domingo, 22 de abril de 2018

Fáilte! Dia da Terra e gratidão

Hoje é mundialmente comemorado o Dia da Terra, uma iniciativa do Senador estadunidense Gaylord Nelson, que propôs a data para que possamos, como planeta e comunidade, celebrar a Terra e nos conscientizar da necessidade de preservá-la.

O evento, que teve seu primeiro formato em 1970, reuniu 20 milhões de participantes. 

Hoje, cada vez mais motivada pela atividade em mídia e redes sociais, o Dia da Terra mobiliza algo em torno de 500 milhões de pessoas, crescendo a cada edição.

Data auspiciosa para que possamos nos reconectar à Terra, ao sagrado e ao elemento estabilizador. 

Terra nos remete ao silêncio da montanha, imersa em sua sabedoria no calar, bem como à prosperidade, fartura, abundância e fertilidade. 

Não se trata do aspecto financeiro e do consumismo: aliás, estes elementos, tão mal compreendidos no materialismo em que vivemos atualmente, são antagônicos à ideia de prosperidade de estado de alma, que supõe um preenchimento do espírito com a abertura de estados de consciência para a verdadeira compreensão de nossa senda aqui nesse planeta. 

Trata-se da amplitude consciencial, o verdadeiro sentido de prosperidade que nos conecta à energia da Terra. Ela esbanja, mas também retém, mantém, poupa para mais tarde. 

Quem já não se pegou observando a latência de uma semente, que pode ficar embaixo da terra por tempos antes de explodir e explorar o mundo fora das entranhas da Grande Mãe criadora? 

Terra que esteia cada passo nosso, deixando paradoxalmente as marcas de nossa impermanência nesse solo, que acolhe a semente para germinar, e a raiz para entranhar. De onde parte o caule, os frutos, lembrando-nos dos frutos que nós mesmos elaboramos com nosso labor.

Terra que recebe, todos os dias, nossa cabeça para o repouso merecido do corpo e que acolherá nossas cinzas no dia incerto em que nossos olhos se cerrarem para esta realidade. 

Sobretudo, Terra da ancestralidade, daqueles que aqui estiveram antes de nós, preparando o caminho, na historicidade helicoidal, para que estivéssemos neste exato momento, aqui e agora. 

Terra do foco, da firmeza e da determinação. 

O dia hoje - sobretudo aqui no cerrado, onde ainda chove - está propício para andar descalço, colocar os pés no solo para aterramento. 

Ou, seja, para plantio, silêncio, introspecção. 

Para preservar Gaia, usando velas e poupando energia elétrica. 

Para se prostrar na postura da Montanha, que nos mantém firmes e conectados aos objetivos de senda mágica...

Para celebrar colheitas! Comer raízes, brotos, tudo que se entranha para nascer!!!

Para imantar cura em nossas vidas, visualizando a frequência de onda e a pigmentação verde enquanto repetimos "eu me curo, recupero e regenero". 

Para agradecer, enfim, por tudo até aqui realizado. 

Dia de leitura oracular, sim, por que não? Afinal, podemos acessar a Lua Crescente, bem como a sabedoria da Terra para que, de suas entranhas, possamos enxergar nosso caminho a seguir.

Agora há pouco tirei minha runa do dia, saindo Inguz...

Inguz está diretamente relacionada aos processos de finalização de começos, sendo a eclosão de um caminho que se finda para a abertura de outro, demandando energia de término, quer seja de um sentimento, relacionamento, hábito, projeto ou o que o valha.

Aliás, bem providencial, pois, segundo Thorsson[1], Ingwaz é o nome de Nerthus, Deus-parceiro da Mãe Terra, o sacerdote que a acompanha. Nada mais representativo para a data de hoje, agregar a energia do masculino à fonte primordial. 

Equilíbrio entre polaridades na eclosão do que está latente e que vai, mais à frente, vir à tona.

Biancardi[2] remete à essência da runa, que nos motiva a trabalhar nossa herança divina, sendo necessários desapego, fé, confiança e comprometimento para acionar a energia de Inguz. A vibração é "Eu sou uma criatura divina e mereço o melhor", materializando, assim, o bem-estar e a plenitude.

Neste Dia da Terra desejo a todos e todas plenitude, bons auspícios e conexão!

Céad mille fáilte!

[1] O oráculo sagrado das runas: autoconhecimento e orientação pelo sistema divinatório milenar dos povos nórdicos. THORSSON, Edred. São Paulo: Editora Pensamento, 2013, p. 141.
[2] Runas, magia e transformação. BIANCARDI, Rosa Maria. São Paulo, Editora Alfabeto, 2002, p. 136.

domingo, 15 de abril de 2018

Apenas GRATIDÃO!!! O sentido da vida...


Há tempo essa sensação benigna instalou-se dentro de mim e não mais foi embora. Acredito que tenha encontrado, enfim, um lugar de pouso e, no auge da calmaria, resolveu ficar. 

É indescritível tal constância: mesmo que passasse horas postando, não conseguiria retratar ou sequer detalhar, de maneira opaca, como a vida tem sido uma defluência direta de estar plena e íntegra.

Oscilações vieram e se foram, afinal, esse é um dos sentidos da vida. É a resposta a eles, as escolhas diante desses percalços que definem quem somos e nosso papel diante do Universo.

A sensação de benignidade calma e lânguida faz ressoar a GRATIDÃO diante do que se desenrola neste espetáculo do viver. 

Hoje estava escutando uma música linda, chamada Eu agradeço, da Marie Gabrielle e não pude conter as lágrimas de intensa felicidade ouvindo "(...) Deste jardim cujo eu sou jardineiro e de amor eu sempre vou regar(...).

Mas não uma alegria histérica, rompante. 

Não!!! 

Um regozijo de compreender, enfim, o sentido de tudo isso aqui. 

Sim, mas, então, qual é sentido?

Ahhh, tão irredutível em palavras, quem dirá em um texto! 

É uma sensação, um sentimento, sentimentos não são fidedignamente retratados em prosa ou verso. São sentidos, vividos, escorridos. Vão e vem no fluxo, tal qual um rio cujas águas chegam até o mar sem que precisemos perguntar onde se encontram as gotas.

