domingo, 18 de novembro de 2012

\o/ A tríplice e sagrada jornada celta de composição tríade da alma \o/

Logo que adentramos os estudos herméticos sobre o Sagrado Feminino travamos contato com a face tríplice da Grande Deusa, o atributo tricotômico (porém não cingido) de se apresentar como Donzela, Mãe e Anciã, lembrando-nos das etapas de nossas próprias vidas: nascimento, plenitude e fenecimento, no eterno ciclo espiralizado de aprendizado e conhecimento. 

Temos na figura da Donzela o frescor da vida, bem como a suavidade da pele jovem e sedosa, ainda não tangida pela intensidade dos raios do Sol em um dia intenso de lutas e trabalhos. A Jovem é potencial a se desenvolver e, como tal, agrega a ideia de força em latência, tábula rasa onde será escrita toda a trajetória espiritual defluente de sua condição feminina. 

Com a menarca, a menina cede espaço para a mulher apta a gerar e crear, efetivando-se, assim, a habilitação para a compreensão do potencial iniciático presente em cada uma de nós. Mais do que uma cronologia - pois não é possível precisar, em dias, meses ou anos quando a menarca advirá - a primeira menstruação marca um verdadeiro "rito de passagem", usualmente visível para a sociedade - no caso, para os antigos celtas, seu clã - a partir de processos os quais o corpo, a mente e, sobretudo, o espírito da jovem experiencia.

Outro rito de passagem contido na vivência da face mulher da Grande Deusa reside na maternidade, processo causal de elaboração da ideia de alteridade, dentro da qual a mulher se convola em Deusa ante a ideia de creação. 

Por isso tanto se afirma deter a mulher o potencial essencialista de gestar, em contraponto ao que se elaborou em termos de apropriação feita pelas concepções judaico-cristãs do atributo creacional, alojando-o num ente masculino a romper com o conceito de gestação como resultado da tomada do poder, subvertendo-se, assim, a ordo cósmica de encontro de dualidades complementares (porém completas) para a laboração da vida. 

O Casamento Sagrado - ou seja, o encontro da Deusa com seu consorte [pois somente assim é possível gerar] foi substituído pelo conceito onipresente e autônomo de gestação, no qual é atribuído a um Deus o poder integral de criar [nem tão integral e pleno assim, já que atribuiu, ao final, em carne, a parturiência de um filho pela mulher]. Pois bem...

Na faceta Anciã eclode o repositório de tudo que, até então, o Feminino atravessou. Cada marca, laceração ou ranhura, bem como cada lágrima ou sorriso, tudo se converte para o antigo caldeirão de conhecimento de Cerridwen, grande detentora dos segredos acumulados durante a existência nesse e em outros mundos. 

A Anciã cruzou a vida, passou por ela e se deixou por ela abraçar, absorvendo e apreendendo tudo ao seu redor: eis a lição da reverência aos antigos, pessoas que aglutinam o conhecimento e que, com sua vivência transformada em mitos, histórias e tradições, mantem para as gerações futuras a fagulha da espiralização que contém o Todo.

Nossa percepção "racional", contudo, tende a compartimentar tais faces - e, consequentemente, os ciclos a elas inerentes - em uma estrita cronologia, como se existisse, enfim, uma linha divisória clara e específica a delimitar cada passo de nossa trajetória no caminho do amadurecimento espiritual. 

Com isso - trata-se de minha opinião, claro - impingimos uma carga emocional enorme às rupturas de processos, pois temos à frente - balizadas nesse conceito de "início" e "fim" - a ideia de extinção, quase sempre relacionada à morte e dor, reforçada pela manutenção de práticas reverenciais que têm no fenecimento o pior evento na trajetória de um ser. Toda a História ocidental judaico-cristã se fez assim, por meio da reverência à morte como via de libertação de um invólucro prisional impuro que, ao final, eleva-se para alcançar uma deidade.

Para o/as antigo/as celtas, entretanto, o tempo não seguia a linearidade com a qual nos debruçamos ao olhar ansioso para os ponteiros do relógio, mas, antes, deitava-se em um suceder sazonal de períodos de anoitecer e amanhecer, permeados das experiências que, durante o sol a pino, poderia um ser humano experienciar. 

Vida e morte adquiriam a vivência da plenitude no aqui e no agora exata e pontualmente porque a reverência ao sagrado compunha um binário onde a tônica se relacionava à concomitância entre o imanente e o transcendente. A "elevação" nada mais era do que o retorno ao Outro Mundo, para o reencontro com a casa ancestral, e não a depuração da alma para que encontre algum criador. 

Com essa certeza insculpida no coração, o/a celta celebrava a vida intensamente, não opondo para um "além-túmulo" o depósito de esperanças de um mundo melhor, pois, grosso mundo, o melhor mundo era, para aquele povo, o mundo no "aqui e no agora", intrinsecamente conectado aos mistérios do sagrado e da Natureza acolhedora que ensinava muito sobre a eternidade da vida, da morte e da vida.

Para tal povo sobejamente culto e espiritualizado, o início de um "dia" confundia-se com o descansar do Sol, pois a Lua era o marco de esquadrinhamento dos ciclos. Isso não é novo, pois ainda agregamos a percepção lunar sagrada, ao contarmos a gravidez pelas lunações, ou, ainda, utilizarmos a Sagrada Mãe de Prata para marcar em nossos calendários períodos para cortes de cabelo, manipulações energéticas e alquímicas etc. 

Não importa, pois, ao final, o relevante, dentro desse modus vivendi, é absorver de cada dia em carne o maior número de experiências possível para a lapidação moral e espiritual de nossas almas. 

