quarta-feira, 29 de abril de 2015

De xamãs, bruxos, druidas e mercenários: a desmistificação de um ideário isomórfico no paganismo brasileiro

Fonte: http://www.portalangels.com/img/arvores_celta.bmp
Toda vez em que me sinto convidada a refletir sobre celticidade, paganismo, druidismo e assuntos afins (os -ismos dos quais Pierre Bourdieu sempre nos convida a fugir, ante a limitação que trazem à experiência), de imediato me coloco a ponderar sobre a existência - ou não - de uma cosmovisão compartilhada, que permita ao paganismo brasileiro se articular em torno de uma "mesma bandeira" na vivência desse tipo especial de sacralidade (pois é, de que tipo de sacralidade estamos mesmo falando?) 

Afinal, são tantas as associações, agremiações, redes, os templos, conclaves, covens e coventrículos, que isso, por si só, já seria o bastante para refutar a ideia de unidade pagã no Brasil, ainda mais de isomorfismo na prática, vivência, bem como na teorização em torno de tais temas.

Indo por partes, não se trata de uma crítica pontual a uma ou algumas vivências de paganismo no Brasil, mas uma opinião balizada tanto na abordagem que tenho feito ao longo de trinta e tantos anos de senda pagã, bem como em nível de interação "antropológica" com outras percepções de vivência e imersão no tema. 

Feita essa consideração, primeiramente creio não existir no Brasil uma comunidade pagã, com a força integrativa que a palavra comunidade tem (comum, repartido). Existem, ao meu ver, tradições pagãs distintas, em várias formas de vivência do sagrado, plurifocais, sobretudo. Aliás, não é ponto de vista, é fático: basta googlar para constatar a diversidade institucional.

Unidade, no sentido antropológico de uma sociedade clânica, estabelece-se a partir de referenciais comuns (desde totens, deidades reverenciadas e demais expressões de irradiação do poder espiritual do coletivo), que são entronizados por todos os membros do grupo de maneira sincrônica, influenciando habitus, atividades, papeis sociais e, claro, relacionamento com a ancestralidade.

Basta observar, por exemplo, a experiência da menstruação compartilhada entre as mulheres em algumas sociedade tribais ou, ainda, as catarses coletivas, que chamam a atenção para o verdadeiro significado de clã. Existe um só pulsar no grupo, de modo que a ideia de individualidade é praticamente nulificada, para dar espaço à identidade com o grupo. 

Em uma comunidade unida em torno da divisão de papeis (não sou dukheimiana, mas a percepção funcionalista dele é interessante para espelhar o que desejo argumentar a respeito de vivência em GRUPO), os membros repartem valores essenciais para a vida do grupo que, no caso, não se dissocia da vida privada.

Aliás, inexistia essa distinção entre privado e público, privado e comum, no âmbito dessas mais antigas sociedades antigas (as celtas eram apenas um exemplo disso), de modo que esse é o ponto central para se questionar o construto de unidade pagã, quer seja no âmbito da bruxaria, feitiçaria, bem como do druidismo e do xamanismo, além de outras categorias cuja reelaboração antropológica é necessário fazer.

O romano, lastreado na experiência grega de divisão público/privado, fazia essa distinção até pela forma de organização estatal, bem como pela separação entre religião e política (um livro muito bom sobre isso é A cidade antiga, de Coulanges). 

Mas sociedades bárbaras (dentro das quais as celtas se destacam) não operavam nessa distinção, até pela unidade religiosa em torno da qual gravitava a política (prova disso é a divisão de papéis entre druidas em uma mesma sociedade).

Não existe no Brasil, diferentemente da Inglaterra e Dinamarca, uma unidade em torno da construção de um ideário druídico isomórfico. Nem na Inglaterra, a bem da verdade, existe, mas, ao menos, há um consenso que envolve os vários grupos que se reúnem, mas, que, na pior das hipóteses, mantém uma divisão meramente política diante de crenças e valores compartilhados.

O mesmo para a Gália, Galícia e parte da Dinamarca (onde se tem focos de druidismo). Até em Portugal não se tem planificação, o que mostra que, a bem da verdade, o caminho druídico é condizente com o tipo de sociedade em que está estruturado. Ou seja, sociedade celta distinta, druidismo distinto.

Tenho minha desconfiança de que esse ímpeto unitário se deve muito a uma visão romântica do séc. XIX em que fecundava a ideia de volkgeist (espírito do povo) no seio da aristocracia germânica ainda não unificada. Essa unidade, para a futura unificação, foi importante para que a nação se desenhasse. 

Mas, no caso brasileiro, em especial, não há o menor sentido - e possibilidade - de se construir (ou reconstruir) unidades antropologicamente situadas, ainda mais em cima de relatos e escritos cuja verossimilhança até hoje se discute em termos de qualidade de tradução.

Aliás, esse é outro grave e grande problema, a questão das fontes. 

Isso, por si só, já seria o bastante para fazer despencar qualquer aspecto de isomorfismo e homogeneidade na vivência do sagrado a partir da experienciação de uma unidade pagã no Brasil, porque se tem uma verdadeira cisão na literatura. Tanto a inglesa vitoriana, quanto a irlandesa e a escocesa não batem muito em termos de homogeneidade na contagem de mitos e lendas. 

Quando se trata de tradução de textos em inglês, piora, pois tanto se trata da língua do conquistador (que a reescreve segundo seu bel-prazer), quanto, um erro crasso: não se traduz esse tipo de literatura: entende-se, transpondo-se do português (tronco que nada tem a ver) para a melodização que o texto traz. 

O inglês e o gaélico são línguas com sonoridade e melodia (por isso se cultivava muito o hábito de recitar poema) que têm significado. A tradução em cima disso retira o atributo poético. Tanto isso faz sentido que, no âmbito da bruxaria, muito se faz em termos de trabalhos ritmados e rimados, exata e pontualmente por conta da sonoridade que, por si só, aciona o subconsciente na abertura de canais comunicativos. 