Gratidão, Grande Mãe Sagrada, por me acalentar na palma de suas mãos!!!

sábado, 14 de abril de 2018

Criando a própria senda dentro de um mundo muito mágico!!!


Essa semana fiz algo bastante incomum, a despeito de ser simples, tão simples: ao me dirigir para a loja de óculos a fim de buscar uma encomenda, num lugar  bem distante de onde resido, decidi fazer um percurso para rever lugares antigos, os quais não visitava já fazia um tempo.

Escola antiga, ex-casa de avó, faculdade onde lecionei, médico que frequentei, escola de inglês e muitos outros lugares que estão hoje bem diferentes de tempos atrás. 

Desacelerei o jipe, coloquei o braço no vidro do carro e comecei a respirar profundamente, tentando, com isso, sorver o ar daqueles que, um dia, foram ambientes bem próximos.

Com isso, magicamente me transportei para cada cenário representativo de uma fase da minha vida: infância, adolescência, vida adulta. 

Não importa. Tudo ali se transformou, de súbito, numa egrégora atemporal, que me trouxe uma doce sensação de estar de volta ao pequeno lar dentro de mim. Observando atentamente minhas reações, senti ter gerado uma egrégora que está me acompanhando até o presente momento...

Ao chegar em casa, comecei a pensar na importância de elaborarmos nossa senda a partir da elaboração desse vórtice contínuo de energia e informação chamado egrégora, que nada mais é do que o caminho sagrado que será nossa própria lição de vida. 

O que realmente é relevante para se viver uma vida mágica? 

Afinal, são tantas receitas de "magicalidades" que ficamos à deriva quando não sabemos, ao certo, o caminho que estamos a percorrer. 

Lembrei-me de alguns grupos mágicos dos quais participo, quase todos com inúmeras postagens sobre dúvidas em relação a feitiços, rituais, deidades. Cada postagem espelhando uma dúvida bem pragmática, um desejo incontido, não importa. 

Ao final, o que percebo nesses anos todos de Arte mágica é o acesso pragmático a receitas sem, contudo, o aprofundamento necessário para se refletir sobre como efetivamente viver uma senda. 

Hangouts, lives, talk shows e cursos, geralmente on line

Livros, livros e livros. Apostilas e conversas ao pé do caldeirão. 

Tudo tão fácil e acessível!!!! 

Tão disponível FORA de nós, ao mesmo tempo em que revela muito sobre o que está dentro da gente: escolhas, medos, anseios e expectativas.

Em idos de pós-modernidade, acessar informações sobre magia não é mais artigo de luxo ou tabu: tudo está disponível na rede, bastando garimpar os locais onde procurar informações fidedignas.

Mas acessar informações, acionar dados, ritos, feitiços, rituais e deidades está longe de, solitariamente, trazer mágica em nossas vidas. A Arte é uma senda, ou seja, um caminho iniciático (quer seja em grupo ou individualmente) no qual imersão e reflexão são pressupostos da trajetória.

Não basta saber o que se faz com canela, alecrim ou arruda: é penetrar nos mistérios que a Natureza tão amorosamente compartilha conosco, a partir do significado que Ela mesma atribui a cada elemento, erva, artefato ou ingrediente.

Mais do que isso, é se render à formação de uma verdadeira egrégora, saindo, assim, do cotidiano de uma vida programada e robotizada, na qual a ligação com a Natureza e seus ciclos não mais ocupa espaço central. A vida mágica é vivenciada a cada lapso temporal contido entre o nascer e o pôr-do-sol, momentos de eternização da magia, da transformação energética e, sobretudo, da auto realização.

Quando internamente elaboramos esse pequeno-grande mundo, tudo em volta se ressignifica, na medida em que ambiente/observador passam a se harmonizar em uma só realidade. As fronteiras se dissipam para que tudo sibile em consonância com uma plenitude que ultrapassa qualquer limite.

Tudo passa a ser uma só frequência e, dentro dela e para além dela, podemos empreender aos atos verdadeiramente mágicos. Mas, para isso, a motivação interna, baseada na constância de uma vida plena, é o ponto de apoio: emoção, necessidade e conhecimento, os vetores de magia que sempre estão na lembrança. 

Quais os anseios de nossas almas? De que realmente precisamos? Qual o real significado de se adoecer, ter um acidente, perder ou ganhar um emprego ou, ainda, ganhar na loteria? 

Em um mundo regido por essas relações de implicação causal (à exceção, claro, da teoria e magia do caos), tudo promana de nossas próprias redes ocultas e internas, em simbiose com Gaia, nosso ambiente primordial. 

Criar a própria senda, a partir disso, consiste em vivenciar todos os dias a benignidade contida em um nascer do sol. 

É fazer um almoço em tom de devoção e agradecimento à Grande Terra nutriz em suas várias nomenclaturas (reverencio Dana, Danu, Ana, Anu, Eriu, Fodla, Banba, Badb, Madb, Morgana, Morrighan, Maeve, Cerridwen, Macha, Aine, Fand, Andraste, Brighid, Ategina, Deirdre e tantas outras deusas celtas que tão fortemente ligadas à terra e à Soberania são). 

É tomar o banho diário com a sensação de efetiva limpeza, amando-nos e nos enaltecendo como pequenas pérolas de divindade. 

É honrar a ancestralidade e as deidades que prepararam a terra para nós no aqui e no agora. 

É, enfim, ter sempre ínsita aquela sensação de se estar entre-mundos, aqui, na tridimensionalidade, bem como no além-matéria, nos confins dos sídhes e nas florestas onde cultuamos a Natureza em seus atributos essenciais.

Quando isso tudo é realizado, todo o resto passa a ser secundário: notícias de tragédias, guerras, política. Tudo passa a ser olhado em perspectiva, a partir de uma tomada de consciência incomum, que traz a brisa da CALMARIA.

