sábado, 31 de julho de 2010

Sob as bençãos auspiciosas da Grande Mãe na véspera de Imbolc...

Gaia é honrosamente justa em nos prover mas, às vezes, não atentamos para seus misteriosos desígnios, quase sempre dimensionados a partir de situações que encaramos, de primeira mão, como adversas.

Se olharmos bem por trás do véu, contudo, cada situação adversa traz uma mensagem escondida, um enigma a ser desvendado pelo nosso coração depois que a pontada lacerante de dor se esvai. Claro que fica a cicatriz, compondo nosso grande e belo mar de ranhuras, mas, com o tempo, a dor que latejava cede espaço apenas para a referência mnemônica do evento. A Deusa lança seu bálsamo herbal, o tempo todo, tornando o caminho de recuperação bem confortável e mais fácil.

Conectar-se com a Deusa é essencial para vivenciar isso tudo. É, sobretudo, ouvir o coração, quando ele, lá no fundo e sem a influência externa, pulsa a mensagem. A intuição fala e aponta vários sinais, relacionados, claro, com a nossa essência. Não se pode trair a essência revelada em nossas atitudes para com a vida.

A conexão com a Mãe nos coloca esse vínculo de abertura para outros portais, acessos outrora inacessíveis, mas que, diante da permissão que nos damos, podem ser viabilizados e, com isso, certezas e caminhos podem ser descobertos.

Na saga de descoberta o caminho é simples: basta se render ao que é sagrado. Ligar-se à Lua, aos oráculos, ao cair de uma folha. As imagens vêm, como cenas de filmes, mostrando o desenrolar dos eventos em relação aos quais estamos ocupadas em desvendar.

Se nossa conexão for profunda, acessamos memórias e campos áuricos, nosso e de outras pessoas, podendo, com isso, tornar a identificação de nossas missões mais fácil, compreendendo nossas familiaridades e desavenças.

É também prestar atenção nas pessoas que anonimamente "caem" e se materializam diante de nós sendo portadoras de palavras dos deuses. Hermes ou Mercúrio, assim, manifestam-se nas angelicais ordas de seres que, sem interesse algum em nossas vidas, apenas nos fazem observar a riqueza do conteúdo latente em cada comportamento e evento presentes em nossas vidas.

Essa semana recebi duas importantes revelações deídicas. Ambas premonitoriamente escritas aqui no blog como final de ciclo em minha vida. Intuí, projetei e plasmei em prosa o que estava por acontecer. Aconteceu. Pura e simplesmente como o "colapso quântico"outrora previra.

Verdades foram descobertas, véus foram retirados e, sobretudo, caminhos foram cingidos. Tudo a partir do toque mágico da Deusa em meu coração...

Dois maravilhosos oráculos revelaram para mim a mesma situação que, no fundo do coração, já se desenhava como resultado direto de minhas aventuras na regressão e no acesso aos campos áuricos de quem encontro pela frente.

Ainda preciso saber voltar de meus passeios sem a dor de reviver o que passou. Sem a ira de descobrir os algozes e as vítimas, sempre espelhos de minhas mazelas por esse grande Universo de possibilidades.

O mais interessante, contudo, dentro de todo esse processo, é sentir a Deusa, o tempo inteiro, levando-me na palma de sua mão, embalando-me ao lado do Pai, Grande Deus, compondo o casal sagrado que me abraça carinhosamente, fazendo com que me sinta feliz e segura. Esse é o sentido de conexão para mim!

Um oráculo druídico e um arauto da espiritualidade falaram a mesma história.

Foi muito interessante e foi num lugar em que portais são abertos o tempo inteiro. Os frequentadores - alguns - podem nem se dar conta de tamanha mágica, mas, para quem se permite a abertura, ali é uma taberna "beco diagonal", onde a magia e a conexão acontecem.

Ambos sagitarianos os arautos...

Ambos conectados com minha energia.

Ambos afins no signo que, por excelência, marca o acesso às questões do espírito e, sobretudo, da justiça.

Auspícios da Grande Mãe em véspera de Imbolc!

Hey ho para todos e todas!

Amanhã, ápice do Inverno que está caminhando para o fim, Imbolc em fim de tarde!

Ai, como são doces os caminhos da Natureza!

Preparando a morada para a luz de Imbolc!

Estamos no ápice do Inverno e, como todo clímax, a hibernação está chegando ao fim, pois a Natureza se prepara para o despontar das flores que brindam nossos olhos com um inesquecível espetáculo de cor, brilho e luz.

A temperatura começa a subir e a Terra, agora, acorda para a luz de Imbolc - também conhecido como Candlemas (massa de velas) - sabbat ígneo que festeja a lactação.
Nos campos, as fêmeas que guardaram suas forças e nutrientes na hibernação agora estão plenas em si com o leite nutridor da prole, que virá, dali a frente, em Ostara.
O Sol está voltando, pouco a pouco, em Imbolc, transitando pela mandala celeste com sua timidez, preparando-se para despontar, altivo, dando adeus à estação reflexiva que o inverno representa.
Imbolc é época de reverenciar Brighit, deusa relacionada à fertilidade, à poesia, ao fogo, à música e à cura, representado o aspecto tríplice da divindade.
Brig (força, em gaélico) é a guardiã do fogo sagrado, nutridor da inspiração, bem como a espiritualidade, já que é o elemento da criação. Daí necessariamente a fertilidade atributo dessa deusa, apesar de ser tida e conhecida, no panteão celta, no aspecto virginal da trindade.

Brighit também é Deusa dos ferreiros, pois, afinal, a forja cria, a partir do fogo, ferro e bronze, as armas simbólicas de nossa alma em plena jornada heróica. A centelha que parte do tilintar do martelo do mestre ferreiro transmuta a matéria e lhe atribiu o sentido do belo, do sagrado e do poético.
Os celtas, mais que qualquer outro povo, admiravam a poesia que brota da alma, dos campos de batalha e das mortes heróicas dos guerreiros e guerreiras míticos.
Belo e sagrado fundem-se na poesia, marcando em Imbolc a saudação à lírica ancestral.
O fogo sagrado de Brighit é a própria chama transmutadora que dá origem ao Tudo a partir do
Nada, plasmando em concretização a energia imanente do Universo.
Antigamente era mantido por 19 sacerdotisas em Kildare - prestando atenção no simbolismo do número um, que marca o início, a gênese, bem afinado com a perspectiva de criação que o elemento fogo propicia ao espírito) - permanecendo intacto o culto até 1220, ocasião em que a conversão ao cristianismo progressivamente marcou a coexistência da Brighit pagã com a santa reverenciada pela religião católica.
É hora de deixar o Sol entrar em casa (hehe, paradoxal para mim, já que um Sol acaba de romper o céu e implodir)...
Eis a luz que retorna para se fazer, cada vez mais, plena. Momento de abrir as janelas e limpar a casa. Lustrar os móveis, cozinhar e celebrar a fartura.
Imbolc remete à fartura e fecundidade, pois as tetas estão cheias de leite para os animais no campo. E nós, cheias e plenas de idéias, projetos e amor!
Na cozinha, coração da casa, o momento é de preparar a festividade de amanhã. Direcionar a energia interna para o foco que se deseja desenvolver. Fazer pão, bolo... Tanto faz, tudo é permitido num festival lácteo como esse. Aveia, trigo, cevada, grãos, em geral, são bem-vindos em Imbolc, porque promanam das sementes que trazem a latência a explodir na colheita!
Luz! Velas! Sim, muitas delas, para nos lembrar que o tempo de escuridão do Inverno está sendo harmonicamente substituído, na mandala planetária, pela gentileza da Primavera. Durante os festejos de amanhã, acenda muitas velas em seu lar, mentalizando, sentindo e vivenciando a força que o fogo traz em sua vida.
Vamos trançar a cruz celta de Brighit! Os nós e os trançados, quando elaborados em meio a rimas, músicas e bruxedos, "amarram", apertam, trazem para a realidade física o mantra pessoal, o desejo contido dentro de cada um de nós.
Enquanto você trança a cruz, tente fazer o encantamento...
A cada trança, uma invocação, repetindo-a em ciclos, que espiralizam até o vórtice alcançar o espaço:
"Pelo primeiro trançado que estou dando, o feitiço está começando.
Pelo segundo trançado que dou, o feitiço já começou,
Pelo terceiro trançado dado, meu desejo está atado.
Pelo quarto trançado feito, o que desejo é meu por direito.
Pelo quinto trançado realizado, meu sonho está plantado.
Pelo sexto trançado que vou dar, minha vontade vai se fixar.
Pelo sétimo nó que faço, que conspire todo o espaço.
Pelo oitavo nó que estou fazendo, a tecelã está tecendo.
Pelo nono nó que estou atando, meu feitiço está chegando"
Sem prejudicar ninguém, sem manipular energeticamente, lembrando da ação e reação (para alguns, em lei trina).
Sua cruz de Brighit está pronta para o próximo festival...
Hey, ho!
Fàilte, Imbolc!

Foi-se embora o Sol...

"Pedi aos céus um amor que me arrebatasse
tal qual o Sol se lança no azul
subvertendo os doces caldos de chuva num dia fino de verão
Veio o amor, o Sol, entrou em minha vida
Acalentou dentro do vazio meu coração que, há tempos não se permitia amar
Será que amei? Algum dia, quem sabe
Hoje sei que amo
E não sei
de nada mais
Meu amor, meu Sol, que entrou por essa porta e ficou
Aquecendo-me noites inteiras com o braço forte de seu amoroso laço
Envolvendo-me e lançando-me pelo mesmo céu que um dia, impeliu-me a mais gutural dor, a dor de amar
Mas o Sol, ah, sim, aquele Sol, o amor Sol,
Foi-se, deixando para trás meu coração
Levou embora o amor
E ficou a dor
Que hoje lacera o peito
Sei bem, onde está o amor?
Onde está o Sol?
Foi-se e partiu
deixando a fenda que nunca cicatriza
Meu grande amor que não sabe amar
Meu grande Sol que é só pesar
Acabou cingindo de ferro, fogo e fel,
a doce lembrança que um dia trouxe comigo
Acabou
findou
Escarneceu
Tripudiou, enfim.
Deixando-me crer que era una
Sou para mais um sol
dentre tantos sóis
nada mais do que a simplicidade do ser comum..."
- 03h31m de um dia 31/07/10

sexta-feira, 30 de julho de 2010

A grande invocação da chama sagrada...

"Eu me lembro, ó fogo, como tuas chamas uma vez inflamaram minha carne.
Entre bruxas retorcidas por tua chama, agora torturadas por terem contemplado o que é secreto.
Mas para aqueles que viram o que vimos, sim, o fogo era NADA.
Ah, bem me lembro dos edifícios iluminados com a luz que nossos corpos emitiram.
E sorrimos, ao contemplarmos o vento das chamas por trás de nós.
O fiel, entre os infiéis e cegos.
O salmodiar das orações no frenesi da chama.
Cantamos hosanas a Vós, nossos deuses, em meio ao fogo doador de força.
Dedicamos nosso amor a vós da pira"
G. Gardner

O fim de um ciclo...

