segunda-feira, 22 de abril de 2019

É tempo de despertar...


Temos observado muitos acontecimentos no mundo: incêndios de catedrais, ataques terroristas, desabamentos de prédios, fúria das chuvas e das enchentes. A lista é longa, poderia render toda a postagem e, ainda assim, não esgotaria o contingente de eventos que têm eclodido nos últimos meses do ano de 2019. 

Não é essa, contudo, a abordagem que desejo compartilhar hoje, por uma razão simples: por ressonância quântica, toda e qualquer informação replicada, quer seja num compartilhamento de notícia, como no simples pensar sobre determinada notícia acaba alimentando a egrégora da raiva, do medo e do ressentimento. 

Estagna, dentro disso, a potencialidade cocriativa de superação desse paradigma para mudanças planetárias, reforçando o padrão vibracional de baixa frequência que, por sua vez, alimenta também seres sencientes e energias conscientes que desejam a replicação e manutenção dessas energias em nosso planeta e em nossas consciência interligadas. 

Somos dínamos de energia e, como tais, emanamos o que desejamos replicar, de modo que, desde tempos atrás, tenho optado, tanto nas redes sociais, como em minha vida pessoal e profissional, a não ficar fazendo "propaganda" sobre notícias trágicas, muito menos dando assunto e criando bile. 

Antigamente, engajada até os dentes em movimentos sociais, não sabia bem discernir a importância da coerência interna do político com o espiritual e consciencial e, motivada por "boas intenções cívicas", destilava meu fel e me via, pouco a pouco, uma pessoa amarga, ranzinza e dissonante do caminho de consciência a que me dispus trilhar. 

Quando percebi isso, reverti a chave interna, e passei a olhar para o mundo e para a vida em perspectiva, desapegando-me dos sentimentos de identificação ou repúdio, por descobrir que ambos denotam o apego egoico que me aprisionava num script bem montado de sistema de controle, um "disco arranhado" que sempre repete a mesma toada. 

O desapego, contudo, diante dos fatos e eventos da vida, não quer dizer indiferença, frieza ou crueldade, apenas saída do mainstream midiático e informacional que fomentam a ética da violência e da agressividade, muito embora tenhamos plena convicção, muitas vezes, de que estamos a exercer civicamente nossa irresignação e opinião política, mesmo às custas de entrar nesse campo vibracional. 

Não tem fórmula mágica: escolhemos ou somos impulsionados às escolhas inconscientes do que reverbera como padrão interno. Assim, se desejamos realmente que o mundo mude, precisamos começar a realizar o esforço interno de efetivar essa mudança, a começar pelas escolhas em relação ao que ouvimos, lemos, comemos, fazemos e, sobretudo, pensamos. 

Ao invés de postar irresignação, passei a fazer algo distinto: em silêncio e conectada com o Todo, peço por quem sucumbiu, bem como intenciono energia para compartilhar alento com as pessoas e os seres que estão demandando auxílio, de acordo com o fluxo de energia do Universo. 

É esse, creio, o tempo de despertar da consciência para mudanças significativas em nossas vidas. Por isso, decidi abordar o tema a partir de outra perspectiva: observando, cada vez, em vários lugares do país e do mundo, eventos edificantes e relatos de mudanças sem precedentes nas vidas das pessoas.

Há quem esteja revendo seus conceitos de alimentação, preocupando-se com a vida na Terra. Outras tantas pessoas estão buscando maior conexão com seu EU superior, desapegando-se da ideia de institucionalmente acionar a intervenção mítica de mestres e guias que pedem ou demandam dedicação exclusiva, demandam patrimônio e criam laços de dependência espiritual e emocional. 

Meditação, yoga, tai chi chuan e tantos outros conhecimentos milenares têm sido a pauta das agendas atuais, quer seja no terceiro setor, como, ainda, no âmbito de políticas públicas e na busca pessoal por uma qualidade de vida. 

O próprio SUS, desde 2018, aumentou de 19 para 29 procedimentos disponíveis e reconhecidos, segundo uma robusta lista que engloba ayurveda, homeopatia, medicina tradicional chinesa, medicina antroposófica, plantas medicinais/fitoterapia, arteterapia, biodança, dança circular, meditação, musicoterapia, naturopatia, osteopatia, quiropraxia, reflexoterapia, reiki, shantala, terapia comunitária integrativa, termalismo social/crenoterapia e yoga.

O consumo consciente não poderia ficar de fora dessa agenda de plenitude e mudança paradigmática, pois é visível a preocupação e busca, cada vez mais, de produtos menos industrializados e mais próximos do produtor, num envolvimento do consumidor na cadeia de produção. 

Nesse contexto, eclodem feiras colaborativas, de produtos orgânicos, vegetarianos e até mesmo veganos, mostrando que os hábitos estão se modificando, pouco a pouco e em escala global. 

É a consciência expandida que vai se visibilizando no espaço que, outrora, era ocupado pelo pessimismo e pela visão apocalíptica de mundo. Independentemente das crenças pessoais, que levam a perspectivas de crenças distintas, o tempo é de gratidão por tudo até aqui elaborado, bem como de concretização de ajustes internos e de práticas que nos alavanquem rumo a uma nova vivência nesse planeta, a partir de uma cosmoética e da realização da amorosidade. 

Isso é simples como a luz do sol...onde existe amor inexiste qualquer justificativa - a não egoica - para a emanação de agressividade e violência. Isso quer dizer, de maneira bem simples, que a lógica da "luta para se chegar à paz" é totalmente incompatível com a frequência de amorosidade e a vibração consciencial moralmente harmônica com o respeito à diferença. 

Hora, portanto, de desplugar o cérebro reptiliano responsável pela resposta defensiva e agressiva e partir para o acionamento da pineal como eixo de elevação consciencial da amorosidade alojada em todas nossas células e replicada no cardíaco. 

É fácil? Ninguém disse que seria, mas, ao mesmo tempo, ficar emanando a dificuldade só torna tudo...difícil. 

Percebem? A maneira como recebo a resposta do ambiente depende de como construo minha interação com os outros e esse mesmo ambiente. Em relação a isso, também a fórmula nada tem de milagrosa ou mágica: é se perceber nos movimentos e momentos em que o ego simplesmente tenta tomar o controle da situação, fazendo com que você reaja num automatismo.