Ainda nessa discussão sobre desmistificação pagã, tenho como impossibilidade extrema a figura do "reconstrucionismo", quer seja druídico, pagão, bruxesco ou celta. A palavra encobre precariedade em se reerguer vivências, sobretudo, considerando tudo o que já acima mencionei. 

É antropologicamente inconsistente, ao meu ver, fazer qualquer tipo de anacronismo em que se consiga, ao final, (re)construir algo que, de toda sorte, não tinha unidade cultural. Esse é só um dos primeiros problemas, e olha que não estou sendo lá muito profunda em termos de apreciação antropológica. 

Acredito que a Antropologia seja o nicho mais adequado - e não a História ou a Ciência Política (a despeito da contribuição que ambas trazem para o estudo em suas respectivas áreas) - para se buscar imersão nas vivências em torno do paganismo em suas expressões distintas, uma vez que é um ramo de conhecimento que adentra os aspectos culturais/estruturais da sociedade a partir do horizonte do campo, e não apenas em face de uma abordagem documental e distanciada. 

O que vejo como sendo mais grave, contudo, são as tentativas de encontro de horizontes que não se comunicam (a não ser por uma enorme confusão metodológica em relação a fontes e caraterísticas), como, por exemplo, um "druidismo xamânico", pelas óbvias razões de o xamanismo estar relacionado com outras tipologias de povos para-além da Europa (especificamente nas tribos indígenas do norte, do centro e do sul). São sistemas diferentes, baseados em organizações políticas diferenciadas (a exemplo da estratificação na organização do druidismo) e, portanto, incompatíveis para serem tratados como afins ou similares. 

Existe alguma aproximação, que é a tentativa sempre de se universalizar a experiência, mas, olhando especificamente as culturas da Europa e das Américas, não é a universalização, mas o relativismo o viés adequado, até para não silenciar ou invisibilizar uma cultura em função de outra. Aliás, aproximar xamanismo de druidismo é negar, para mim, protagonismo histórico à América, em benefício de uma cultura etnocentricamente tida como superior.

Essa ausência de uma discussão mais séria traz problemas emergentes: o maior deles consiste na superficialidade de reflexão sobre aspectos culturais densamente ricos, além, claro, da apologia ao que tenho como "reserva de mercado" a encobrir um proselitismo feito sob a máscara da libertação crítica, mas que encobre a luta pelo poder articulado em rede. 

Na dinâmica foucaultiana, a capilarização torna o poder invisível o bastante para não ser contestado, de plano e pronto, favorecendo, assim, o monopólio por parte dos mercenários e das mercenárias de plantão, pessoas que podem até achar que estão fazendo um serviço à coletividade, mas que estão profundamente imersos em teias de vínculos egoicos renovados. 

Onde subsiste o egoico não existe espaço para vivência clânica, o que, mais uma vez, finda por desconstruir a mítica de unidade pagã no Brasil (a menos que se relativize também a noção de unidade, o que, por si só, desconstrói o sentido de unitário).

Talvez no dia em que as mulheres de uma comunidade pagã intuírem, menstruarem e reverberarem sincronicamente ou, ainda, os homens do grupo realizarem suas sagas heroicas  compartilhando um mesmo cenário, acreditarei em unidade pagã no Brasil. Ou, talvez, no dia em que sérias discussões sobre métodos interpretativos forem travadas, com critério e despojamento de alma, provável que acredite na tão sonhada unidade.

E, sobretudo, no dia em que todas essas institucionalizações findarem suas divergências internas e externas, compartilhando totemicamente pontos comuns, creio ser possível se falar em unidade pagã. Até lá, penso que o melhor a ser feito é contemplar o componente idiossincrático que inflama as discussões entre líderes e transforma boa parte do que seriam boas reflexões em uma "pantomima sagrada": eis a unidade!


Deireadh seachtaine deas agat!!

Fonte da imagem e créditos:
http://st.depositphotos.com/1834913/2120/v/950/depositphotos_21201671-Light-green-ornate-four-leaf-clover-background.jpg


sexta-feira, 24 de abril de 2015

Toma-me!!!


Fonte: http://www.ofilosofo.com/amortrovadoresco.jpg

Toma-me!

Minha alma anseia pela tua 
no segredo armado de uma eclética profusão
Meu corpo deseja teu corpo
na amálgama contusa de um turbilhão infindo...
Doce diálogo de sedução

Toma-me!
Arrebata-me!
Acalenta-me!
Sopre em meus cabelos a brisa melódica 
Veio ardente da chama simples em reclusão
Satisfaça teu desejo implícito 
encontrando-me no horizonte negro, crepúsculo de perfeição!

Minha pele aspira ao teu toque
como um veludo fino decai ao som de uma canção
Minha boca se abre para teus beijos
Incontáveis afagos em uma noite de paixão

Acalenta-me!
Avassala-me!
Possua-me!
Atropele todas as minhas experiências
como se o mundo se nos escape em um momento de desespero
Vivencie sonhos e prantos ao meu lado
Sufoque a minha alma de exagero

Minhas coxas encontram tuas mãos
deslizam horas ao pratear da lua
Sibilam fadas colhendo nosso néctar
Estrelas me vestem enquanto estou nua

Toma-me!
Preencha-me!
Esvaia-se e me perca...
na efemeridade de uma noite moribunda
adágio inerte de alma fecunda!



quinta-feira, 23 de abril de 2015

Uma boa tarde que não volta mais!

