domingo, 29 de maio de 2011

A desculpinha furada...

O que mais eu teria para falar?

Vaso quebrado, segundo a sabedoria popular - não tem cola que remende o caco...

Por isso que acho extremamente epifânica a menção feita ao perdão.

É bisonha a maneira como pedir perdão se transformou em um ato irrefletido de EX + CULPA, e não de empatia na dor de quem se fere.

Não acredito mesmoooo que perdão seja arti...go a se encontrar em uma prateleira de uma loja de secos e molhados. Assim, não acredito que boa parte dos pedidos de perdão sejam, de fato, algo além de uma medíocre forma de se auto-inocentar diante da falha.

Mais digna, para mim, é a pessoa que se assume na impossibilidade de perdoar ou de pedir perdão, do que no fariseu que encobre a podridão com uma desculpinha furada, continuando a enfiar o punhal nas costas de quem tem boa-fé e, aos domingos, indo à agremiação religiosa para se "limpar" do ranço da culpabilidade. Cuspo três vezes nisso!

A analítica do poder na gestalt patriarcal

Gostei do título e ele não foi sem propósito: trata-se de uma sutileza semântica para expor aqui, em rede, a perversidade com que uma colcha de retalhos patriarcal é tecida em face de instituições totais.

Goffman já havia escrito a respeito delas em Prisões, manicômios e conventos, mas é bem verdade que penso, do auge de minha morada, que o rol do título poderia ser ampliado, dada a esquizofrenia (politicamente correto é falar em bipolaridade) contida no totalitarismo mascarado de democracia. O lugar de fala? Se eu falar perde boa parte da graça...

Não resiste à analítica de poder em Foucault, sempre capilarizando um poder não apreensível além do que seria um exercício de microcosmos... É como no desenho acima, o Panopticon de Bentham: uma instituição de maximização da vigilância com otimização de custos. Um pessoa no centro, a olhar para o todo e decidir o destino de uma humanidade...

Pergunto, com base nos romanos, cujo pedigree insistimos em invocar: quis custodiet ipsos custodes? É a falha do totalitarismo, pois, no escalonamento de poder, ao final, não encontra legitimidade. Assim é a gestalt patriarcal, que precisa se estabelecer com base na estrita vigilância e no medo bulímico...

Há 4 anos estava decidida a me retirar de um palco egoico que insisti em ingressar. Ensaiei, escrevi até artigo de opinião, na esperança que, algum dia, tudo pudesse ser bem diferente.

Hoje, em minha volta, além de perceber que muito pouco mudou, ainda, de maneira impressionista, percebo a mediocratização das relações humanas, transformadas e transtornadas, emblematicamente, em aparentes lisonjas e urbanidades que encobrem uma disputa emergencial de vaidades...

Sim, muito pouco mudou... Mas o pouco já é o bastante para reacender o fogo do repúdio a fazer parte da mesmice. Não dá, não dá, não dá...
“Carrego seu coração comigo, carrego-o em meu coração.
Nunca estou sem ele
Onde tu vais estou, querido.
E o que eu fizer estarás também fazendo, meu amor.
Eu não temo destino algum, pois tu és meu destino.
...Eu não quero outro mundo, pela beleza que é o teu mundo, a minha verdade...
E tu és...
Seja o que a Lua signifique,
E o que quer que o Sol cante
Sempre és tu.
Aqui está o segredo mais profundo que ninguém sabe
- a raiz da raiz,
E o botão do botão.
E o céu do céu de uma árvore chamada VIDA!
A qual cresce mais alto do que a alma espera ou a mente esconde.
Este é o milagre que mantém as estrelas separadas.
Carrego teu coração,
Carrego-o em meu coração”


E. E. Cummings
Fonte: http://acqua.files.wordpress.com/2008/03/cartas-thumb.jpg


Sempre tive nos escritos uma forma de eternizar os melhores momentos da vida, talvez, por pensar, no fundo da minha alma - que insiste em ser romântica – que as palavras ditas ao vento sopram uma efemeridade que se esvai, enquanto o registro delas, quem sabe, pode dar a sensação de alguma permanência.