Quando sabemos que é o momento da "virada" de um grande ciclo?

Quando é o fim? O início? O meio? Uma hora achamos que está tudo acabado, em outras tantas tudo é bem claro a começar.

Mas, diante da montanha-russa do viver, não estamos prontos para perceber a mudança drástica dos ciclos, talvez, quem sabe, porque a apartação com a Natureza e seus ritmos ocupou o espaço do que, outrora, era comunhão.

O fim de um ciclo marca superações, bem como o retorno ao giro da roda de uma vida que vem e vai, espiralando no tempo e no espaço para que possamos cumprir nossa bela saga de existir multiplamente "para sempre".

Para alguns, momento de transposição de carmas para a elevação espiritual. Para outros, sentido de equalização dos haveres e deveres computados durante as outras existências.

Quem se lembra de Frodo, que iniciou sua jornada de maneira pueril, ingênua, finalizando seu ciclo de tal sorte que voltar para o Condado não seria mais opção?

Frodo não foi mais o mesmo depois que carregou o fardo do anel. Superou-se e, na superação de si, foi levado e elevado pelas grandes águias que surgiram do horizonte, retirando-o do mar de fogo (fogo da espiritualidade) para os céus.

Na metáfora perfeita mais que perfeita, Frodo, ao enfrentar a si no alter-ego Gollum, transpôs o mar de adversidades de sua existência, renascendo do fogo de Mordor para a redenção. Ele estava deitado na pedra, que representa o abrigo da Terra, Gaia, Grande Mãe, esperando seu renascimento, o cumprimento de sua sina no ciclo de retorno.

Daí, em uma morte simbólica - pois não achava mais que fosse sobreviver ao calor de Mordor - foi retirado de lá pelas águias, que o lançaram no grande voo para uma nova forma de contemplar a vida.

A ferida não fechou. A cocatriz doía. Depois de 4 anos, Frodo ainda sentia a pontada do fio afiado da espada do Rei Negro.

Melancólico, vivia e sobrevivia no Condado, como se espiritualmente não mais ali estivesse. Transitava em meio a uma multidão, na companhia de seus amigos mas, a bem da verdade, havia transmutado sua essência o bastante para o Condado não mais ser o seu espaço sagrado.

Ao partir com os elfos, Frodo atravessou um mar, o mar que separa os mundos da carne e do espírito. Acompanhar os elfos tem seu significado: seres de muita luz, não poderiam mais permanecer na "Era dos Homens" sem que sua integridade espiritual fosse atingida.

Frodo, em sua saga, também se elevou, aproximando-se da dignificação da luz élfica e, com isso, não podendo mais permanecer em um mundo que não era mais o seu.

O olhar de Frodo ao se despedir dos amigos traz o semblante de depuração. Ele não chora em momento algum da despedida, porque sabe que aquilo ali tudo é efêmero.

Ruma para um alto plano espiritual, juntamente com Gandalf, arauto de uma nova era na Terra Média. Sam, seu fiel escudeiro, em sua senda pessoal, não pode acompanhá-lo, porque, diante da diferença de caminhos, cada um percorre sua saga. São os ciclos.

Um ciclo que lança no ar a melancolia e o saudosismo.

Qualquer que seja o sentido dado ao momento de fechamento de ciclos - que depende muito mais da construção de nosso conteúdo espiritual latente - a grande verdade é os fins marcam os ritmos da maneira helicoidal com a qual a Natureza - grande Mãe - equilibra a vida.

Como vivo os ciclos?

Viver intensamente é morrer a cada instante, extrair da existência o eterno fruto, seja ele doce, amargo, frio ou distante. É amar o anônimo por instantes e prolongar, a todo tempo, espaço e momento, para, depois ao contemplar sua própria vida, deixar o tempo escorrer ao sopro da brisa e do vento.

É compreender as chegadas, sorrindo nas partidas como se fossem eternas, vindas, idas e vindas - que se completam, lindas - de mãos dadas, porém, cingidas. Viver e amar é explodir como se fosse o último veio de ar, é sentir, como se nada mais se pudesse falar.

É sofrer cálida e silenciosamente como se o fim estivesse próximo, e o ser, ausente.

Viver intensamente é regressar, sair do etéreo pó e às cinzas retornar, compondo o eterno ritmo do vida-morte-vida. É olhar para trás e vislumbrar o futuro incerto, devenir inconstante. Sôfrego júbilo, num coração pulsante que bate indócil em sua partida.

É dizer adeus e se calar, atrás de cada um dos dias a se firmar o rastro do céu, translúcido infinito.

É aguardar, esperar e crer, motivar a vida no misterioso ser, essa insofismável fonte de sentir...

É o fim de um grande ciclo...

quinta-feira, 29 de julho de 2010

As estações, o Sol a o Amor...

A beleza da diversidade é singela, mas contundente como uma avalanche motivada apenas por um cair de folha: reside na transcendência dos rótulos que as obcecadas almas em busca de liberdade ainda não conseguiram transpor. São as mudanças no sucumbir dos rótulos, ao final, as grandes e paradoxalmente pequenas folhas que precisamos permitir promover nossas avalanches...

Amar pode ser um rótulo na perspectiva de obsessão. Afinal, ainda nos permitimos tanto ouvir tantas melodias apontando sempre para o sofrimento colossal de "quem ama". Ama? Amamos? Amamos a melodia do mantra de atribuição de dor? Amar é condoer-se? Doer-se? Doer? Duvido...

Para boa parte das pessoas em completo desespero, ainda é.

Mas não é sobre desespero que desejo falar hoje, é sobre a magnitude do que significa sentir e se permitir amar.

As almas errantes que perseguem a efemeridade de um simples momento de deleite incongruente e raso não voam, não se lançam, não arriscam e não vivem, preferindo deixar o Sol apenas como moldura de um horizonte pessoal que nunca passará de uma bonita paisagem...

Não se permitem segurar a mão de ninguém e, com isso, se existir voo, ele é raso e na superfície pode até satisfazer a sensação de pequenez humana quanto ao alcance de objetivos, mas não integra a exigência de uma alma que se faz plena.

Amar não é transitar apenas, mas entranhar a sensação de alcance do Sol presente tanto no risco como na segurança, saindo sempre da pasmaceira existencial que as zonas de conforto nos dão para ousar caminhar, sem medo, diante do mais abissal vale de escuridão que a ausência do amor pode trazer para a alma.

É transpor tudo aquilo que já se falou como frase de efeito - seca em si, estéril e meramente discursiva - para se fazer uno na fala, no pensamento, na vivência e no lançamento.

Lancemo-nos! O que nos espera?

O Infinito diante de nós! Galáxias dispostas em planos cuja dimensão maior está além de nossa compreensão, mas presente em nossos corpos. Afinal, o músculo mais forte do ser humano é o coração e o cérebro tem mais neurônios do que as estrelas no céu. Quem dirá o que reside dentro da alma que ama?

Amar é...

É respirá-lo como se, na ausência dele, a alma fosse sucumbir e o corpo fenecer. Como se cada célula túrgida fosse explodir para alcançar o espaço, não mais faz sentido o limite da membrana de um coração que ama...

É não conseguir vivenciar um só dia sem se perceber pleno na vazão de dedicar a alguém simplesmente o que existe de melhor dentro de si.

Se Ícaro (sempre Ícaro) não tivesse "ousado", não teria feito, ao final, parte do Sol que, por tanto tempo, desejou compor. Feliz Ícaro, que se lançou rumo ao completo desafio de conhecer o que outrora ninguém havia desafiado compreender: o exaurimento de si para a imersão no ser que se desconhece.

Assim é o Amor, nada mais, nada menos do que o exaurimento de si para a completa penetração no Outro, que, por sua vez, encontra-se rumando também para seu Sol (que é o mesmo para todos).

E, no meio de tão bela jornada, na metade da ponte percorrida por duas almas que se encontram e se descobrem eis que surge o exaurimento recíproco de si, na total ausência de sentido do "eu" e do "outro", porque, ao final, não existe mais nada além do NÓS. Sequer existe fala, porque com o "nós" não é necessária uma só palavra...

Não há espaço para o "eu" e "tu" no amor.

Não se trata de anulação...

Danem-se todos os experts -ólogos que ostentam a bandeira da amargura de entender o Amor como um sentido de ocupação de espaços de "individualidade". Que individualidade? Somos almas vindas da mesma fonte, ilusoriamente dispostas em corpos, mas que conseguimos vibrar na frequencia exata do mesmo pulsante ritmo do coração.

Quando as almas não se permitem alcançar o Sol não veem a maravilha do sentido que a luz apresenta para a manutenção da vida, jazem tristonhas em seus nichos de incerteza e escuridão...

Por isso, dentre tanta diversidade escolhi para hoje diz um lindo trecho de um texto cristão.

Cristão? Logo após um tratado sobre paganismo? Sim, justa e pontualmente porque sentimentos não se compartimentam em quartos escuros e estanques, mas, antes, transbordam e imundam todo o lugar por onde passam, como a torrente de água que haure de uma grande represa.

Não se contém a força da Natureza, assim como não se represa o sentimento: são amálgamas...completam-se e, na completude, valsam juntas rumando, assim, para o tão sonhado Sol...

"Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine.

Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé; a ponto de transportar montes, se não tiver amor nada serei.

E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará.

O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se recente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta"... Coríntios 1, 13.

...nada mais, nada menos...

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Imbolc e a renovação solar para a cultura celta...


Fàilte, Imbolc!

Dia 1o. de Agosto celebramos Imbolc, a festa do despertar da Terra, adormecida durante o inverno.

Já repararam que a temperatura está diferente? Ou, ainda, que o ângulo de incidência dos raios solares torna tudo mais "iluminado"?

Não? Sugiro, então, uma parada para contemplação disso...

A Terra está se preparando, em Imbolc, para a chegada das flores e para o recomeço da polinização em Ostara, Primavera. O Sol está banindo a escuridão (escuridão sem a noção de trevas cristã), lançando novos projetos, novos planos, fecundidade.

Daqui a pouco os ipês amarelos propiciarão um espetáculo à parte em Brasília...Momentos de plenitude! De felicidade! De gratidão ao que a Terra oferece...

É o momento de traçar emocionalmente os planos de nossas almas, que estavam hibernando, em silêncio, durante o frio.

Momento de festejar, comendo, bebendo (uhuu, cevada, malte, grãos de fecundidade!!!) e, sobretudo, celebrando.

A vida é uma celebração contínua!

Um estado constante de alegria, para afastar a dor e a tristeza. Hey, ho! Por que Imbolc, gente? Por que em plena pós-modernidade estão "surgindo" festas, celebrações "de Sion" (hehehe, para descontrair com a batida da Terra em Matrix)?? Age of Aquarius!!! Antes de acharem que surtei (podem achar, não me importo), permitam-me revelar o indecifrável...