Por isso que a Arte, a sagrada Arte, sempre representou para minha senda um continuum de languidez, calmaria e paz, ainda que estivesse sob as intempéries e sazonalidades da vida e de mim mesma. Quando tudo está oscilando, a senda iniciática nos ancora, lançando-nos fora desse vórtice de inconstância e turbação que a dissonância vibracional traz. 

Esse sentimento...livro algum irá ensinar. Hangout algum compartilhará. Live alguma trará para nosso peito, sabe por que? 

Porque se trata de experienciar, viver! Realizar, fazer! Ou, nas palavras ancestrais, saber, ousar, querer e calar, pilares de toda nossa vida nessa e em outras existências.

Trata-se de produzir uma centelha interna, faiscante e contínua, a partir da qual acionamos a egrégora, onde quer que possamos ir. Ela estará sempre conosco, acalentando-nos nos dias difusos , bem como reforçando a alegria interna nos dias de glória.

Eis o segredo essencial que não é muito compartilhado: somos nós o epicentro de nossa senda mágica, bem como o vetor da transformação do mundo. Basta que nos transformemos em fontes primevas de consciência pura expandida, que o Universo, os Multiversos se abrem para nossas escolhas e vontades.

So mote it be!

Blessed be!

Céad mille fáilte!



sábado, 7 de abril de 2018

Entre experimentos, experiências e experienciações: a senda mágica do viver






Acredito que viver uma senda mágica é, antes de qualquer tentativa de explicação racional ou teorização (que acabem virando livro ou hangout de autoajuda), uma experienciação. 

Não, não, não é uma experiência, mas experienciação: um profundo abismo separam essas percepções, muitas vezes vividas e compreendidas como sinônimas, o que traz confusões enormes no momento em que nos lançamos para interagir com o mundo e as pessoas. 

Uma experiência é algo que nos retira de nosso usual, um feito, rito ou experimento, baseado em uma rotina distinta, um teste que acarreta um binário: tentativa/erro. 

A experiência, portanto, reside na capacidade que temos de sair de nosso script de vida para abraçar uma nova realidade, ainda que momentânea, logo retornando para nossa zona de conforto, nossos hábitos e nossas rotinas mentais, emocionais e espirituais. 

Vamos, sorvemos e, a seguir, voltamos para nosso casulo perpétuo de imobilidade espiritual, deixando vidas e vidas se seguindo, sem que nossos dilemas sejam, enfim, encarados e geridos. 

A experienciação, ao contrário, consiste em um estado prolongado de um modus vivendi: saímos de nossa zona de conforto para abraçar uma nova vida, deixando para trás tudo que representou, até então, internamente, nossa forma de ver e sentir o mundo. 

Trata-se de uma ruptura, algo brusco e que rompe padrões internos, tornando impossível retornar ao que já se viveu, por se ABANDONAR internamente os padrões que estavam contidos nessa antiga vida que já se viveu...

Comprometemo-nos a olhar internamente, romper com nossos padrões, superar nossos medos mais abscônditos, pois, assim, podemos deixar o novo entrar, fazendo com o que seja arcaico e obsoleto dê espaço para novas percepções de vida. 

De vida...

Isso supõe prática, ação, envolvimento e compreensão de si mesmo: experiencia em ação, experienciação: eis o segredo! 

A senda torna-se mágica quando ousamos agir, no aqui e no agora, olhando para nós mesmas e nos superando, a partir de um profundo mergulho na alma.

A senda mágica, para alguns (muitos), a própria ideia de bruxaria, nada mais é do que a vivência imanente desse mergulho, sem que ofusquemos os elementos componentes de nossa psiquê (luz e sombra) em nome de uma necessidade transcendente de sufocar aspectos que não gostamos em nós mesmas.

Ao contrário, é se assumir em todos os pequenos cantos de nossa alma, ainda que sejam aqueles desconhecidos ou colocados embaixo do tapete. 

Eis a razão pela qual a senda é mágica: pressupõe coragem para olhar de frente em um grande espelho e conversar com ele, no firme propósito de olhar para esses cantinhos ali projetados e, com isso, crescer, amadurecer: viver!

Quando nos relacionamos, quer seja afetivamente, ou, ainda, em um clã ou coven, é necessário fazer essa nítida distinção entre tais dimensões de agir, para que não incorramos em uma confusão de propósitos de vida e, portanto, de ilusões, tanto projetadas no outro, como no grupo, formação uma egrégora de pura neurose.

Por isso sempre gostei de caminhar solitariamente na bruxaria...Nas vezes em que participei de grupos, logo advinha o despontar dessas projeções, reciprocamente consideradas, fazendo vir à tona, no grupo, as desavenças, o desgaste e a ruptura. 

Na senda afetiva, da mesma forma: reciprocidade projetiva, umas em medidas mais explícitas, outras em questões ainda opacas para a consciência. Pouco a pouco, vamos descobrindo que lidar com os outros é, em muita medida, lidar com a profundidade de nossas próprias almas. 

Agora, mais amadurecida pela senda de experienciação, tenho, a cada experiência (sim, a de ir e vir), descoberto o quão valiosa é minha experienciação (a languidez do estado de constância na alma que está numa senda). 

Isso porque a interação traz à luz os resquícios que precisam ser clarificados, os aspectos de sombras a integrar. Quando isso acontece, podemos prosseguir ou simplesmente olhar, agradecer e seguir o fluxo, retomando a experienciação. Ou, então, prosseguir na ilusão de achar que estamos crescendo apenas evitando o olhar para dentro de nós. 

Ledo engano, pois, como um pedalar eterno, andamos, andamos, mas não saímos do lugar. Podemos olhar para belas paisagens, tirar maravilhosas fotos, mas sempre estaremos a pedalar rumo a nós mesmos, sem, contudo chegar ao cerne, ao bulbo do que realmente precisamos encarar em nossas vidas. 

O caminho na bruxaria solitária é essa senda mágica de experienciação: é um ethos de vida, ou, melhor dizendo, um próprio modo de ser, estar, viver. 

Não se trata de fazer poções, ritos, mas de se unir ao sagrado eterno da Natureza, sentindo cada um dos elementos, bem como o registro eterno da ancestralidade a reforçar essa egrégora de plenitude. 

