domingo, 24 de março de 2019

Os caminhos da espiritualidade consciente e os meandros dos falseamentos das verdades


Na iminência da chegada de um "novo" ciclo, sempre é providencial refletir sobre ao que significa a expressão Nova Era atualmente, sobretudo diante de um cenário otimista e colorido onde se aciona uma egrégora de mudanças no mundo, a partir da virada de cada ano. 

Tudo são flores, cores, cristais, amor universal, invocando a ideia feliz de compartilhamento de esperanças em meio às vicissitudes e aos desafios do ano que fica para trás, alimentando a "esperança" de tempos de bonança espiritual e lapidação da consciência. 

Trata-se de um momento auspicioso para modificação interna, de concitação ou chamamento a uma Era de Aquário, tempo de transição (ora cósmica, ora planetária ou, ainda, multiversal), onde tudo exala mudanças internas e externas, para além do ego.

Em meio ao chamado da alma para novos desafios, os tempos de internet nos encaminham para um momento ímpar na história da humanidade, pois nunca nos deparamos com tanto compartilhamento de ideias, teorias, dados, informações e, sobretudo, (des)informações, sobretudo no que diz respeito aos assuntos metafísicos e, mais precisamente, espirituais.

Basta acessar as plataformas mais comuns, como o youtube, facebook, instagram etc. para que possamos observar a quantidade de canais, bem como a diversidade de informações, que espelha a riqueza de dados que estão pairando em torno de nossos computadores. Muito aprendizado podemos haurir desse campo vasto de conteúdos múltiplos e enriquecedores.

São os idos de uma era informacional, instantânea, pós-moderna e líquida, na qual, de maneira democrática, todos podemos ser editores, produtores, diretores e atores de nossos próprios cenários, enredos e histórias. Somos, enfim, cocriadores cibernéticos, dispostos sempre e com amor, a compartilhar nossas ideias e experiências.

Podemos observar uma infinidade de canais a reproduzir temas, revisitar ideias e discutir assuntos que antes estavam no mainstream do monopólio dos canais oficiais - sobretudo os televisivos - e que se diluem, por agora, numa delícia de mundo alternativo e paralelo, que se descortina e permite que, ao final, todos possam ser iniciados nos estudos herméticos rumo ao conhecimento da V E R D A D E

Nesse cenário, as perguntas que logo me veem à cabeça são: de que verdade(S) estamos falando? 

Será que existe uma verdade universal, em nome da qual, inclusive, fazem-se ataques e desqualificações do que é entendido como não-verdade (refiro-me às lutas religiosas e às ideologizações institucionais da religiosidade e espiritualidade)? 

Por outro lado, não existindo a tal verdade transcendente sobre quem somos, o que viemos fazer aqui e qual nosso destino (as perguntas que sempre nos motivam, afinal), como coexistir com fractais de verdade e não se perder em meio a tal niilismo?

Afinal, estamos imersos em um momento de dissonâncias históricas, no qual se erguem bandeiras ético-religiosas aguerridas, transformando o cenário mundial em uma ovação ao caos, ao ego e à manipulação em massa.

Outra pergunta interessante de se fazer seria: por que buscar a verdade lá fora, na ocupação do esquecimento de si, feito sob a escusa de se galgarem estrelas e infinitos, quando, de fato, sendo todos nós, um, podemos nos observar e conhecer no campo da experiência?

Esse é o principal foco de minha reflexão de hoje, que veio num sopro de experiência na aula de yoga, momento em que discutimos a respeito do uso de espelho para correção das posturas.

Espelhos...a melhor metáfora para a busca da verdade estelar...

Quando escolhemos algo, desde um sorvete, até uma nave especial, nada é aleatório, mas segue um movimento ou impulso - ora consciente, ora inconsciente - de decisão em face do quanto nos identificamos com determinado objeto, situação, pessoa ou lugar. 

Até mesmo na repulsa ou rejeição, o que está em jogo sempre é um processo "invisível" de atração, pois o não-escolher também leva em consideração o sentimento despertado (ojeriza, repúdio etc.) que tem como foco meu eu que se aloja no que está à minha frente.

Passamos, assim, a nos confundir com o que está externo a nós, adentrando um túnel rico de cores, barulhos, ideologias, projetos, coisas, lugares, pessoas, situações, quase sempre nos encaminhando para a saída de nosso eu mais aquietado e íntimo, bem como para o "acoplamento" na externalidade (no mundo fora de nós).

Assim também acontece em relação ao que escolhemos quando entramos nos meios virtuais, escolhemos fotos, áudios e vídeos. O que está fora de nós qualifica o que está acontecendo em nosso mundo interior, simples assim. 