Geralmente às quintas-feiras tenho um dia atribulado de tarefas: acordo cedo - por volta das 05h00 - medito, limpo as caixas dos gatos e gatas, passo um pano no chão, faço e tomo um café nutritivo e me dirijo para o trabalho, onde permaneço boa parte do meu tempo.

No meio da tarde tenho uma folga de três horas até o outro turno, mas não costumo voltar para casa, pois o trajeto ficaria pesado para ir e vir sempre. Hoje, contudo, permiti-me a alegria de contorcer essa pequena regra de minha vida, para vivenciar um maravilhoso momento junto aos meus familiares queridos.

Saí do trabalho após minhas tarefas, passei em um desses petshops e comprei bolas de tênis, leitões, pneus e rosquinhas de borracha para quatro criaturas que modificam a minha vida todos os dias. Cheguei em casa e brinquei, brinquei muito com eles!

Brinquei tão intensamente que, por instantes, perdi-me temporalmente, como se as fronteiras entre o agora e o passado fossem rompidas apenas pela sensação de perpetuidade da efêmero instantâneo. Dissipei-me em meus amigos, sentindo na pele o significado de frater.

Enquanto observava quatro labradores correndo com toda a energia e vitalidade pelo quintal, fiquei pensando no quanto a felicidade é um estado de alma de pura simplicidade. Para eles, resume-se a carinho, atenção, comida e... bolas de tênis! Muitas bolas de tênis coloridas!

Momentos como este são inesquecíveis, pois trazem a satisfação para o espírito, tornando-se uma verdadeira lição de como podemos viver bem com pequenas atitudes transformadoras! Enquanto corria atrás deles, senti-me livre e plena, transcendendo todas as esferas de preocupação que o cotidiano da matéria nos impele.

Poderia ter ficado no trabalho durante esse intervalo entre a jornada? 

Sim, poderia. 

Economizaria gasolina, óleo de freio, filtro de freio, pneu, água do radiador. Um bando de detalhes ínfimos se comparados com o imenso prazer que a companhia dessas figuras me proporciona. Não tem preço, valor ou substituição o deleite de estar com quem se ama. 

Ao sair da loja com aquela tonelada de apetrechos fui acometida por um arrebatamento de amor, sentimento que só pode ser experienciado a partir de uma vivência desapegada e de profunda incondicionada. O querer estar perto deles, de protegê-los. De sempre voltar e querer voltar para casa para apenas ficar ao lado deles.

De me dedicar a seres que não demandam nada além do incondicional amor. Não pedem, apenas esperam. Não cobram, apenas afagam. Solidarizam-se em tempos difíceis e tornam permanente a imanência do imenso bem-querer. Irracionais? 

Sim, para o paradigma especista podem até ser, mas, afinal, a racionalidade é apenas mais um paradigma, e não o estado inexorável de verdade absolutamente inelidível. Mas, afinal, o que realmente os "racionais" fizeram com esse mundo? Nem precisamos de respostas...

De mais a mais, não é a mente o caminho para o amor...É o coração e a empatia gerada pelo derrame de ocitocina, tal qual a relação entre pais e filhos. E viva todos os cachorros do mundo!

terça-feira, 21 de abril de 2015

A casa da bruxa: jardim de ervas, jardim de delícias!

Minha mãe é a "senhora das ervas", pois, desde quando me lembro ser gente, ela tinha solução para tudo com as poderosas dicas de ervas e plantas. Sejam curativas ou, ainda, palatáveis ou aromatizantes, sempre estava a indicar suas fabulosas receitas mágicas, sobretudo na loja Empório Verde (produtos naturais), para as clientes e amigas. Dias depois as freguesas apareciam, falando nos providenciais "milagres" que a Lígia fazia por elas. 

Longe vão os tempos de Empório Verde, mas dele - bem como das hortas que minha mãe amorosamente cultivava - extraí um hábito bem saudável: ter meu próprio jardim de ervas a reunir algumas plantas importantes para a alimentação e a saúde.

Desenvolvi melhor o projeto aqui depois da mudança, pois, na outra casa, já cultivava mamão, amora, maracujá e um jardim com ervas medicinais. Trouxe para cá uma muda de hortelã que estava meio xoxa, mas não seria o bastante para um "cantinho das ervas".

Ah, sim, também trouxe uma babosa em uma jardineira, mas os labradores reduziram cinco mudas a uma. Desenganada por todos e todas, ao final, sobreviveu.

Da direita para a esquerda, fui atrás de sálvia, muito usada para pasta de dente. Se perceberem bem o gosto, poderão sentir o gostinho de dentifrício ao final dela.

Esfregue a folha no dente e verá, a longo prazo, o efeito clareador que as espículas da sálvia - bem como sua essência - promovem aos dentes.

Muito usada em rituais de prosperidade, a sálvia também traz sorte e proteção. Nos mercados alternativos vende-se bastante o bastão de sálvia branca seca (geralmente bem caro, pois se trata de artefato importado), mas é possível fazê-lo em casa, ainda que o bastão não fique tão grande.

Basta recolher (preferencialmente na Lua Cheia, para fins de proteção. Mas, no caso de trabalhos mágicos de banimento, sugiro a Lua Negra (pela potencialidade reflexiva e onírica ligada à sombra) as folhas (sem os caules) da planta, lavá-las com água corrente (mas se estiverem sob a chuva, nem precisa) e deixá-las desidratando ao sol.

Depois disso, sugiro enrolá-las, mas sempre com o cuidado de não deixá-las muito ao sol para que as folhas não fiquem muito ressecadas ao ponto de quebrar. O ideal é a desidratação em 80% porque, daí, o restante será feito com o bastão pronto.

Ao lado do pé de sálvia plantei a arruda e ambos estão se dando muito bem, obrigada. Nem é preciso dizer que a arruda, além de excelente para limpeza astral, também bane energias não amistosas. Não aconselho uso culinário dela, porquanto tem muito sabor canforado, o que é bastante venenoso.