Assim, contemplar a lua, celebrar estações, ritos sazonais e se conectar é estar nesse fluxo, e não apenas acioná-lo quando conveniente, quer seja para acrescentar conhecimento, sabedoria, grandiosidade ou poder. 

Muitas pessoas de boa-fé se perdem ao longo do caminho, quando tentam, com sofreguidão, sair de um estado de alma de pura ignorância e desconhecimento de si, para transcender e negar suas mazelas, sem saber que estão negando sua totalidade.

Já ouvi muita conversas de "ego", muita gente acreditando realmente que sua alma é "de luz", que "campo mórfico" de encarnação é ilusão e outras tantas banalidades, repetidas, contudo, com tamanho despreparo e desconhecimento do mergulho em si que, de fato, acabam criando para si um personagem que, ao menor aperto de botão - geralmente na convivência - deixam extravasar esse "pior" que reside dentro delas. 

Aliás, não é o "pior", é apenas a sombra não aceita porque formulada uma máscara de beneplácito e benevolência. Puro discurso, ao final, que aloja a pessoa para bem distante de uma senda contínua e, portanto, da experienciação.

Vivem, assim, experiências. Relacionam-se na experiência, uma espécie de test drive do viver: se colar, colou. Dando "errado", a desculpa (ex + culpa, ou seja, a retirada da culpa interna) se dá pelo script de "foi uma experiência, um aprendizado" e, logo a seguir, incidem na mesma...experiência!!!!

Eis a distinção, ao final, no caminho mágico, entre experimentar e experienciar: a possibilidade de verdadeira mudança no mais abissal ponto de nossas almas!

Por fim, gosto de compartilhar sempre uma lembrança do saudoso Scott Cunningham, autor renomado na wicca, que nos deixou cedo, não sem, antes, registrar o que, para ele, é uma senda mágica. Tenho-o registrado em uma louça em cima do fogão, ali em minha cozinha, para sempre olhar e contemplar. Mas, acima de tudo, para viver:


"Conheça a si
Conheça sua Arte
Aprenda
Aplique seus conhecimentos com sabedoria
Atinja o equilíbrio
Mantenha suas palavras em boa ordem
Mantenha seus pensamentos em boa ordem
Celebre a vida
Sintonize-se com os ciclos da Terra
Respire e alimente-se corretamente
Exercite corpo e mente
Honre a Deusa e o Deus"

Céad mille fáilte!!!


sexta-feira, 6 de abril de 2018

O singelo som do coração


O vento sopra, leva e traz mudanças, quase todas sentidas como uma espécie de alento. Brisa leve que torna a alma cheia de paz e esperança...

Tempos atrás rumei para o interior e tentei ali me encontrar. Rodei, dirigi, voei bem alto nas asas de um amor prometido e indelevelmente promissor. Saí de mim para mim mesma, achando mesmo que os quilômetros iriam me levar a outro lugar que não fosse à autofagia do meu ego.

Vivenciei experiências, observei a vida. Travei contato com energias empaticamente situadas no grandioso universo da palma da mão. Depois disso, um atropelo que me fez percorrer outo caminho, rumo, talvez, a mim mesma, mas por outra estrada.

Rodei de volta para casa, achando, novamente, que o retorno me impeliria ao status quo ante. Assim como nunca somos as mesmas, o rio também não corre intacto. Os banhos na caudalosidade dos vários rios pelos quais passamos em vida também nos brindam com a diversidade. 

Agora, tempos depois, volta o rio e voltam os banhistas. Configurações de uma mesma história, revisitada pelos banhos que não conseguem, ao final, tirar a poeira incrustada na alma...

Mesma máscara, talvez, quem sabe? São tantas histórias de projeção! Tantas miscelâneas de um espelho que se quebra e cola, sempre e sempre, lembrando que o outro é o caco eterno de nossas próprias mazelas. Identidade? Aversão? Projeção?

Talvez...

Afinal, o que encanta, depois, desencanta o mundo, faz com que desejemos nunca ter olhado para trás.

A estrada, porém, constrói-se para frente, no andar pausado de quem se caleja com a sombra forte da alteridade que em nós se espelha. Olhamos para as possibilidades infinitas que expandem nossos corações e nos fazem trazer à tona o pulsar do coração que se elastece a cada mordiscada...

Sim, coração, eixo central da criação!!! Órgão cujo tom de reverberação nos amedronta todas as vezes em que a taquicardia insiste em mostrar nossa vida em sua maior plenitude...

E quando nos damos conta, cá estamos a agradecer por mais e mais experiências, que nos apontam, lá na frente, a sincronicidade do Universo em nos avisar gentilmente que tudo quedado em retrospectiva foi acertado. Bom, correto. Justo.

Nada, enfim, é em vão.

A alegria advinda da calmaria com a qual a ressonância se equilibra é inesgotável.

Cumpre, então, a mim, apenas dizer: gratidão, gratidão, Gratidão!!!!
Cai a chuva em meio à lágrima que insisto em represar
Olho o céu e, entre estrelas
e me pego a perguntar...
Como pode o Infinito ter tanto
A nos falar...

Rumo em vagas, eterno assombro, sibila a luz 
A faiscar
O apogeu de tantas sombras
Vindo à tona a ofuscar
Corpo em brilho
Olhos fortes
Insistentes a bailar
Pelo mapa de teu mapa
Que sumir sem me falar

A ponte nova do velho tempo 
que faz a bruma se dissipar
Olho o espelho de um forte
Rui em plano a se livrar
Agora é certo que não nos fomos
Sempre estamos a chegar
Vidas vêm e almas somam
Mesmo estando a se chocar




sábado, 31 de março de 2018

Lua Azul, a lua da abundância!!

Hoje é um dia muito especial, Lua Azul despontando no horizonte e enchendo nossas taças de plenitude e prosperidade.

Segunda Lua Cheia no mês, marca os auspícios de abundância, sobretudo neste março, conhecido por ser dedicado a Marte ou Ares (deus da guerra em suas expressões romana e grega), bem como a Morrighan, Deusa da guerra, sexualidade e fecundidade na mitologia celta. 