Lembra a palestra de Krishnamurti, quando perguntou a um ouvinte o que o desagradava no mundo. O rapaz, então, falou: "não suporto guerras, brigas, desavenças e desamor. O que posso fazer para ajudar o mundo?" e, diante da plateia cheia e atônita, Krishnamurti, então, respondeu: "deixe de reverberar a semente da guerra e do ódio dentro de você".

Essa fala nos diz muito, fala ao coração... O que ele quis dizer com isso? 

Simples, quando estamos a nos identificar com os processos, quer seja nos legitimando ou repudiando, alimentamos aquilo, por mais que desejemos acreditar que não. Trata-se do acoplamento de identidade no externo, caraterística do ego que busca o reconhecimento de sua individualidade, por receio do perecimento e da diluição no desconhecido.

Necessitando sobreviver à ideia da impermanência, somos movidos sedutoramente pelas asas do nosso querido ego a empunhar bandeiras motivado por essa ânsia de existir perpetuamente, ter muitas opiniões que destroçam quem pensa ao contrário, colocamo-nos como soldados de verdades, guardiães da última palavra e, com isso, convencemo-nos do caminho da conscientização. 

A verdade, então, nessa seara de ilusão, advém de um simples e puro processo de desespero...

Quando não olhamos para o que impulsionamos nos espelhos, não acessamos nossa verdade interna, não escutamos o som do silêncio necessário para dissipar as ilusões sobre nossas maiores inquietações e dúvidas. 

Tal qual a postura do asana projetada no espelho que distorce a realidade, fazemos o mesmo quando não consultamos nossos mecanismos internos intuitivos, para fazer as perguntas ao nosso espírito (ou consciência, como queiram denominar em seus sistemas de crenças).

A partir disso, começamos a duvidar de nosso poder cocriativo, de nossa intuição e, sobretudo, da maravilhosa capacidade de acessar o Todo. Apelamos, assim, para o que nos é familiar: nossa racionalidade e o poder da mente diante das "escolhas" que fazemos tentando discernir a partir do que outras pessoas falam a respeito de determinado assunto. 

Daí o aporte nos guias, mestres, gurus e profetas, pontos de apoio para nossas dúvidas. Não estou deslegitimando o papel deles, que realmente é de serem guias, mestres, gurus e profetas, pessoas sábias e de boa-fé, que compartilham graciosamente o que trazem como dom divino. 

A questão é deslocar para eles a viga-mestra de nosso crescimento espiritual e consciencial, esperando uma salvação, pois isso anula nosso potencial de realização interna, bem como nossa habilidade em plasmar na tridimensionalidade o que ressoa dentro de nós como verdade.

Tive muitas oportunidades de observar, durante 3, 4, 5 meses de imersão no youtube, vários canais, aprendendo muito com cada um deles. Depois de muitas experiências enriquecedoras, dediquei-me mais a frutificar internamente o silêncio, ausentando-me dos sons, cenários, bem como das pessoas, que muito ensinaram e compartilharam. 

Voltei renovada e com foco em realizações a partir desse silêncio interno que traz um alento suave e doce, encaminhando para olhar a verdade em cada fragmento de áudio, vídeo, foto e texto, pois passei a compreender que não poderia mais aprimorar meu asana (postura), no espelho da sala de aula em que projetava meu ego nas escolhas feitas.

Com isso, a vida se torna mais leve, mais palpável e cheia de oportunidades reais de experimentação, mesmo que pela internet. Pois não se trata mais de buscar a minha verdade nos outros, e sim elaborar, dentro de mim, o que a consciência pode sentir como V VERDADE






sábado, 2 de março de 2019

Quando rotinas não são rotinas: a benignidade do dinacharya e a elevação consciencial que desafia o ego

Um dia desses em que estava em um "pé-de-prosa" virtual com uma grande amiga, veio o assunto "rotinas", a partir da ideia inicial de mesmice, dogma ou repetição automática de algum ato, alguma liturgia ou comportamento em relação ao qual, dada a obrigatoriedade, podemos oferecer resistência.

Rotina de trabalho, rotina de relacionamento, rotina de trânsito: quando nos pegamos a reproduzir mental e emocionalmente a palavra, logo a mente incauta nos encaminha para a classificação em algo que não é prazeroso, não é mesmo? 

Até mesmo o lazer, quando submetido a tal "rotina", deixa de ter um significado despojado de ociosidade criativa, para se tornar um fardo, sujeito ao relógio e aos humores alterados das pessoas que se obrigam a serem felizes na reprodução automática das programações de final de semana pós-trabalho (ops, de novo, a rotina!).