O séc. XXI traz o multiculturalismo como resultado de um processo de globalização que, a despeito de pretender unificar, fez eclodir a centelha da vivência múltipla de diferenças. Irlanda do Norte, do Sul, Estado Basco, Galiza, Cataluña, Balcãs, Oriente Médio, sikhs, bengalis, punjabs, Nigéria, Sudão.

Viva a diferença!

Tudo exala diversidade, assustando a mente arredia ao que é novo (nem tão novo assim), diverso e "perigoso" para a zona de conforto em que fomos adestrados nos processos de socialização escolar. Basta lembrar que o mapa múndi foi providencialmente "interpretado" de cima a baixo, para que o hemisfério norte fique acima do sul e, com isso, na diferença etnocêntrica, o colonialismo (espacial ou ideológico) possa encontrar seu gancho de atuação.

Encontrar as raízes, portanto, é a máxima desse Milênio, diante de tamanha crise no que foi até então valor vigente como produto pasteurizado de um colonialismo para lá que decadente. Basta um passeio nos Estados Unidos - numa grande metrópole, como NY - para observar os sino-americanos, ítalo-americanos, latino-americanos. Qual a sua? Qual a sua raiz? De onde brota seu sangue? Já pensaram nisso?

Enquanto isso, o puritanismo sabático na terra do tio Sam está com os dias contados pela pura e simples diluição cultural, trazendo à tona o colorido de culturas diferenciadas (que foram até queimadas por eles, né?).

Há quem professe a encarnação coletiva do Império Romano (cujo símbolo é o mesmo do Tio Sam, uma águia) no povo estadunidense, para que, agora, possa aprender a conviver com o diferente sem pretender extirpá-lo...

Andà, teorias à parte, o ser humano pós-moderno está desconfortável com sua busca interna de identidade.

Não se vê em nada. Não se encaixa.

Falta o solo providencial da identidade multicultural que está transformando o mundo uma imensa "aldeia", composta por vilarejos intercomunicantes, que gesticulam, às vezes lutam, para que, ao final, as massas compactas da imperialização sejam dissolvidas.

Como parte integrante da cultura imanente de um povo, a expressão religiosa encontra-se, de igual maneira, pulverizada nas diferenças.

No México, a busca da identidade sodomizada pelo europeu trouxe aos descendentes a necessidade de busca dos maias e da compreensão do Universo a partir do calendário pontual (exatamente esse que aponta para o fim do ciclo em 2012 e que está sendo confundido com o Armagedon cristão...por favor, nada a ver).

Solstícios são celebrados, calendários lunares de ciclos de 21 dias passam a regrar o ciclos biológicos internos. Tudo se encaixa no desencaixe de uma matriz normogenética, que se enfacela em pleno ar!!!

Nas tradições orientais, sempre a sabedoria antiga de saudação devocional aos ciclos internos e à conexão ao Todo. Muito a compartilhar e, nós, a humildemente aprender.

Na tradição cristã... Nessa que eu quero chegar. Uhuu!

Todo o calendário cristão está compilado em cima das festividades pré-cristãs ou proto-cristãs, que fazem parte dos ritos e das liturgias pagãs dizimadas pelo Império Romano nos ciclos de avanço para quase toda a Europa, Àfrica, Àsia etc.

Depois da conversão em massa, Roma precisava de uma forte propaganda para sustentar a transposição do calendário lunar para o juliano. Não bastava o estupro das mulheres estrangeiras, ou o casamento multi-cultural forçado à guisa de abatimento tributário. Era necessário também dominar cultural e religiosamente cada pedaço de continente.

Mas os povos conquistados não se rendiam facilmente e, cada vez mais, pessoas mantinham seus cultos à Natureza, ao mesmo tempo em que Roma, sob a batuta dos escritos paulinos, insistia em submeter a natureza como fonte de alimento para o homem pós-Queda (do Paraíso).

Lembram disso? Antes do fruto da árvore, homem e Natureza mantinham a comunhão, mas, depois, Deus "condenou" o homem a "reinar sobre a Natureza" e tirar dela, com suor e lavor, o fruto para sua mantença.

Andà! Descobrimos o subjugo de Gaia!

Pois bem, como convencer os pagãos que semeavam na lua Nova e vertiam mel e leite sobre as sementes, entoando cânticos à Grande deusa, que, doravante, isso seria errado?

Simples. Chamando a Deusa de Lilith, taxando-a de "prostitutua de Satã", transformando Cernunnos (o deus da fecundidade com chifres - que nada mais são, para quem estuda Física, eixos de poder, poder de pontas) em Lúcifer e, somando a esse profuso caldeirão (ops, caldeirão é coisa de bruxa) a transposição de datas dos sabbats e esbats pagãos em datas "cristãs", de modo a higienizá-las.

Mas as tradições herméticas se mantiveram, ao final, no espaço privado dos lares, nas reuniões secretas em volta dos caldeirões repletos de desejos, alimentos e sonhos, sob a chama (para quem leu Colanges - A cidade antiga) do fogo sagrado dos ancestrais...

Eis aí o grande papel dos "bruxos" e das "bruxas" queimados todos em vários momentos da história. Manter impoluto o conhecimento ancestral sobre essa realidade, para transmitir às gerações vindouras o relato de tudo que extra-oficialmente aconteceu no mundo. Hey, ho! Então?

Ah, então o culto a Eostre (uma deusa terrena cujo animal totem é um coelho) virou Easter (Páscoa). No sistema de translação-rotação, dia e noite e dia são iguais (mas não percebemos isso porque não olhamos ou sentimos mais os ciclos, preferindo o tic-tac do relógio ao tic-tac do coração conectado aos segredos da Terra). É a época (hemisfério norte) em que Sol aumenta em poder (em face da angulação) e a terra começa a florescer (fecunda como o ... coelhinho).

Assim como o Yule (nascimento do deus a partir da deusa-mãe-esposa) coincidiu com o Solstício de inverno no hemisfério norte (por volta de 21 de dezembro, sendo "puxado" providencialmente para o dia 25... por que será?).

Sem deixar de mencionar o Dia de Todos os Mortos, aqui sendo celebrado e confundido, às vezes, com Finados, que marca Samhaim na cultura celta (no hemisfério norte - nossa, tudo gira em torno do Norte, né?), no dia 31 de outubro, data em que o véu entre os mundos é tênue e o contato, lúdico contato, é propiciado por uma egrégora de energia incomum.

Carnaval? Ah, festa solar, afinal, o Sol sempre esteve relacionado à fecundidade. Imbolc na tradição da roda de lá... festas solares, vinho, álcool, uhuu, festa! Na versão cristianizada, a procissão de Candlemas (outro nome) honra a Virgem Maria. No México corresponde ao Ano Novo Asteca. Nossa!

Poderia ficar aqui escrevendo o dia inteiro que não esgotaria os argumentos para apontar a sangria cultural provocada pelos Concílios romano-cristãos que tentaram aniquilar culturas, dentre as quais, a celta, rica em termos de conexão, cientificidade e catalogação dos fluxos da Natureza, datando de um período correspondente a (10.000 a 4.000 a.C.) como foco de expressão matrifocal.

Por favor, não pensem, a essa altura, que estou fazendo um tratado de 'feminismo' embrionário. Estou até a tampa de tanta abobrinha que tenho escutado (não raro, calada) sobre -ismos, -istas, em todos os níveis, de todos os lados, em todos os ativismos. Como insistimos (eu também, claro) na ignorância! afff...

Não é essa a questão!!!

Estou mencionado algo muito complicado para nós, no século XXI, que é a superação da dualidade que coloca homens e mulheres em guerra. Nas religiões matrifocais, os complementos eram venerados com patamar de igualdade. Mas isso é incompreensível porque aí vão 10.000 anos de propaganda, moldando nossa memória o bastante para ficarmos naquela de "homens são de Marte, mulheres são de Vênus".

Sobretudo, estou apresentando, em doses não tão homeopáticas assim, a dimensão secreta do conhecimento que ficou guardado em minha família há gerações.

Penso que o momento de compartilhar seja agora mesmo, afinal, já me perguntaram o que minhas tatuagens significam, porque minha mãe tem um pentagrama tatuado, porque lá em casa (quando morava com ela), providencialmente as festas eram regadas a muita comida nos dias de equinócios e solstícios. Por que "sou isso, aquilo e aquilo outro"? Enfim, os porquês. Afinal, são os porquês que nos comandam, ainda...

Porque somos muito mais bárbaros do que romanos, simples.

Por que?

Os celtas são originários da etnia indo-européia e ocuparam a Europa Central e Ocidental, entre V e VI a.C., em regiões que hoje vão desde a Espanha, passando pela Turquia, Irlanda, França e Alemanha, apresentando uma diversidade muito grande de ramos, o que dificultou a união política e facilitou sua conquista pelo Império Romano.

Falar em “cultura celta” pode ser um reducionismo perigoso, já que não existe apenas um tronco étnico que se possa unificar culturalmente. Esse é o segredo que une famílias na Galiza, Cataluña a, por exemplo, irlandeses, russos, italianos do sul. Um panteão pulverizado de práticas (stregheria, por exemplo, na Itália).

Muito organizados, os "cabeças-quentes" desenvolveram a cultura agropastoril, destacando bastante a ourivesaria e os trabalhos em cobre, ferro, ouro, que reproduziam nos adereços a importância da Trindade para o povo celta: triskles ou triskeles, espirais solares que surgem de um ponto comum, de onde partem os três braços que suavemente se espiralam, cada qual, em torno de si.

Quem já viu "A Rainha da Era do Bronze", "Asterix" e outras pérolas, já observou a trindade.

Os três braços são o ciclo eterno de suceder das estações, ou, ainda, as faces da Deusa (donzela, mãe e anciã), as fases mais perceptíveis da Lua (crescente, cheia e minguante) ou, ainda, a tríade corpo, mente e espírito.

Contudo, são meros aspectos simbólicos, relacionados a correspondências com as marcas anacrônicas de nosso tempo (ou seja, não deixam de ser representações resgatadas pelo neo-paganismo da modernidade).

O mais importante, porém, não é compreender o simbolismo de tais fases ou suas correspondências, mas saber que a espiralização reflete um continuum temporal, dentro do qual não cabe espaço para a bruta separação que a mente analítica faz em relação a processos.

Eis a diferença... Os celtas não faziam correspondências ou representações: o triskle ERA o ciclo em si, e não o que significava. Isso é muito complexo para nossa sucateada mente-analítica-que-mente-e-nem-sente, porque, muitas vezes, insistimos nas representações e não as experienciações da vida celebrada em magia.

Esse é o pulo-do-gato na bruxaria: inserir-se no mundo dos Deuses, Deusas e Natureza e vivenciá-lo, não apenas tentando encontrar significados e simbolismos, porque isso é racional, e não intuitivo! Qual o sentido de jogar "um punhado de alecrim num caldeirão"? hehehe...