A mera observação disso, bem como a meditação e o diálogo com o ego (sim, por que não? 

Conversar com ele e perguntar a razão de tudo isso faz uma diferença enorme no processo de autoconhecimento porque traz para a claridade as questões encobertas que nos impulsionam ao fatalismo de agir no impulso). 

A partir daí exsurge o despertar cósmico, que parte de um ato de vontade individual, passa pela formação de uma egrégora coletiva e se expande para a malha morfogenética presente na Terra. Informação que se replica, numa verdadeira corrente do bem!!!!

Quando passamos a ter consciência disso, nosso pequeno mundo se amplia, bem como a vida se reformula para que entremos no fluxo contínuo de plenitude e benignidade, ampliando, cada vez mais, nossa consciência e adquirindo, assim, sabedoria e amorosidade. 

É, pois, um belo tempo de despertar!!!




domingo, 24 de março de 2019

Os caminhos da espiritualidade consciente e os meandros dos falseamentos das verdades


Na iminência da chegada de um "novo" ciclo, sempre é providencial refletir sobre ao que significa a expressão Nova Era atualmente, sobretudo diante de um cenário otimista e colorido onde se aciona uma egrégora de mudanças no mundo, a partir da virada de cada ano. 

Tudo são flores, cores, cristais, amor universal, invocando a ideia feliz de compartilhamento de esperanças em meio às vicissitudes e aos desafios do ano que fica para trás, alimentando a "esperança" de tempos de bonança espiritual e lapidação da consciência. 

Trata-se de um momento auspicioso para modificação interna, de concitação ou chamamento a uma Era de Aquário, tempo de transição (ora cósmica, ora planetária ou, ainda, multiversal), onde tudo exala mudanças internas e externas, para além do ego.

Em meio ao chamado da alma para novos desafios, os tempos de internet nos encaminham para um momento ímpar na história da humanidade, pois nunca nos deparamos com tanto compartilhamento de ideias, teorias, dados, informações e, sobretudo, (des)informações, sobretudo no que diz respeito aos assuntos metafísicos e, mais precisamente, espirituais.

Basta acessar as plataformas mais comuns, como o youtube, facebook, instagram etc. para que possamos observar a quantidade de canais, bem como a diversidade de informações, que espelha a riqueza de dados que estão pairando em torno de nossos computadores. Muito aprendizado podemos haurir desse campo vasto de conteúdos múltiplos e enriquecedores.

São os idos de uma era informacional, instantânea, pós-moderna e líquida, na qual, de maneira democrática, todos podemos ser editores, produtores, diretores e atores de nossos próprios cenários, enredos e histórias. Somos, enfim, cocriadores cibernéticos, dispostos sempre e com amor, a compartilhar nossas ideias e experiências.

Podemos observar uma infinidade de canais a reproduzir temas, revisitar ideias e discutir assuntos que antes estavam no mainstream do monopólio dos canais oficiais - sobretudo os televisivos - e que se diluem, por agora, numa delícia de mundo alternativo e paralelo, que se descortina e permite que, ao final, todos possam ser iniciados nos estudos herméticos rumo ao conhecimento da V E R D A D E

Nesse cenário, as perguntas que logo me veem à cabeça são: de que verdade(S) estamos falando? 

Será que existe uma verdade universal, em nome da qual, inclusive, fazem-se ataques e desqualificações do que é entendido como não-verdade (refiro-me às lutas religiosas e às ideologizações institucionais da religiosidade e espiritualidade)? 

Por outro lado, não existindo a tal verdade transcendente sobre quem somos, o que viemos fazer aqui e qual nosso destino (as perguntas que sempre nos motivam, afinal), como coexistir com fractais de verdade e não se perder em meio a tal niilismo?

Afinal, estamos imersos em um momento de dissonâncias históricas, no qual se erguem bandeiras ético-religiosas aguerridas, transformando o cenário mundial em uma ovação ao caos, ao ego e à manipulação em massa.

Outra pergunta interessante de se fazer seria: por que buscar a verdade lá fora, na ocupação do esquecimento de si, feito sob a escusa de se galgarem estrelas e infinitos, quando, de fato, sendo todos nós, um, podemos nos observar e conhecer no campo da experiência?

Esse é o principal foco de minha reflexão de hoje, que veio num sopro de experiência na aula de yoga, momento em que discutimos a respeito do uso de espelho para correção das posturas.

Espelhos...a melhor metáfora para a busca da verdade estelar...

Quando escolhemos algo, desde um sorvete, até uma nave especial, nada é aleatório, mas segue um movimento ou impulso - ora consciente, ora inconsciente - de decisão em face do quanto nos identificamos com determinado objeto, situação, pessoa ou lugar. 

Até mesmo na repulsa ou rejeição, o que está em jogo sempre é um processo "invisível" de atração, pois o não-escolher também leva em consideração o sentimento despertado (ojeriza, repúdio etc.) que tem como foco meu eu que se aloja no que está à minha frente.

Passamos, assim, a nos confundir com o que está externo a nós, adentrando um túnel rico de cores, barulhos, ideologias, projetos, coisas, lugares, pessoas, situações, quase sempre nos encaminhando para a saída de nosso eu mais aquietado e íntimo, bem como para o "acoplamento" na externalidade (no mundo fora de nós).

Assim também acontece em relação ao que escolhemos quando entramos nos meios virtuais, escolhemos fotos, áudios e vídeos. O que está fora de nós qualifica o que está acontecendo em nosso mundo interior, simples assim. 

Lembra a palestra de Krishnamurti, quando perguntou a um ouvinte o que o desagradava no mundo. O rapaz, então, falou: "não suporto guerras, brigas, desavenças e desamor. O que posso fazer para ajudar o mundo?" e, diante da plateia cheia e atônita, Krishnamurti, então, respondeu: "deixe de reverberar a semente da guerra e do ódio dentro de você".

Essa fala nos diz muito, fala ao coração... O que ele quis dizer com isso? 