Incompreendido/as, o/as celtas eram chamados de povos incultos e bárbaros, acusados de leviandade, promiscuidade e agressividade, ao mesmo tempo em que seus sacerdotes e sacerdotisas - detentores e detentoras do conhecimento ancestral milenar - eram assassinados por um Império Romano ora pagão, ora cristão, que se utilizou de boa parte da cosmogonia dos povos conquistados para fazer valer o "projeto civilizatório" de sua matriz governamental. 

Poetas, ourives, exímios e exímias artistas, cantadores e cantadoras e, sobretudo, guerreiros e guerreiras, os celtas atribuíam e vivenciavam as faces da jornada da alma em carne, não sem a experienciação - também no aqui e no agora - de um rigoroso código ético, no qual a honorabilidade era a tônica que alimentava o respeito pela liberdade e alteridade. 

Por isso, longe de empreender a uma trajetória de leviandade carnal, o/a celta agia balizado no ethos de responsabilidade moral por seus atos, pois sabia que, ate o fenecimento, era necessário ter sabedoria para se gastar bem cada momento passado no planeta.

Fonte da imagem: Caldeirão Gundestrup, relíquia encontrada em escavações arqueológicas (ver http://www.historiadomundo.com.br/celta/arte-aquitetura-celta.htm). 







segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O bom descanso da boa guerreira


Após um dia de intensa batalha campal, o guerreiro celta recolhia-se ao calor de uma boa fogueira, a fim de confraternizar com seus pares a vitória ante o inimigo, prantear - com gratidão - a ida dos amigos para o Outro Mundo, além de comer e beber para fartar o espírito com a completude de se sentir vivo!

Mais do que uma confraria, o momento pós-batalha revestia-se de um significado mítico para o celta, na medida em que o recolhimento marcava, para aquele nobre povo guerreiro, a morada do espírito em descanso revigorador, já que o celta, como é notório, quando não estava em guerra com outros povos, guerreava entre seus próprios flancos, até mesmo para extravasar seu ímpeto incontido e o desejo por se entranhar na guerra.

Toda luta demanda momentos de avanço, bem como de recolhimento, ocasião em que nos voltamos para nós mesmas no sentido de recompor a alma, lamber as feridas e descansar para a batalha final, realinhando a energia dispendida ou desordenada, bem como reelaborando as estratégias para o devenir desconhecido do campo.

Quando o tempo de recolhimento envolve, por sua vez, a dedicação invisível aos trabalhos do sagrado, eis que surge, em especial, o tempo de sobrestamento do que se está a conjugar, para que o trabalho druídico se volte para a imersão no abscôndito cenário dos mistérios das ervas sagradas, dos instrumentos e cânticos devocionais ao Sagrado Feminino. 

Esse é meu hino e minha força, a despeito do desconhecimento em relação ao que está distante do que se denomina "racionalidade" e que provoca, ainda, assombro por parte de quem não professa a diversidade de credos. Por muito menos, fomos julgadas e queimadas em largas fogueiras de carvalho.

Quem milita no espírito pre
cisa se abster, um pouco, da carne, ou, quando não se faz possível fazê-lo, ao menos da transcendência da obviedade do materialismo, para se coligar à espiritualidade nosso fragmento que aqui se encarna enquanto luz densificada. 





Quando as lutas demandam escolhas, precisamos ir adiante com determinadas opções, ainda que aparentemente desagrademos alguém: não podemos trair nossa essência, sob pena de nos perdermos no processo! 

Panta rei!

Transpondo mundo e entoando cânticos, nada mais exsurge em tamanho êxtase, pois a chama encontra, aturdida, o vento que lhe embala a fonte! Quantas composições podem uma só alma elaborar? Alma una, cingida em meio à ilusão do fragmento, que se eleva em meio ao caos e desponta, macia, no plano incansável de um novo horizonte! Não sei, ao certo, pois de tantas e incontáveis vezes, esta, agora, faz-me parar!

Ah, coletânea de céus! 

Sempre se move, no âmago de um Infinito que se realinha, passo a passo com um Destino em que se navega como uma nau a deslizar sobre um doce mar de lânguida cercania. Movem-se mundos e aproximam-se universos, outrora apartados pelo encoberto véu de idiossincrasias que, uma a uma, decaem em sua fragilidade, dando vazão ao possível e provável, mesmo diante da inquietude de que nada, enfim, permanece o mesmo: panta rei!

É o doce e o afável, o impensado e o inefável, compondo a lira eloquente, tamanha serpente, que se invoca por detrás dos corpos, com o alargar de uma visão infinda, enevoada por um turbilhão de pensamentos a ecoar: sorte, alegre companhia, que traz a mão para a Fortuna embalar.

Que sorte?

Que forte?

Mais contundente, enfim, que a própria morte! Que morte, então, se celebramos a vida? Vida-morte-vida, na espiral eterna de apaziguamento do eu...

Insofismável chama que se renova, após brados de macios passos, eleva-se, enfim, ao elencar de estrelas, que se amoldam ao fino porte de uma moldura inominável: céu, glorioso céu, que se entrelaça em signos. Compõe a sina de incontáveis incertezas, todas reunidas para a celebração de um novo firmar.

Eis, enfim, como acordou meu espírito nesse dia, após tantos enlaces em um só momento. Tudo, o todo, o vazio explícito, reverberando em cada ponto longínquo de uma alma andarilha, o passo que cerra o caminho: eis o caminho em que se constrói a própria saga!

Panta rei!

Fonte da imagem: Flora - J. Watwerhouse - 1890 (http://www.jwwaterhouse.com)