No segundo vaso, plantei manjericão e, logo à frente, manjericão roxo, que tem um sabor um pouco mais adocicado (mas não se animem, são apenas notas). O manjericão é uma espécie de "coringa", tanto da cozinha mágica, como dos rituais, pois podemos usá-lo para amor e proteção, além de figurar como componente principal de um bom molho de macarronada, ou, ainda, em uma módica salada de tomate cereja e muzarela de búfala.

Ao lado, na jardineira comida pelos dogs, o tomilho e o orégano, temperos que lembram sempre para amor e cura (tomilho), bem como para sonhos, clarividência e sorte (orégano).

Próximo item da lista: babosa. Ela é ótima para hidratar pele e cabelo, além de ser um excelente cicatrizante. Quando os dogs têm dermatite por stress passo na ferida e, no dia seguinte, já tem a casca. Ela tem espículas, o que sempre me lembra de sua finalidade mágica de proteção (a Natureza faz as formas de acordo com a função). 

A dobradinha salsinha/cebolinha são tudo de mais básico em uma cozinha que se preste, sendo imprescindíveis na casa da bruxa, sendo coringas para tudo. Não sou muito fã de coentro, acho o gosto nulificador dos demais temperos e preferi não plantar por agora. Mas confesso que irei lidar com esse preconceito e, de repente, plantá-lo um dia. 

Plantei dois pés de hortelã e um já está saindo do vaso, tamanha a vastidão da touceira. O que poderia dizer sobre ela? Boa para colocar na água gelada, servir com chá mate em um dia frio. Além disso, uso para cura, depressão e limpeza.

O que dizer do alecrim? Outro coringa das ervas, pois sua utilização vai desde limpeza, proteção, cura, até, no caso da gastronomia, para tempero de carnes fortes. Apenas não sugiro misturar  alecrim com outros temperos (aliás, sugiro o mesmo para a sálvia), pois o sabor proeminente pode ficar comprometido com uma mistureba. 

Trouxe, ainda, da outra casa, um galho tímido de boldo, mas não é que deu certo e as folhas já estão despontando? Excelente para fígado, cura, limpeza e cicatrização.

Por fim e, não menos importante, lavanda, minha sempre querida lavanda. Amo lavanda! Adoro sabonete, colônia, perfume, tudo de lavanda! também boa para colocar - como essência - em bolos úmidos, além de ser excelente para trabalhos com depressão, amor, auto-estima, sensualidade e beleza.

Ainda quero expandir os horizontes do jardim de delícias e já estou estudando aqui onde plantarei as sementes de abóbora e mamão. A horta completa - com alface, agrião, cenoura etc. - virá com o tempo. Tudo tem seu tempo, afinal.

Observando os sinais indicativos de um ritual bem-sucedido

Fonte da imagem: http://www.cleanitlondon.co.uk/wp-content/uploads/2013/11/fairytale-tree-tunnel-ireland.jpg
Explorando as redondezas de onde moro, fui surpreendida pela informação providencial de existência de um córrego ao final da minha rua (na verdade, são dois córregos!). Havia me programado para explorar o local há duas semanas, mas somente hoje pude desacelerar o bastante para me permitir maior contato com o elemento água, pois precisava finalizar um trabalho mágico.

Havia feito um ritual de desenlace de vínculos na Lua Minguante e precisava depositar os dejetos de ervas queimadas em água corrente: eis o motivo principal de buscar as águas correntes (ainda mais depois da chuva purificadora) para literalmente "levar" o que não mais reverberava dentro de mim.

[Uma brecha aqui para sempre frisar não achar interessante o trabalho manipulativo. Afinal, que precisa modificar padrão sou eu e, com isso, mais coerente e menos narcisista fazer um ritual mágico para mim, e não - como vejo nas propagandas - para outra pessoa. Isso denigre o livre arbítrio, além de atrair a reação causal em face do desencadeamento de energias do Universo].

Por outro lado, minha experiência de "adaptar" a água corrente à tecnologia da descarga do vaso sanitário não deu muito certo, uma vez que entupi, por diversas vezes, o vaso (sem que os dejetos descessem, o que foi significativo demais).

[Ou seja, em um ritual no qual você tenha que se desfazer dos despojos em água, não sugiro o vaso sanitário se o "espólio" for muito volumoso. No meu caso, além de gastar um litro de álcool, pois a transmutação estava difícil, precisei empenhar muitas ervas, enchendo meu caldeirão o bastante para que o volume fosse inadequado para uma simples descarga...ou duas...ou três].

Pois bem, dirigindo-me para lá com o caldeirão, vi uma curva que desembocou no córrego. Estava cheio e ainda úmido por causa da chuva que hoje precipitou. O solo era bastante argiloso e, confesso, tive receio de cair (considerando meu histórico de reincidências).

Estava ansiosa para me desfazer dos despojos, pois não gosto de ficar guardando esse rescaldo de desconexão, ainda mais em se tratando de um final de ciclo de relacionamento, que nos impele à reciclagem energética para a desobstrução de canais e caminhos.

Segura de estar tomando a decisão correta, peguei o caldeirão e me dirigi para a margem do córrego, não sem antes pedir autorização para os protetores do local e me conectar com tudo. Foi quando, por ínfimos segundos, pensei comigo se o ritual teria dado realmente certo (são aqueles momentos de insegurança, quando a fumaça de dúvida paira em nosso horizonte, mas sem maiores proporções). 

Daí me lembrei de uma postagem que fiz no início de março deste ano, chamada Símbolos, signos e sinais: o recado auspicioso do Universo para o bem viver, na qual desenvolvi algo sobre a importância focarmos nos sinais para realizarmos nossas escolhas.