Dentro disso, quantas vezes nos pegamos a empunhar a bandeira da liberdade, fazendo referência ao nosso espírito "livre", dizendo aos quatro cantos que "toda rotina é cansativa e entediante", "eu não nasci para rotina" ou "eu sou livre e não sigo rotinas"? 

Ou, ainda, quantas vezes afirmamos para nós mesmos (num reforço egoico para nos tentar convencer) que não nascemos para nos "acorrentar nas regras impostas pelo sistema de controle" (ah, de novo, o tal sistema matricial, ou, na bola da vez, na Matrix do sistema de crenças)?

Pois é, a palavra rotina popularizou-se semanticamente como sinônimo de aprisionamento, regra ou condicionamento, trazendo automaticamente à mente a aversão a toda e qualquer atividade que seja uma constante em nossas vidas, pois "tudo que é rotineiro entedia e cai no marasmo".

Em idos de pós-modernidade espiritual, holística, consciencial e outros nomes para o fenômeno de transição que estamos experienciando, falar em rotina é declarar guerra aos que se veem como despertos, conscientes e livres das amarras da tridimensionalidade. Ávidos em encontrar a tal saída do sistema, tudo que é importo realmente incomoda. 

A pergunta que faço é: incomoda a quem ou o que? 

À consciência ou ao ego? Como saber a diferença?

Primeiro, a consciência não "se incomoda", não "se inquieta", muito menos se sente amarrada ou oprimida. Ela não atribui predicativos à experiência, porque os predicativos são apenas critérios mentais de classificação que o ego utiliza para se identificar com a experiência e se convencer de sua eternidade, num ir e vir entre passado e futuro, os vetores da ilusão criada diante da realidade material do aqui e do agora tão desejado e, ao mesmo tempo, inacessível. 

Quem se incomoda, julga, avalia, dá desculpas é o ego, pois sabe que a elevação consciencial acarretará sua diluição, o que traz medo, pois o diluir significa não mais existir nessa configuração tridimensional. 

Além disso, a consciência não precisa "resistir" ao que se pratica pelo bem de nossa organicidade. O ego sim. Esse se desculpa, culpa-se o tempo todo por não cumprir as demandas e exigências da autoimagem de perfeição que criou para nos assombrar e distrair. 

Ele diz que não consegue levantar cedo para meditar, que sai atrasado para o trabalho e não dá tempo. Que não tem paciência para seguir uma rotina imposta pelos "arcontes da Matrix" (acho ótima essa referência para projetar desculpa pela distração egoica), que está com dor no braço, na perna. Que o cachorro atrapalha a meditação. Que é muito difícil. Que é isso, que é aquilo. 

Ego...apenas nosso querido desejando mais atenção.

A consciência, ao contrário,  move-nos para o fluxo porque, dentro de nós, no âmago de nossa essência divina, temos o discernimento em saber que determinada "regra" é essencial para nossa existência tridimensional enquanto nela ainda estamos. Ela não reconhece, pois, a rotina como algo abjeto, opressivo, mas, antes, como algo relevante e vital para que possamos nos desenvolver. 

Aliás, os predicativos "relevante", "vital", "opressor" etc. não fazem mais qualquer sentido para a consciência, pois, transcendendo a binariedade (bem versus mal, belo versus feio e tudo que é catalogação do ego que necessita se identificar para saber que está vivo), ela apenas flui, faz e realiza, sem julgamentos. 

Apenas vivencia naturalmente a plenitude e o preenchimento interno no esvaziamento do ego, condições que naturalmente nos encaminham para o despertar e a transmutação. 

Com isso, a palavra rotina adquire um colorido que implode a ideia arcaica de opressão egoica, para ser edificada à sacralidade em termos de um ritual de benignidade a ser realizado em benefício de nosso corpo, nossa mente, alma, espírito e, superando tudo, nossa CONSCIÊNCIA

Eis o sentido ressignificado à palavra rotina, dentro do que tenho experienciado num movimento que retomei, agora, renovado, na vida de rotinas de benignidade: dinacharya, do sânscrito दिनचर्या, conduta diária).

Trata-se da rotina diária do sistema de ayurveda, compondo o tripé do que tenho sentido de plenitude praticando yoga e meditação. Uma prática que alinha corpo, mente e consciência, integrando nossos corpos e nos harmonizando com os ciclos da Natureza.

Regra? 

Para o meu ego, nos dias em que acordo com preguiça, impaciente, apressada, sim, claro! 