Uma lua intensa, auspiciosa, inspiradora e, sobretudo, frutificadora. 

Tudo aquilo que é imantado durante uma lua azul intensifica-se e, ao mesmo tempo, renova-se, em todos os aspectos, trazendo alento e renovação aos corações e às almas.

A semana foi agitada por aqui. 

Términos e inícios de giros de roda nos ciclos que se renovaram, ao mesmo tempo em que a vida mostrou o curso da impermanência, bem como desnudou o que era ilusório e irreal. Deixou apenas - e que apenas - o bem-estar diante d do eixo etéreo da vida-morte-vida. 


Dia de conexão com a energia da Grande Lua Azul de Prata. 

No silêncio da reclusão sábia, apenas a sintonia com meu ciclo, que veio, novamente, durante a linda plena lua. Muito linda essa sincronicidade que somente nós, mulheres, temos com a Natureza. 

Até entendo, diante disso, a razão pela qual o Feminino é tão invejado, e nós, mulheres, tão drenadas e vampirizadas por quem não tem o dom da criação.

Uma sensação de júbilo e gratidão invadiu meu ser, enaltecendo cada parte do meu corpo rumo ao encontro com a Deusa. Conexão real e intensa. Gratidão demais diante da rima forte que nos liga, como irmãs na Arte, a vivificar a vibração no ritmo da Natureza:

"Salve, Salve, grande DeusaLuna prata sobre o marDeita o véu entre as estrelasAnunciando o despertar Ciclos infindos Noite e diaQue se lançam a se encontrar Cai o breu do eterno brilhoNo horizonte a sibilar Salve a Prata, Luna mestra Que nos mostra onde chegarVenham todas para o círculo Nesta noite de Luar"

A lua nascida em meio à mata me cura, preenche meu coração de um alento que me aloja no centro do útero de Dana, a senhora de toda criação.

Dissipa toda a incerteza que a racionalidade masculina tenta imputar ao coração do Sagrado Feminino, lembrando ao mundo que é a Mulher o epicentro do espetáculo da vida. Feliz o homem que penetra nos mais profundos e abscônditos recantos de suas sombras para se elevar diante do divino e o reverenciar. 

Muitos tentam, de bom grado e até boa-fé, mas quedam diante do atropelo do ego em desejar mais do que pode oferecer. Com isso, desconhece o verdadeiro sentido da vida e da contemplação da sacralidade, bem como o pulsar da vida que se impõe em meio a tantas incongruências do mundo moderno.

Mas a Lua, ah, a Lua!

Essa Deusa linda, sagrada, voluptuosa, está sempre ali, plena, desejosa em sua potestade, derramando sobre nós seu bálsamo de renovação...

Desejo a todas e todos o beneplácito de uma noite linda de Lua Azul! Que Ela traga prosperidade e calor aos corações!!!

Céad mille fáilte!

Diga-me, afinal, o que representa a Soberania?


Soberania sempre foi considerada uma palavra feminina... 

Em alguns dicionários, definida como substantivo feminino, designativo de qualidade ou condição de soberana, ou seja, dotada de poder ou autoridade máxima, em face da qual inexiste contraponto...

Aliás, não apenas no português, mas em boa parte da literatura estrangeira, trata-se de um atributo feminino, usualmente ligado à mitologia nobiliária, monarquia e, sobretudo, ao PODER

Em outro momento no blog tive oportunidade de escrever a respeito, basta checar na postagem A soberania e o rei, onde abordo o reconhecimento da liberdade a condição imprescindível para a simetria do Casal Sagrado e o equilíbrio de forças (polaridade masculino e feminino):
"Eis o sentido de uma relação livre em sua origem, que não traz mácula de usurpação, pois cada qual, sabendo de si, pode oferecer ao outro o que tem de melhor"
Basta folhear os contos arturianos para perceber que a perda da fertilidade dos vastos campos de Camelot estava diretamente vinculada à expressão do amor sentido por Arthur em relação à Guinevere, cujo coração foi abalroado por Lancelot, esfacelando, pois, a soberania do reinado do nobre monarca. 

Ou, ainda, a potestade de Viviene, Senhora de Avalon, Rainha e sacerdotisa que orienta Morgana em sua iniciação nos segredos da Ilha mágica. Morgana, Morgause, Igraine, todas grandes mulheres de poder. 

Por outro lado, o mito do Rei-pescador (muitas vezes confundido com a própria saga de Arthur em sua etapa final de vida) que tem sua terra tornada infértil pela perda da soberania igualmente nos coloca a refletir sobre o vital papel e a arraigada conexão existente entre FEMININO, SOBERANIA e TERRA

A soberania sempre atraiu a atenção dos romanos em sua saga expansionista, o bastante para que eles retratassem as províncias como figuras belas, representadas por mulheres. Aliás, daí vem a expressão tida por machista: "conquistar a mulher", tal qual fincar uma bandeira no solo fecundo para dela se assenhorar. 

No texto A experiência imperialista romana: teorias e práticas, Mendes, Bustamante e Davidson analisam os processos interativos elaborados como uma forma hegemônica de ingresso do Império Romano nos lugares onde deitou estacas, a exemplo da Britannia e África. 

O projeto da pax romana nada mais era do que um expansionismo cultivado na derrocada da soberania dos povos ditos bárbaros (ou seja, todos que não erma romanos), por intermédio de uma política geno e etnocida sem precedentes, o bastante para que hoje, séculos depois, estejamos em pleno retorno do bumerangue, imersas em lutas por nacionalismos e identidades usurpadas pelo colonizador.

Boudicca, neste sentido, foi uma rainha iceni que fortemente lutou para manter intacta sua soberania em face da agressividade misógina de Nero, que só descansou quando Suetônio, depois de muita força, conseguiu derrotar a rainha ruiva, não sem provocar nela a ira que, em último gesto, evitou o deleite de Nero, o Louco: tomou veneno para não ser feita prisioneira de Roma.