Diante desse lampejo observei algumas situações interessantes. A primeira delas foi o fato de não ter caído ou sequer escorregado durante o trajeto, o que seria razoável de acontecer, até por conta do terreno argiloso e escorregadio (aliado ao fato de ser essa uma das minhas lições nessa existência: cultivar a paciência diante do fato de ser estabanada quase sempre). 

Tudo deu certo: peguei o caldeirão, dirigi-me até às margens e o esvaziei, não sem antes agradecer e pedir para que levasse embora o despojo do que foi finalizado. Fiquei observando a velocidade da corrente, que logo abraçou a massa ressequida de ervas queimadas, fazendo-as desaparecer na submersão veloz.

Com leveza no coração (o que já é um excelente sinal), voltei das margens do córrego, não sem antes observar voando perto de mim uma linda borboleta de asas azuis, chamando a atenção com sua coloração vibrante!!! 

Foi o bastante para que eu tivesse a certeza de que tudo estava resolvido. Lembrei-me, logo de cara, do exemplo da pena do corvo que Laurie Cabot mencionou em seu livro...

Certa de tudo ter dado muito certo, voltei para minha casa - bem pertinho dali, que benção - com leveza na alma, o que me faz sentir e acreditar que a síntese da plenitude reside na oitiva da voz do coração!

domingo, 19 de abril de 2015

Calar, silenciar ou não falar: a virtude da autopreservação espiritual

Fonte da imagem: http://www.nowmaste.com.br/wp-content/uploads/2014/03/sagrado-feminino.jpg

Sempre me perguntam qual é minha religião, ou se acredito em Deus...

O que acho bem pertinente e normal, por vários motivos. Primeiro, porque perguntar a religião sempre soa como abertura de um canal de comunicação entre as pessoas que estão se conhecendo. 

Afinal, religião e espiritualidade são sempre assuntos que geram empatia entre as pessoas, sempre curiosas e ávidas em saber o que nos aguarda depois que os olhos se fecham para esse mundo.

Segundo, estamos sob o manto do monopólio do paradigma judaico-cristão - sobretudo no Brasil, país da cristandade segundo várias religiões e herdeiro do forte lusitanismo católico filipino, que deixou suas marcas até mesmo em nossa arquitetura (basta ver a riqueza e a suntuosidade das igrejas espalhadas pelo Brasil afora).

Geralmente, porém, as pessoas perguntam minha religião, sobretudo, depois das aulas - ou de Direito Penal ou de Introdução ao Direito - pois sempre estou a insistir ferrenhamente na laicidade do Estado, bem como na necessidade de nos desvencilharmos de nossos paradigmas religiosos para a discussão dos rumos jurídico-políticos do Brasil. Ou depois de verem minhas tatuagens e este blog, que traz inúmeras postagens sobre o transcurso na senda céltica dos povos antigos.

De fato, dou a impressão de ser ateia convicta, por frisar nos encontros essa importância que a separação dessas fronteiras traz. Mas, por outro lado, não é somente por conta disso que o silêncio vale mais do que ouro para mim quando o assunto é religiosidade e espiritualidade. 

Não sou ateia. Não sou agnóstica. Apenas não comungo com um paradigma dominante em termos de vivência e expressão da espiritualidade e opto em ficar calada, na minha, sem que traga esse assunto para uma pauta de discussão.

Simplesmente não me apraz qualquer sorte de proselitismo, cristão, búdico ou pagão. Acredito tanto na singularidade das experiências que penso, do fundo do coração, sequer ser necessário trocar ideias a respeito delas quando, ao final, cada qual finda por "defender" sua bandeira espiritual, não deixando margem para o aprendizado que pode advir com a troca de informações.

Além disso, ficar falando gratuitamente sobre minhas predileções espirituais pode soar como um pedante diletantismo, por mais que a intenção possa ser a melhor do mundo, a troca de ideias.

Até eu falar sobre a desconstrução do paradigma ético-religioso masculinista, abordando como os antigos povos - sobretudo celtas - construíram uma percepção dual, eclética e igualitária de deidades, seria o bastante para meio mundo de pessoas dormir. 

Sair da zona de conforto, sobretudo em relação à fé e crença pode ser um movimento ousado, para o qual nem todo mundo está devidamente preparado (não que eu esteja!!). Quer seja professando, como, ainda, tentando professar um caminho, olhar para outro cenário denota medo do desconhecido, o que já nos faz congelar até os ossos.

De mais a mais, tantas foram as perseguições ao longo da História que a publicidade pode denotar "vitrinização" temerária. Ainda mais em se tratando do Sagrado Feminino ou, ainda, do paganismo celta, no qual deuses e deusas dividem funções em paridade de armas. 

Esse rol vasto e profundo de justificativas para não aprofundar as discussões sobre o Sagrado, não poderia deixar de citar os "assunteiros" ou curiosos de plantão, aqueles ou aquelas céticos, que sempre me fazem repensar alguns assuntos a desenvolver no espaço público. No caso, voltei a repensar nisso até no campo privado mesmo, em relação à proximidade de pessoas no campo de relacionamento afetivo.

Já ouvi, certa vez, alguém me dizer que fazia as celebrações (equinócios e solstícios) em nossa roda fraterna, mas que não acreditava em nada daquilo. Achava "legal", mas energeticamente não se afeiçoava, não acreditava e, por fim, não vivenciava.

Hoje penso que a pessoa levava a experiência como uma espécie de cosplay, ou, ainda, talvez uma experiência de RPG, na qual até encenava bem seu papel (consagrava o espaço, lidava com os elementos etc.), mas, no fundo, com essa fala, mostrava que minha experiência, de fato, nada mais era o que, de fato, era: minha experiência. 