Simples, quando estamos a nos identificar com os processos, quer seja nos legitimando ou repudiando, alimentamos aquilo, por mais que desejemos acreditar que não. Trata-se do acoplamento de identidade no externo, caraterística do ego que busca o reconhecimento de sua individualidade, por receio do perecimento e da diluição no desconhecido.

Necessitando sobreviver à ideia da impermanência, somos movidos sedutoramente pelas asas do nosso querido ego a empunhar bandeiras motivado por essa ânsia de existir perpetuamente, ter muitas opiniões que destroçam quem pensa ao contrário, colocamo-nos como soldados de verdades, guardiães da última palavra e, com isso, convencemo-nos do caminho da conscientização. 

A verdade, então, nessa seara de ilusão, advém de um simples e puro processo de desespero...

Quando não olhamos para o que impulsionamos nos espelhos, não acessamos nossa verdade interna, não escutamos o som do silêncio necessário para dissipar as ilusões sobre nossas maiores inquietações e dúvidas. 

Tal qual a postura do asana projetada no espelho que distorce a realidade, fazemos o mesmo quando não consultamos nossos mecanismos internos intuitivos, para fazer as perguntas ao nosso espírito (ou consciência, como queiram denominar em seus sistemas de crenças).

A partir disso, começamos a duvidar de nosso poder cocriativo, de nossa intuição e, sobretudo, da maravilhosa capacidade de acessar o Todo. Apelamos, assim, para o que nos é familiar: nossa racionalidade e o poder da mente diante das "escolhas" que fazemos tentando discernir a partir do que outras pessoas falam a respeito de determinado assunto. 

Daí o aporte nos guias, mestres, gurus e profetas, pontos de apoio para nossas dúvidas. Não estou deslegitimando o papel deles, que realmente é de serem guias, mestres, gurus e profetas, pessoas sábias e de boa-fé, que compartilham graciosamente o que trazem como dom divino. 

A questão é deslocar para eles a viga-mestra de nosso crescimento espiritual e consciencial, esperando uma salvação, pois isso anula nosso potencial de realização interna, bem como nossa habilidade em plasmar na tridimensionalidade o que ressoa dentro de nós como verdade.

Tive muitas oportunidades de observar, durante 3, 4, 5 meses de imersão no youtube, vários canais, aprendendo muito com cada um deles. Depois de muitas experiências enriquecedoras, dediquei-me mais a frutificar internamente o silêncio, ausentando-me dos sons, cenários, bem como das pessoas, que muito ensinaram e compartilharam. 

Voltei renovada e com foco em realizações a partir desse silêncio interno que traz um alento suave e doce, encaminhando para olhar a verdade em cada fragmento de áudio, vídeo, foto e texto, pois passei a compreender que não poderia mais aprimorar meu asana (postura), no espelho da sala de aula em que projetava meu ego nas escolhas feitas.

Com isso, a vida se torna mais leve, mais palpável e cheia de oportunidades reais de experimentação, mesmo que pela internet. Pois não se trata mais de buscar a minha verdade nos outros, e sim elaborar, dentro de mim, o que a consciência pode sentir como V VERDADE






sábado, 2 de março de 2019

Quando rotinas não são rotinas: a benignidade do dinacharya e a elevação consciencial que desafia o ego

Um dia desses em que estava em um "pé-de-prosa" virtual com uma grande amiga, veio o assunto "rotinas", a partir da ideia inicial de mesmice, dogma ou repetição automática de algum ato, alguma liturgia ou comportamento em relação ao qual, dada a obrigatoriedade, podemos oferecer resistência.

Rotina de trabalho, rotina de relacionamento, rotina de trânsito: quando nos pegamos a reproduzir mental e emocionalmente a palavra, logo a mente incauta nos encaminha para a classificação em algo que não é prazeroso, não é mesmo? 

Até mesmo o lazer, quando submetido a tal "rotina", deixa de ter um significado despojado de ociosidade criativa, para se tornar um fardo, sujeito ao relógio e aos humores alterados das pessoas que se obrigam a serem felizes na reprodução automática das programações de final de semana pós-trabalho (ops, de novo, a rotina!).

Dentro disso, quantas vezes nos pegamos a empunhar a bandeira da liberdade, fazendo referência ao nosso espírito "livre", dizendo aos quatro cantos que "toda rotina é cansativa e entediante", "eu não nasci para rotina" ou "eu sou livre e não sigo rotinas"? 

Ou, ainda, quantas vezes afirmamos para nós mesmos (num reforço egoico para nos tentar convencer) que não nascemos para nos "acorrentar nas regras impostas pelo sistema de controle" (ah, de novo, o tal sistema matricial, ou, na bola da vez, na Matrix do sistema de crenças)?

Pois é, a palavra rotina popularizou-se semanticamente como sinônimo de aprisionamento, regra ou condicionamento, trazendo automaticamente à mente a aversão a toda e qualquer atividade que seja uma constante em nossas vidas, pois "tudo que é rotineiro entedia e cai no marasmo".

Em idos de pós-modernidade espiritual, holística, consciencial e outros nomes para o fenômeno de transição que estamos experienciando, falar em rotina é declarar guerra aos que se veem como despertos, conscientes e livres das amarras da tridimensionalidade. Ávidos em encontrar a tal saída do sistema, tudo que é importo realmente incomoda. 

A pergunta que faço é: incomoda a quem ou o que? 

À consciência ou ao ego? Como saber a diferença?

Primeiro, a consciência não "se incomoda", não "se inquieta", muito menos se sente amarrada ou oprimida. Ela não atribui predicativos à experiência, porque os predicativos são apenas critérios mentais de classificação que o ego utiliza para se identificar com a experiência e se convencer de sua eternidade, num ir e vir entre passado e futuro, os vetores da ilusão criada diante da realidade material do aqui e do agora tão desejado e, ao mesmo tempo, inacessível. 

Quem se incomoda, julga, avalia, dá desculpas é o ego, pois sabe que a elevação consciencial acarretará sua diluição, o que traz medo, pois o diluir significa não mais existir nessa configuração tridimensional. 

Além disso, a consciência não precisa "resistir" ao que se pratica pelo bem de nossa organicidade. O ego sim. Esse se desculpa, culpa-se o tempo todo por não cumprir as demandas e exigências da autoimagem de perfeição que criou para nos assombrar e distrair. 