Tenho sempre uma grande ânsia de conter o tempo, pois, mesmo que seja considerado “Senhor da Razão”, para mim, internamente, ele marca o fim. Alias, mesmo sabendo que a extinção é a única certeza na vida (ou na morte?), procuro, vivendo tão intensamente minhas experiências, ludibriar os finais de ciclos.

Escrever, dentro desse afã, é a forma mais serena que encontro para imortalizar o que é verdadeiramente importante para mim, as pessoas que amo...

Além disso, penso que as cartas de amor sempre perpetuam as histórias de encontros e desencontros, transformando presente em passado, futuro em presente, passado em futuro. Eis-me aqui, então, escrevendo, lutando contra o tempo e imersa num lapso infindo entre o que é presente para mim, a se converter em pretérito no exato instante em que alguém se debruçar sobre cada uma das linhas do que escrevo.

É a eternização dos momentos que me impele a guerrear com o Tempo!

A linda história da Mulher-esqueleto

Li, tempos atrás, a obra "Mulheres que correm com lobos", de Clarissa Pinkola Estes, uma saga maravilhosa de cunho psicanalítico a narrar a jornada arquetípica da mulher selvagem, aquela ainda intocada pela severidade de um mundo que substituiu os ritos antigos pela tecnocracia e pela racionalidade achatadora.

A história que mais me comove chama-se A mulher esqueleto, e começa mais ou menos assim:

"Ela havia feito alguma coisa que seu pai não aprovava, embora ninguém mais se lembrasse do que havia sido. Seu pai, no entanto, a havia arrastado até os penhascos, atirando-a ao mar. Lá, os peixes devoraram sua carne e arrancaram seus olhos. Enquanto jazia no fundo do mar, seu esqueleto rolou muitas vezes com as correntes.

Um dia um pescador veio pescar. Bem, na verdade, em outros tempos muitos costumavam vir a essa baía pescar. Esse pescador, porém, estava afastado da sua colônia e não sabia que os pescadores da região não trabalhavam ali sob a alegação de que a enseada era mal-assombrada.

O anzol do pescador foi descendo pela água abaixo e se prendeu - logo em que! - nos ossos das costelas da Mulher-esqueleto. O pescador pensou: “Oba, agora peguei um grande de verdade! Agora peguei um mesmo!” Na sua imaginação, ele já via quantas pessoas esse peixe enorme iria alimentar, quanto tempo sua carne duraria, quanto tempo ele se veria livre da obrigação de pescar. E enquanto ele lutava com esse enorme peso na ponta do anzol, o mar se encapelou com uma espuma agitada, e o caiaque empinava e sacudia porque aquela que estava lá em baixo lutava para se soltar. E quanto mais ela lutava, tanto mais ela se enredava na linha. Não importa o que fizesse, ela estava sendo inexoravelmente arrastada para a superfície, puxada pelos ossos das próprias costelas.

O pescador havia se voltado para recolher a rede e, por isso, não viu a cabeça calva surgir acima das ondas; não viu os pequenos corais que brilhavam nas órbitas do crânio; não viu os crustáceos nos velhos dentes de marfim. Quando ele se voltou com a rede nas mãos, o esqueleto inteiro, no estado em que estava, já havia chegado a superfície e caia suspenso da extremidade do caiaque pelos dentes incisivos. - Agh! - gritou o homem, e seu coração afundou até os joelhos, seus olhos se esconderam apavorados no fundo da cabeça e suas orelhas arderam num vermelho forte.

- Agh! - berrou ele, soltando-a da proa com o remo e começando a remar loucamente na direção da terra. Sem perceber que ela estava emaranhada na sua linha, ele ficou ainda mais assustado pois ela parecia estar em pé, a persegui-lo o tempo todo até a praia.Não importava de que jeito ele desviasse o caiaque, ela continuava ali atrás.Sua respiração formava nuvens de vapor sobre a água, e seus braços se agitavam como se quisessem agarrá-lo para levá-lo para as profundezas.