Essa experiência, em especial, fez alegremente com que eu revesse, ainda mais, a virtude do silêncio em minha vida, pois, afinal, como poderia sustentar proximidade com alguém que simplesmente estava tão distante do caminho que escolhi e, para além disso (pois isso, apenas, não era justificativa), vivenciar, celebrar, ou, ainda, agregar algo em que, no fundo, não acreditava?

Mais do que isso - e, para além disso - as experiências realmente são de cada um, não sendo razoável se deslegitimar um ou outro caminho em nome de um paradigma único de contemplação do sagrado. Acho que isso ficou mais ressaltado com essa experiência providencial que se colocou à minha frente.

Não gosto, por conta disso, de associações, federações, muito menos de espaços físicos institucionalizados: soam como uma forma de apropriação do monopólio do conhecimento que, a rigor, está aí para todos e todas desfrutarem.

Associações, grupos, rodas etc., no Brasil, são segregatórias: traçam rumos do que deve ser feito, em que se deve acreditar ou, ainda, discriminam reversamente. Já li textos apregoando certas "virtudes" que seriam exclusivas do "feminino" (geralmente ligadas à submissão), enquanto se conclamava os "homens de verdade" à ocupação de um lugar proativo no mundo.

Ou, ainda, templos construídos quando, a bem da verdade, a celtologia nos mostra que a vivência no campo levava os antigos a fazerem seus cultos sagrados nas florestas e bosques, por conta da proximidade com a Natureza venerada. Ou seja, blog, site, facebook, tijolo e argamassa; nada disso, para mim, celebra o sagrado que está presente dentro do coração coligado à Natureza.

Dogmas, dogmas e mais dogmas.

Por isso saí dele, bem como de um número considerável de grupos com os quais julgava ter afinidade energética, preferindo minhas atividades solitárias e ermitãs. Sozinha na calmaria do lar sagrado - bem como em ótima companhia, dos familiares - consigo refletir mais e me conhecer mais.

Esse tempo fora do facebook me fez reafirmar o completo desacerto de me dedicar a infrutíferos debates, que mais pareciam uma batalha nos mares em idos de Segunda Guerra Mundial, com egos saltando para todos os lados. 

Estou aprendendo a separar o joio do trigo nas experiências que se apresentam, bem como lidar com as situações embutidas nas escolhas que faço ao longo da vida. Na tentativa e no erro componho a sinfonia da melodia que irei seguir até o Outro Mundo.

"Em que acredito?" Bom, enfim, esse era o tema da postagem. Não penso que essa seja, ao final, a pergunta mais importante. "O que vivencio?" é, para mim, a quintessência da realização do espiritual no plano material. Os antigos celtas vivenciavam esse mundo intrinsecamente coligado a outro, apenas invisível. 

Mas, importante frisar que até mesmo os deuses e as deusas celtas eram palpáveis aos olhos mortais, podendo até mesmo se chegar às suas moradas (sídhes) por intermédio da honorabilidade e do merecimento em faces dos atos praticados em vida. 

Não acredito em deuses e deusas. 

Não, não acredito porque eles já se fazem imantados, para mim, no que a Natureza apresenta de beneplácito a cada dia em que me permite respirar e vivenciar o pequeno mundo mágico da vida. 

Acreditamos ou depositamos fé em algo que não podemos ver ou nos certificar a respeito. Nada disso me apraz. O que me alimenta é a vívida chama de sentir em meu coração - quer seja olhando para os gatos e cães que me dão a honra de serem minha família, ou, ainda, uma gota de chuva caindo ao solo - a força da deidade.

A gratidão em estar, a cada dia, vivenciando isso, cultivando isso, quietinha, sem que tenha que me justificar dos porquês agradeço à terra, à água, ao fogo e ao ar, ou, ainda, a razão pela qual convoco minha ancestralidade para as celebrações. 

Isso só tem significado para mim, para ninguém mais. Já pensei - como postei em outra oportunidade, no texto Clãs, covens e solitudes: derradeiros momentos de escolhas - em montar um clã para compartilhar as práticas ancestrais. Mas, sinceramente? De novo a sensação de que a coisa só faz sentido para mim. 

Egoísta? Pode até ser que algumas pessoas me vejam assim. 

Não creio, na medida em que posso continuar desenvolver algumas atividades e as compartilhando com as outras pessoas. Gosto de ler runas para meus amigos e minhas amigas, imantar objetos e cristais para cura. Ou, ainda, realizar rituais para propósitos solicitados. Volta e meia alguém me pergunta alguma coisa. Daí respondo. Sinto-me útil, ao final.

Mas sem a pretensão de me fazer a senhora de todas as palavras. Já existe muita gente fazendo esse desserviço pela Arte sagrada no Brasil, de modo que não quero ser mais uma a me colocar discriminando quem gira para o sul, para o norte, para os dois lados, para nenhum (estou exagerando para que fique bem claro o quanto acho essa discussão tola).

Por isso calar é essencial... Não é à toa ser a virtude do ar, que sopra, levando tanto o movimento, quanto o silêncio... Silêncio este que nos convida a parar e refletir sobre nosso caminho, no intuito de percebermos nos pequenos atos de nossas vidas a magia a construir a tessitura de nossos atos.



quarta-feira, 8 de abril de 2015

Salto quântico e superação de padrões: quando o falar não é o fazer

Fonte da imagem: http://www.lojaericasflores.com.br
Amit Goswami certa vez comentou em seu livro A Física da Alma (considerado por muitos como um misticismo esotérico) ser necessário um "colapso quântico" para que a superação de um padrão possa acontecer em nossa vida e, com isso, transformar tudo à nossa volta. Haverá colapso sempre que as partículas elementares estiverem diante de uma multiplicidade de possibilidades de acontecimentos, "escolhendo", pois, sua forma de manifestação.