Ele diz que não consegue levantar cedo para meditar, que sai atrasado para o trabalho e não dá tempo. Que não tem paciência para seguir uma rotina imposta pelos "arcontes da Matrix" (acho ótima essa referência para projetar desculpa pela distração egoica), que está com dor no braço, na perna. Que o cachorro atrapalha a meditação. Que é muito difícil. Que é isso, que é aquilo. 

Ego...apenas nosso querido desejando mais atenção.

A consciência, ao contrário,  move-nos para o fluxo porque, dentro de nós, no âmago de nossa essência divina, temos o discernimento em saber que determinada "regra" é essencial para nossa existência tridimensional enquanto nela ainda estamos. Ela não reconhece, pois, a rotina como algo abjeto, opressivo, mas, antes, como algo relevante e vital para que possamos nos desenvolver. 

Aliás, os predicativos "relevante", "vital", "opressor" etc. não fazem mais qualquer sentido para a consciência, pois, transcendendo a binariedade (bem versus mal, belo versus feio e tudo que é catalogação do ego que necessita se identificar para saber que está vivo), ela apenas flui, faz e realiza, sem julgamentos. 

Apenas vivencia naturalmente a plenitude e o preenchimento interno no esvaziamento do ego, condições que naturalmente nos encaminham para o despertar e a transmutação. 

Com isso, a palavra rotina adquire um colorido que implode a ideia arcaica de opressão egoica, para ser edificada à sacralidade em termos de um ritual de benignidade a ser realizado em benefício de nosso corpo, nossa mente, alma, espírito e, superando tudo, nossa CONSCIÊNCIA

Eis o sentido ressignificado à palavra rotina, dentro do que tenho experienciado num movimento que retomei, agora, renovado, na vida de rotinas de benignidade: dinacharya, do sânscrito दिनचर्या, conduta diária).

Trata-se da rotina diária do sistema de ayurveda, compondo o tripé do que tenho sentido de plenitude praticando yoga e meditação. Uma prática que alinha corpo, mente e consciência, integrando nossos corpos e nos harmonizando com os ciclos da Natureza.

Regra? 

Para o meu ego, nos dias em que acordo com preguiça, impaciente, apressada, sim, claro! 

Afinal, sempre é muito confortável ler muitos livros, assistir muitos hangouts e muitas lives no youtube, participar de grupos eco-eso-alien-ativistas no whatsapp, sermos conhecedores de todas as teorias da conspiração cósmica e usar isso tudo como desculpa para não integrar consciência e corpo num simples gesto de respirar prana.

Enfim, não estou falando no plano de teorias: estou falando de realizar, agir, fazer, mexer o esqueleto e lidar adequadamente com o ego, o bastante para que ela não nos distraia tanto dizendo que "na semana que vem começo a meditar".

A rotina que o ego nomina como opressão nada mais é do que a projeção da sombra do que ele rejeita, o que, quase sempre, é o necessário para nosso aprimoramento pessoal. Dito de outra forma: o que mais rejeitamos é o que mais precisamos trabalhar internamente para transcender o obstáculo.

No dinacharya aprendemos a pacificar a mente, quer seja por meio da desaceleração mental, da respiração ou, ainda, no mimo com nosso corpo na oleação do abhyanga.

O dia da rotina de benignidade começa cedo aqui em casa: por volta das 05h00, sem despertador e embalada pela sintonia com os ciclos da Natureza, acordo, agradeço ao Universo pela dádiva de estar presente. 

Nada de ficar pedindo, só GRATIDÃO. Quando se troca o discurso de demanda pelo protagonismo do fluxo criativo e apenas se agradece, tudo muda!

Hora da rotina matinal, que inclui a evacuação, a raspagem do ama (toxinas) contidas na língua e da limpeza do nariz com o lota, bem como uma água morna com limão antes, para estimular o sistema gastrointestinal, o centro de todo o sistema da ayurveda.

Depois dessa parte rotineira, é hora da automassagem, chamada abhyanga, feita da cabeça aos pés, em movimentos circulares e em sentido horário, utilizando óleo de côco (uso esse por conta do dosha Pitta, mas em outros casos, usa-se bastante o óleo de gergelim morno, para acordar Kapha e ancorar Vata). 

Trata-se de um momento de maior intensidade do sentimento mais puro de leveza e bem-estar, de ancoramento e plenitude que já senti na vida, não traduzível por palavras, muito menos nesse texto. 

Daí, sugestão: faça!!! E não se limite à regra auto imposta de não ter regra!

Depois da massagem, que dura, em média, 30-40 minutos, um banho calmo, morno, complementando a fricção da abhyanga faz muito bem à alma, seguido de uma prática de yoga para tonificar músculos, acordar o corpo e trazer a sensação de pertencimento e despertar. 

Respirar é essencial e, para esse momento, alguns pranayamas conscientes, com foco e atenção no momento, são a forma mais sutil de dar boas-vindas à vida: afinal, quando aqui aportamos, o primeiro ato fora do útero é o de respirar o prana. 

Tudo pronto, enfim, para a meditação! Um tempo fora-do-tempo-e-no-pertencimento. Comecei com 5 minutos, impaciente...com o tempo fui para 10, 20 e, quando dei por mim, já me peguei uma hora fora de tudo e de mim. Importante esse momento de despojamento para que a consciência se sobreleve aos ditames do ego que deseja impor sua vontade de ser feliz...

Café-da-manhã? Sim, claro! Dá tempo! Dá tempo? Dá um tempo-no-tempo e acorde cedo! 

É lindo ver o Sol, o céu, os pássaros cantando para anunciar a chegada de um novo dia! É uma "rotina" que elonga o danado do tempo, deixando-nos mais despertas, atentas, conscientes e, ao mesmo tempo, relaxadas.

Frutas de acordo com seu organismo, ghee, tapioca, mingau. Basta combinar e, para isso, nada melhor que a tradição ayurvédica, que alia o sabor à propriedade terapêutica dos alimentos, sendo a amálgama de todo esse processo integrativo. 