Por onde quer que investiguemos, a história esta cheia de mulheres fortes, plenas e soberanas (Elizabeth, Cleópatra, Hipátia, Catarina etc.), que exerciam poder com honra, retidão e dignidade, buscando a preservação da alma impoluta, mesmo diante do grande desafio em coexistir num mundo basicamente instruído por homens e suas fálicas formas de auto afirmação. 


Mas hoje vou falar de outra rainha celta tão grandiosa quanto Boudicca e fortemente vinculada à SOBERANIA, atributo com o qual nós, celtas e celtíberas, identificamos nossas raízes e nós, mulheres, exercitamos nosso protagonismo de vida. 

Seu nome era Maeve, rainha de Connacht, conhecida por ser inebriante, a partir do nome, livre em suas escolhas e em sua sexualidade, o bastante para ter tido, segundo Quintino, nove maridos e incontáveis amantes, todos cientes de sua posição e do incontrastável poder da soberana (2002, p. 150).

Reza a lenda que o direito celta, dada a igualdade presente nas relações entre homens e mulheres, estabelecia a chefia da família a quem tivesse maior patrimônio. Maeve e um de seus esposos, Ailill, certa feita travam uma discussão sobre seus bens e suas riquezas, ambos desejando se tornar o mais rico da relação. 

Aillil possuía um touro, Finnbennach, tornando-se, com ele, o mais rico e, com isso, provocando Maeve a entrar em guerra contra Ulster para obter outro touro, Donn Cuailgne e, com isso, tornar-se mais rica e chefe do clã. 

Soberana incontrastável...

A partir desse relato a se perder na história, podemos refletir sobre o significado clânico da palavra soberania, sobretudo nas relações domésticas e afetivas travadas entre parceiros e parceiras.

Isso porque os anos de androcentrismo e patriarcado trouxeram a consolidação de um enredo predominantemente masculino na gestão da casa, incumbindo à mulher a subalternidade de um espaço privado de atuação. 

Agora, em plena contemporaneidade, afinal, qual o sentido de igualdade para um casal?

Estaremos num movimento da Nova Era, que apenas "inverte" papéis? 

Penso que a resposta seja um sonoro NÃO, até por experiência própria em enredos afetivos nos quais eu tinha a propriedade do touro. Os séculos de patriarcado não apenas trouxeram a hegemonia masculina, mas a subalternidade feminina nos serviços de gestão, o que, aliás, está em franca mudança.

Mas dizer que o presente marca o alojamento do homem para o serviço doméstico, sensibilização-namasté ou o que o valha, quer seja a pretexto de produzir uma mudança no sistema (a mesma conversa de matrix, ilusão, samsara e outros nomes) não faz, num passe de mágica, desaparecer os tempos de locupletamento emocional que o atavismo masculino produziu em si mesmo, projetando na relação a obscuridade das relações assimétricas. 

Homens emocionalmente atávicos, ainda não desvinculados da forte presença de uma mãe submissa e de um pai castrador e ausente, até mesmo em situação pretérita de violência doméstica: esse é um retrato presente em nossa geração e que precisa de ruptura. 

Neste sentido, o imaginário ainda oscila na saída desse padrão e em sua permanência nele, sem, contudo, espelhar em si o que realmente se faz necessário para se alcançar a soberania: a autonomia diante da vida.

Soberania marca, portanto, uma autonomia em relação ao mundo, em vários aspectos, integrando, sobretudo, o dualismo matéria-espírito (Terra e Fogo), por intermédio da harmonização entre razão e emoção (Ar e Água). Atributos herméticos presentes na ideia de prosperidade que tanto move as pessoas, mas que tão desconhecida é como prática diária de vida. 

Ser soberana e soberano implica o fluir na senda a partir da descoberta de SI, do próprio objetivo de vida (que não é meta material, mas encampa viver na matéria) a partir da clarificação da alma. 

Quando uma pessoa sabe quem é enquanto ALMA, tudo lhe favorece... A estrada se abre à sua frente, o vento sopra morno nas costas, a chuva cai de mansinho sobre os campos. Tudo flui e frutifica, acarretando, assim, a prosperidade que tanto se almeja.

Caso contrário, como dizia Sêneca, "quando um homem não sabe a que porto se destina, vento algum lhe é favorável". Suas terras quedam inférteis, sua vida estagna sem um objetivo, a incredulidade bate à sua porta. O mundo interno perde, enfim, o colorido de vida. 

A perda de sentido do em-si traz fragmentação do EU, acarretando a perda da soberania e, portanto, do sentido de pertencimento ao Todo. Passa-se a desconfiar da vida, a se buscar incessante explicação dogmática para se conseguirem respostas que, a bem da verdade, estão dentro de nós, em nossa soberania.

Por isso soberania é um atributo tão invejado e vampirizado no mundo: algumas pessoas a exercer com abundância. Outras, carentes, tentam buscar nos outros aquilo que falta em seus áridos terrenos. 


Céad mille fáilte!

sexta-feira, 30 de março de 2018

Amaciante caseiro, o segredo da suavidade feita em casa!!!

Depois de um longo tempo desde quando prometi a mim mesma que iria fazer amaciante, hoje, aproveitando a chuva e o silêncio reconfortante da minha casa, coloquei a mão na massa (ou na água, diga-se de passagem).

A receita é super simples, já tinha feito outras vezes. Rende bem, 5 litros de amaciante.

Basta anotar...

1/2 sabonete ralado
1 litro de água fervente 
4 litros de água fria
4 colheres de sopa de glicerina
3 colheres de sopa de essência
Pingos de óleo essencial...
Misturar o sabonete ralado e a água fervente. Depois acrescente os demais ingredientes e mexa, mexa, mexa. Pronto está para ser usado regularmente nas roupas. Vale muito a pena e dá aquela sensação de independência da indústria de material de limpeza.

O simbólico, o incontido e a mágica: os sinais com que a vida nos brinda e a força que o Sagrado Feminino nos dá

A vida mágica ora opera no plano do simbólico, ora se concretiza no literal. Em um momento, podemos ter uma epifania olhando uma nuvem a se formar nos céus, em outro estamos a observar uma situação acontecer, de imediato. Ali, na lata...

