plenitude consciencial.

Nem passado, nem futuro. 

O yoga nos remete ao instantâneo, que é a respiração, ato sagrado de junção com o Tudo, muitas vezes neglicenciado por essa pressa incontida, robótica, que insistimos em nos colocar. 

Excelente forma de descobrimento do corpo, o yoga nos prepara para a imobilização do processo meditativo, comunicando e conscientizando o corpo material a respeito do imediato - aqui e agora- ao mesmo tempo em que traz foco para a inquietude mental, na medida em que as respirações se harmonizam com as posturas e a permanência. 

Fui descobrindo meu corpo, as limitações que impus a ele em meio a processos psicossomáticos e, sobretudo, as superações dessas limitações. Esse ano fiquei surpresa e feliz quando, finalmente, consegui colocar meu calcanhar inteiro no solo ao fazer a postura do cachorro, pois, antes, a falta da flexibilidade me fazia levantar o calcanhar para alinhar a postura. 

As invertidas sobre a cabeça ainda são meu desafio, mas, pouco a pouco tenho me permitido avançar, sempre dentro do meu limite e respeitando o princípio sagrado da não prática de violência. 

Durante minha trajetória, algumas pessoas marcaram e têm marcado meu amor pelo yoga, eu não poderia deixar de comentar a respeito, até para compartilhar seus contatos, pois são excelentes professoras. Recomendo todas as práticas, cada qual com sua peculiaridade. 

Vou compartilhar um pouquinho o que SINTO em cada uma das práticas: não sou dona da verdade, muito menos as práticas das professoras se esgotam no que estou a pontuar aqui, dadas as amplitudes de cada uma. O que estou dividindo consiste nos aspectos que PARA MIM (ou seja, minhas demandas pessoais) saltam aos olhos. 

Também não quero incorrer em comparações: não se trata de colocar ninguém ao lado de ninguém: cada pessoa é um universo. Creio que as experiências distintas dão uma boa percepção para que as pessoas possam fazer suas escolhas empaticamente. 

Kátea Barros, minha primeira professora de yoga. 

Um ser etéreo, que flutuava na sala, bailando enquanto nos explicava cada um dos benefícios das posturas. A prática com ele era sempre imersa em uma egrégora, dando-me a sensação de estar na companhia de seres etéreos. 

Hoje ela está morando em outro Estado, mas sempre estou com sua amorosidade. Com ela aprendi que o yoga não consiste em uma "maromba zen", sendo uma prática a aliar os corpos espiritual, físico e mental. Aliás, em sua aula consegui, pela primeira vez, entrar em estado meditativo. Que benção a Katita!

Priscilla Almeida, com quem aprendi não só a ter disciplina, mas a investir no coletivo, pois fazia parte de um grupo que se reunia em uma casa e, após as práticas, tomávamos leite de amêndoas. A convivência com ela me enriqueceu de receitas, reflexões sobre minhas limitações. 

Marise Armondes, no Plenitude Yoga, o lugar mais fofo, lúdico, etéreo e mágico em que tive oportunidade de fazer a prática!!!!

Fica no Guará I, num sobrado fantástico, todo ambientado para uma prática confortável. A Marise tem uma abordagem clássica, a partir do hatha yoga integrada à vinyasa flow. A prática é fluida, com a passagem de um asana a outro de forma lânguida.

Além de explicar pontualmente os benefícios das posturas, a Marise mantém em seu espaço um ambiente onde expõe e vende produtos maravilhosos, desde pães sem glúten e lactose, até óleo essencial e um "cheirinho" para ambientes que, até hoje, nunca senti aroma igual. 

Formamos um grupo no trabalho (2015) e convidamos Patrícia Kratka para nos guiar na árdua tarefa de desacelerar no ambiente laboral. 

Amorosa, cumpriu a tarefa com super dedicação, pois suas aulas sempre envolviam o acesso a um acervo diversificado de posturas, interpoladas com os exercícios de respiração e foco nas posturas de torção e retroflexão (por causa da Patrícia eu passei a amar as torções e a investir, em casa, nelas), o que me trouxe uma serenidade!!!

Antes de sair em um mochilão pelo mundo, chegamos a transferir as aulas para o Parque Olhos D'água, local mais do que apropriado para a conexão com o sagrado. Adorei, em especial, esse momento de pura elevação.

Esse ano resolvi praticar yoga perto do meu trabalho, na hora do almoço, para desestressar do cotidiano. Encontrei a Sociedade Vipassana de Meditação, onde conheci duas pessoas maravilhosas. 

Primeiro conheci a Soraya Diniz Farah, ariana nascida no mesmo dia do meu aniversário. As aulas seguem várias linhas - bem explicadas e definidas -segundo a sistematização com que ela, com afinco, faz em cada semana. 

Sempre com o foco na respiração e na construção correta do asana, não sem antes ela fazer questão de frisar a importância da não violência ao corpo. Na prática da Soraya eu consegui ajustar o calcanhar ao solo adho mukha asana, a postura do cachorro. 

Também acho legal a explicação que ela dá sobre os órgãos beneficiados pela prática, bem como a preocupação com cada um dos alunos e das alunas, ao ponto de orientar a prática do dia para um aspecto específico levantado por alguém do grupo. 

A partir da interlocução com o grupo e a Soraya, tenho tomado consciência de processos internos que estavam latentes, mas alojados no quartinho de despejo. Um verdeiro trabalho de autocura, a partir do diálogo com os colegas de prática. 

Aliás, temos o grupo no whatsapp onde postamos pensamentos, eventos, fotos. A Soraya mantém, ainda, uma vasta network, divulgando terapias e eventos por meio da Ecomind, tanto no blog, quanto no facebook. Vale muito a pena dar uma passadinha lá.

Depois de fazer aulas com a Soraya às segundas e quartas, decidi investir mais em mim e também fazer às terças e quintas, ou seja, quase todos os dias. Com isso e, sobretudo, com a ideia pragmática de estar perto do meu trabalho, conheci o trabalho da querida Denise Maria Lemos, que desenvolve o trabalho em hatha com yoga hormonal. 

Suas aulas me fazem aterrar e, paradoxalmente, transcender. 

Como? 

Não sei explicar, mas a sensação, ao final de cada encontro, é de me elevar: parece que meus elétrons param e meu corpo deixa de ser um organismo distinto do ambiente. 

Fusão ao todo seria uma forma menos precária de tentar explicar a sensação de plenitude e benignidade a partir da prática, que foca o tempo de permanência (longo) nas posturas, o que demanda respiração. 

Tudo também muito explicado em termos de benefícios e órgãos envolvidos. Por intermédio da Denise, conheci o almoço maravilhoso do restaurante Supren Verda, local aprazível e preocupado com alimentação vegana de qualidade.

Essa reconexão tem operado modificações sem precedentes em minha vida. 

Retomei um caminho do qual havia me apartado há tempos: autoconhecimento. Redescobri, por intermédio da integração proporcionada pelo yoga, o prazer de me acarinhar com as posturas, a respiração, a meditação e, ainda, automassagem com óleos essenciais.