Chás durante o dia e almoço entre 11h30 e 13h00, no máximo, pois é o momento em que o agni está a todo vapor, preparando, depois, para a virada da tarde, ocasião em que podemos fazer um lanche modulado com o café ou, então, dependendo do dosha e da fome, aguardar uma sopinha quentinha e nutritiva para finalizar o dia às 20h00.

Essa é, sem dúvida, uma "rotina" feliz, pois, integrando mente, corpo, alma e consciência, tudo flui na vida, que é o próprio fluxo em si. Sem cobranças, medos ou sabotagens. 

Apenas a vida que cocriamos, de acordo com os potenciais que desenvolvemos nesse dínamo chamado dinacharya, que nos eleva e afaga, ao mesmo tempo em que aceita e agradece!

Namasté!!!


domingo, 10 de fevereiro de 2019

Sobre lojas e alternatividades: conversando sobre relações pessoais e consumo consciente

Lembrei-me esses dias de um filme bem interessante, que entrou em cartaz logo na época do boom da internet: o cult Mensagem para você (1998), protagonizado pela "queridinha da América" Meg Ryan e pelo simpático bonachãoTom Hanks, juntos em uma linda história de amor na virada para o cyber mundo em que o teclado substituiu a caneta, o papel e o envelope.

Trata-se da história da proprietária de uma lojinha de livros infantis bem simpática, Kathleen Kelly, que se vê às voltas com a expansão de uma megastore de livros que acaba, pouco a pouco, ocupando o espaço outrora intimista e pessoal da linda lojinha, que tinha sido herança da mãe da personagem. 

Nesse ínterim, Kathleen Kelly e Joe Fox acabam se encontrando: ela, num ativismo para permanecer no mercado. Ele, herdeiro da megastore, engolindo tudo pela frente com uma espécie de livraria empresarial. Depois de se odiarem mutuamente, ao final, descobrem, trocando e-mails com pseudônimos, que se amam.

Um filme lindo demais, que serve de pano de fundo para a conversa de hoje sobre a expansão do mercado alternativo, colaborativo, consciente e outras denominações, tendência crescente há 5, 10 anos no Brasil. 

Embalado pela conscientização em torno de temas como vegetarianismo, veganismo, consumo consciente etc., cada vez mais observamos grandes redes ou franquias abrindo suas portas no Brasil. 

Começou, no caso de Brasília, com o Mundo Verde e hoje temos, por exemplo, a loja Bio Mundo, presente em cada esquina. 

Todas com um design bem moderno, arejadas, prateleiras impreterivelmente simétricas e sem qualquer defeito. Quando entramos, já somos interceptados por gentis colaboradores sorridentes, que repetem um mantra de boas-vindas: "olá, bom dia, está procurando algo em especial?", "qualquer coisa é só chamar, meu nome é (....)".

Por outro lado, na verdade, no lado Kathleen Kelly  da história, ainda temos por aqui as lojinhas intimistas, simpáticas e aconchegantes, que cheiram a especiarias, ervas e sabedoria ancestral, mostrando os contrastes entre um paradigma que está se estabelecendo e o modelo familiar de loja de produtos naturais e alternativos. 

Um aspecto que muito valorizo bastante - herança da minha mãe, proprietária da loja Empório Verde, pioneira em Brasília, juntamente com outra, Verdura Viva - diz respeito às relações pessoais elaboradas com os proprietários, fornecedores e colaboradores dessas lojinhas lindas, o diferencial que o lado Joe Fox (personagem de Tom Hanks), não consegue imprimir em sua megastore-tubarão. 

Aqui perto de casa temos um exemplo de lojinha assim: Temperos e Mel, que fica no Jardim Botânico Shopping (Condomínio San Diego, 64), não tem site, perfil em instagram, facebook e tarrafas do gênero. 

É uma loja que parece muito o Beco Diagonal da saga de filmes do Harry Potter: lá tem absolutamente tudo, tudo e mais o que não se conhece, relacionado à alimentação e saúde integral, alternativa, consciente, vegana, vegetariana. Desde prateleiras repletas de ervas produzidas aqui mesmo em Brasília, passando por coxinha de jaca, kombucha e massa de tapioca. 

Pensou? A loja materializa para você!!! 

Ela "lê seus pensamentos" e imanta num cantinho de prateleira o que você deseja levar para casa. 

O mais impressionante e que faz com que sempre dê vontade de retornar é o atendimento e, sobretudo, o envolvimento do proprietário e dos colaboradores, sempre solícitos, sem que entoem mantras robóticos. As pessoas ali realmente te desejam um lindo dia e interagem com você, da forma mais espontânea e verdadeira possível.

Além disso e, o diferencial: conhecem o que comercializam e sabem as propriedades do que oferecem ao público. Nas lojas grandes, as lojas-tubarão do Joe Fox, isso não é possível. Basta um olhar mais atento - quem viveu a transição das livrarias pequenas para a Cultura, Saraiva e Fnac sabe disso - para perceber que o envolvimento e o conhecimento se perderam na expansão do grande comércio alternativo e natural. 

Os proprietários não ficam na loja, os colaboradores não sabem para que serve o produto que oferecem e, acima de tudo, em idos de sociedade líquida e distanciada, a indiferença blasé é a constante desses mega espaços de consumo. 

Sim, dentro de tal perspectiva, o que estou querendo dizer é que, apesar da boa vontade, do objeto legítimo (alimentação saudável), o consumismo finalmente chegou às portas do mercado alternativo, o que seria incompatível com a eticidade desse nicho diferenciado, onde, ao final, o que importava era o estreitamento das relações interpessoais e, com isso, o compartilhamento de valiosas informações sobre o bem-viver. 

Não desejo ser uma crítica do modelo de franquia alternativa, mas, ao menos, provocar uma reflexão sobre o tema. 

Sobretudo refletir a respeito de como, com minha prática de vida e com meus hábitos, posso contribuir para, de um lado, estimular que opções fora do mainstream cresçam e, de outro, não se transformem, elas mesmas, no tubarão criado em cativeiro para correr atrás do plástico dos cartões de débito, crédito e dos chips subcutâneos. 