- Aaagggggghhhh! - uivava ele, quando o caiaque encalhou na praia. De um salto ele estava fora da embarcação e saia correndo agarrado a vara de pescar.E o cadáver branco da Mulher-esqueleto, ainda preso a linha de pescar, vinha aos solavancos bem atrás dele. Ele correu pelas pedras, e ela o acompanhou.Ele atravessou a tundra gelada, e ela não se distanciou. Ele passou por cima da carne que havia deixado a secar, rachando-a em pedaços com as passadas dos seus mukluks.

O tempo todo ela continuou atrás dele, na verdade até pegou um pedaço do peixe congelado enquanto era arrastada. E logo começou a comer, porque há muito, muito tempo não se saciava. Finalmente, o homem chegou ao seu iglu, enfiou se direto no túnel e, de quatro, engatinhou de qualquer jeito para dentro. Ofegante e soluçante, ele ficou ali deitado no escuro, com o coração parecendo um tambor, um tambor enorme. Afinal, estava seguro, ah, tão seguro, é, seguro, graças aos deuses, Raven, é, graças a Raven, é, e também a todo-generosa Sedna, em segurança, afinal.

Imaginem quando ele acendeu sua lamparina de óleo de baleia, ali estava ela - aquilo - jogada num monte no chão de neve, com um calcanhar sobre um ombro,um joelho preso nas costelas, um pé por cima do cotovelo. Mais tarde ele não saberia dizer o que realmente aconteceu. Talvez a luz tivesse suavizado suas feições; talvez fosse o fato de ele ser um homem solitário. Mas sua respiração ganhou um que de delicadeza, bem devagar ele estendeu as mãos encardidas e, falando baixinho como a mãe fala com o filho, começou a soltá-la da linha de pescar.

- Oh, na, na, na. - Ele primeiro soltou os dedos dos pés, depois os tornozelos.- Oh, na, na, na. - Trabalhou sem parar noite adentro, até cobri-la de peles para aquecê-la, já que os ossos da Mulher-esqueleto eram iguaizinhos aos de um ser humano.

Ele procurou sua pederneira na bainha de couro e usou um pouco do próprio cabelo para acender mais um foguinho. Ficou olhando para ela de vez em quando enquanto passava óleo na preciosa madeira da sua vara de pescar e enrolava novamente sua linha de seda. E ela, no meio das peles, não pronunciava palavra - não tinha coragem - para que o caçador não a levasse lá para fora e a jogasse lá em baixo nas pedras, quebrando totalmente seus ossos.

O homem começou a sentir sono, enfiou-se nas peles de dormir e logo estava sonhando.Às vezes, quando os seres humanos dormem, acontece de uma lágrima escapar do olho de quem sonha. Nunca sabemos que tipo de sonho provoca isso, mas sabemos que ou é um sonho de tristeza ou de anseio. E foi isso o que aconteceu com o homem.

A Mulher-esqueleto viu o brilho da lágrima a luz do fogo, e de repente ela sentiu uma sede daquelas. Ela se aproximou do homem que dormia, rangendo e retinindo,e pôs a boca junto a lágrima. Aquela única lágrima foi como um rio, que ela bebeu,bebeu e bebeu até saciar sua sede de tantos anos.Enquanto estava deitada ao seu lado, ela estendeu a mão para dentro do homem que dormia e retirou seu coração, aquele tambor forte. Sentou-se e começou a batucar dos dois lados do coração: Bom, Bomm!... Bom, Bomm!

Enquanto marcava o ritmo, ela começou a cantar em voz alta.

- Carne, carne, carne! Carne, carne, carne!- E quanto mais cantava, mais seu corpo se revestia de carne.Ela cantou para ter cabelo, olhos saudáveis e mãos boas e gordas. Ela cantou para ter a divisão entre as pernas e seios compridos o suficiente para se enrolarem e dar calor, e todas as coisas de que as mulheres precisam.

Quando estava pronta, ela também cantou para despir o homem que dormia e se enfiou na cama com ele, a pele de um tocando a do outro. Ela devolveu o grande tambor, o coração, ao corpo dele, e foi assim que acordaram, abraçados um ao outro,enredados da noite juntos, agora de outro jeito, de um jeito bom e duradouro.