Para os celtas, a vida era fluxo perpétuo de vida-morte-vida e, como tal, não poderia ser entendida, sentida ou experiencida como etapas estanques (e, para nós, cronológicas): horas, minutos, segundos, dias, meses e anos, tomados, um a um, retiram a compreensão poética de infinito! O triskle está presente em tudo: é o TODO. Os ciclos, as lunações, os corpos, o humano.

Na mitologia celta, um detalhe interessante: o três está represente nas peregrinações, como um caminho que marca a ida, o rito de passagem e o retorno.

Em nossas vidas? Ciclos que se renovam mas que ficaram imperceptíveis porque não usamos mais a mente primitiva (onde está gravada a memória), optando pelo conforto da analítica que segrega e discrimina, quase sempre desejando exterminar o que é diferente.

Os símbolos realizam essa ponte ao mundo mágico do inconsciente, ao revelar, em certo sentido poético, a beleza misteriosa do que está encoberto pela névoa da superficialidade com que insistimos em olhar o mundo ao redor, sem nos conectar a ele.

Para Jung[1], a simbologia desperta centelhas inconscientes, reaquecendo referências gravadas em nossas memórias, soterrada pela racionalidade ao longo do tempo[2]. Segundo Greenwood, o “contato com aquilo que ele (Jung) designava por ‘inconsciente coletivo’ – simbolizado pelos deuses – levava ao acesso à sabedoria e à experiência humana universal” (1999, p. 182), a partir da busca a um passado ancestral, marcado pelo mergulho na profundidade daquilo que está entranhado nos aspectos mais profundos da mente.

Gatilho para o mundo do inconsciente...

Bom, se vocês sobreviveram até aqui, esse e-mail é apenas para desejar a todo mundo um excelente Imbolc, com renovação de ciclos! Para quem desejar, basta escrever num papelzinho o que imanta para si e me entregar, pois no sábado irei fazer a tradicional "queima dos pedidos", regada, claro, a muita comida gostosa e o néctar dos bárbaros, pão líquido!

Hey ho!

Sláinte!

[1] Aliás, uma referência de perda de conexão entre o homem e a natureza é expressa pelo próprio Jung, ao mencionar que “acabou-se o seu contato com a natureza, e com ele foi-se também a profunda energia emocional que esta conexão simbólica alimentava”. (1977, p. 95). Essa perda da ligação essencial poderia ser atribuída, em escala de proporcionalidade, ao incremento da racionalidade derivada de um sentido meramente científico, destinado a demonstrações irrefutáveis e absolutas, num Universo que, irônica e surpreendentemente, não se submete ao alvedrio humano, constituindo um vasto manancial de descobertas.

[2] Uma referência sobre a importância dos trabalhos de Jung no campo mágico é feita por Susan Greenwood, no Manual enciclopédico de magia e feitiçaria (Lisboa, Editoria Estampa, 1999).

terça-feira, 27 de julho de 2010

O sacerdócio do tomate seco

O tomate seco caiu no gosto popular, tal qual o catupiry: muitas pessoas fazem, mas, no geral, são receitas em que se utilizam ingredientes de baixa qualidade, comprometedores do paladar apurado do acepipe...

O tomate seco é um rei na culinária italiana, podendo servir de antepasto, integrar saladas ou molhos. Ingrediente indispensável, não pode ser feito de qualquer maneira. É uma arte de 6 horas de dedicação, quer seja fazendo a redução seca com o vinagre em cada metade do tomate, ou, ainda, dosando a quantidade de sal e açúcar que comporão a mistura para distribuir entre os tomates...

Aliás, diga-se de passagem, não se pode fazer tomate seco com o tomate comum, por um motivo bem simples: o comum, o redondo, é tomate típico do Brasil e não agrega a docilidade do tomate italiano - aquele mais alongado. O tomate comum - redondo - é mais ácido do que o italiano, de modo que a redução do vinagre, nele, é mais complexa.

O gosto do tomate italiano é mais apurado, doce. Sem comparação.

Outra questão...

Sem pressa.... Passamos, em média, 4 a 6 horas em vigília, observando a secagem do tomate no forno. Apressado, aqui, come cru, ou, então quiemado e chamuscado. Aconselho, então, abrir uma garrafa de vinho e simplesmente esperar. Estou aqui, nesse momento, fazendo a fornada de tomate seco. Sei que irei madrugada adentro, pois tenho duas fornadas.

O tomate seco rende pouco mesmo, daí, com acerto, o preço de um BOM tomate seco ser alto. Desconfiem do "atacadão do tomate seco" porque acena para a baixa qualidade.

Bom, com base nisso, escolha tomates - em média, 3 quilos para duas fornadas - mais maduros (ficarão mais adocicados). Lave-os e, de preferência, deixe-os na luminosidade para reduzir o agrotóxico (sim, os agrotóxicos condenados no exterior acabam vindo para cá). Depois disso, corte ao meio, perpendicularmente, retirando todas as sementes (que o acidificam).

Disponha os tomates com a casca colada na forma (a boca fica para cima). Pingue uma colher de chá de vinagre (sinceramente? Uso o de maçã porque é mais suave). A seguir, faça uma mistura 3:1,5 de açúcar e sal (3 vezes açucar para 1,5 de sal) e polvilhe em cima de cada tomate.

Os tomates já desprenderão água nesse processo, o que é normal. Forno sempre a 50 graus, mas, se você tiver um forno de mínimo 150, não tem problema, bastando deixar semi-aberto. Daí a missão hercúlea de observar os tomates e retirar a água que brota deles. Se precisar, troque a forma e continue.

Vire os tomates para o outro lado depois de 2 ou 3 horas. Eles ficarão murchinhos, murchinhos, sinal de que a desidratação deu certo. Agora um segredo, desses que não repartimos com quem não é italiano...

A marinação deve ser feita em puro azeite de oliva, extra virgem, de preferência a 0,4% ou 0,5% de acidez. Na abundância do azeite em uma panela em fogo baixo (não frite o azeite!!!) coloque lâminas de alho, ou, se desejar acentuar mais o sabor dele, pique em pequenos pedaços. Coloque o alho o suficiente para perder o ardor, não o cozinhando.

Em uma vasilha, coloque os tomates, molhe tudo nessa marinação e, por último, voilà, coloque muito manjericão e uma folha de louro. Por favor, poupem-me de uma crise de italianização: não se coloca orégano no tomate seco, tá?

Bom apetite!

Porque ele é mais ácido do que o italiano, aquele mais alongado e de gosto mais doce e apurado.

A revoada de idéias nas asas intrépidas de um pardal itinerante

Perdida em meio a tanto concreto acadêmico de métodos, teorias e explicações enfadonhas sobre a simplicidade de uma vida contemplativa, meu dia foi ganho às 09h30min quando fomos subvertidos em sala de aula pela revoada intrépida de um pardal que insistia - E LUTAVA - por sua liberdade.

Voando em círculos, de um lado a outro da fria sala de aula, lembrou-me... de mim, claustrofobicamente compactada dentro das salas secretas de minha psique, tentando, sempre e sempre, encontrar a saída para o mundo de onde vim...

Enquanto batia suas asas, tumulto. Vozes se levantaram. Assovios pretendiam "domesticá-lo" para a pasmaceira de uma rotina de condicionamento. Em vão, ninguém luta contra a Natureza, contra a essência natural que move cada um de nós para o encontro com o divino.

Batalhas travadas com o pardalzinho.

Uns achavam que morreria de tanto bater as asas. Outros, que iria bater em alguma coluna.

Apostas foram feitas, sinas foram absurdamente traçadas. O pardal não tinha mais vida e vontade: era arremedo da potestade dos que se arvoraram no direito de decisão do destino da ave ligeira.

A solidariedade humana tripudiou da inteligência animal...

"Vamos buscar a chave das janelas para soltá-lo" - vociferaram alguns. O eco da liberdade cujo pendão ostentamos com orgulho encontrou, enfim, uma alma que se dispôs a incorporar o desiderato de "soltura" - hahaha. Habeas corpus para o pardal!

O tempo exato em que a colega buscava a chave foi momentum em que a ave inteligentíssima encontrou uma fresta e, com acuidade ímpar, galgou seu voo rumo ao céu absurdamente azul dessa cidade...

Quem sabe, então, essa chave sirva para que nos soltemos de nossas prisões, abrindo nossas janelas para as experiências libertadoras.

Indo e vindo ao mundo para simplesmente...amar!

Um dia escutei que não se vive de amor numa cabana na praia.

Escutei, captei, internalizei e com medo de cada uma dessas palavras, cumpri o script de me empenhar em "ter" o bastante para ir, talvez, a um Resort em uma praia paradisíaca no Caribe, pois, daí, lastreada, o amor não precisaria de muito mais... Ledo engano!

Descobri, aos poucos, que a felicidade de amar realmente está numa cabana à beira-mar. Sim, daquelas, mesmo, choupana, de portas abertas para a brisa, cheia de areia e maresia. Cheirando a peixe, o maravilhoso peixe pescado na hora por quem não está muito aí para os ditames de um mundo louco de aquisição e poder.

Uma cabana interior construída "apenas" (e que apenas) com a simplicidade de se permitir amar incondicionalmente, sem os usuais "mas" que impomos à alma como requisito essencial para sentir. A cabana de se despojar de tudo que não diz respeito ao estado de bem-aventurança contido no que o mar representa - imensidão, democracia, igualdade...

Desde quando "sentir" demanda condicionamento? Quando foi que tripudiaram, assim, da linda música que falava no amor na cabana? Desde quando o mundo virou esse local tão acinzentado, onde, para ser feliz, necessito de uma longa lista de utensílios básicos, todos eles vinculados ao que o dinheiro pode adquirir?

Tantas pessoas ostentam chalés, viagens, ritmos, frenesis, mas, internamente deixam de sentir o amor simples, aquele, da cabana. Talvez, quem sabe, nunca tenha existido tamanha doação, porque dentro de tamanho mar de ilusão gerado pelo comando de uma mente condicionada, supervalorizam aquilo quem em si, nada tem de valor. NADA mesmo.

Qual o valor em um pedaço de lata onde me insiro como couraça, enfrentando espaço e tempo para me deslocar? Afinal, o pensamento e a energia são tão mais rápidos. Qual o valor em cada peça de roupa que ostento para tentar moldar meu corpo ao sentido da dinâmica de mundos que se espera de mim? Muito pouco, pois a casca não revela a alma.

Qual o sentido de me refugiar em meio à desolação de buscar, sem sucesso, algum tipo de fórmula mágica para que possa me adequar ao mundo que me empurra algum tipo de foco, de objetivo? Meu objetivo - único - é ser FELIZ, meu foco, único, é viver cada momento de minha vida como se fosse o último dia nesse plano, aproveitando o que se apresenta para mim diante das escolhas que faço.

Responsabilidade? Obrigação? O que são? Linguagem armada para limitar a alma.