Com isso, tenho prestigiado o básico: vou onde o conhecimento, o envolvimento e o aconchego se encontram e não tenho me arrependido dessa posição, porque até meu meu bolso agradece, já que os produtos tendem a ser mais caros em tais Mecas do consumo alternativo, até pela obviedade de manter a estrutura perfeita e clean.

Seguindo os ditames do coração, vou para onde minha alma se sente em casa, bem ali, na lojinha com aroma de especiarias, ervas e aconchego, pois o segredo da vida está na simplicidade das escolhas que fazemos para uma vida de verdadeira plenitude!

Namasté!


sábado, 22 de dezembro de 2018

Quando é tempo de não retornar...

Segundo Heráclito de Éfeso, "homem algum pode se banhar duas vezes no mesmo rio". Dito de outra forma, o tempo não volta, fazendo com que tudo que experimentemos em dado período de nossas existências se firme na ideia de instantaneidade e irreversibilidade dos processos, sobretudo aqueles que dizem respeito à maneira como elaboramos relacionamentos.

Nesse contexto, considerando o referencial que adotamos como padrão de mensuração, fincado na ideia clássica de linearidade temporal (anos, meses, dias, horas, minutos, segundos etc.), inexiste retorno nos processos e nas situações vivenciadas em cada fractal de tempo

Cada momentum traz em si a referência do início-meio-fim, ou seja, sua completude enquanto evento, acarretando perdas e ganhos em escolhas em relação ao que fazemos diante da inevitabilidade da seta temporal que nos move, nesse contexto, para a frente, até o devenir do fim de nossa permanência física nesse planeta.

Ainda que se saia da "reta" de determinabilidade temporal linear - típica do sistema ocidental de mensuração - para adotarmos movimentos cíclicos e estados temporais relativizáves, o retorno absoluto ao estado das coisas também é discutível. 

Os celtas, por exemplo...

Mesmo que vivenciassem a espiralização da ideia do triskle com seus três braços numa roda de onde não se consegue visualizar o início ou o fim, concebiam o tempo como um suceder ou um movimento espiral, no qual os processos, ainda que similares e intercomunicantes (como se vê na passagem do dia para a noite e vice-versa), são distintos. 

É o que sustenta, de um lado, a concepção de eterno retorno da alma para experienciação de novas vidas e, de outro, o ineditismo dessa vivência em termos de memória e replicação de fatos e eventos.

Em nível de experienciação no aqui e no agora, estamos sempre sujeitas ao conteúdo latente de nossa memória emocional, sensação nostálgica ou lembrança do que se viveu, uma espécie de print na tela de nossa consciência e, sobretudo, do acervo de sensorialidade que acionamos sempre que vivenciamos algo. 

Tal memória, ora vivenciada à integralidade - como se nos transportássemos para o passado - ora sentida em lapsos, contudo, também não faz com que retomemos a configuração tridimensional do que passamos. 

O que foi, foi-se...

Mas, a despeito disso, em algumas vezes (para alguns, muitas vezes), esse eterno retorno da emoção latente que não se esgotou pode elaborar uma continuidade de repetições de eventos, numa sensação de se estar vivendo, a cada experiência que se afina com o padrão repetitivo, a "mesma história" várias vezes (lembrando aquele filme Feitiço do Tempo).

Ou então, a percepção de continuidade de histórias que, de fato, já se exauriram e ficaram para trás, impedindo-nos, dentro disso, de superá-las e seguir adiante em nossas vivências. 

Quem nunca teve aquela pontada de nostalgia diante de uma história de amor, interrompida e que nunca foi concretizada? Aquela sensação de "como teria sido se não fosse"? 

Essa "alça" temporal, contudo, constitui processo que, de fato, além de não ser mais o mesmo, acarreta tentativas frustradas de retorno a algo que não irá se refazer, muito menos prosseguir ou continuar, pois o momento, as pessoas, o mundo, tudo é distinto...

Isso não quer dizer que não se pode pretender concretizar algo...quer dizer que todos os processos, ainda que se firmem em aparentes repetições, são movimentos novos, que demandam novas posturas emocionais, na medida em que amadurecemos diante do transcurso da vida. 

Se não amadurecemos, o preço a ser pago é bem alto: repetição das "velhas"/novas lições, que representam os padrões em nossas vidas, numa espécie de sensação de não se estar "saindo do lugar". 

Aprender, então, com o processo no passado, rompendo a alça da memória emocional que nos encaminha para esse "patinar" infinito, é uma grande tarefa existencial.

Diante disso, não é possível retomar um relacionamento que ficou lá atrás, nas mesmas configurações em que se firmou no passado. Não existe "dar continuidade", "prosseguir", "retomar", mas a necessidade de se conscientizar a respeito do que se findou, tendo por contexto nossa forma de encarar o processo lá atrás, em contraponto à maneira como, no aqui e no agora, podemos nos movimentar diante do que se apresenta. 

Os chamados "relacionamentos cíclicos", segundo a PhD Amber Vennun (Universidade da Flórida), tendem a tornar as pessoas infelizes, tendo em vista que, mesmo com a ideia que "será diferente", existe uma reprodução de hábitos e comportamentos antigos. 

Segundo a mesma pesquisa (2014), os membros desse tipo de relação têm autoestima baixa, mostram-se menos satisfeitos com o parceiro, além de não se dedicarem à comunicação necessária para a elaboração do relacionamento. Dentro de uma "zona de conforto", o discurso dos casais é ambíguo, acarretando incertezas e inseguranças: a receita certa para o fracasso.

Ou seja, não há retorno...Outras emotividades, outras bases de relação, outras reações e outras reações. 

Só assim é possível, não viver novamente o que poderia ter sido vivido, mas iniciar uma nova trajetória, conquanto as pessoas que elaboram o relacionamento tenham consciência de todo esse processo, pois, dito de outra forma, a assimetria emocional acarreta a sensação de fardo, peso e repetição de processos e, dentro disso, o desânimo e a perda do sentimento.

A ideia hollywoodiana, pois, do herói que volta para a amada, depois de 40 anos, é uma fantasia. Real é a percepção e a consciência de efemeridade dos eventos, pois na experienciação da instantaneidade, quando fazemos escolhas conscientes, somos mais responsáveis pela elaboração de nossos caminhos...