Não importa, pois bastam conexão e harmonia para que a compreensão do divino possa se materializar em nossas vidas, deixando fluir a imanência da própria vida.

Prestar atenção aos sinais é uma forma de fortalecer essa importante conexão mágica, observando o silêncio e, sobretudo, como a existência se desdobra em nossa frente. É a sabedoria em olhar para a lição que está sendo trazida para nossas vidas, a partir das mais corriqueiras situações, que se interligam em uma teia causal de eventos que passam a ter sentido lá na frente...

Eis o meu sinal e minha história a partir dele...

Dias atrás estava simplesmente caminhando, voltando do mercado após uma aula de yoga na qual havia imantado o sankalpa AUTONOMIA (pois estava a experienciar uma situação em que me sentia frágil nesse sentido).

Simplesmente "do nada" (que não foi "do nada"), caí, assim, como uma jaca. 

Sim, estatelei-me. Foi engraçado. Olhei para o lado e um senhor, muito gentil, ainda tentou justificar o injustificável - "foi o degrauzinho que engana mesmo" - para me animar.

Olhei para ele e falei: "não, não, não, fui eu mesma". 

Consciência na queda. Algo a apreender naquele momento. 

Depois percebi que, átimos antes da queda, estava eu a pensar em um relacionamento que estava ruim. Em uma pessoa que estava em minha vida, solícita, alegre, saltitante, uma pessoa que se apresentou como a mais pura encarnação do altruísmo e da luz, namasté!

E caí!!!

Não, o degrauzinho me acordou, veio de encontro aos meus passos para me chamar à consciência para uma situação inóspita e desconfortável que instalei em minha vida a partir da permissão para que minha alma abrisse mão de sua autonomia. 

Poucos dias depois tudo fez sentido em relação à queda. 

Minha sábia mãe, bruxa mãe, comentou, no auge de sua intuição aguçada: "vai ver, ali, na queda, algo estava sendo mostrado a você". Prestei atenção nesse movimento para concatenar todo o desenrolar dos eventos e, mais uma vez, a sabedoria ancestral mostrou-me o acerto das coisas da vida.

Sankalpa, autonomia, relacionamento com a alteridade. 

O sincrônico foi a queda ter sido no mesmo local onde, dias antes, estive ali com a figura, aborrecendo-me deveras com sua insistência em pegar as compras do supermercado. 

Posso ser taxada de radical, feminazi, insensível. Não importa. Não se trata disso. Trata-se do sinal de alerta máximo que minha alma me deu. 

Cheguei até a verbalizar para a figura: "isso já é manipulação", não sem antes olhar sua cara de espanto quando puxei as sacolas, tal qual uma criança sabedora de sua arte se vê quando é descoberta... Quando é descoberta...

Na sutileza de seu ato falho que, nalgum dia, vem à tona, pois, afinal, gasta-se muita energia para a mentira. Cedo ou tarde tudo se revela diante da luz...

Sim, mas voltando ao assunto, não é por conta de alguém carregar uma sacola de compra que ocorre manipulação: ela se dá porque, ali, na recorrência de um padrão de altruísmo extremo, minha alma passou a se sentir sufocada com um zelo que começou a mostrar reais intenções.

Tanto que agora, depois de um tempo, outra sincronicidade: materializou-se para mim um vídeo muito interessante do Flávio Gikovate sobre como perceber uma pessoa dissimulada e cínica. Nunca tive a curiosidade de ver vídeos assim, pois, confesso exaustão em face dos tempos de terapia. Hoje agradeço aos deuses e às deusas por ela, pois isso e minha conexão com o sagrado que me permitiram sair de uma situação desfavorável. 

Quando vi o vídeo enxerguei o evento e me vi ali. Daí, como um flash, esses que nos lembram o túnel com a luz branca e o filme de nossas vidas, vi passar todo o enredo de uma situação de manipulação e engano. Um engano que começa em mim, claro, na auto ilusão que elaborei diante da alteridade, contando com a empatia da projeção no espelho de meus déficits e minhas limitações. 

Senti um ar de certeza e calmaria tão grande que decidi escrever às 03 da manhã (sim, hora mágica e auspiciosa, que só reforça a ideia e a sensação de estar no caminho certo da minha intuição) sobre essa experiência, pois, afinal, ela diz respeito ao Sagrado Feminino e em como, cada vez mais, as elaborações manipulativas vão se aprimorando e se tornando sofisticadas. 

Tive a oportunidade de escrever sobre isso no texto Misógino rehab: a mutação na contemporaneidade, onde abordo como as práticas de desrespeito ao Sagrado Feminino estão mais sutis, disfarçando-se em altruísmo, não raro com o discurso em voga de "gratidão", "namasté", "somos todos um" e outros tantos, que se destinam apenas a encobrir intenções mais espúrias. 

No caso narrado, o altruísmo em excesso encobriu o interesse em usufruir da boa-fé, hospitalidade e prosperidade. Esse último elemento, inclusive, expressamente declinado pela figura numa imprecação mágica feita em um ritual de gratidão, onde paradoxalmente agradeceu com uma mão, mas solicitou com a outra a prosperidade.

Aliás, uma observação: prosperidade sem pregar um prego numa barra de sabão, pois o ente não desejava mais "servir à Matrix" (outro peguinha da Nova Era, sem que se compreenda exatamente o que é isso): já tinha vivido de luz, feito cursos e tal, abandonando a vida "normal" e viajando pelo mundo afora na carona da cauda do cometa.

Agora desejava era viver da luz dos outros, a começar de uma espécie de pirâmide esotérica na qual seres de sociedades etéreas iriam dividir dinheiro com um grupo de desesperados (pausa para pegar fôlego: como assim, seres da mais alta celestialidade e do mais puro desapego, vão abrir cofres de vil metal e distribuir?)

Isso e mais, muito mais, fez com que, aos poucos, fosse me fechando, blindando minha alma já calejada por outras andanças. Quando dei por mim estava caída ao solo, tendo sido acometida por esse insight.