As pessoas que não conseguem se lembrar de como aconteceu sua primeira desgraça dizem que ela e o pescador foram embora e sempre foram bem alimentados pelas criaturas que ela conheceu na sua vida debaixo d'água.As pessoas garantem que é verdade e que é só isso o que sabem."

Essa linda história revela em nível simbólico e arquetípico, a jornada humana em torno do amor, do sacrifício, do medo e da entrega, a partir da fusão dos elementos contidos em cada parte da narrativa, desde o pai que a "castiga" ao fundo do mar - império do inconsciente, água - até o enredamento pelo pescador que a colhe no amor, mas, temendo esse sentimento, busca fugir, sem saber que, por trás de si, a mulher se encontra.

sábado, 28 de maio de 2011

A noite mágica de expurgos...

Depois de passar uma semana somatizando a dor de uma inevitável separação, hoje decidi, sob o manto da Lua Minguante, expurgar da minha morada as energias e os miasmas que as companhias implacáveis de todas as máscaras aqui, um dia, deixaram.

Enquanto entoava meus cânticos de adoração ancestral, pensei nos momentos, dentro desses dois meses, de completude e alegria, sendo, logoa adiante, invadida por uma sensação de estar fazendo "a coisa certa". Sempre que terminamos um relacionamento é necessário um período de luto, bem como a limpeza do que, em tempos de júbilo, sedimentou energia no ambiente.

Para expurgar alguém da vida é necessário expurgar de si o espelho construído, pois, até onde minha ignorância me permite adentrar, nunca ouvi dizer que atraíssemos nada além do que vibramos...do que, afinal, projetamos no espelho que guardamos no fundo de um armário, na esperança da sombra cair no esquecimento.

Não cai...

Ela fica por ali, escondidinha, até o momento em que outra alma afim, na paridade da sombra, chega, de sobreaviso, aproveitando o vínculo que ainda está presente dentro de nós. No meu caso, pasme, sempre a Sombra que se projeta se me revela a idiossincrasia da agressão ao Sagrado Feminino, na espúria tentativa de extorsão da autonomia enquanto mulher.

Mas, ao que percebo, pouco a pouco, o aprendizado tem tornado a estrada bem mais serena, pois, se antes me desesperava diante do espetáculo inevitável de sofrimento, hoje já olho para o outro - sim, o projeto de filão de alma - com a parcimônia de enxergar a mim nele... Com isso percebo que, ao final, necessito fazer as pazes com o Feminino negado, bem como com o contraponto - o Deus - perdido em meio a tantas feridas abertas pelo patriarcado.

O caminho é longo e cheio de percalços. O desfecho da vez veio de maneira branda, dando avisos. O primeiro deles, como não poderia deixar de ser em uma mulher, veio na forma de forte intuição, seguida pela leitura automática do que o outro realmente estava a desejar de mim: um grande NADA, a não ser "uma companhia".

Achei honesta tal resposta, pois, depois de tanta desonestidade, ao final, como resíduo de dignidade, restou a companhia. Desejo ser a companhia de alguém? Não, um sonoro não, pois acredito que isso seja uma projeção de muletas. Não sou muleta de ninguém, muito menos de desafortunadas e inquietas almas que, enfiadas em seus cenários mais profundos e escusos, tentam se apegar a quem está em um caminho de "esclarecimento".

Esclarecer lembra etimologicamente "trazer luz", clarear. Quem está no limbo e nas trevas da ignorância de si (não desgosto das trevas, apenas das que revelam ignorância) não pode oferecer mais do que uma companhia: não se envolve, não se apaixona, não ama, não vive.

Nessa hora celebrei a paz de espírito, pois pensei que, ao final, mesmo diante de tantos percalços, sou um ser que ainda acredita e vivencia uma perpetuidade de amorosidade... Sempre desejo amar e, amando, lanço-me. Depois, quando acaba a trilha, persiste o amor! Que legal! Prova de que não se necessita a convivência para se manter o sentimento por alguém.

Por outro lado, o ímpeto incontido em meio a tentativas infrutíferas de me convencer do contrário do que minha alma me revelava sobre o lindo cavalheiro que me circundou, um segundo "sintoma" despontou em meu horizonte: a somatização do conflito por meio da doença. Depois de muitos anos, tive uma crise forte e aguda de sinusite, a doença clássica da afetividade...