A benignidade, bem como a plenitude, são estados de espírito cuja escolha nos traz benefícios profundos na alma. Sempre que posso, recomendo aos amigos e às amigas a saída dessa egrégora caótica em que estamos na contemporaneidade, para estabelecer o encontro com nossas verdadeiras essências...

Eis a razão pela qual o yoga, a meditação e demais práticas integrativas constituem meu acervo de tesauros de felicidade!!!!

Plenitude Yoga: QE 19, conjunto E, casa 14, fones 61 99278 8597 (Claro) e 98305 4339 (Tim) - e-mail: plenitudeyoga@gmail.com

Sociedade Vipassana de Meditação: SGAN, quadra 909 "E", fone 61 984812187.


domingo, 24 de julho de 2016

Cem dias de plenitude e celticidade: amizade

Disponível (avaliable): https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/60/f9/c4/60f9c46f06e82a3d62b8a293e6fa7167.jpg, acessoem 24 de julho de 2016.
Tem sido recorrente prática no meio pagão a postagem de uma série de reflexões sobre o percurso ou a jornada no autoconhecimento, independentemente da tradição (http://100diaspagaos.tumblr.com/).

Druidas, bruxo/as familiares, simpatizantes e wiccano/as, não importa: o/a iniciado/a que irrompe rumo à experiência na senda de conexão ao Sagrado e à ancestralidade apõe em uma espécie de diário de campo - usualmente por 100 dias- dia após dia, sua saga heroica, pois ela representa o pano de fundo de sua própria história

Na postagem anterior, chamada Meus tesauros de felicidade: o retorno à ideia mágica de simplicidade no viver, listei uma série de thesaurus de valor para o que considero uma vida plena e feliz na simplicidade. Com essa percepção bem vívida, decidi aliar o propósito de compartilhamento do meu percurso na vida ancestral com os cem dias de narrativa do significado que esse rito de passagem adquire para mim.


Listei tesauros de hoje, com os quais começarei meu novo ciclo de aventuras são: amizades, reciprocidade, veracidade, transparência, desapego, adeus, olá. O tema inicial não poderia ser outro mesmo: AMIZADE, pois ela constitui o suporte ou alicerce para que o/a iniciado/a possa galgar os obstáculos sentindo-se acalentado/a pela força e pelo carinho que apenas os vínculos fraternos e clânicos podem propiciar.

Os celtas nunca foram conhecidos por uma unidade política, sempre optando pela vida em clãs distintos sem um poder central - em face de seu espírito libertário, independente e sem amarras - cada qual sob o jugo de um líder escolhido pela força, honra, determinação e coragem (bem diferente dos tradicionais sistemas de consanguinidade e nobreza). 


Dani (e) e eu (d)
Tais nichos - quase sempre reunidos em volta do vínculo de sangue - criavam a atmosfera perfeita para que, na figura do clã, os laços mais fortes e profundos pudessem ser firmados, estabilizando internamente a tribo, bem como a fortalecendo diante dos inimigos (vide o  texto Resgatando os tempos antigos de honra no bom combate).

A amizade, assim, era o ponto de apoio que atrelava os membros do clã em uma sociedade celta, mantendo a solidariedade entre os indivíduos. Liames invisíveis, pautados no empenho da palavra, bem como na honorabilidade de se portar em uma retidão de caráter eram a tônica a transformar a amizade em uma verdadeira corrente sinérgica de força, uma egrégora de poder incomum.

Por mais que o/a iniciado/a decida percorrer a senda no caminho solitário, formar profundos e autênticos vínculos de amizade é importante para obtenção do apoio necessário ao curso da trajetória


Tulio (e) e eu (d)

As amizades verdadeiras - que enfrentam vicissitudes e intempéries - são o poder secreto sempre à disposição do inciado/a. Não era à toa que as corporações druídicas nas sociedades celtas se firmavam a partir de conselhos de anciões, ou, ainda, nos covens, permanece a prática de se reunirem os membros para comunhão de afinidades. 

Nas tradições familiares, a conexão pelo sangue já imanta, no plano físico, a materialização do elo entre os membros. Laços são fundamentalmente o material energético a coligar pessoas que se lançam no mundo mágico. A amizade, então, passa a ser um substrato invisível, mas forte e contundente, a alimentar sintonicamente as pessoas cujos corações reverberem em consonância.

Daí o segundo tesauro, a reciprocidade, como resultante de um vínculo clânico de fraternidade, a partir do qual se elabora uma tessitura de relações - expectativas e demandas - firmadas na mutualidade, ou seja, em laços de devolução, restituição e/ou compensação. 


Tulio (e), eu (c) e Zeca (d)

Longe do conceito romanista de obligatio, a ideia aqui contextualiza-se em uma dimensão moral, diáfana, que se confunde com a manutenção da paz no grupo (lembrando que a ordem de paz, para os celtas, possui um profundo significado imanente de revelação dos deuses, ancestrais da casa). 

Não existe cobrança, uma vez que que a reciprocidade lança ao mundo o propósito de se honrar com a palavra e a conduta leal, inalcançáveis por contrato ou tratado.

Aliás, um excelente parâmetro para se perceberem arremedos de amizades: descompasso no fiel do tratamento dispensado. Lembro-me de haver convivido com uma pessoa que me foi muito querida. Convidava-a para os solstícios, equinócios e celebrações lunares, trocava confidências, enfim, vivenciava a percepção de vínculo. 

Detalhes, porém, começaram a se avolumar: percebi nunca ser convidada para sua casa (para o celta, a casa é a própria alma do membro do clã, sendo ato de mais valiosa honra o convite para ingresso em uma residência), suas celebrações, seu mundo. Minha presença em sua vida era bem interessante quando essa pessoa me procurava para tirar dúvidas, solicitar material. Ou seja, uma seta unilateral.

Citei esse exemplo para me aprofundar na importância que a reciprocidade adquire como um termômetro do que significa um elo de amizade entre pessoas que se dizem afins uma da outra. 

Não se espera porque não se faz necessário esperar: o vínculo é tão espontâneo que o compartilhamento se intensifica com o transcurso do tempo. 

O/as verdadeiro/as amigo/as abrem as portas de seu coração, sua alma e sua casa, para abrigar em pouso fraterno quem desejoso está de um bom travesseiro para recostar a cabeça depois de um dia de batalhas. Essa é a verdade do vínculo, a veracidade do propósito de se compartilhar uma vida com seres amados o bastante para que possamos desembainhar a espada em sua defesa.

Diziam os romanos que os celtas, quando não estavam em guerra, costumavam brigar entre si para manterem a forma... Amigos e amigas discutem, brigam, exaltam-se: esse é o resultado de não se usar máscara e se colocar na lisura de alma para conversar sobre as divergências. Depois aquietam a alma, respiram fundo e, cada qual, pondera. O grupo pára, reflete. A egrégora solidária se pacifica. 

A transparência é, pois, requisito essencial, dentro dos tesauros de amizade, para que os verdadeiros laços sejam amorosamente apertados, compondo, assim, o triskelion clânico onde inexiste distinção entre início e fim.