Nada de milagroso, mas pura e simples atividade subatômica e consciencial, somente possível quando se consegue tamanha compreensão da própria alma (autoconhecimento), o bastante para romper as amarras dos modelos que nos perseguem ao longo da vida e que nos impelem, de maneira automática e quase massacrante, para as mesmas "escolhas de sempre". 

A partir dessa perspectiva, minha experiência acumulada ao longo dos 42 anos de vida (sendo uns 21 de vida útil na socialização secundária, ou seja, em relacionamentos) trouxe uma compreensão de total impossibilidade de se imprimir qualquer tipo de mudança "quântica" no mero plano discursivo. 

Ou seja, o "falar" que se está mudando, apregoar para o mundo o quão visível é a transformação da alma pode encobrir, a bem da verdade, o vívido padrão dentro de nós, reproduzindo-o o tempo inteiro, sob a vã perspectiva de estarmos superando o que está incrustado no campo eletromagnético (e o que impede o salto).

Primeiro sinal: fazer, não falar. Quando se muda efetivamente um padrão você sequer nota, muito menos ao ponto de fazer as insistentes afirmações, que mais parecem reforços repetitivos comportamentais, típicos de quem deseja se convencer de uma realidade que não pratica. Afinal, as verdadeiras mudanças - as significativas - são feitas no silêncio a alimentar a meditação.

Já ouvi muita gente falando que mudou, falando demais por não "ter nada a dizer" - como cantava Renato Russo. Aliás, já falei muito que estava "mudando" e, mais adiante, caía na mesma armadilha, ao reproduzir as mesmas escolhas. 

Isso era evidente nos relacionamentos (em qualquer nível). Sobretudo naqueles em que achava realmente estar "fora da caixinha", mas que, no fundo (ou no raso que não queria eu enxergar), mostrava para mim o padrão insistente a me perseguir.

Segundo e mais significativo sinal: quando se muda um padrão, não se comete o mesmo erro de quando se estava nele. Isso porque, integralizada a sombra, aprendida a lição, não mais é internalizado pela alma o modelo comportamental. Ou seja, "deschipamo-nos" ou nos desprogramamos do antigo modelo, não mais subsistindo as razões pelas quais emocionalmente éramos encaminhadas para a escolha equivocada.

Esse processo é natural e, exata e pontualmente por conta disso, sequer notamos - ainda mais ponto a ponto - sua existência. Quando vimos (lá na frente), já mudamos. E, nesse aspecto, nada melhor do que o feedback de quem mais nos conhece, nossos amigos, já que estão sempre ao nosso lado, acompanhando o desenrolar de nossas aventuras.

Isso me lembra o terceiro significativo sinal: ninguém produz em ninguém mudança. O colapso quântico é individual e não pode ser experienciado por outra pessoa que não aquela que está tentando sair do modelo. 

Frases do tipo "você me faz uma pessoa melhor" ou "por você eu mudo porque você é tudo para mim" me fazem sair correndo: ou se trata de um caso de psicopatia ou, então, de falta de autonomia emocional (o que me faz ter o cuidado com as figuras dos vampíricos emocionais e psíquicos).

Já ouvi inúmeros pedidos de desculpas, promessas de mudanças: tudo escoimado nessas três situações. Resultado: obviamente uma missão impossível. Um desespero de causa, ou, ainda, tentativa de remediar o irremediável. Não se muda da noite para o noite, muito menos falando - o tempo inteiro - que se está mudando e, mais adiante, repetindo a mesma lição.

Outro ponto importante de se lembrar: nenhuma mudança estrutural - ainda mais quando o padrão arcaico é inconsciente e ainda constitui parte não explicitada de nossa sombra - acontece "de súbito" na vida de uma pessoa (o que me lembra da outra assertiva acima, a que se refere à repetição sobre a mudança), sendo necessário um longo processo de autoconhecimento. 

Acredito até que exista um limite existencial em termos de processo reencarnatório para que se processem tais mudanças. É bem certo que o colapso quântico não encontra barreiras para escolhas e crescimento, mas, de outra sorte, para uma alma ainda arraigada em padrões muito fortes, talvez uma existência não seja o suficiente para se transmutar. 

Tal qual uma cebola, a cada experiência, a cada processo, eliminamos parte da casca, do invólucro que envolve o bulbo (essência). Com isso, há quem simplesmente elimine alguns pedaços de casca, deixando para outras experiências de vida (outras vidas, enfim) o restante do percurso até atingir o âmago do ser pleno a ser alcançado.

"Eu mudei", pois, é uma frase capciosa, sobretudo, como já argumentei, quando se repete exata e pontualmente o padrão que se apregoa ter mudado em nossas vidas. Tanto o esforço repetitivo quanto o lapso temporal são indicativos de manutenção. 

Claro que a perspectiva positiva é importante - para isso mentalizar é muito bom - mas, por outro lado, quando a frase não é acompanhada de uma profunda imersão nas profundezas de nossos padrões, inócua é toda e qualquer tentativa de transformação.

Por fim e, claro, o diferencial em relação à superação. O semelhante atrai seu semelhante. Ou seja, em algum subnível atômico, vibramos na mesma frequência que as pessoas com as quais nos relacionamos. Com isso se torna vital buscar o padrão dentro de nós, superá-lo e, depois disso, fazer escolhas melhores para nossas vidas. Simples assim...

domingo, 5 de abril de 2015

Entre resiliência e insistência, todo respeito é bom para a alma!

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Resiliência é a capacidade humana de recuperação após um arremedo emocional forte, ou, ainda, saber lidar bem com as pressões. Para alguns é o próprio instinto de sobrevivência inerente à condição animal que nos remete à adaptação diante de mudanças sofridas. Outros acreditam se tratar de um atributo típico do ser humano, dada a (suposta) diferenciação trazida pela racionalidade que nos é singularmente imputada.