O mais mágico, porém, estava reservado para o dia do meu aniversário...

Todos os dias, ao sair de casa, tenho por hábito fazer minha conexão com o Sagrado Feminino durante o trajeto entre o condomínio e a pista, pois é um caminho lindo e inspirador.

No dia do giro de roda, saí de casa e mentalizei fortemente: conectei-me à Terra, à Água, ao Fogo e ao Ar, bem como à Deusa dos dez mil nomes, à ancestralidade sagrada. 

Liguei-me às entranhas da Grande Mãe, ao Feminino arraigado em mim. Enfim, foi visceral e uterino.

Falei com Ela que, no dia do meu aniversário, gostaria de ganhar um presente. Gostaria que a situação inóspita e desagradável fosse desvelada e se findasse por si só, que eu não me desgastasse ou sequer movimentasse. 

Pedi que, pela primeira vez em minha vida, não fosse eu a finalizar. Que, se fosse real, tudo permanecesse. Mas que, se fosse ilusório, que tudo se esfacelasse naquele dia e viesse à luz, à tona.

Estava feito...pois, mais tarde, recebi uma benigna mensagem da figura dizendo ter ido embora. 

Isso é realmente mágico. É o simbólico e o literal em uma mesma escala. É a vida no indizível a se mostrar. A me mostrar que tudo é um processo de causa e efeito desenrolado como um novelo de lã.

Estou, desde esse dia, em êxtase com a vida. Meu sankalpa - AUTONOMIA - reergueu-se com o renovado propósito de me ensinar mais uma lição. 

Uma que, nos últimos relacionamentos, havia eu esquecido, tendo sido lembrada pelos espelhos: compartilhar não é carregar outra pessoa nas costas. Não é sustentar alguém. 

Compartilhar é COM (ao lado de, ou seja, com igualdade, equanimidade, isonomia nos esforços) PARTILHAR (ou seja, partir, dividir), ou seja, agir e viver ao lado de alguém em paridade de esforços, olhando para o mesmo horizonte e dividindo o mesmo núcleo ético de metas. 

Quando isso acontece na polaridade masculino-feminino temos a união, a comunhão, a confluência de propósitos de vida legítimos e autênticos. Onde isso falta temos apenas processos de drenagem e vampirização. 

Saber discernir entre compartilhar e vampirizar, em meio à tanta sutileza manipulativa, é uma arte a se renovar constantemente. Apenas vivendo, caindo "do nada" e levantando para se saber. 

E agradecendo ao Sagrado Feminino por toda benignidade em nos proteger.

Céad mille fáilte!





sábado, 17 de março de 2018

Fáilte! Lá Fhéile Padraig! Dia verde de comemoração a Paddy!

Hoje é um dia bem especial para a cultura irlandesa, dia de São Patrício, ou Lá Fhéile Pádraig, Paddy´s Day e outros tantos nomes por intermédio dos quais o padroeiro é conhecido. 

O blog Sagrados Segredos destina-se à sacralidade celta, mas, no caso de St. Patrick, o que me motiva a escrever reside no sincretismo religioso muito forte na Ilha Esmeralda, porque a conversão ao catolicismo, ali, seguiu com mitigações. 

É o caso de Santa Brígida, uma forma católica de se referir à Brighid, deusa celta dos ferreiros, da poesia e do parto. Retratada como uma freira, reputa-se a ela  primazia de manter em Kildare suas sacerdotisas alimentando o fogo sagrado curador.

A Ilha Esmeralda é orgulhosa de sua história e ancestralidade celtas, razão pela qual o catolicismo ali não seguiu a conversão como nos demais países, onde o romanismo seguir forte. Por toda Irlanda é possível ver monumentos erigidos a heróis.

Pagão de origem e, posteriormente, convertido a cristão, reza a lenda que a Irlanda é carente de cobras porque Paddy tomou a cautela de expulsá-las todas de lá. O dia 17 de março marcaria a data de sua morte, em 461.

Hoje o dia é de festa e celebração regada a uma boa pint (medida de cerveja, quase sempre caramelizada, como nossa boa e velha amiga Guinness, inesquecível). 


Sláinte! Ela é tomada com fish´n chips e smashed peas. Ou seja, peixe e ervilhas. A ervilha é boa pedida, a carne, por questões pessoais, declino. Rs. 

Dia em que o orgulhoso povo da Ilha se veste de verde, cor representativa da bandeira, das vestes de São Patrício e, sobretudo, do cenário bucólico do Eire. 

Seus pastos, suas montanhas, tudo ali é de um verde incontrastável, que nos faz perder de vista o olhar. 

O shamrock ou trevo de 3 folhas é outra marca da Ilha e do dia, representando a santíssima trindade. Dizem até que St. Patrick sempre usava um para empreender ao seu serviço missionário de catequizar e converter os habitantes da Ilha. 




Converteu...

Mas o bom sangue celta ainda se mantém presente ali, quer seja nas práticas sincréticas, alimentação, como no idioma, o gaélico irlandês, que insiste em coexistir com o inglês invasor. 

Os irlandeses têm muito em comum com os galegos, pois ambos têm origem nas tribos celtas dispersas ao longo da Europa. 

Dizem que, numa boa briga entre irlandeses e galegos, não é possível saber quem é quem nem se se jogar um caneco de cerveja: povos temperamentais, brigões, alegres e muito, mas muito amantes de cerveja e música. 

Nesse dia especial que aglutina povos e culturas, desejo fazer um especial brinde à cultura celta remanescente na Irlanda, Galícia, Lusitânia e em tantos outros lugares diferentes. Sensação de plenitude a-espacial é o que me motiva, no dia de hoje, a abrir uma boa garrafa de cerveja e sorver a dádiva dos deuses e das deusas.

Sacralidade é isso...Ao menos para mim, pois não temo minha alma livre e celta, que se eleva diante da lembrança de tempos imemoriais nos quais a honra e a retidão eram a máxima a designar a alma humana.

Anam Cara...

Simples assim!!!!

Céad mille fáilte!