Quando fui percebendo isso, naturalmente comecei a agradecer pelo tempo em que meu caminho andou com o de outrem, bem como a me despojar da presença das pessoas em minha vida. Não, não, não tem a ver com O/A OUTRO/A. Não há culpa, responsabilização do/a outro/a, mas, mas, antes, protagonismo na decisão. 

Decidir não estar com outra pessoa apenas e tão somente porque não se faz mais necessário o percurso para que ambos extraiam dele a virtude da sabedoria. Afinal, na constância do eterno retorno da vida-morte-vida, estamos a encontrar pessoas, reencontrar outras e estabelecer ligações que vêm e vão na espiral cósmica. 

Não se trata também da percepção vitimista de eliminar o outro por não corresponder às expectativas, mas, antes, de uma languidez de alma centrada, que leva à internalização do rompimento sem o conflito quanto à responsabilização. 

Aliás, percorrer a senda iniciática é, sobretudo, ser protagonista das escolhas. 

Deixei de usar meu tempo disponível na tentativa de investir em algo que ilusoriamente só existia em minha mente condicionada e, com isso, comecei a decidir de outra forma. 

Deletei contato, apaguei telefones. Não porque desejei fazer de rompante, mas porque percebi que manter na memória do celular um número para o qual nunca ligava e do qual não recebia ligações não fazia sentido. 

O adeus é importante, ainda que achemos ser visceral o vínculo que nos une a quem consideramos [basta lembrar o abrupto corte com a mãe, quando o cordão umbilical cingido nos remonta à necessidade de respirar por conta própria]. 

É preciso deixar sair o antigo para que novos processos possam adentrar a nossa porta! O olá a novos percursos é essencial para a manutenção do equilíbrio universal. 

Simples assim! 

Amigos e amigas se falam, estando longe ou perto. Sabem hábitos uns dos outros, perguntam sobre a vida, a família, choram. Sabem quando vir, bem como quando sair. Uma benção separar por vínculo quem realmente nos quer bem. Saber ouvir a voz do coração para estar próximo a quem verdadeiramente chamamos de amigo ou amiga é cumprir a primeira etapa iniciática em novas vidas: formar laços sinceros, autênticos e leais!

Céad mille fáilte!


Disponível (avaliable): https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/564x/fc/a1/95/fca1952274e407251053d76f36c35ac4.jpg, acesso em 24 de julho de 2016.




sábado, 23 de julho de 2016

Meus tesauros de felicidade: o retorno à ideia mágica de simplicidade no viver

Fonte para créditos de página: https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/736x/23/e7/4b/23e74bc0affe10a9c8d5abe53f23914e.jpg

Em meio às resoluções para um novo semestre que se avizinha - algumas ideias nem tão novas assim, mas renovadas diante da vida que se debruça em mudanças abruptas - peguei-me a relembrar momentos interessantemente bons, onde reverberava o conceito e a prática de uma vida artesanal.

O que seria isso? 

Vida artesanal, ou simplesmente o retorno à percepção frugal de uma austeridade legítima - não simplória - que remonta à saída do senso comum de uma robotização que se eleva como constante nas relações humanas. Simplicidade no pensar, agir e sentir, recompondo a presença do Eu Superior no cotidiano de nossas vidas e, com isso, integrando mente e espírito numa dimensão de auto realização. 

Tentando montar um glossário sobre como minha vidinha artesanalmente mágica exprime o que de mais vívido e especial em mim, achei umas categorias, tesauros em torno dos quais orbita o retorno àquela lânguida sensação de leveza interior, como se a agitação de águas turbulentas cedesse espaço, enfim, à paz de espírito em uma constante de elevação. 


Tesauros são palavras de significados afins. Segundo Currás, trata-se de "uma lista autorizada, que pode conduzir o usuário de um conceito a outro, por meio de relações heurísticas ou intuitivas" (1995, p. 85), sendo, assim, uma espécie de catalogação de palavras a desembocar um mesmo campo lexical ou contextual. 

Ainda que meu pequeno dicionário da felicidade contenha palavras distintas, o que importante é o vínculo de bem-estar correlato a elas: todas se somam no sentido de apontar para a realização do espírito, depois de um período de intensa agitação, a partir do qual repensei minha vida e atitudes, resgatando, assim, a trajetória na senda espiritual que se imanta no plano material.

Quando sentimos algo sair de prumo, o sinal, dali adiante, mostra a necessidade de voltar e apaziguar o espírito, ainda que as resoluções sejam entendidas como ortodoxas e exageradas. Como saber, afinal, se são? Simples: se fizer e sua alma ficar ainda mais leve, então fez a coisa certa. O coração se enche de realização e, ao final, tudo se encaixa perfeitamente.

Meus tesauros de felicidade

  • amizades, reciprocidade, veracidade, transparência, desapego, adeus, olá;
  • yoga, meditação, automassagem, autocura;
  • alimentação orgânica, feira do produtor, leite da fonte na garrafa reciclada pet, rúcula, agrião da terra;
  • compostagem, reciclagem, adubo, jardim de ervas;
  • brechó (usados), roupa artesanal, botinha da feira;
  • jipe Bambam, carro usado (vida útil de 1.000.000 km);
  • ensino e aprendizagem, sala de aula, alunos e alunas, eu-aluna, eu-facilitadora, ego jurídico decadente na ignorância;
  • Antropologia jurídica, fenomenologia, empírico, antroposofia, Steiner;
  • Física quântica, Amit Goswami, Capra, Bohm;
  • Lua, Sol, equinócios, solstícios, supernovas. 
  • Ecofeminismo, sagrado feminino, Vandana Shiva;
  • Gatos e cachorros, Natureza, cachoeira, água, terra, fogo e ar; 
  • ancestralidade, patrilinearidade, matrilinearidade, sacralidade, hermetismo, consciência... 
  • FELICIDADE!
E eis, enfim, a dimensão da felicidade, lânguida, em brisas, que vem, aloja-se no coração calmo, nada afoito, enquanto o mundo e as pessoas em desatino correm... Sinto-me grata, mais e mais, por me ser permitida a exata medida de poder voltar e refazer minha senda, com novos desafios e caminhos inusitados.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Quando parar é preciso: compreendendo as doenças como caminho da alma rumo à transformação

Imagem extraída do seguinte site para créditos: https://passagemparajapao.files.wordpress.com/2015/06/girassol.jpg
A temperatura aumenta, o corpo amolece. Dor no peito, nas pernas, falta de ânimo e de apetite: quem nunca sentiu esses sintomas por ocasião da eclosão de uma doença? O que isso realmente significa?

Podemos encarar as doenças a partir de várias perspectivas: atuação de vírus e bactérias em nosso corpo, drenagem energética, questões cármicas acumuladas e não enfrentadas, maldições, voodoo, magia, demonização, "quebranto" ou, ainda, mero desequilíbrio. 

Não importa a denominação, ninguém gosta de adoecer, não é mesmo? algo vai mal conosco e, diante do inevitável, colocamo-nos em guerra, inoculando em nosso corpo a mais vasta sorte de medicamentos, confiando piamente que esses agentes conterão todas as sensações que nos deixam desconfortáveis.