Conflito interno em permanecer numa situação que, de maneira alguma, era a mim agradável. Nunca foi, a começar da completa e total falta de lealdade. Sim, é a ausência dela, nada mais, o que fere de morte quem ainda se estabelce nesse planeta sob o signo das leis antigas de honorabilidade, justiça e lealdade.

O mais interessante do conflito é perceber que se continua - e se pode - amar uma pessoa, continuar desejando estar com essa pessoa, mesmo distante dessa pessoa, por se acreditar, sentir e vibrar que, a proximidade dela significa a própria morte. É o amor de vida em morte, que causa a dilaceração da saúde.

Esses últimos dois meses foram de recuperações e doenças, produzidas pela minha intempérie em relação a manter situações em minha vida que já não mais desejo. Um dia acordei decidida a me resolver internamente em relação a uma pessoa querida, de antiga convivência: não dei conta do que minha imagem no espelho me mostrou, a lealdade a mim mesma estava sendo turbada pela minha insistência em querer o que não se pode, mudar alguém. Mudei e estou mudando, pois, a mim mesma. Com isso, descubro que o mundo muda, bem como meus caminhos e minhas escolhas de vida.

Com esse relacionamento não foi diferente, pois descobri a deslealdade... Sem dramas...

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Mil palavras contidas no silêncio

O silêncio é uma das grandes virtudes da alma, pois retrata o firme propósito de se autoconhecer focando-se o espelho do que reverbera na ausência de eco...Com ele podemos acalmar a mente, aquietar a alma, extrapolar limites de um universo de intempéries e atropelos do dia-a-dia automatizante. Mil palavras podems estar contidas em um minuto de silêncio, residindo no olhar tênue de quem se cala o impulso invisível do saber divino.

Esvaziar a mente e a boca de palavras meramente lançadas ao vento traz a segurança e a firmeza do aqui e do agora. No silêncio transpomos as tendências céleres da mente que vai para o passado e especula um futro, que sofre diante do inexistente, que chora em face do que gerou, incontida em ilusões, para se alimentar de sonhos que esvaem...e viram pó.

É no silêncio dignificante que o elemento ar, ainda invisível, trabalha em nossos corações, propalando o vazio da palavra, que traz consigo uma riqueza incessante de pulsar cálido. Grandioso ar - todos pensam que ele traz a palavra - mas leva consigo também o silêncio, aquela vacuidade que fala mais do que tantas frases de efeito deixadas para trás!

Bom dia, maravilhoso dia de intenso SI LÊN CIO. \o/

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Witchcraft na pós-modernidade do consumismo

Não adianta chorar, espernear, a pós-modernidade também chegou à Arte, ou melhor, ao pop rock do que se estabeleceu como uma horda de bruxonildos e bruxonildas de plantão que, sem o menor critério, enfeitam-se como uma árvore de Yule, entendendo na mera representação vestimental um acesso aos portais sagrados do que é a vivência no desconhecido.

Nunca antes houve tamanha popularização de poções, tapuás, livros de incatatio e bruxedos. Não que seja contra, pois, afinal, acabam colaborando para a desmistificação do que, outrora, foi substrato religioso de ida de várias mulheres para as fogueiras da vaidade da Senhora santa Igreja...

Mas, ultimamente, a arte virou artigo de liquidação, balizando protótipos de novos adeptos a um neo-alguma-coisa, motivados pelas mesmas velhas fórmulas eclesiásticas tão malfadadas. Dogmas, enfim, retornam, travestidos de pseudo-libertação, em cultos sincréticos de bruxaria que mais parecem uma miscelânea de bruxedos new age.

Critério...deve existir algum? Por certo que não, afinal, a arte tradicional familiar é algo não revelado. Esse é o primeiro critério de desconfiança, porque, grosso modo, não se revela o que é clânico, sanguineo e, sobretudo, ígneo.

Enfim, aguardemos...a herança se estabelece no sangue e no culto aos ancestrais. Dentro disso, bem saudável se saber de onde se vem...Você sabe a que veio? Sugiro saber...