Alma plena, livre, bem-aventurada, não necessita de limitação. "Disciplina é liberdade" - já dizia Renato Russo, sem que fosse compreendido em suas palavras. Obrigações, responsabilidades, códigos, leis, normas, direito, dever, apenas existem porque internamente o espírito não liberto se condiciona a agir em detrimento de sua essência.

Quando agimos na expressão mais pura do que reverbera dentro de nós, não existe fardo algum. Não há responsare, obligatio, porque passamos realmente a enxergar no outro nós mesmos e, daí, tratamo-nos com amorosidade...

Surto psicótico, síndrone de Burnout, bipolaridade. Rotulem como a mente desejar e puder, mas amar na cabana de pau-a-pique é mais sólido do que fingir amar num triplex em Dubai...

domingo, 25 de julho de 2010

A roda do renascimento...


Não chore por mim quando eu morrer, pois ainda estou aqui.
Estarei no verde das árvores da floresta,
Estarei nas flores dos campos,
Estarei no borrifar das águas da praia,
Estarei no suspiro do vento de um dia quente de verão,
Estarei nas águas encapeladas dos riachos,
Estarei na luz do Sol e da Lua Cheia.
Estarei com o Deus e a Deusa para sempre.
E renascerei.”

( CANTRELL, 2002: 35 )

sábado, 24 de julho de 2010

Saramago...

"Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia"

sexta-feira, 23 de julho de 2010

"O mundo está ao contrário e ninguém reparou..."

Talvez, quem sabe, devesse expor o nome do gerente, da socialite e da cadeia faraônica de fast food, tentando, em vão, coaptar almas para um boicote idílico que não passaria de um ou dois dias.

Ou talvez devesse escrever para um grande jornal, expondo a indignação de quem se sentiu solidária diante do sofrimento alheio. Talvez devesse ter saído de um eixo evolutivo e dado vazão ao estado mais animalesco residente em mim como humana que sou.

Talvez, talvez, talvez. São segundos que marcam o talvez - do plano ôntico da existência efêmera num mundo de idéias, e o "ser", lembrando, quase sempre, que são as escolhas, ao final, que trazem a marca de quem desejamos e optamos, ao final, ser...

Daí pensei...

Falar nomes, propalar ira apenas trazem holofotes.

Falar o nome da cadeia alimentar que serve comida de papelão e batata frita que não se desintegra nem no espaço seria contribuir com um marketing para o qual sequer fui contratada.

Falar o nome do gerente também não traria nada além do desemprego, em face da hierarquia bem estruturada em termos de responsabilização causal da "conduta espúria".
Num vasto mercado de CDC, PQP e outras siglas, o gerente ocupa apenas um locus na teia alimentar de tubarões que abocanham o mercado e determinam que o consumidor tem sempre razão, inclusive, razão de ser e em ser um completo idiota sem educação e respeito por outras pessoas.

Calo-me, assim, e deixo para a sensibilidade a elocubração a respeito da lanchonete a que me refiro. Afinal, numa Ilha da Fantasia, qualquer uma das lojas poderia ter sido o cenário desse momento de desolação humana rumo ao completo desrespeito a outro ser...


Além disso, falar o nome da socialite transformar-me-ia em mais uma colunista-alpinista-social-alternativista (algum -ista para marcar diferenças), fazendo o papel de empreendedora de "jabás" sociais, em dissonância ao que minha alma espera que meu corpo faça nessa encadernação de atitudes...

Mas a grande verdade da minha vida - no dia de hoje e na "minha vida do dia de hoje" - resume-se em ter ocupado um camarote de um espetáculo digno do envio de cristãos para os leões, num coliseu onde o escárnio e o desrespeito tomaram conta do teatro às custas da amorosidade.

"O mundo está ao contrário e ninguém reparou?" - revelando os vasos secos de flores que poderiam, mas não forma, plantadas porque as mãos estéreis não são hábeis a acarinhar sequer uma semente... "milhões de vasos sem nenhuma flor". Por que estamos nos transformando em vasos secos, enfim?

Até quando acharemos que o dinheiro na conta corrente é substrato de exercício de sodomia moral em face dos outros? Até quando insistiremos em repetir a mesma frase "eu pago e exijo, sabe com quem está falando?" Até quando a lógica da vassalagem ao vil metal se sobrepõe no respeito ao próximo? Ao bem querer e ao se importar com a afetividade alheia?

Até o momento em que, exaustos e exaustas diante de lutas internas contra os monstros que criamos para nossas vidas, chegamos à conclusão que precisamos amar mais, mudando, assim, o giro de nossas frequências...

Afinal... "amor, palavra que liberta, já dizia o Profeta", grande Gentileza!

Asas e anseios na imensidão


De que vale o sonho de voar se a asa outrora intrépida
não se lança aberta na imensidão do azul?
Se a viagem não se aproxima do Sol como última morada desconhecida
E se Ícaro desiste de se compreender?

De que vale?

De que vale desponta o horizonte plácido,
suspenso na roda do giro de nossas próprias vidas
Sustentado em devaneios que alcançam a alma como a única certeza...

De que vale?

De que vale o desejo de se lançar ao mar incauto
se o medo das ondas retira o último suspiro de coragem?
Se a doce presença da solidão verde-esmeralda do oceano
abraça e chama para o mergulho em si...

De que vale?

De que vale tanta coragem
se o vôo é solitário até o azul que pretende, um dia, fazer-se lilás?

De que vale?

De que vale rodopia Fernão, imerso nas brumas de seus desafios internos
bailando em melodiosas vestes
Mergulhando, ávido, rumo à sua sina?

De que vale?

De que vale vale o grande vale da vida que se esvai em si e se liberta para tantas outras vidas...
Eis o vale, o segredo, o vale lânguido da certeza de amar e se lançar
Rumo ao infinito preso em si na plenitude de tantas
possibilidades...

quinta-feira, 22 de julho de 2010

I Feira de Troca de Saberes da Economia Solidária e da Agricultura Familiar

Nação egotrip...fàilte, lads!

Estou encaminhando para vocês a divulgação da I Feira de Troca de Saberes da Economia Solidária e da Agricultura Familiar, um evento muito diferente, com pessoas e idéias diferenciadas sobre todas as mudanças de perspectivas e paradigmas.

Bem típica do momento de transmutação em nível de imeginário e inconsciente coletivo. Não é bem uma feira na exata acepção do rótulo usual, mas uma confraternização entre pessoas com visões de um mundo em transição.

Será nos dias 31 de julho e 1 de agosto no Clube da Imprensa.

Haverá às 18h00m do sábado uma prática de yoga, bem light, para ativar a conexão. Depois terá forró... No domingo haverá uma roda...enfim!

Sugestão trascendental! Levarei meu unicórnio!

terça-feira, 20 de julho de 2010

Fàilte, Plenilúnio em Aquário!


Fàilte, Plenilúnio!

Dia 25 de julho, 22h37min, a lua estará fora de curso entre 11h20min e 14h37min. Depois a Dama Plena entrará na egrégora de Aquário, na energia de vanguarda, de sociabilidade e excentricidade! Hey ho!

A Lua Cheia marca o apogeu dos projetos semeados durante a fase nova. Na triplicidade sagrada, é a mulher madura, segura de si, saída da mocidade, mas ainda no caminho da Face-Deusa-Anciã.

A Deusa está fecunda, plena si e grávida de idéias, projetos e sonhos. Em aquário marca a originalidade, inventividade (boa para criação, gestação). Amizade, humanitarismo e gentileza são regidos por esse trânsito!

Boa para trabalhar a intimidade, o acesso ao compartilhamento de fraternidade, solidariedade...

Vamos celebrar a noite de Plenilúnio!

Sláinte!

O dia em que a Lua encontra o Sol


Já repararam que nessa época do ano sempre desponta a Lua em pleno dia? Ela divide a atenção de quem está à procura do Astro-Rei, lembrando da possibilidade de coexistência de dissensos e se harmonizando ao Sol e ao céu.
Um dia está nova, outro crescente, cheia, sim, quem sabe e, bem, minguante, a rainha Prata está lá no meio do céu para quem quiser fitá-la.

O céu, morada dos deuses, passa a abrigar, então, a confluência de um mundo que cintila em uma oitava harmônica, servindo, talvez, quem sabe, remotamente de exemplo para quem não sabe, sequer, o significado de coexistência, de pluralidade, de harmonização.

Lua e Sol, juntos, compõem o trânsito de complementaridade que nem sempre conseguimos alcançar como materialização dos anseios da alma. Mas basta mirar o Casal Sagrado por alguns momentos, para fazer reluzir a centelha preciosa da entrega à crença em relação a isso.

Somos todos Lua e Sóis que estão aí, espargidos e espargidas por esse mundão afora, repletos de experiências e compartilhamentos para serem trocados.

domingo, 18 de julho de 2010

A ancestralidade e os sagrados segredos herbais


Cresci observando minha cuidadosa mãe em sua herbal alquimia, afirmando ser a cozinha o coração da casa, numa representação simbólica e factual do eterno centro provedor da vida, já que é o local de preparação do alimento tão bondosamente doado por Gaia.
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A agilidade com que ela preparava a mais saborosa refeição, usando sempre ingredientes frescos e enfeitando com amor os pratos, deixavam-me com ansiedade para a chegada das refeições.

Isto, sem falar na agregação de pessoas em volta dela, pois a cozinha sempre foi o local de agradáveis bate-papos, enquanto ela socava massa de pão ou fazia bolo, numa maestria onde a mais simples comida transformava-se em um manjar, a exemplo do guisado de carne moída com canela![1]

Em datas e ocasiões comemorativas – mais freqüente das que constam no calendário juliano – ela enfeitava a mesa, ornando-a com velas, trigo e flores, numa celebração à vida e a tudo que ela proporciona. Uma bruxa tipicamente alquímica, engendrada a partir das entranhas de Deméter nutridora, ou, ainda, uma Cerridwen conhecedora dos segredos da natureza, passados adiante apenas pela observação... Eis o primeiro sagrado segredo a se revelar!

Com todas essas lembranças ainda bem vívidas à mente, minha formação “herbolária” não poderia ter sido de outra maneira. Assim, quando se fala em ervas, logo penso na facilidade com que minha mãe estava sempre a especular e aplicar seus remédios caseiros, conversando comigo sobre as propriedades contidas em cada uma das ervas em nosso jardim.

Minha mãe tinha uma loja de produtos naturais, nada mais “ancestralmente” mágico do que um lugar cercado por aromas, cores e energias entre-mundos. Um mundo de desnudamento dos segredos mais ocultos de nossa herança se concretizava no porão, local onde a magia tomava conta da atmosfera, trazendo à tona a explosão de sabores que somente Lígia Maria poderia saber conduzir em sua orquestra.

Com isso, cresci tomando chá de limão, alho e mel para gripe, usando o gengibre para a garganta, bem como a canela para a cólica menstrual e regulação do fluxo. Aprendi que alface é excelente calmante, a maçã, adstringente e o alho, um poderoso agente anti-infeccioso.