Independentemente do sentido que atribuímos aos desarranjos e às disfunções em nossos organismos, algo é certo: por trás de uma patologia se encobrem aspectos não revelados de nossa psiquê, trazidos à tona quando a plasmamos no mundo físico a ruptura da ordem em nosso mundo psíquico.

Por esse viés, a doença se confunde com nossa sombra (é umas das imanações dela), palavrinha tão mal-compreendida e temida, ante o conforto de se atribuir responsabilidade a um agente externo a nós, ao invés de nos colocarmos como protagonistas de nossa existência. 

"A sombra contém tudo aquilo que o mundo, o nosso mundo, mais precisa para sua salvação e cura. É a sombra que nos torna doentes, portanto, não saudáveis, porque ela é a única coisa que está faltando para nosso bem-estar" (2007, p. 44)

A reflexão de hoje pretende resgatar a ideia inicial de sermos produtores de nossas trajetórias e, portanto, das vicissitudes pelas quais nossas almas experimentam momentos de desequilíbrio, desconforto e dor. Em outras palavras: como aceitar, abraçar e amar nossa sombra e, a partir daí, integrá-la ao nosso universo?

Primeiro ponto para compreendermos adequadamente a patologia - sob uma dimensão mágica - consiste em superar, em nível discursivo, o paradigma dualista de explicação da doença como a resultante de um processo de ataque colegiado de organismos externos, como se fôssemos seres autômatos o bastante para, inertes, apenas aguardar a vinda desse séquito de invasores.

Longe disso, o corpo densifica e plasma o que reverbera em nossa alma de informação energética sobre o desequilíbrio: corpo e alma são dimensões quanticamente dispostas em momentos diferenciados, compondo, contudo, uma realidade simbiôntica que se manifesta em estados coexistentes. Unidades justapostas que se coligam - e não afastam - de modo a toda e qualquer interferência em um desencadear a afetação de outra área.

Os mais céticos poderão educadamente concordar e dizer: "ah, sim, MAS existem doenças que não são somatizações, não é?" Não, não é. Isso é a desculpa que a mente racional dá para negar o olhar para seu próprio campo, retornando, mais uma vez, à ideia de ataque de clones bacterianos, numa fuga do eixo de contemplação das mazelas que assolam o espírito. 

Ora, se corpo e alma são componentes justapostos e simbiônticos, a eclosão de uma patologia no corpo (momentum densificado) apenas reproduz, em nível visível e imediato, o que está a acontecer em nossa alma (estado invisível e menos densificado).

Daí, quando o corpo grita é porque a alma já está em prantos há tempos. Basta, então, observar os sinais que a doença traz, para que possamos aprender com ela as lições que nossa sombra deseja nos mostrar.

A patologia, com isso, nada mais é do que a resposta do organismo a um estado de perturbação. Dethlefsen e Dahlke, em um livro bem interessante chamado A doença como caminho, afirmam que "a doença é um estado do ser humano que indica que, na sua consciência, ela não está mais em ordem, ou seja, sua consciência registra que não há harmonia" (2007, p. 17), apresentando, assim, a ideia de manifestação latente, em nível de consciência, de aspectos inconscienciais que vão migrando para nossa percepção mais visível.

Do plano da mente superior, a sombra aglutina nossos aspectos não desejáveis - um quartinho de despejo para onde enviamos tudo aquilo que, por medo, culpa, vergonha, não desejamos enfrentar e agregar como parcela do nosso EU - formulando, assim, entidade vívida, senciente e pulsátil, a concentrar o que entendemos de negativo em nossa vida de dualismos. 

Basta, então, observar a sombra, para integrar à consciência a lição que precisamos aprender em nossas vidas. Com isso, longe de representar - como pretende a medicina tradicional (de natureza superficial e lógico-causal reduzida) um malefício, a doença se mostra um instrumento eficaz de revelação do que está a acontecer com a nossa alma, uma espécie de "termômetro natural" que nos revela o necessário para transpor a limitação que nos impomos ao longo da vida.

Mas ninguém gosta de adoecer, não é mesmo? 

Claro, pois é ruim sentir dor, ficar de cama inerte. Não se trata de se deleitar com a doença (pois a morbidez, por si, já seria mais um sintoma), mas de aceitar o significado da patologia e, sobretudo, aprender mais sobre si a partir dela. 

Como, então, aprender a empaticamente se afeiçoar à patologia? 

Compreendendo o significado latente do que ela deseja nos dizer. Abraçar a doença - e não meramente negá-la pela automática ingestão de remédios - é compreender um pouco mais sobre nós mesmos em nossas limitações, com a finalidade de superar os obstáculos que nós mesmos construímos em nossas vidas.

Sejamos, pois, os protagonistas de nossa cura e, com isso, transformemos nossas vidas em momentos de plenitude e autoconhecimento!

domingo, 10 de julho de 2016

A senda iniciática no percurso do Sagrado


Uma das perguntas mais frequentes que tenho recebido ao longo dos anos diz respeito à curiosidade diante do tema "iniciação": "como fazer para iniciar na senda das Artes Sagradas?". Ou, então, "quanto tempo leva para me iniciar?" e até mesmo "como faço para me tornar uma bruxa?". 

O número de pessoas insatisfeitas com os sistemas religiosos vigentes tem aumentado a cada dia, dentro e fora do Brasil, possibilitando, com isso, tais inquietudes.

Como tanta demanda vindo à tona, algumas comunidades têm aberto espaço para a diversidade religiosa. A Islândia, por exemplo, está em vias de inaugurar um templo para as deidades nórdicas, assim como na Grécia e na Grã-Bretanha, cada vez mais cultos pagãos estão dividindo a pauta de festividades com as seculares celebrações cristãs. 

Na Escócia, o Festival do Fogo em Beltane é exemplo forte disso, ao lado das celebrações de equinócios e solstícios feitos em círculos de pedras como o Stonehenge, que nos remetem a dimensões mágicas e simultâneas a desafiar a parca racionalidade.

Em face de tamanho incremento, falar sobre iniciação é sempre providencial, até para desmistificar algumas ideias que permeiam o ideário do mundo mágico. Sem pretender polemizar - ou ofender quem pensa diferente - quero compartilhar algumas reflexões feitas ao longo de anos dedicada à vivência do sagrado.

Em alguns sistemas tradicionais wiccanos, por exemplo, a iniciação ocupa espaço formal, quase sempre fincado em um lapso temporal de um ano e um dia após a dedicação, para que o neófito possa mergulhar em estudos profundos dos principais pontos. Depois do lapso, um rito de passagem é realizado, para apresentar o novo membro ao coven e, a partir daí, ingressar nos mistérios que apenas a irmandade compartilha. 

Não vejo como uma regra fixa, apesar da literatura convergir para um período de tempo (um ano e um dia) tido como necessário ao aprendizado. Além da herança familiar, fui iniciada em uma tradição contestadora de boa parte das regras ortodoxas da liturgia wiccana, o que, por certo, atraiu muito minha afeição, na medida em que me apresentou respostas muito mais convincentes do que a dogmática wiccana usual. A imersão ali se deu em face de uma concentração de práticas mais próximas da bruxaria tradicional do que da ritualística wiccana, a começar pela ausência do isolamento casular.