Simples assim...


sexta-feira, 16 de novembro de 2018

De cheiros, aromas e flores: as maravilhas curativas da Aromaterapia


A aromaterapia é, sem dúvida, uma das imersões mais significativas que a Natureza coloca à nossa disposição, de maneira gratuita e singela, para que possamos transpor as limitações espaço-temporais e nos lançar ao bem-estar do prazer profundo do estado pleno de alma e consciência.

Afinal, quem nunca se deixou levar pelo aroma delicioso de uma comida cheirosa e bem feita? Ou, então, aquele perfume de lavanda "recém-saída do banho"?

Óleos, perfumes, essências: tudo produz, em algum nível, peculiar imanação, fazendo com que nos identifiquemos com o aroma. Aliás, inexiste no olfato, ao contrário de outros sentidos, intermediário com o cérebro. 

Perfume ou odor chegam diretamente ao cérebro, razão pela qual não é possível fazer uma cartografia dos aromas, a exemplo do que se tem no caso da visão, do tato e da audição. 

O campo é muito amplo, trazendo ramificações a respeito de como utilizamos os aromas e cheiros...

Quando se fala em herbologia ou fitologia, por exemplo, estamos a fazer um estudo mais amplo das ervas, em suas expressões plurais. Nome científico, localidade originária, propriedades dos elementos (raiz, caule, folhas, flores e sementes). 

Trata-se, sobretudo um estudo sistematizado, em conformidade com o paradigma oficial de ciência, estruturado em pesquisas laboratoriais, dotado de certo credenciamento e, dentro disso, ora inclusivo, ora exclusivo. 

Prova disso é o monopólio das patentes em relação a algumas ervas e plantas, como a babosa (redesignada como aloe vera), acarretando questões até mesmo jurídicas de direitos de propriedade e restringindo o acesso por parte das pessoas. 

Em outra dimensão, mais artesanal e ancestral, temos a aromacologia, que é o estudo sistematizado e mais específico dos aromas, independentemente da origem das substâncias (que podem ser animais, minerais e vegetais). 

Fica aqui a dica do livro Aromacologia: uma ciência de muitos cheiros, de Sonia Corazza (São Paulo: Editora Senac, 2002), que explora esse vasto horizonte dos aromas. Reproduzo aqui a capa para quem desejar ver, lembrando que o site Estante Virtual tem sempre a opção do livro usado, bem mais em conta em termos financeiros e de sustentabilidade. 
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Relacionada diretamente à perfumaria (per fumum, do latim, que significa "através da fumaça"), o estudo dos aromas e a aplicação desse conhecimento é bem antigo. Para alguns, remonta aos egípcios, que tinham no perfume uma forma de conexão aos deuses, por meio de oferendas e sacrifícios aos deuses. 

Ou, ainda, em outras civilizações, como a romana, a chinesa, a grega, a árabe e a bizantina, que reforçavam a importância do bom aroma até condição de higiene. 


Não importando a civilização, o uso do aroma é realmente uma constante histórica. 

Aromaterapia consiste numa técnica holística (terapêutica) que utiliza óleos essências e essências responsáveis pelos aromas das plantas, com a finalidade farmacológica (ou seja, com propriedades curativas), atuando na dimensão físico-orgânica, emocional e até mesmo psicossomática. 

Diferentemente de outras técnicas, a aromaterapia se vale de produtos de origem vegetal, mais especificamente a essência extraída como sumo ou alma da planta por meio de procedimentos hábeis para tanto. 

São usualmente chamados "óleos", mas, segundo GASPAR, não se trata de gorduras, e sim substâncias voláteis, tendo em vista que evaporam com facilidade (essa, aliás, é uma caraterística que facilita sua utilização como instrumento de trabalho (2004, p. 16). 

Diferentemente das chamadas "essências", que não têm efeito terapêutico quando utilizadas no corpo diretamente (pele, ingestão etc.), o óleo essencial pode ser aproveitado diluído em óleo vegetal para massagem, bem como para almofadas terapêuticas, cremes, shampoos, sabonetes, detergentes, sprays e hidrolatos. 

Tenho hábito de utilizar óleos essenciais para automassagem, bem como base para perfumaria, com a vantagem de me terapeutizar no processo. 

A partir de hoje, vou aproveitar o blog para compartilhar com todas alguns conhecimentos sobre aromaterapia, com a finalidade de espargir o maior número de informações para que as pessoas possam ter acesso a esse instrumental benigno que a Natureza oferece gratuitamente.

A ideia é que nos curemos e co criemos nossas realidades, superando questões internas e adotando uma postura protagonista de nossa caminhada nesse lindo planeta!

Que todos os seres em todos os mundos sejam felizes e plenos em luz!



terça-feira, 30 de outubro de 2018

É tempo de se ressignificar: a noite mágica de Samhain e as mudanças internas no giro da roda da vida


Fáilte, Samhain!

Dia 31 de outubro é, sem dúvida, o dia mais preciosamente mágico para as comunidades e famílias pagãs que reverenciam a roda celta do viver-morrer: trata-se do giro para Samhain na roda do Norte, o dia de reverência ancestral às casas, bem como de desnudamento dos véus que separaram os mundos dimensionais a contrapor a primitiva divisão entre os mundos dos vivos e dos mortos. 

Já estou vivenciando internamente o momento da finalização e, diante dela, desse fim do ciclo, que é auspicioso para muitas culturas [aliás, nunca é demais repisar a coincidência de celebrações em culturas e países distintos, Dia de Finados, Dia de Todos os Santos, Dia dos Mortos], o inexorável: preparar-me para ele, com o agradecimento pela colheita do ano e a projeção do que desejo para minha vida na outra roda

Esse é o sentido de Samhain!

Nada simbólico, mas vivencial: não se trata de metáfora, analogia, representação ou simbolismo. 

Viver a roda é experienciá-la em cada ponto em nosso corpo e alma, coligando emoção, necessidade e o conhecimento sobre a data, para que a magia seja plenificada. 

É sentir a morte de nossas células, bem como a revitalização de nossas almas no ressurgimento, firme, forte e pleno, de nossos corpos restaurados em sua plenitude e força. 