Independentemente do sentido que atribuímos à palavra, quando falamos em resiliência vem à mente a força necessária para superação de obstáculos, o que faz com que resgatemos nossa primordial energia para galgar as eventuais muralhas construídas em nossas frentes (muitas vezes por nós mesmas). 

Aprendemos a lidar com a dor e, como uma alavanca, a superá-la com sua própria energia, adaptando-nos diante das dificuldades para nos projetar em uma zona de tranquilidade diante da transposição do entrave. Ser resiliente é, pois, observar o obstáculo e formar com ele uma simbiose, o bastante para compreendê-lo e, adiante, superá-lo. Com isso, transformamo-nos poucos a pouco, aprendendo, assim, a arte simples e calorosa da felicidade.

De outra sorte, a insistência vã. Pura e simples insistência. Vã.

Simples desejo de repetição de uma situação, emoção ou, no caso, padrão que, como praxe, machuca bastante, ao mesmo tempo em que nos seduz e atrai para sua perpetuação. Muitas vezes confundida com teimosia, a palavra insistência pode denotar - em nosso pequeno dicionário anestésico de alma - resiliência, quando, a bem da verdade, nada tem a ver com ela. 

Trata-se de um vício e, como tal, nada de bom há de se esperar dela, a não ser uma falsa sensação imediatista de adrenalina que, mais à frente, irá se esvair. Para que possa sempre existir será necessário repetir, mais e mais, a experiência, em eterna roda de samsara de ilusória felicidade que - no cômputo geral - fenece e nos mostra que o ciclo mais se alicerça em tristeza do que em felicidade.

Como saber se estamos diante de situações de resiliência ou de mera insistência vã? Como saber se devemos prosseguir em situações que trazem obstáculos? Como?

Pensando tenho passado muitos momentos em silêncio, indo buscar na quietude da minha alma as respostas de que necessito para fazer melhores escolhas. Acredito, hoje, de maneira mais ponderada, que reside no RESPEITO o diferencial entre ambos. 

Amor-próprio e respeito. Situações que trazem a resiliência relacionam-se às contingências da vida, aos obstáculos naturais de se viver. Desafiam o ego, nosso ego, esse que sempre deseja todas benesses do mundo com o menor sofrimento possível.

Mas, acima de tudo, as experiências desencadeadoras de resiliência são engrandecedoras, porque, depois delas, superamos seu fato gerador, agregando para nossa vida o que de sábio a lição nos transmitiu. O ego se acalma para, então, modificamos o padrão envolvido. Evoluímos. E partimos para novos desafios. Não repetimos a escolinha.

A insistência vã alimenta-se da escolha equivocada, derivada de perspectivas também equivocadas. Fazemos escolhas impróprias para nossa alma por meio da necessidade de alimentar o ego da chama da adrenalina. Observamos passar à nossa frente o padrão, julgamos estar repetindo a mesma história com protagonistas diferentes. Mas, ao final, depois do frenesi, cai a ficha e logo, logo observamos se tratar de uma história dolorida e repetitiva.

Nela nossos respeito e amor-próprio são atacados deliberadamente, ao contrário das experiências usuais de crescimento resiliente. A cada repeteco da mesma história, das mesmas desculpas, subimos à superfície e não conseguimos sorver o ar. Ao contrário, ele vai rareando aos poucos, ao ponto de não mais conseguirmos nos nutrir.

Antes de chegar a esse ponto é crucial se observar nesse processo. Observar quais as situações que trazem violação à nossa integridade psíquica e emocional. Isso é simples. 

Talvez não enxergar o ponto não seja. Mas, depois que tiramos a lente cor-de-rosa e passamos a ver nossos déficits (sim, claro, optar por insistência e chamá-la de resiliência é opção equivocadamente pautada em nossa ignorância), podemos fazer novas escolhas e, com elas, advém a maravilhosa sensação de estar no rumo certo.

Como se descobrir? Vivendo...




sexta-feira, 3 de abril de 2015

O outono que a tudo desacelera...

Fonte: https://novanoiva.files.wordpress.com/2011/03/outono.jpg
Desde o dia 20 de março entramos no outono, a estação que antecede o longo momento de introspecção que o inverno representa. O sol começa a mudar seu ângulo de incidência, tornando, aos poucos, a duração da noite maior do que a do dia. 

Nem mesmo a mudança climática responsável pelo desequilíbrio que estamos observando em nossas relações com a Natureza é capaz de impedir que olhemos as transformações ao redor.

Tempos outonais supõem a preparação para a a grande parada: é tempo de desacelerar o ritmo, harmonizando-nos com as batidas do grande coração de Dana, a nutriz de todas nós. No cerrado, o inverno é bem incomum, pois a temperatura cai durante a noite, aumentando durante o reinado do Sol, não sem diminuir a umidade, fazendo com que tenhamos de nos hidratar bastante nesse período.

Mais do que simplesmente representar paradas, a transposição outono-inverno nos remonta à ideia de nos voltar para o autoconhecimento necessário à modificação dos padrões inconscientes que, por muitas vezes, fazem com que realizemos sempre as mesmas escolhas, em uma sensação de repetição da mesma história, com atores diferentes repassando o mesmo script.

O recado sábio da Natureza aponta para a diminuição da luz (de verão), com a necessidade de nos desapegarmos do que está relacionado com o padrão que não mais desejamos reproduzir. A finalização interna de processos é demandada nessa fase, bem como a imersão no campo mais profundo do EU, com a finalidade de buscar, no silêncio e na quietude, a harmonização com o Cosmos.

O momento não pede atropelo, muito menos decisões afoitas ou precipitadas, pois a transformação do inverno denota, antes de mais nada, a estagnação do que era imediatista, para se guardar a energia vital para a mudança de paradigma interno.