Outra experiência que agreguei foi em um círculo de mulheres que reverenciavam as deidades femininas de distintas culturas. Cheguei a participar de reuniões, mas não adentrei a iniciação (Beltane), pois, de última hora, escutei o chamado da minha ancestralidade, que cultua os aspectos deídicos na polarização de forças, e não na invocação singular do Feminino. 

O que ficou de experiência em relação aos círculos dos quais participei: em ambas a ideia de senda iniciática estava presente, levando-me a perceber nesse passo um importante fundamento divisor de águas no caminho mágico.

Um mito que sempre povoa as perguntas: mas, e na bruxaria, sobretudo, tradicional? 

Existe a liturgia rígida de uma iniciação formal, sujeita a regras e dogmas? 

Ou, ainda, será exigível algum lapso temporal a partir do qual uma pessoa pode ser chamada de bruxo/a? Ou, então, de uma forma mais "pasteurizada", "quais os requisitos que tornam uma pessoa um/a bruxo/a?"

Não existe uma resposta definitiva, até mesmo porque é necessário fazer algumas distinções entre tradições familiares por sangue e tradições herméticas em covens formados por afinidade. Não me arrisco ir mais: receio cair em superficialidade ao tentar desenvolver mais em áreas que me são distantes em face da minha senda específica.

Nas tradições familiares, o legado é transmitido pelo vínculo sanguíneo, por força da egrégora formada por gerações que perpassam existências e encarnações, por intermédio de um filete ancestral de informações dispostas em um suceder helicoidal, espiralizado, onde os dados estão dispostos no imaginário coletivo, vivenciadas e revisitadas pelas gerações vindouras. Isso é o que traz a perpetuidade do conhecimento, ora levado adiante por relatos orais, ora registrados nos livros sagrados (da família ou dos membros).

O "nascer bruxa ou bruxo" faz muito sentido dentro de tal paradigma, porque se trata de uma condição inerente ao percurso que a família fez ao longo do suceder de gerações, passando o conhecimento para a frente, mantendo, assim, acesa, a centelha do legado no simbólico coletivo. Por isso que, uma vez bruxa ou bruxo, sempre bruxa ou bruxo! O "tornar-se" bruxa/o é apenas uma contingência de se rememorar o conhecimento potencializado e ainda não vivificado para, a partir do empírico, acessar o subconsciente e revelá-lo.

Em tradições assim, tanto pode haver uma iniciação sem a rigidez cerimonial - quando a mãe entrega a filha ou filho à Lua (ou Sol em algumas famílias) do dia de seu nascimento - ou não, a depender do grau de formalização com que a família celebra seus ritos e finca suas tradições. Iniciações e ritos de passagem seguem, nesse plano, os ritmos naturais que usualmente se concentram nas mudanças biopsíquicas da mulher (menarca, gestação e menopausa) e do homem (ritos de passagem para a puberdade). A iniciação, portanto, estaria relacionada à transposição de cada uma dos portais presentes nas inerentes modificações da sazonalidade. 

[importante aqui fazer uma diferenciação entre tradições em que a bruxaria é elaborada tanto por homens, como por mulheres. A referência que faço é, por óbvio, a partir do lugar de fala de uma tradição matrilinear, na qual a arte é ofício sacrossanto feminino. Mas nos ofícios masculinos e mistos também os ritos de passagem seguem a sazonalidade segundo as liturgias do clã. Independentemente das linhagens matri, patri ou matri-patrilineares, os ritos de passagem marca mudanças de ciclo].

Por que dessa ausência de rigidez e formalismo na bruxaria tradicional de natureza familiar? 

Ante a percepção de não ser um sistema religioso - ao contrário da wicca, que se consolida como tal em face da institucionalização progressivamente fincada até para se firmar no campo - a bruxaria se encontra alojada nas práticas profanas de transformação a partir da conjugação ao Sagrado. Daí ser inerente a ela uma ausência de sistematização, na medida em que as práticas variam de família para família, de clã para clã.

Mas não é a única senda de acesso ao conhecimento sagrado das Artes.

Em tradições formuladas por vínculos de afinidade, por sua vez, a iniciação pode representar uma mudança de fase, um abandono formal de uma experiência, para o abraço em um novo mundo de vivências, a partir de uma celebração litúrgica a marcar bem tais limites. A sacerdotisa e/ou o sacerdote encampam tal ofício que, no caso das tradições familiares, é formulado pela matriarca do clã. 

Para o/as solitário/as, a iniciação representa importante decisão de percurso singular, uma vez que o/a neófito/a arca integralmente com a responsabilidade existencial de suas escolhas, suportando sozinho/a os resultados de suas decisões, quer seja sob a perspectiva ética, ou, ainda, energética. O caminho solitário sempre apresenta um sabor especial de entrega, pois o/a iniciado/a se lança ao caminho por conta própria, sendo o protagonista de seu aprendizado.

O que representa, enfim, a iniciação?

Abandono ou abnegação...

Introspecção...

Morte...

Renascimento...

Conhecimento...

Abandono de uma percepção de mundo crivada pelo senso comum. Sair de uma egrégora para abraçar o sagrado é transpor a experiência do cotidiano, para transformar a vida, em si, na senda. Afinal, bruxaria não é um ofício mágico de mudança de estados da Natureza, mas o viver no estado de conexão à Natureza, lugar de fala de onde é possível operar mudanças. Transformar o externo é, sobretudo, estar conectado a ele, o que não pode ser possível no campo da separação entre o iniciado e o mundo circundante.

A abnegação, aqui, não adquire uma faceta de sacrifício crístico - nem pode, pois se trata de paganismo - mas, antes, da conscientização da necessidade de afastamento do paradigma até então vivenciado, por pura incompatibilidade com o caminho a trilhar adiante.

Só a partir da renúncia do trivial elaborado como estado mental petrificado no imaginário coletivo que é possível operar no plano mágico, menos denso. Essa é uma parte difícil, mormente diante de tudo que a pós-modernidade oferece como anestésico para nossos instintos primordiais. O retorno à Physys é condição essencial para firmar a síntese da busca pelo sagrado.

introspecção está marcada no silenciar, por meio da desconexão dos ritmos caóticos da artificialidade do mundo robótico para abraçar o vazio necessário ao alcance do conhecimento oculto e ancestral, só revelado a partir do acesso que a solitude propicia. A máxima saber, ousar, querer, calar, aqui adquire um significado especial, na confluência das ações: é preciso calar para saber direcionar o querer e, assim, ousar.

Morte, essa palavra tão temida e desconhecida. Toda iniciação marca uma morte, uma finalização ou término de um ciclo, no qual a vida, da maneira como o/a neófito/a a vivenciava, extingue-se, tal qual a pupa abandona o casulo, para enaltecer a nova existência na forma de borboleta. 

A morte, aqui, advém de uma escolha e, como toda escolha, supõe perdas representativas de pequenas mortes. Ao contrário, então, de se vislumbrar na morte um fatídico momento de tristeza, na senda iniciática essa valoração é substituída pela consciência de que todo fim se coliga a um começo e a novos fins, indefinidamente.