O resgate da celticidade no ígneo pulsar dos cabelos esvoaçantes

Sempre que assisto ao filme "A Rainha da Era do Bronze" saio revigorada pela força e contundência da labareda que esvai da cabeça de Boudicca, esbelta, firme e poderosa, nos cabelos cor-de-fogo que marcam as entranhas da mulher celta.

Estava, há tempos, tentando encontrar o motivo essencial de resgate, dentro de mim, de tamanha potestade, como se fosse realmente necessário firmar alguma justificativa para simplesmente mudar a cor do cabelo: nada disso, basta a motivação interna de simplesmente se permitir e se deixar levar pela imanação do desejo de mudar...ou, no caso, de voltar às raízes.

O vermelho espelha a cor do poder, da lascívia, da passionalidade. Rubro lembra Lilith, a devassa concubina do mal, que, desejosa de igualdade, não se submetia ao sexo por baixo de Adão. Odiosa Lilith que, contestando o senhorio, foi confinada a parir demônios nos confins do mundo, sendo relagada à apagada Eva - loira angelical Eva - a demanda do subjogo em face do homem reinante.

Se o estado de loirice é irrestrito, para ser ruiva existem requisitos que nem todas as mulheres estão dispostas a pagar. O primeiro deles é o empoderamento de si, sem que se olhe para o lado e para o juízo daqueles que, desentendedores das histórias do mundo, apenas se limitam a valorar o que não sabem em maciças inglórias subconscienciais, hordas de ignorância em relação à beleza do vermelho, que pulsa como sangue, trazendo vida por onde quer que passe.

Glorioso rubro, marca de poder: presente na pedra rubi dos advogados, clérigos, das rainhas e das princesas. Desperta ambição, lembrando desejo e vontade. Panfletária liberdade que poucas estão dispostas a pagar porque, ao final, rendem-se à curvatura do patriarcado que, ainda, insiste em dar sinal de alguma vida além de sua morte.

Autonomia para o rompimento com a obviedade, outra marca essencial para se conclamar digna da ostentação do ruivo...O comum é o que se aplaude em sociedade, uma coletividade que elenca o loiro por relembrar a sinfonia de anjos que, afastando Lilith-ruiva, eleva aos céus a prece da redenção da alma dos pecadores...Mal sabem os devotos que o mais loiro de todos, Lúcifer, contestou a glória do senhor amado. E, com a ruiva amaldiçoada, desceu à Terra a centelha do fogo que foi apropriado pelos deuses que puniram Prometeu.

Sim, o ruivo...sempre o ruivo...

quinta-feira, 12 de maio de 2011

A sabedoria ancestral...

Em momentos de incerteza, a sabedoria ancestral da Terra sempre traz o silêncio como palavra de ordem. Na inteligência milenar de uma pedra silente podemos observar o transcurso do tempo e, com ele, de tudo aquilo que traz a incontingência. Momentos de instabilidade não resistem ao sussuro de uma montanha a trazer na vacuidade o ensinamento da autodeterminação.

A Terra valoriza os atributos de fixação, rigidez, determinação, assim como a fertilidade e a prosperidade, já que abraça a semente para criar a raiz de segurança interna do ser que eclode. Mesmo sendo a Terra sinônimo de fecundidade, não é esse o atributo que desejo evocar por agora.

O silêncio, apenas o silêncio como virtude da palavra que, não dita, traz mais sabedoria do que um turbilhão de versos vãos. No calar reside a compreensão de si...e a omnisci6encia do mundo à volta, sem fronteiras entre o que está lá e cá...

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Sempre Tácito: "Os homens estão mais dispostos a pagar um prejuízo do que um benefício, pois a gratidão é um fardo, e a vingança, um prazer"

domingo, 8 de maio de 2011

Sabendo bem pouco o que é amar...

Pouco sei do amor de um homem: sei, contudo, onde nele reside o desamor. É na omissão, na mentira e na distorção com que falseia sua própria vida e, a partir dela, tenta interagir na igualdade, escondendo, contudo, sua mesmice em se achar ínfimo para, a partir daí, ferir de morte quem diz amar.