Viver a morte, sim, superar um tabu para boa parte das expressões religiosas e de algumas práticas espirituais que a evitam falar no assunto, por trabalharem, ainda, com a ideia dualista de total separação entre dimensões e espaços conscienciais. 

O viver mágico consiste no percurso de uma senda que nos aloja cada vez mais conectados com o Sagrado e mais distantes do que se convenciona chamar de "mundo". Não há palavras para traduzir essa bem-aventurança em estar presente no aqui e no agora, experienciando a roda da vida e edificando a sina que nos leva ao passeio frugal até a casa de nossos ancestrais. 

Não se trata de "Dia das Bruxas" ou simplesmente "Halloween", como muito se pretende agregar à ideia, mas, antes, de uma finalização dos oitos festivais de colheita que sinaliza o término do ano celta. A sazonalidade bem marcada do cerrado tem me levado a construir uma egrégora mista, que contempla a estação do ano por aqui, bem diferente das outras cidades. 

Assim, os pequenos sabbats tenho seguido pelo sul, pois as estações do ano aqui se aproximam mais deles. Os grandes sabbats, a exemplo de Samhain, mantenho tanto a tradição do norte, de Gwydha, Farrar, minhas matriarcas anglófilas, quanto os festejos celtíberos da minha família.

Isso porque, em outras postagens tive oportunidade de comentar a simplicidade da estrutura temporal para os celtas: inverno e verão, dia e noite, início e fim. 

Seguiam o curso/fluxo de uma Natureza percebida nas dicotomias cujas nuances e meio-termos pontuam a mandala da roda (a exemplo da modificação gradativa do gelo para a floração, ou, ainda, do dia para o entardecer). 

O fim, com isso, não sela extinção, mas, antes, sela o impulso criativo para outros e novos ritmos. O fim não é tristeza, mas o enredo adocicado do júbilo celebrado entre irmãos que concebem a morte como parte de um processo natural e inexorável de retorno aos braços do Sagrado para o renascimento em outra vida, ou, melhor, configuração!

Girando pelos oito sabás, Samhain marca, para o neopaganismo, a morte sacrificial do Cornífero - símbolo fálico de fertilidade - que, adiante, em Yule renascerá no ventre fecundado da Grande Mãe provedora. O Cornífero atingiu seu ápice de espargimento seminal, cumprindo a tarefa de povoar e disseminar. 

Como adulto e macho, Ele ruma para o direcionamento consciente do seu fim. Tragédia, fatalidade ou evitabilidade? 

Não importa, pois a narrativa celta marca - ao contrário da pegada grego-romana -  a adoração pelo abraço da morte, já que o destino nos encaminha para as moradas de nossos antepassados, apogeu de uma vida de honra e glórias. 

O Deus morrerá no invólucro de uma roda para despontar revigorado em outra existência, razão pela qual Samhain e Yule se dão tanto as mãos!

Para a bruxaria tradicional inexiste a referência dual de adoração a aspectos da Sagrada Mãe e do Deus Cornífero, sendo o ritual uma conexão com a ancestralidade pura e simples. 

Isso porque não se trata de uma religião estabelecida como protocolo de devoção aos arquétipos, mas a uma vivência de práticas mágicas e de conexão à Natureza, reverenciando-se, por assim dizer, deidades locais, não de maneira litúrgica (como, por exemplo, ainda se tem em alguns setores da wicca), mas de acordo com o que a herança familiar transmite como legado.

A tessitura das fronteiras encontra-se tênue, ao mesmo tempo em que as vibrações findam por formar egrégora forte de conexão com o Outro Mundo na noite do dia 31 de Outubro, possibilitando toda sorte de comunicação com os antepassados. 

Sim, claro, já que a senda vivificada nesse dia invoca o perecimento do Deus Cornífero, o ato reverencial consiste na devoção aos que já foram. Por isso Samhain remonta ao silêncio, à austeridade e, sobretudo, ao respeito a quem não está mais em carne. 

O acionamento dessa egrégora é essencial para compor, noutro giro, a polaridade da realização do devir em Yule. 

Afinal, só podemos seguir e cumprir nossas metas fortalecidos e confiantes, tarefa assumida pela coligação ao passado e catalisada pela colocação de velas acesas (na cor laranja, roxa ou preta) nas janelas das residências [guiando os caminhos e abençoando os liames consolidados na noite sagrada].

A tradição recomenda, ainda, a colocação de comidas (à base de abóbora, cereais e carnes), acepipes e bebidas (vinhos quentes) a serem partilhados durante a noite para os ancestrais se nutrirem do alimento abençoado. 

Pode soar ingenuidade acreditar que não, mas a sabedoria ancestral preza a ideia de que os espíritos se nutrem dos alimentos consagrados, ou, numa reconfiguração quântica, das nuvens eletromagnéticas que permeiam todos os corpos.

Noite de queima, por excelência, dos agradecimentos pelas colheita, em ervas auspiciosas para tanto, como manjerona, manjericão, louro. Se a Lua estiver bem aspectada, faço, ainda, outra queima, de tudo de desejo alcançar e construir no ciclo seguinte, queimando com cravo, canela, gengibre, mirra ou alecrim. 

Escrevo tudo em uma lista, imanto a vontade em uma rima entoada ao som de tambores e sopro três vezes antes de jogar no caldeirão ou na fogueira. De resto, reúna quem você mais ama e glorifique suas ancestralidade nessa noite auspiciosa! 

Seja feliz, forte e pleno!

(...)
Eu me lembro, ó fogo,
Como tuas chamas uma vez inflamaram minha carne,
entre bruxas retorcidas por tuas chamas,
agora torturadas por ter contemplado o que é secreto.
Mas para aqueles que viram o que vimos
sim, o fogo nada era.
Ah, bem me lembro dos edifícios iluminados
com a luz que nossos corpos emitiram.
E sorrimos ao contemplar o vento das chamas por trás de nós,
O fiel entre os infiéis e cegos .
Ao salmodiar das orações
No frenesi das chamas
Cantamos hosanas a vós, nossos Deuses,
Em meio ao fogo doador de força,

Dedicamos nosso amor a Vós da Pira"
(GARDNER,2003:119)