Bom, morando sozinha já algum tempo, meu relacionamento com as ervas tem se consolidado a cada dia por meio de novas descobertas, movidas à intuição, paixão e experimentação. Primeiro, porque aprendi a cuidar de minha herança, uma spatifillus[2], que recebi de minha mãe quando ela se mudou para Natal, aprimorando-me, assim, na “arte de ser cuidadora”, de me vincular, numa teia, ao mundo. Ao pequeno grande mundo que a Natureza rege do topo da escala evolutiva. Segundo, porque a culinária falou mais alto, no que diz respeito ao preparo das ervas a serem utilizadas, bem como à combinação mágica que deve ser feita para cada motivação a ser trabalhada.

Assim sendo, meu primeiro contato com as ervas veio da necessidade de alcance de combinações de forno e fogão, pois tinha – e, de fato, ainda tenho – desconfiança em relação aos temperos prontos. Passei a observar a textura, o gosto in natura, estudar as propriedades terapêuticas e mágicas de cada erva, tentando aprender o que estava latente nas plantas ao meu redor.

Acredito que a Natureza contenha simbolicamente a destinação de suas plantas e ervas. O espinho, por exemplo. Nada mais protetor do que uma planta que contenha espinhos, justamente porque o espinho é o instrumento intrínseco na planta em se defender dos predadores.

Outra percepção sobre isso relaciona-se ao sabor picante contido em determinadas ervas e alguns sabores, que podem ser direcionados tanto para bruxedos de proteção, como, também, para incrementar relacionamento. É o caso da pimenta, pois a latência com que está disposta a arder proporciona, de um lado, a defesa natural, como, de outro, o consumo em ardente fogosidade, hábil a acalentar os desejos mais profundos dos fogosos amantes. Simples, é intuitivo.
Antes, achava bem prático ir a um supermercado e comprar tudo pronto, ensacado ou enlatado. Mas, na medida em que passei a me conectar mais com a Natureza e a eco-sustentabilidade, passei a vivenciar a bruxaria como um caminho ritualístico a ser percorrido, onde cada etapa extrai de nossa entranha o conhecimento, o sagrado e o mitológico.

Tenho espaço no jardim, que divido fraternalmente com duas composteiras, bananeira, mamoeiro, jardim de ervas medicinais e, claro, minhas queridas jardineiras de temperos! Passei, então, a utilizá-lo melhor, plantando algumas ervas para usar na culinária.

Além disso, decidi fazer a secagem artesanal de alguns temperos, procurando-os nas famosas feiras-livres, os centros inenarráveis de descobrimento da magia! A desidratação natural é uma técnica antiga que preserva parte da vivacidade e do poder ativo da planta, bastando, para tanto, esfregar a erva antes de usá-la para ativar o aroma e o sabor.

Aprecio bastante um bom maço de alecrim, manjericão - e sua prima manjerona - hortelã e arruda, considerando o conjunto uma equipe básica de atuação. Prefiro sempre os maços reluzentes, com o aroma bem marcante, pois é indicativo de frescor da erva. Como os maços geralmente vêm enrolados em um cipó ou liga, sendo molhados para não perderem seu cheiro, a primeira providência a ser tomada é lavagem do maço e a primeira secagem das folhas, abrindo-as para que não apodreçam.

Retiro o cipó, lavo bem em água corrente e tomo a cautela de fazer a higienização com vinagre de maçã ou limão, na razão de uma colher para cada meio litro de água. Não tem problema em relação a qualquer alteração no sabor, porque a erva poderá ficar até uns dez a quinze minutos submersa, podendo ser lavada depois.

Em cima de uma toalha, inicio minha meditação, agradecendo aos Deuses o provimento do sabor da comida que irei ingerir. Acendo um incenso, ou, ainda, um aromatizador, preferencialmente com um aroma mais neutro, para não confundir com o cheiro da erva fresca. Não vejo sentido em fazer um fumacê, sob a desculpa de consagrar a erva com outra erva, pois acho que perde o sentido da consagração que pode ser feita aproveitando a destinação atribuída à planta.

Ao som de uma boa música, em harmonia, começo a separar os maços de ervas secas, amarrando os tufos com uma linha representativa do que pretendo catalisar com a folha. Usualmente amarro todas com linha verde, a cor da fertilidade que desejo atribuir ao efeito da erva.

Depois da “amarração”, cada maço pode ser pendurado no alpendre, ou na própria cozinha. Não tenho hábito de pendurar as ervas na cozinha para não confundir o aroma da planta com o que está sendo preparado. Frituras e plantas não combinam, em definitivo!

Disponho os maços na varanda de casa, perto da luminosidade, mas não os coloco em contato direto com o sol, pois, caso contrário, queimam rápido e perdem as propriedades. Importante e curioso: bichinhos (moscas, aranhas) não chegam perto se você pendurar a arruda ou a hortelã junto com os demais temperos.

Depois de uma semana temos um tempero MARAVILHOSO. Bom apetite e bons bruxedos!

Se o mundo se esbaldasse numa grande dança...


Ontem o itinerário foi a dança...

Do Olimpo, fomos brindadas com a expressão etérea de Terpsícore, flutuando em meio a brumas de pura entrega a uma dimensão maior do próprio corpo. Dançar liberta, subverte e desaliena o espírito dos condicionamentos que o cotidiano traz para cada uma das célula.

Pouco a pouco o corpo se desprende da armadura construída ao longo de tantos anos de aviltamento para se projetar rumo ao bailado sincrônico da dimensão de leveza com que a melodia nos guia.

O infinito, então, passa a ser o aqui e o agora, disperso na efervescência de uma revoada: nossos pássaros libertos, enfim, rumam para o horizonte, no balé da contingência, que insiste em nos libertar e, temerosos, insistimos em dele fugir.

Pessoas, pluralidades... Essências, efemeridades. Divergências, diversidades!

Quanta democracia anônima estava presente numa arena em que não existiam batalhas. A sórdida catalepsia beligerante cedeu espaço, enfim, para a coexistência pluralista...
Nobres, pobres, ricos, diáfanos... Todos sendo um só coração!

Quanta dança Terpsícore nos permite em seu gingado existencialista! E nós, plenas e dadivosas, rendemos graças à grande deusa, etérea e eternizada em nossos corpos... que bailam, sob o som do rufar de nossos próprios corações!
A abóbada celestial, com a alvorada, trouxe a cortina encerrando o espetáculo que, dali a pouco, começará em outra temporada!

sábado, 17 de julho de 2010

Do alto de Alto para o alto da alma...

"Amor igual ao teu eu nunca mais terei, amor que não se pede, amor que não se mede, que não se repete" - com essa frase inscrita em meu coração, voltei de Alto Paraíso na companhia de uma pessoa muito especial em minha vida, cuja presença física há 20 anos não encontrava minha limitação corpórea...

Mero detalhe, pois, ao final, as almas - que sempre estiveram unidas pelo condão do mais puro amor ágape - encontraram-se, porque, de fato, nunca se apartaram. Quando existe a afinidade do olhar que não necessita uma só palavra para traduzir a linguagem do espírito, é amor, e desse que não se repete...

20 anos... Quanto se passou? Tantas dores, tantos amores, inúmeras cores que sempre foram trocadas, em memórias que extrapolam a vaga sensação da circunferência que separa o ser do infinito. Cartas, telefonemas, pensamentos. E, ao final, encontros que selaram, bem no fundo do peito, a pontada deliciosa da esperança de, um dia, nos reencontrarmos.

É o giro dessa roda mágica que marca a espiral de um local sem tempo certo ou definido, inserto apenas (e tanto!) na sensação de completude que sai de uma alma e toca a outra. Nesse giro completo de tantas rodas, o amor se renova e transpõe todas as ilusórias barreiras! Quão efêmeras são as barreiras para um coração andarilho que sabe de si e do seu infinito potencial de amor incondicional, que alcança as estrelas e tange, com a marca do reluzente sentimento, quem se dispõe a vibrar em uma mesma sintonia.

Encontros que mudam a vida das pessoas em um átimo de segundo... A presença avassaladora que lembra a hora de ressurgir, firme, forte, no caminho da auto-realização, da contemplação do Todo em cada um ou uma de nós. A presença marcante de um ser a quem simplesmente amamos porque, ao final... não existe razão. Não existe porquê. Amamos.

Incondicionalmente...

Essa foi uma das mais inesquecíveis semanas que marcam, doravante, o resto de minha trajetória, trazendo a marca da eternidade presente em cada recordação, em cada lembrança vívida dentro do coração que pulsa, a toda prova, mesmo diante das incertezas que compõem a falsa sensação de segurança.

Grata ao todo, à Grande Deusa!

Hey ho!

terça-feira, 13 de julho de 2010

Compromisso com a felicidade

Sonhos...

Todo mundo sonha e, em cada projeto pessoal, o interessante seria agregar um pouquinho da grande marca de ludicidade, para que a vida possa adquirir um colorido ímpar de "executoriedade" e se revelar producente e fecunda em termos de realizações.

Diante disso, já ouvi muita gente dizendo não ser possível a realização plúrima e integral do ser. Preciso, então, contentar-me com a mórbida idéia de "ser feliz por etapas e compartimentos estanques" de minha vida, pois, segundo consta no senso comum, a auto-completude é impossível. Feliz na profissão, infeliz na saúde, infeliz na profissão, feliz na afetividade, estruturas binárias de pouca inventividade que selam o destino da humanidade em meio a uma crise motivacional.

Felicidade aqui, infelicidade acolá. Sempre surgindo e desaparecendo, pela completa impossibilidade de se fazer onipresente em todos os departamentos da vida.

Em meio a essa análise combinatória de apenas duas vias - feliz/infeliz - parece que o viver adquiriu um determinismo lírico, a partir do qual somos todos e todas colocados em "quartos" sem janelas para o horizonte, reduzidos e reduzidas em pessoas sem muita opção de vida, a não ser escolhendo qual o destino fatal de nossas felicidades inexoráveis e excludentes. Felicidade excludente? Ué, infelicidade!

Surpresa! Existiria, então, assim, uma "felicidade por etapas"? Vinda de conta-gotas, com a materialização de apenas um, dentre tantos sonhos que trazemos?

Claro que não, pois felicidade é estado de completude em bem-aventurança, a calmaria existencial interna em meio ao turbilhão conjuntural da alteridade...É sonhar e realizar cada um dos anseios mais ocultos presentes em nossa ânsia de viver. É se lançar, sem medo, rumo a um caminho que teria tudo para ser o completo desconhecido, se não fosse o mais seguro dos caminhos em nossas existências: o caminho da alma, do coração.

É se auto-realizar, enfim, não da junção de partes e fragmentos externos, tal qual um quebra-cabeças onde encontrar a peça mais difícil torna o montador uma pessoa mais "competente". É, enfim, o maravilhoso clichê da "permissão" interna que vem da consulta ao coração que deseja simplesmente se lançar!

O que desejo verdadeiramente?

O afã do momento é o abandono da casca. Uma sensação de inadequação a uma rotina de vida que massacra, viola e denigre a alma, sucateando-a com conceitos e pré + conceitos sobre imutabilidades avassala o homem e a mulher pós-modernos...