Infeliz homem que vocifera palavras doces a encobrir o fel de sua desonra em tripudiar do que é sagrado para outra pessoa. Na estupidez da mentira insana, planeja, nocauteia e apunhala, entendendo, com isso, sagrar-se menos ínfimo do que, de fato, já é. Não respeita o espaço sagrado do coração nobre de uma mulher que possa amá-lo...E, não se satisfazendo com isso, surrupia, aos poucos, a admiração, suplantando-a com o terreno estéril do esquecimento.

Sim, pobre homem aquele que não sabe amar...que não sabe sentir a sutileza que reside por trás das encostas de uma grande guerreira de fogo. Incauto e inadvertido placebo de homem, que se refugia em seu castelo de armamentos ilusórios, deixando à mostra, contudo, seu ponto mais vulnerável: sua mesquinhez...

O desvendar da eterna face de Janus

Descobri, enfim o véu que tristemente carregava, ornando seu angelical semblante de frondosas pétalas de êxtases, cegando de amor e petrificando, tal qual a Medusa que destroi com seu olhar lânguido. Olhei sua foto - tão cândida! - quem diria habitar ali a face de Janus, dúplice e incontida, que me arrebateu e fechou com veneno meu mais puro sentimento.

Quanta mentira pode um coração suportar? Bem pouco, bastam aquelas que, por vezes, ouvi de quem mais amava, pobres almas doentes e infectadas, mostrando de mim o espelho que insisto em esconder. Por que tanto pranto? Afinal, galanteios são seu encanto, reverberado em palavras que violam, assolam e deturpam, cometendo de fútil desencanto, o que era, antes, bem antes, a promessa da verdade extinta.

Que verdade existe por agora? Olho à minha volta, nada mais. Perdeu-se tudo, como perdi a mim mesma, rodeando-me de adoradores e rábulas insanos... Foi-se embora a ingenuidade amiga, restando apenas a falange do menosprezo. A nobreza, em si, foi embora, desanimada pela desonra na palavra infinda, que jaz morta, na plenitude, do atropelo de uma chama exaurida.

Por que tantas voltas? Por que tantas máscaras? Para falsear o que, em si, não existe: nada há de glória na mentira em relação a um amor que já vai tarde, posto que natimorto já é, extinto, enfim...

Dentre amores que vêm e vão, no atropelo da instantaneidade, caio, levanto, derrubo e pranteio, plena, firmando-me forte em meu caminho honroso. Sou-me firme e forte, sedimento a semente. Carrego em meu seio a flecha errante da Amazona guerreira. É preciso muito mais do que isso para me matar, mesmo que meu coração, aqui, esteja sangrando...

Deslizes

Não sei porquê
Insisto tanto em te querer
Se você sempre faz de mim
O que bem quer
Se ao teu lado
Sei tão pouco de você
É pelos outros que eu sei
Quem você é...

Eu sei de tudo
Com quem andas, aonde vais
Mas eu disfarço o meu ciúme
Mesmo assim
Pois aprendi
Que o meu silêncio vale mais
E desse jeito eu vou trazer
Você pra mim...

E como prêmio
Eu recebo o teu abraço
Subornando o meu desejo
Tão antigo
E fecho os olhos
Para todos os teus passos
Me enganando
Só assim somos amigos...

Por quantas vezes
Me dá raiva de querer
Em concordar com tudo
Que você me faz
Já fiz de tudo
Prá tentar te esquecer
Falta coragem prá dizer
Que nunca mais...

Nós somos cúmplices
Nós dois somos culpados
No mesmo instante
Em que teu corpo toca o meu
Já não existe
Nem o certo, nem errado
Só o amor que por encanto
Aconteceu...

E é só assim
Que eu perdôo
Os teus deslizes
E é assim o nosso
Jeito de viver
E em outros braços
Tu resolves tuas crises
Em outras bocas
Não consigo te esquecer
Te esquecer...
As experiências nos tornam mais fortes, quem sabe? Pouco sei delas, já que, afinal, pouco sei sobre mim mesma. Aprecio, de tempos em tempos, a ingenuidade com que me prostro a observar a intempérie de um mundo marcado pelo desalento entre as dimensões do amor, fincadas pelas máculas do tecido amargo que se entranha numa pele seca e flácida, retalhos de outrora que insistem em se fazer recentes.