Daí o renascimento como estado simultâneo, a partir de um novo momento que se esquadrinha. Nada pode ser como antes, sob pena de não se galgar conhecimento. O ciclo vida-morte-vida é o próprio percurso no qual a iniciação é apenas um mote para a passagem para outras etapas. O conhecimento reside, pois, não em um objetivo a ser alcançado, mas no que foi adquirido ao longo da trajetória.

A partir da experienciação de tais sensações - ao meu ver, não redutíveis a cronologias, mas a estados de alma - é possível adentrar os segredos antigos. É um chamado interno a encaminhar o/a neófito/a para imergir na senda o segredo de uma boa iniciação, demandando, assim, seriedade, dedicação, compromisso e austeridade. 

Com essas reflexões, convido quem deseja se iniciar no percurso mágico para o abraço de um mundo novo, presente dentro de cada uma de nós em potencialidade pouco exploradas pelo sucateamento que o plano de racionalização produziu na humanidade. 

A senda iniciática no percurso do Sagrado

Uma das perguntas mais frequentes que tenho recebido ao longo dos anos diz respeito à curiosidade diante do tema "iniciação": "como fazer para iniciar na senda das Artes Sagradas?". Ou, então, "quanto tempo leva para me iniciar?" e até mesmo "como faço para me tornar uma bruxa?". O número de pessoas insatisfeitas com os sistemas religiosos vigentes tem aumentado a cada dia, dentro e fora do Brasil, possibilitando, com isso, tais inquietudes.

Como tanta demanda vindo à tona, algumas comunidades têm aberto espaço para a diversidade religiosa. A Islândia, por exemplo, está em vias de inaugurar um templo para as deidades nórdicas, assim como na Grécia e na Grã-Bretanha, cada vez mais cultos pagãos estão dividindo a pauta de festividades com as seculares celebrações cristãs. 

Na Escócia, o Festival do Fogo em Beltane é exemplo forte disso, ao lado das celebrações de equinócios e solstícios feitos em círculos de pedras como o Stonehenge, que nos remetem a dimensões mágicas e simultâneas a desafiar a parca racionalidade.

Em face de tamanho incremento, falar sobre iniciação é sempre providencial, até para desmistificar algumas ideias que permeiam o ideário do mundo mágico. Sem pretender polemizar - ou ofender quem pensa diferente - quero compartilhar algumas reflexões feitas ao longo de anos dedicada à vivência do sagrado.

Em alguns sistemas tradicionais wiccanos, por exemplo, a iniciação ocupa espaço formal, quase sempre fincado em um lapso temporal de um ano e um dia após a dedicação, para que o neófito possa mergulhar em estudos profundos dos principais pontos. Depois do lapso, um rito de passagem é realizado, para apresentar o novo membro ao coven e, a partir daí, ingressar nos mistérios que apenas a irmandade compartilha. 

Não vejo como uma regra fixa, apesar da literatura convergir para um período de tempo (um ano e um dia) tido como necessário ao aprendizado. Além da herança familiar, fui iniciada em uma tradição contestadora de boa parte das regras ortodoxas da liturgia wiccana, o que, por certo, atraiu muito minha afeição, na medida em que me apresentou respostas muito mais convincentes do que a dogmática wiccana usual. A imersão ali se deu em face de uma concentração de práticas mais próximas da bruxaria tradicional do que da ritualística wiccana, a começar pela ausência do isolamento casular.

Outra experiência que agreguei foi em um círculo de mulheres que reverenciavam as deidades femininas de distintas culturas. Cheguei a participar de reuniões, mas não adentrei a iniciação (Beltane), pois, de última hora, escutei o chamado da minha ancestralidade, que cultua os aspectos deídicos na polarização de forças, e não na invocação singular do Feminino. 

O que ficou de experiência em relação aos círculos dos quais participei: em ambas a ideia de senda iniciática estava presente, levando-me a perceber nesse passo um importante fundamento divisor de águas no caminho mágico.
Um mito que sempre povoa as perguntas: mas, e na bruxaria, sobretudo, tradicional? 

Existe a liturgia rígida de uma iniciação formal, sujeita a regras e dogmas? 

Ou, ainda, será exigível algum lapso temporal a partir do qual uma pessoa pode ser chamada de bruxo/a? Ou, então, de uma forma mais "pasteurizada", "quais os requisitos que tornam uma pessoa um/a bruxo/a?"

Não existe uma resposta definitiva, até mesmo porque é necessário fazer algumas distinções entre tradições familiares por sangue e tradições herméticas em covens formados por afinidade. Não me arrisco ir mais: receio cair em superficialidade ao tentar desenvolver mais em áreas que me são distantes em face da minha senda específica.

Nas tradições familiares, o legado é transmitido pelo vínculo sanguíneo, por força da egrégora formada por gerações que perpassam existências e encarnações, por intermédio de um filete ancestral de informações dispostas em um suceder helicoidal, espiralizado, onde os dados estão dispostos no imaginário coletivo, vivenciadas e revisitadas pelas gerações vindouras. Isso é o que traz a perpetuidade do conhecimento, ora levado adiante por relatos orais, ora registrados nos livros sagrados (da família ou dos membros).

O "nascer bruxa" faz muito sentido dentro de tal paradigma, porque se trata de uma condição inerente ao percurso que a família fez ao longo do suceder de gerações, passando o conhecimento para a frente, mantendo, assim, acesa, a centelha do legado no simbólico coletivo. Por isso que, uma vez bruxa, sempre bruxa! O "tornar-se" bruxa é apenas uma contingência de se rememorar o conhecimento potencializado e ainda não vivificado para, a partir do empírico, acessar o subconsciente e revelá-lo.

Em tradições assim, tanto pode haver uma iniciação sem a rigidez cerimonial - quando a mãe entrega a filha à Lua do dia de seu nascimento - ou não, a depender do grau de formalização com que a família celebra seus ritos e finca suas tradições. Iniciações e ritos de passagem seguem, nesse plano, os ritmos naturais que usualmente se concentram nas mudanças biopsíquicas da mulher (menarca, gestação e menopausa). A iniciação, portanto, estaria relacionada à transposição de cada uma dos portais presentes nas inerentes modificações da sazonalidade. 

[importante aqui fazer uma diferenciação entre tradições em que a bruxaria é elaborada tanto por homens, como por mulheres. A referência que faço é, por óbvio, a partir do lugar de fala de uma tradição matrilinear, na qual a arte é ofício sacrossanto feminino. Mas nos ofícios masculinos também os ritos de passagem seguem a sazonalidade segundo as liturgias do clã. Independentemente das linhagens matri, patri ou matri-patrilineares, os ritos de passagem marca mudanças de ciclo].

Por que dessa ausência de rigidez e formalismo na bruxaria tradicional de natureza familiar? 

Ante a percepção de não ser um sistema religioso - ao contrário da wicca, que se consolida como tal em face da institucionalização progressivamente fincada até para se firmar no campo - a bruxaria se encontra alojada nas práticas profanas de transformação a partir da conjugação ao Sagrado. Daí ser inerente a ela uma ausência de sistematização, na medida em que as práticas variam de família para família, de clã para clã.

Mas não é a única senda de acesso ao conhecimento sagrado das Artes.