Se escolho um caminho, TENHO QUE segui-lo até a última gota de sangue meu se esvair ou, talvez, transmutar para pó. Mesmo que a escolha do caminho, em si mesma, já cumpra essa missão ortodoxa de aniquilamento do espírito.

"Tenho que"? Tenho que trabalhar, tenho que estudar, tenho que isso, tenho que aquilo. Nada mais exprime o anseio incondicional da alma, mas, antes, um rigoroso sistema de autofagia, dentro do qual o sucesso social é a meta, mesmo diante da morte interna e do insucesso no encontro com nossas essências.

Isso quer dizer, em linhas gerais, que, eu poderia até me deprimir ou entristecer, mas preciso ganhar rios de dinheiro violentando-me num trabalho que detesto, porque, dali adiante, poderia "curtir a depressão" me divertindo em meio a Prozacs, marguerittas e tortillas em Cancun.

A partir do que? Da falsa sensação de certezas efêmeras de ciclos que artificialmente são imutados a nós. Somos chipados e chipadas com uma série de falsos clichês, apontando sempre um "chão", onde, na verdade, nada mais existe a não ser areia movediça.

Por que transformamos o chão em areia movediça? Por que sempre achamos que pisar no desconhecido é algo tão inseguro para a alma que desejamos concretar tudo à nossa volta? Afinal, na areia movediça, quanto mais nos movemos, mais afundamos. Quanto mais relaxamos e respiramos, seguros e seguras, mais para o alto nos direcionamos.

É um percurso de despojamento a bem-aventurança no caminho da felicidade. Despojamento de si, bem como despojamento de valores que não representam nada além de pura ilusão.

Nossa, a felicidade é tão mais simples!

É tão menos complexa! E tão paradoxalmente inalcançável quando nos programamos a seguir como gados a rotina de uma vida repetitiva, uma saga interna de acomodação. Sacudemo-nos, então, tirando o pó que insiste em povoar nossas almas. Escolhamos caminhos de felicidade e realização honestos e sinceros! Sejamos honestos e honestas, a cada dia, na frente do espelho, indagando: "qual é o caminho que desejo seguir"?

Essa pergunta marcará a diferença sempre que conseguirmos superar os monstros internos e apascentar os fantasmas, para, a partir de então, seguir na REALIZAÇÃO.

REALIZAÇÃO interna de harminização da alma, eis um segredo, dentre tantos, para se alcançar uma meta...A meta...A única meta que é viver. Ponto.

O que me realiza?

Do que gosto?

Estou feliz - verdadeiramente - feliz?

Primeiro passo...O segundo, por certo, é perseguir a resposta desse enigma. Difícil? Quem sabe? Mas edificante. O que se ganha, ao final, é a certeza de cumprir uma vida com a consciência da plenitude de haurir dela a essência. É o que vale.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O entardecer violáceo de Brasíla

O horizonte do cerrado em plena seca desponta sempre majestoso, brindando a humanidade desatenta com uma característica que paisagem alguma outra pode pretender ostentar: a tonalidade violácea acenando para o esvair do dia.

Ao mesmo tempo, ao fundo, em fulgurante vôo, atravessa galáxias de estrelas natimortas para abraçar os ipês com uma explosão infinita de cores, lembrando a todos do sono profundo contido em cada pequena morte de entardecer.

Superpostas em sutis camadas sem limites certos a compartimentar as diferenças ilusórias, lembram-nos das coexistências contidas nas matizes de diferença que compõem a vaga sensação de identidade...

Identidade ou Diferença?

Não importa mais, pois, uma a uma, as cores da paleta deste vasto céu de cerrado dão-se as mãos e bailam, numa ciranda de grande giro, confundindo-se umas com as outras em seu ávido desejo de se entregar! Quem sabe, pois, ao final, tudo não passa a ser um grande lilás onde as nuances nele se perdem para se encontrar, noutro momento, na morte de mais um dia.

O lavanda encontrando o rubro.

O lilás beijando o dourado.

O violeta tímido que inicia a dança cálida na própria aquarela, para se encontrar na profusão do vermelho sibilante que aquece sem pedir permissão.

As cores do céu em um dia lindo de entardecer se fundem e se esquecem, cada uma, de sua efemeridade identitária...

Somos todos um grande coração que pulsa, radiante, num grande lilas...

sábado, 10 de julho de 2010

Deixando o passado no passado?

Costumo sempre ouvir pessoas dizendo, aos quatro cantos, que "o passado de ser deixado para trás"... Acho de uma evolução muito grande essa assertiva, se não fosse leitora ávida de Nietzsche, para quem boa parte dos enunciados morais são passa de uma abobrinha que algum arrogante definiu a priri, sendo imitado pelos demais, que o legitimam no monopólio de dicção do que é certo, belo ou justo.

O passado não é deixado para trás porque compõe visceralmente as marcas de nossa trajetória. Cada dor, cada amor, em cada atropelo ou êxtase, marcamos indelevelmente a alma de do conteúdo emocional que se revela por trás de cada episódio de nossas vidas.

Passado compõe a linha paradoxalmente a-temporal de nossas vidas, encontrando-se com o aqui e o agora, quando nossos processos internos, emocionais ou afetivos, encontram-se em pleno vapor. Quando reminiscências acendem as fagulhas.

Portanto...olhemos para trás...

terça-feira, 6 de julho de 2010

Um olhar...

Basta um olhar e o ego se desmantela...

Toda aquela "pompa" da capa de proteção que vestimos para que "o mundo não nos fira" cede espaço à singeleza que reside em apenas UM OLHAR.

É o bastante para trazer a lembrança de que amar é muito mais do que a egolatria de se "assenhorear" de alguém... É extrapolar tempo, espaço e escolha para, um súbito lance, lançarmo-nos numa a-temporalidade akáshica e, com isso, transcender os limites do corpo e da mente.

Não se torna mais necessário falar, escutar, abrir a boca. Nem é necessário tocar...

O olhar penetra, paradoxalmente refrigera a alma de languidez ímpar e acalenta o coração, alimentando a chama sagrada que sempre está ali.

Um olhar, enfim, diz muito mais do que palavras que voam e se perdem na lembrança...

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Os ipês florescem no inverno...

Fonte da imagem

Brotando da terra semi-árida surge o milagre em meio ao horizonte queimado pela seca: para onde quer que a vista se volte, de todos os lugares despontam pontos roxos, lilases e violetas.

Época dos ipês-roxos florescerem aqui e, com eles a necessidade de desaceleração de toda a vida agitada que levamos para contemplar o recado que a Natureza insiste em dar para uma humanidade tão tumultuada internamente.

Tenho andado num contínuo processo de somatização e, com ela, veio uma sequência de pequenas indisposições virais que me colocaram "de cama" e "nocauteada"... De início, achava que seria muito desagradável ficar "acamada" e "olhando o teto" enquanto se trava uma batalha interna entre leucócitos e vírus pela minha alma, ao mesmo tempo em que me prostro a refletir sobre os processos internos de conflitos que necessito enfrentar por agora.
Ficar de cama, contudo, acabou agregando a minha vida muito mais do que um preconceito de me julgar na mais pura ociosidade e no descompromisso com a "responsabilidade": trouxe a calmaria de encontrar minha essência desacelerada em meio a tanta agitação. Com essa certeza movendo minha alma, saí da cama para comprar meus remédios...
Sim, claro, remédios, ou, prefiro dizer, verdadeiras fontes de cura plasmadas nos sagrados alimentos que usualmente TAMBÉM não temos tempo de contemplar, muito menos de agradecer como dádiva. Hipócrates dizia "que teu alimento seja teu único remédio", lembrando-me da alquimia secreta contida na sabedoria da alimentação.
Fast food, dentro desse paradigma, nem pensar. Necessito parar tudo/nada que faço para ritualísticamente olhar meu alimento e prepará-lo amorosamente para mim. Esse sentimento não poderia encontrar em qualquer esquina ou restaurante.
Ergui-me, então, para buscar shitake, brócolis e gengibre, fontes ancestrais de recomposição imunológica para o organismo. Lancei-me, enfim, mais uma vez, no desconhecido imaginário urbano, meio zonza com o efeito da batalha campal dentro de mim...
Esse impulso, porém, resgatou mais uma lembrança que estava latente em meu universo: a recordação de serem exata e pontualmente nesses ditos "momentos de ócio" que a vida se mostra como ela é, sem a rotina de um dia-a-dia que avassala a alma e nos impele para uma jornada robótica de trabalho alienante de nossa energia.
Foi assim que me vi em pleno Planalto Central semi-árido imerso nos tapetes celestes da maravilhosa aquarela de ipês-roxos que invadiram a cidade...
Daí, enfim... A hecatombe nuclear de meus conflitos!
Passamos, digamos, 50, 60 anos vendendo mão-de-obra para alimentar uma cadeia produtiva de serviços e produtos de consumo em larga escala, poluindo o meio ambiente e não usufruindo da mais-valia que docilmente alienamos, quer seja para o burguês-empresário, ou, ainda, para o Estado (esse, sob a desculpa fajuta de sermos servidores do povo. Que sejamos, mais a noção de alienação no expediente de opressão é a mesma: arranca-nos da alma o vigor de viver).
Batemos no peito, seguros e seguras que nossa boa colocação no concurso nos dará a Meca da auto-realização, porque, dali em diante, poderemos comprar, comprar e comprar. Estudamos e nos matamos 12 a 14 horas na expectativa de aprovação em requintados concursos, viramos "concurseiros e concurseiras" cujo vocabulário de vida passa a se resumir em fórmulas e "decorebas", resultado de um adestramento bem-sucedido numa salinha de cursinho qualquer.
Quando tomamos posse, tiramos, orgulhosos e orgulhosas, fotos com a família, prometendo mundos e fundos, porque, agora, "o dinheiro vai dar". Ficamos anoréxicos e anoréxicas, colocamos silicone e botox, apenas porque desejamos, de posse do "vil metal", a aceitação social, pretendendo exterminar nossa diferença na padronização tosca de uma uniformidade cuja regra não sabemos quem definiu (ou sabemos?).
Recebemos o salário no quinto ou décimo dia útil, vamos, em fila indiana, ao supermercado, que se tornou "programa e lazer" (?). Levamos até nossas crianças para esse "programão", dizendo, por via indireta, "vá, filho ou filha, comece, desde já a internalizar a automatização e perca a consciência em relação ao mundo". Estabelecemos, então, pouco a pouco, um verdadeiro expediente cultural de reprodução automática de comportamentos, apenas porque "todo mundo faz", ou, pior, "isso é natural".
Sem saber, aos poucos, nossa alma divina se entorpece e enebria em meio a tanta Matrix. E, ao final, a couraça se cauteriza, fazendo com que a fluidez interna ceda espaço para a programação cibernética de nossa vida...Só que não somos máquinas!
A rotina robotizada cega, fere e avassala a alma sensível, acelerando átomos e exercendo pressões insuportáveis na alma humana. "O trabalho dignifica a alma", esse é o lema... resta saber qual é o tipo de trabalho a ser realizado sem que seu sucesso ocorra em detrimento do sangue de quem lavora.
8 horas, 10 horas, 12 até de uma jornada de exaustiva rotina... Jornada? Dará onde? Numa "confortável vida"? de qual vida estamos falando? Qual o sentido do viver nesse Planeta às custas da saúde e da própria vida em si, sem a máscara do "trabalho escravo".
As relações humanas estão mudando e, com elas, a necessidade de se realocar a concepção de trabalho para uma forma dinâmica, que possibilite o usufruto de mais horas de "lazer contemplativo", de pura qualidade de vida, do simplesmente "não fazer coisa alguma".
Mas, na dialógica capitalista neo-liberal, culpamo-nos muito e nos auto-titulamos "vagais". "Ih, hoje fiquei no ócio, sou uma vagabunda mesmo" - voriferamos para nossas sucateadas almas perdidas no limbo do sistema em relação ao qual nos sentimos desconfortáveis.
Não quero mais somatizar meus conflitos de ócio... eis-me aqui vivendo dias de puro deleite, estudando, lendo e, com prazer e muito conforto, dispendendo parcela (e não toda) da minha energia com o ofertamento de meus préstimos. Não vendo mais minha mais-valia... Não cedo mais meu sangue.
Mas, para isso, preciso prestar muito mais atenção aos ipês-roxos que outrora via de relance de dentro de uma sucata...


quinta-feira, 1 de julho de 2010

Sem medo de se lançar!