Qual o sentido da sutileza, se o que encobre é a idiossincrasia da rispidez? Pouco se modela no coração daquele que, bruto, não alcança a compreensão do que é o sofrimento para o outro. Pouco se faz no outro, para se firmar em seus próprios meandros. O outro se faz terceiro e no anonimato de um silêncio que reina dissonante num despenhadeiro, a inexistência em uma vida é o aconchego para quem deseja fazer parte da história de quem se ama.

Anonimato, silêncio, inexistência, tanto faz. Pouco faz. A história já ficou para trás, afogada em tantas lágrimas retidas pela simples dor da repetição de lendas. O mito retorna, num devenir histórico, mostrando que a espiral de ciclos assombra e assola quem está compondo sua sina.

Poucos sonhos tive na vida, regados a pedaços que saíram de mim. Se me levanto, quase sempre é porque não posso desistir de mim, afinal, tanto tenho aqui dentro para ser desvendado! Infortúnios, contudo, levam à mais profunda ignorância do outro em relação a mim, pois, se sutil lembrança, todos os meus mais arraigados sonhos eclodiram em bolhas de sabão efêmeras, que se anestesiaram na instantaneidade, desembocando no fim do que nunca, sequer, teve um começo.

51 dias de intensidade de bolhas...51 dias de efemeridade e sutileza, espacando, por dentro, a pureza, com que ainda insisto em me achar. Achar por me perder, encontrar-me por me findar. O início de um meio infindo que, de bom grado, sempre e sempre, envolvo-me em tênues véus de cega ilusão em relação à vida. Crua e dinêmica vida, simplesmente vida, pelo que é e pelo que está sendo...

sábado, 7 de maio de 2011

Nada mais dignificante do que a verdade...ela sempre se estabelece, de uma maneira ou de outra. Corta, lacera e queima, mas é, ao final, LI BER TA DO RA! Na asa dessa sensação maravilhosa de impermanência, faço meu voo solitário, para me lembrar, dia após dia, quão perto da morte fiquei, pois isso traz a certeza do quanto sou forte às atribulações da vida!

domingo, 1 de maio de 2011

Quando o músculo mais forte se retrai...

Dizem que o coração é o músculo mais forte do corpo humano, o bastante para suportar as mais lacerantes dores, bem como os impactos que usualmente trariam dano a qualquer outro órgão. Se é o mais forte, não sei, mas tenho uma certeza [dentre tantas dúvidas que assolam a alma]: a cada experiência, não nos tornamos mais fortes. Tornamo-nos mais sensíveis e, dentro de tanta sensibilidade, construímos couraças quase intransponíveis, o suficiente para a criação de uma autoimagem de estima e poder.

Quão sutis e sensíveis nos tornamos aos delindes de uma brisa outonal! Ela vem, bate, acaricia o corpo, num arrepio de puro êxtase. Mas, assim como a brisa leve embala o coração, ao final, carrega o filete do frio que, dali adiante, irá se estabelecer no inverno de nossas almas. O coração se impacta com o inverno, assim como queda atingido diante de uma incerteza a confirmar a abscôndita certeza. Nesses paradoxos que vêm e vão as experiências colorem o mundo com a marca de nossa permanência por aqui.

A minha, quem sabe, ao certo? A cada dia exalo um forte aroma de desintegração molecular, uma tormenta que faz com que a cada 6 horas meu corpo feneça diante do fim. Quero evitar os fins, evitando os começos. Bem-vindos os começos, retesando a faísca até o extinguir proposital da chama.

Que chama? A que chama, como um arauto, meu nobre coração para que se entregue - sem medo - ao mistério do mergulho póstumo no outro. Esse tortuoso outro, tão desconhecido outro que, sem saber, em silêncio, canaliza a brisa fria do outono que anuncia o gelo. Nem sempre o fogo, afinal, prevalece diante da neve...