Em tradições formuladas por vínculos de afinidade, por sua vez, a iniciação pode representar uma mudança de fase, um abandono formal de uma experiência, para o abraço em um novo mundo de vivências, a partir de uma celebração litúrgica a marcar bem tais limites. A sacerdotisa e/ou o sacerdote encampam tal ofício que, no caso das tradições familiares, é formulado pela matriarca do clã. 

Para o/as solitário/as, a iniciação representa importante decisão de percurso singular, uma vez que o/a neófito/a arca integralmente com a responsabilidade existencial de suas escolhas, suportando sozinho/a os resultados de suas decisões, quer seja sob a perspectiva ética, ou, ainda, energética. O caminho solitário sempre apresenta um sabor especial de entrega, pois o/a iniciado/a se lança ao caminho por conta própria, sendo o protagonista de seu aprendizado.

O que representa, enfim, a iniciação?

Abandono ou abnegação...

Introspecção...

Morte...

Renascimento...

Conhecimento...

Abandono de uma percepção de mundo crivada pelo senso comum. Sair de uma egrégora para abraçar o sagrado é transpor a experiência do cotidiano, para transformar a vida, em si, na senda. Afinal, bruxaria não é um ofício mágico de mudança de estados da Natureza, mas o viver no estado de conexão à Natureza, lugar de fala de onde é possível operar mudanças. Transformar o externo é, sobretudo, estar conectado a ele, o que não pode ser possível no campo da separação entre o iniciado e o mundo circundante.

A abnegação, aqui, não adquire uma faceta de sacrifício crístico - nem pode, pois se trata de paganismo - mas, antes, da conscientização da necessidade de afastamento do paradigma até então vivenciado, por pura incompatibilidade com o caminho a trilhar adiante.

Só a partir da renúncia do trivial elaborado como estado mental petrificado no imaginário coletivo que é possível operar no plano mágico, menos denso. Essa é uma parte difícil, mormente diante de tudo que a pós-modernidade oferece como anestésico para nossos instintos primordiais. O retorno à Physys é condição essencial para firmar a síntese da busca pelo sagrado.

introspecção está marcada no silenciar, por meio da desconexão dos ritmos caóticos da artificialidade do mundo robótico para abraçar o vazio necessário ao alcance do conhecimento oculto e ancestral, só revelado a partir do acesso que a solitude propicia. A máxima saber, ousar, querer, calar, aqui adquire um significado especial, na confluência das ações: é preciso calar para saber direcionar o querer e, assim, ousar.

Morte, essa palavra tão temida e desconhecida. Toda iniciação marca uma morte, uma finalização ou término de um ciclo, no qual a vida, da maneira como o/a neófito/a a vivenciava, extingue-se, tal qual a pupa abandona o casulo, para enaltecer a nova existência na forma de borboleta. A morte, aqui, advém de uma escolha e, como toda escolha, supõe perdas representativas de pequenas mortes. Ao contrário, então, de se vislumbrar na morte um fatídico momento de tristeza, na senda iniciática essa valoração é substituída pela consciência de que todo fim se coliga a um começo e a novos fins, indefinidamente.

Daí o renascimento como estado simultâneo, a partir de um novo momento que se esquadrinha. Nada pode ser como antes, sob pena de não se galgar conhecimento. O ciclo vida-morte-vida é o próprio percurso no qual a iniciação é apenas um mote para a passagem para outras etapas. O conhecimento reside, pois, não em um objetivo a ser alcançado, mas no que foi adquirido ao longo da trajetória.

A partir da experienciação de tais sensações - ao meu ver, não redutíveis a cronologias, mas a estados de alma - é possível adentrar os segredos antigos. É um chamado interno a encaminhar o/a neófito/a para imergir na senda o segredo de uma boa iniciação, demandando, assim, seriedade, dedicação, compromisso e austeridade. 

Com essas reflexões, convido quem deseja se iniciar no percurso mágico para o abraço de um mundo novo, presente dentro de cada uma de nós em potencialidade pouco exploradas pelo sucateamento que o plano de racionalização produziu na humanidade. 

A senda iniciática no percurso do Sagrado

Uma das perguntas mais frequentes que tenho recebido ao longo dos anos diz respeito à curiosidade diante do tema "iniciação": "como fazer para iniciar na senda das Artes Sagradas?". Ou, então, "quanto tempo leva para me iniciar?" e até mesmo "como faço para me tornar uma bruxa?". O número de pessoas insatisfeitas com os sistemas religiosos vigentes tem aumentado a cada dia, dentro e fora do Brasil, possibilitando, com isso, tais inquietudes.

Como tanta demanda vindo à tona, algumas comunidades têm aberto espaço para a diversidade religiosa. A Islândia, por exemplo, está em vias de inaugurar um templo para as deidades nórdicas, assim como na Grécia e na Grã-Bretanha, cada vez mais cultos pagãos estão dividindo a pauta de festividades com as seculares celebrações cristãs. 

Na Escócia, o Festival do Fogo em Beltane é exemplo forte disso, ao lado das celebrações de equinócios e solstícios feitos em círculos de pedras como o Stonehenge, que nos remetem a dimensões mágicas e simultâneas a desafiar a parca racionalidade.

Em face de tamanho incremento, falar sobre iniciação é sempre providencial, até para desmistificar algumas ideias que permeiam o ideário do mundo mágico. Sem pretender polemizar - ou ofender quem pensa diferente - quero compartilhar algumas reflexões feitas ao longo de anos dedicada à vivência do sagrado.

Em alguns sistemas tradicionais wiccanos, por exemplo, a iniciação ocupa espaço formal, quase sempre fincado em um lapso temporal de um ano e um dia após a dedicação, para que o neófito possa mergulhar em estudos profundos dos principais pontos. Depois do lapso, um rito de passagem é realizado, para apresentar o novo membro ao coven e, a partir daí, ingressar nos mistérios que apenas a irmandade compartilha. 

Não vejo como uma regra fixa, apesar da literatura convergir para um período de tempo (um ano e um dia) tido como necessário ao aprendizado. Além da herança familiar, fui iniciada em uma tradição contestadora de boa parte das regras ortodoxas da liturgia wiccana, o que, por certo, atraiu muito minha afeição, na medida em que me apresentou respostas muito mais convincentes do que a dogmática wiccana usual. A imersão ali se deu em face de uma concentração de práticas mais próximas da bruxaria tradicional do que da ritualística wiccana, a começar pela ausência do isolamento casular.

Outra experiência que agreguei foi em um círculo de mulheres que reverenciavam as deidades femininas de distintas culturas. Cheguei a participar de reuniões, mas não adentrei a iniciação (Beltane), pois, de última hora, escutei o chamado da minha ancestralidade, que cultua os aspectos deídicos na polarização de forças, e não na invocação singular do Feminino. 

O que ficou de experiência em relação aos círculos dos quais participei: em ambas a ideia de senda iniciática estava presente, levando-me a perceber nesse passo um importante fundamento divisor de águas no caminho mágico.
Um mito que sempre povoa as perguntas: mas, e na bruxaria, sobretudo, tradicional? 

Existe a liturgia rígida de uma iniciação formal, sujeita a regras e dogmas? 