Tenho muitos medos... Medo de andar de avião, medo de rato (esse é recente, descobri agora), medo de morrer, de perder entes queridos... Medo de ficar sem os gatos e o Mel, medo de fracassar. Ah, tem o medo de ficar com a geladeira vazia.

É uma lista ampla, mas, apenas para que possa compartilhar parte dos meus medos, postei alguns deles aqui, ao mesmo tempo em que descobri, por outro lado, alguns atos de coragem...

Dentre eles, lançar-me em inúmeras aventuras!

Ao invés de ponderar ou refletir nos momentos em que dá um frio na espinha, lancei-me rumo a horizontes nem sempre definidos ou conhecidos. Quem conhece o que, afinal? Não importa... É importante se lançar, o primeiro passo para se descobrir quem se é...

O Louco no tarot confia na ancestralidade e no instinto... Solta-se e voa, planando por sobre as possibilidades ainda desconhecidas. Não importa. Importa apenas não ficar parado.

Fim do mundo, Armagedon, Kali Yuga e plic-ploc

Gosto de todas as visões armagedônicas oferecidas pelas religiões esparsas no mundo, porque NISSO - exatamente NISSO - existe um coro uníssono, entoando que "algo irá acontecer" (haha, sempre algo está acontecendo, mas, enfim, é outra conversa) e que "um ciclo irá se fechar". Minhas esperanças de "somos, enfim, todos um" encontra alento nessa perspectiva de co + incidências sobre as expectativas de cada nicho religioso para um "fim do mundo".

Identifico-me, porém, com a noção de "ruptura" quântica: um elétron recebe um "quanta"- ou pacote - de energia e, diante de miulhões de possibilidades para se manifestar em vários lugares, "escolhe" um em parceria com o observador que o analisa. Daí, recebido o impacto do colapso de onda quântica, o elétron escolhe para não mais se adequar ao subnível de energia.

Isso é evolução em nível atômico.

Para o que está acontecendo (tudo sempre está acontecendo) - penso - acontece o mesmo...

Estamos todos e todas imersos em possibilidades de colapsos, acompanhando a transição planetária e dos eixos da Terra. Mas, para quem não está sensível aos novos rompimentos, a lógica é a da truculência mesmo.

Aliás, a máscara das instituições e das pessoas que dela fazem parte está, pouco a pouco, caindo: as pessoas que têm presença de espírito em conformidade com o novo milênio ficam (o ficar, aqui, é no sentido de "estar em si", no eixo de equilíbrio interno, mesmo diante do aparente caos), para a construção de um mundo novo; as que vibram ou representam o paradigma decadente são expurgadas numa autofagia avassaladora (loucura, violência, desrespeito, sofrimento consigo).

Dentro desse mundo novo que se abre, onde estamos?

Mais especificamente, onde está o conflito dentro de nós?

No "ego pula-pula", a porção temerosa em termos do crescimento. A máscara que está sendo confrontada na abertura de nossos zíperes.

Todos e todas estamos abrindo os zíperes da vestimentas incômodas que não comportam mais nossas essências, mas, para trocarmos de vestimentas, precisamos, NO'MÍNIMO, olhar para as que trajamos e observarmos que estão "fora de moda" no CFW (Cosmo Fashion Week).

Por sobre o zíper existe sempre o ego saltitante, que não deseja romper com nada disso, porque acha que ficará só. Vem o medo, a ansiedade, a frustração, enfim. Quando nos deparamos com reações em face dos outros é isso: estamos nos deparando com os egos pula-pula dos outros, em oscilação harmônica com os nossos, em afinidade.

Como aprender com isso? Simples, um exercício de fenomenologia: saindo de si e observando um sistema "outro-eu", a partir do "enxergar a si" em várias dimensões (sua posição social, política, econômica, religiosa, enfim, seu locus)

O que tomo como exemplos mais imediatos - por fazerem parte da minha vida - são o Judiciário, a academia, as instituições religiosas e as relações inter-subjetivas homem e mulher. Sobre as últimas já fiz muitos comentários, de modo que irei me concentrar nos três primeiros itens consolidados.

Muito simples observá-los no "stand by" da fenomenologia: basta deixar sua intuição (intuição aqui na acepção científica de treinamento de campo, a partir da sensibilidade) ir na frente a partir do foco que mais atrai toda a rede hidropônica de ignorantes jurídicos: PODER.

É um exercício de tentar "ver além": todos e todas podemos e conseguimos fazer isso. Um novo mundo se abre quando olhamos com "o olho invisível" o código binário que movimenta todo esse sistema.

Amit Goswami (A física da alma e O universo autoconsciente) e Depak Chopra (A cura quântica) fazem menção ao "colapso quântico": somos previsíveis porque estamos desacordados para nossa capacidade de extrapolar os limites da mesmice existencial da matéria, mas, ao nos permitirmos vivenciar experiências de saltos, passamos a produzir em nossas vidas "milagres", que nada mais são do que os saltos quânticos...

Quando damos saltos, porém, o ego (lembra dele?) quer saltar também, quer pular para não ficar só. Por isso que o ego evolui também na sabotagem diante da evolução de nossa trajetória.

Exemplos? Nossa, vários...

Coexistência de egos que se encontram, identificam-se, vêm e vão... Tratam-se "bem", mas, ao menos sinal de descontentamento ou frustração, "alfinetam-se". É a conversa fiada do "amor que acaba" (hehehe, a confluência dos egos é que desponta!!!). Nossos "encontros de alma" (rotulamos em primeira mão para nos sentirmos seguros e seguras) que revelam, de vale-brinde, o "encontro de egos".

Nesses encontros egóicos fluímos, seguimos a "onda", mas, em dado momento - geralmente naquele em que a consciência rompe e observa o ego sendo "mala-sem-alça", a beligerância se instala entre nós. Magoamo-nos uns aos outros (ou umas às outras) e ficamos nas tentativas e erros, testando-nos mutuamente.

Isso é fazer parte de um Universo de causa e efeito de verdade! O resto é conversa fiada.

Eis a minha bronca com instituições religiosas de matiz cristã (todas, sem exceção): não reformulam hipóteses e não se oxigenam para unificar mente e corpo.

E, além disso, trabalham no paradigma de culpa, mesmo falando em não-culpa (jogo dos 7 erros: qual o ponto em comum entre essas duas frases: a) tenha culpa, irmão; b) não tenha culpa, irmão?). Para bom ou boa entendedor(a)...

Falam muito em tratamento, caridade, mas não colaboram para o acesso individual às mazelas, que são colocadas na masmorra e pretensamente superadas (são recalcadas) pelos atos de cáritas e estudos de convencimento racional.

Difícil? Não, é dolorido...

O discurso "racional" das "filosofias" religiosas (principalmente a partir do final século XIX, em que alguns gatos pingados vão ao Oriente e se descobrem umas toupeiras) é montado para "enganar" - infrutiferamente - o ego inteligente e fazê-lo - na porrada - apreender algo que não apreende porque é necessário autocompreensão, auto-cognição e disciplina de si.

Essa foi a "novidade" percebida no Oriente e "trazida" para cá... Meditação, chackras etc. Só esqueceram de trazer a superação do paradigma da racionalidade, óooooo!!!!

Daí, tal literatura é digerida como novidade, mas conflita com o mundo desconhecido da psiquê. Ao final, é um superego, novamente, ligando todo mundo... Enquanto está todo mundo achando que está se descobrindo, na verdade, está todo mundo se mascarando. hehehe, enfim.

Mas, voltando e, agora, passando ao Judiciário, que é naturalmente o palco mais visível dessa ruptura porque institucionalmente agrega a consolidação - em rede - de vários egos agindo no inconsciente.

Existe um inconsciente institucional a criar e manter os modelos de austeridade e castração para que essa 'coisa' permaneça em pé. É da natureza do superego (castrador) traçar limites para que possa existir, caso contrário, deixará de existir no mundo e, mais uma vez, sendo parte do ego, teme, tal qual Cronos e Zeus, lembram? Cronos engoliu os filhos porque temia que a profecia de ser derrotado por um deles se realizasse... hehehe, colapso quântico, pois ele criou a realidade e foi, mesmo, derrotado porque sibilou em harmonia com seu mantra pessoal "serei derrotado, serei derrotado, serei derrotado".

Assim, galera, aguentemos um pouquinho mais, pois isso tudo de que faz parte está em pleno Kali Yuga...e o romper de um novo cenário precisará de pessoas com novas idéias. O melhor que podemos fazer é buscar realmente quem somos é e qual é a nossa no mundo, sem o chucrute purpurina de inventar desculpas do tipo "quero fazer justiça" e "sou o baluarte da paz" , porque em idos de ruptura é a demanda da alma no caminho de se descobrir que é a tônica...

Poucos e poucas entendem isso...Quando descobrimos quem somos, de verdade, o que desejamos, a partir do desvendamento de todas nossas mais profundas mesquinharias, nossos medos, nossas invejas, raivas, déficts, enfim, quando olhamos de frente para a sombra, ela passa a ser luz...daí, não precisamos mais justificar opiniões com baboseiras, porque, seguros e seguras de nós mesmos e mesmas, não precisamos repetir frases de efeito que apenas legitimam o que, de fato, não está dentro de nós mas que , no desespero pela redenção, queremos mostrar aos outros que temos.

Foi esse o compartilhamento a que me propus a fazer... comigo e com o mundo...