Afinal, sempre é muito confortável ler muitos livros, assistir muitos hangouts e muitas lives no youtube, participar de grupos eco-eso-alien-ativistas no whatsapp, sermos conhecedores de todas as teorias da conspiração cósmica e usar isso tudo como desculpa para não integrar consciência e corpo num simples gesto de respirar prana.

Enfim, não estou falando no plano de teorias: estou falando de realizar, agir, fazer, mexer o esqueleto e lidar adequadamente com o ego, o bastante para que ela não nos distraia tanto dizendo que "na semana que vem começo a meditar".

A rotina que o ego nomina como opressão nada mais é do que a projeção da sombra do que ele rejeita, o que, quase sempre, é o necessário para nosso aprimoramento pessoal. Dito de outra forma: o que mais rejeitamos é o que mais precisamos trabalhar internamente para transcender o obstáculo.

No dinacharya aprendemos a pacificar a mente, quer seja por meio da desaceleração mental, da respiração ou, ainda, no mimo com nosso corpo na oleação do abhyanga.

O dia da rotina de benignidade começa cedo aqui em casa: por volta das 05h00, sem despertador e embalada pela sintonia com os ciclos da Natureza, acordo, agradeço ao Universo pela dádiva de estar presente. 

Nada de ficar pedindo, só GRATIDÃO. Quando se troca o discurso de demanda pelo protagonismo do fluxo criativo e apenas se agradece, tudo muda!

Hora da rotina matinal, que inclui a evacuação, a raspagem do ama (toxinas) contidas na língua e da limpeza do nariz com o lota, bem como uma água morna com limão antes, para estimular o sistema gastrointestinal, o centro de todo o sistema da ayurveda.

Depois dessa parte rotineira, é hora da automassagem, chamada abhyanga, feita da cabeça aos pés, em movimentos circulares e em sentido horário, utilizando óleo de côco (uso esse por conta do dosha Pitta, mas em outros casos, usa-se bastante o óleo de gergelim morno, para acordar Kapha e ancorar Vata). 

Trata-se de um momento de maior intensidade do sentimento mais puro de leveza e bem-estar, de ancoramento e plenitude que já senti na vida, não traduzível por palavras, muito menos nesse texto. 

Daí, sugestão: faça!!! E não se limite à regra auto imposta de não ter regra!

Depois da massagem, que dura, em média, 30-40 minutos, um banho calmo, morno, complementando a fricção da abhyanga faz muito bem à alma, seguido de uma prática de yoga para tonificar músculos, acordar o corpo e trazer a sensação de pertencimento e despertar. 

Respirar é essencial e, para esse momento, alguns pranayamas conscientes, com foco e atenção no momento, são a forma mais sutil de dar boas-vindas à vida: afinal, quando aqui aportamos, o primeiro ato fora do útero é o de respirar o prana. 

Tudo pronto, enfim, para a meditação! Um tempo fora-do-tempo-e-no-pertencimento. Comecei com 5 minutos, impaciente...com o tempo fui para 10, 20 e, quando dei por mim, já me peguei uma hora fora de tudo e de mim. Importante esse momento de despojamento para que a consciência se sobreleve aos ditames do ego que deseja impor sua vontade de ser feliz...

Café-da-manhã? Sim, claro! Dá tempo! Dá tempo? Dá um tempo-no-tempo e acorde cedo! 

É lindo ver o Sol, o céu, os pássaros cantando para anunciar a chegada de um novo dia! É uma "rotina" que elonga o danado do tempo, deixando-nos mais despertas, atentas, conscientes e, ao mesmo tempo, relaxadas.

Frutas de acordo com seu organismo, ghee, tapioca, mingau. Basta combinar e, para isso, nada melhor que a tradição ayurvédica, que alia o sabor à propriedade terapêutica dos alimentos, sendo a amálgama de todo esse processo integrativo. 

Chás durante o dia e almoço entre 11h30 e 13h00, no máximo, pois é o momento em que o agni está a todo vapor, preparando, depois, para a virada da tarde, ocasião em que podemos fazer um lanche modulado com o café ou, então, dependendo do dosha e da fome, aguardar uma sopinha quentinha e nutritiva para finalizar o dia às 20h00.

Essa é, sem dúvida, uma "rotina" feliz, pois, integrando mente, corpo, alma e consciência, tudo flui na vida, que é o próprio fluxo em si. Sem cobranças, medos ou sabotagens. 

Apenas a vida que cocriamos, de acordo com os potenciais que desenvolvemos nesse dínamo chamado dinacharya, que nos eleva e afaga, ao mesmo tempo em que aceita e agradece!

Namasté!!!