Ou, ainda, será exigível algum lapso temporal a partir do qual uma pessoa pode ser chamada de bruxo/a? Ou, então, de uma forma mais "pasteurizada", "quais os requisitos que tornam uma pessoa um/a bruxo/a?"

Não existe uma resposta definitiva, até mesmo porque é necessário fazer algumas distinções entre tradições familiares por sangue e tradições herméticas em covens formados por afinidade. Não me arrisco ir mais: receio cair em superficialidade ao tentar desenvolver mais em áreas que me são distantes em face da minha senda específica.

Nas tradições familiares, o legado é transmitido pelo vínculo sanguíneo, por força da egrégora formada por gerações que perpassam existências e encarnações, por intermédio de um filete ancestral de informações dispostas em um suceder helicoidal, espiralizado, onde os dados estão dispostos no imaginário coletivo, vivenciadas e revisitadas pelas gerações vindouras. Isso é o que traz a perpetuidade do conhecimento, ora levado adiante por relatos orais, ora registrados nos livros sagrados (da família ou dos membros).

O "nascer bruxa" faz muito sentido dentro de tal paradigma, porque se trata de uma condição inerente ao percurso que a família fez ao longo do suceder de gerações, passando o conhecimento para a frente, mantendo, assim, acesa, a centelha do legado no simbólico coletivo. Por isso que, uma vez bruxa, sempre bruxa! O "tornar-se" bruxa é apenas uma contingência de se rememorar o conhecimento potencializado e ainda não vivificado para, a partir do empírico, acessar o subconsciente e revelá-lo.

Em tradições assim, tanto pode haver uma iniciação sem a rigidez cerimonial - quando a mãe entrega a filha à Lua do dia de seu nascimento - ou não, a depender do grau de formalização com que a família celebra seus ritos e finca suas tradições. Iniciações e ritos de passagem seguem, nesse plano, os ritmos naturais que usualmente se concentram nas mudanças biopsíquicas da mulher (menarca, gestação e menopausa). A iniciação, portanto, estaria relacionada à transposição de cada uma dos portais presentes nas inerentes modificações da sazonalidade. 

[importante aqui fazer uma diferenciação entre tradições em que a bruxaria é elaborada tanto por homens, como por mulheres. A referência que faço é, por óbvio, a partir do lugar de fala de uma tradição matrilinear, na qual a arte é ofício sacrossanto feminino. Mas nos ofícios masculinos também os ritos de passagem seguem a sazonalidade segundo as liturgias do clã. Independentemente das linhagens matri, patri ou matri-patrilineares, os ritos de passagem marca mudanças de ciclo].

Por que dessa ausência de rigidez e formalismo na bruxaria tradicional de natureza familiar? 

Ante a percepção de não ser um sistema religioso - ao contrário da wicca, que se consolida como tal em face da institucionalização progressivamente fincada até para se firmar no campo - a bruxaria se encontra alojada nas práticas profanas de transformação a partir da conjugação ao Sagrado. Daí ser inerente a ela uma ausência de sistematização, na medida em que as práticas variam de família para família, de clã para clã.

Mas não é a única senda de acesso ao conhecimento sagrado das Artes.

Em tradições formuladas por vínculos de afinidade, por sua vez, a iniciação pode representar uma mudança de fase, um abandono formal de uma experiência, para o abraço em um novo mundo de vivências, a partir de uma celebração litúrgica a marcar bem tais limites. A sacerdotisa e/ou o sacerdote encampam tal ofício que, no caso das tradições familiares, é formulado pela matriarca do clã. 

Para o/as solitário/as, a iniciação representa importante decisão de percurso singular, uma vez que o/a neófito/a arca integralmente com a responsabilidade existencial de suas escolhas, suportando sozinho/a os resultados de suas decisões, quer seja sob a perspectiva ética, ou, ainda, energética. O caminho solitário sempre apresenta um sabor especial de entrega, pois o/a iniciado/a se lança ao caminho por conta própria, sendo o protagonista de seu aprendizado.

O que representa, enfim, a iniciação?

Abandono ou abnegação...

Introspecção...

Morte...

Renascimento...

Conhecimento...

Abandono de uma percepção de mundo crivada pelo senso comum. Sair de uma egrégora para abraçar o sagrado é transpor a experiência do cotidiano, para transformar a vida, em si, na senda. Afinal, bruxaria não é um ofício mágico de mudança de estados da Natureza, mas o viver no estado de conexão à Natureza, lugar de fala de onde é possível operar mudanças. Transformar o externo é, sobretudo, estar conectado a ele, o que não pode ser possível no campo da separação entre o iniciado e o mundo circundante.

A abnegação, aqui, não adquire uma faceta de sacrifício crístico - nem pode, pois se trata de paganismo - mas, antes, da conscientização da necessidade de afastamento do paradigma até então vivenciado, por pura incompatibilidade com o caminho a trilhar adiante.

Só a partir da renúncia do trivial elaborado como estado mental petrificado no imaginário coletivo que é possível operar no plano mágico, menos denso. Essa é uma parte difícil, mormente diante de tudo que a pós-modernidade oferece como anestésico para nossos instintos primordiais. O retorno à Physys é condição essencial para firmar a síntese da busca pelo sagrado.

introspecção está marcada no silenciar, por meio da desconexão dos ritmos caóticos da artificialidade do mundo robótico para abraçar o vazio necessário ao alcance do conhecimento oculto e ancestral, só revelado a partir do acesso que a solitude propicia. A máxima saber, ousar, querer, calar, aqui adquire um significado especial, na confluência das ações: é preciso calar para saber direcionar o querer e, assim, ousar.

Morte, essa palavra tão temida e desconhecida. Toda iniciação marca uma morte, uma finalização ou término de um ciclo, no qual a vida, da maneira como o/a neófito/a a vivenciava, extingue-se, tal qual a pupa abandona o casulo, para enaltecer a nova existência na forma de borboleta. A morte, aqui, advém de uma escolha e, como toda escolha, supõe perdas representativas de pequenas mortes. Ao contrário, então, de se vislumbrar na morte um fatídico momento de tristeza, na senda iniciática essa valoração é substituída pela consciência de que todo fim se coliga a um começo e a novos fins, indefinidamente.

Daí o renascimento como estado simultâneo, a partir de um novo momento que se esquadrinha. Nada pode ser como antes, sob pena de não se galgar conhecimento. O ciclo vida-morte-vida é o próprio percurso no qual a iniciação é apenas um mote para a passagem para outras etapas. O conhecimento reside, pois, não em um objetivo a ser alcançado, mas no que foi adquirido ao longo da trajetória.

A partir da experienciação de tais sensações - ao meu ver, não redutíveis a cronologias, mas a estados de alma - é possível adentrar os segredos antigos. É um chamado interno a encaminhar o/a neófito/a para imergir na senda o segredo de uma boa iniciação, demandando, assim, seriedade, dedicação, compromisso e austeridade. 

Com essas reflexões, convido quem deseja se iniciar no percurso mágico para o abraço de um mundo novo, presente dentro de cada uma de nós em potencialidade pouco exploradas pelo sucateamento que o plano de racionalização produziu na humanidade.