segunda-feira, 29 de julho de 2013

Velas que iluminam e transformam: o nobre ofício da luz!

Em qualquer que seja a sociedade focada (Oriente ou Ocidente), as velas e o fogo sempre tiveram um significado especial em termos ritualísticos por aglutinarem força e marcarem a conexão com o Outro Mundo.

No livro A cidade Antiga, por exemplo, Fustel de Coulanges fala sobre a manutenção do "fogo sagrado", chama cerimonial mantida pelo pater familias na entrada da casa com o propósito de reverência aos ancestrais, deuses e deusas protetore/as do clã cujo liame se fazia pelo sangue.

Em algumas cerimônias de cunho céltico ou, ainda, na revitalização das antigas práticas de cultos pré-cristãos de celebração de equinócios e solstícios, a chama da vela adquiriu ao longo do tempo um conteúdo de relevo, por se relacionar - ora simbolicamente, ora fenomenologicamente - à luz tida como necessária para que os ancestrais encontrem caminho em meio aos véus turbados existentes entre os mundos.

Basta lembrar de Samhain, ocasião em que depositamos velas às janelas das residências para que o/as ancestrais possam encontrar seus caminhos em meio à turbação que a descida dos véus de separação entre-Mundos provoca.

Na adaptação festiva advinda da celebração de Halloween a vela cedeu lugar à abóbora iluminada (Jack O'Lantern), aglutinando, assim, tanto a luminosidade do fogo como a expulsão de entidades não amistosas aos membros do clã (basta observar os rostos entalhados na abóbora: a sombra projetada, ou, ainda, o próprio semblante na abóbora desenhado, mostram o potencial de amedralhamento que Jack propicia). 

Do potencial celebrativo para a prática mágica, a vela expressa uma harmônica aglutinação dos quatros elementos. Seu corpo, ora formado por cera, ora por parafina, representa o material e está sujeito ao poder do elemento Terra (já que ela está diretamente vinculada ao plano físico e à realidade visível). 

Quando acesa ostenta todo o potencial trazido pela chama, adstrito aos mistérios do Fogo, elemento transmutador e que se relaciona aos processos criativos (destrutivos ou ontogênicos). Do encontro entre esses elementos polarizados forma-se no topo um líquido - cera/parafina derretidos - que nada mais é do que o elemento Água vindo colorir a alquimia com sua plasticidade, impermanência e, sobretudo, contato com o onírico.

A fumaça eleva aos céus, por sua vez, a comunicabilidade que marca a qualificação do Ar, senhor da ligação entre os mundos, elemento incontível e incompressível, liame invisível que leva aos sídhes (morada dos deuses e das deusas) as alegrias, tristezas, os prantos e os pedidos dos mortais.


A partir dessa poderosa combinação de elementos podemos produzir egrégoras e aglutinar as condições para os trabalhos mágicos, bastando lembrar dos elementos centrais que impulsionam a magia: emoção + conhecimento + necessidade

Como podemos utilizar o potencial das velas?

De várias maneiras...

Hoje falarei da magia escrita na vela, bruxedo antigo e muito útil para quem não tem tempo para plasmar um ritual mais elongado. Para fazê-la é necessário, em primeiro plano, escolher a cor da vela em função da necessidade almejada.

Costumo usar a seguinte tabela de correspondências, lembrando que se trata de uma listagem de cunho pessoal, baseada na minha trajetória de experienciação:

amarelo: calma, felicidade, sabedoria, foco, alegria (depressão).
azul claro: inspiração, harmonia.
branco: paz, purificação.
índigo: intuição, espiritualidade.
laranja: energia, vitalidade, depressão.
lilás: transmutação, transformação.
marrom: aterramento, conexão, fixação.
preto: isolamento, proteção.
rosa: amor, afeição, auto-estima.
verde: cura, fertilidade, crescimento.
vermelho: paixão, raiva, ira, auto-estima.

Depois da escolha da cor sugiro observar a lunação segundo o mapa astrológico pessoal, pois tal procedimento sempre potencializa as atividades mágicas. Outro detalhe importante consiste em purificar a vela, uma vez que ela traz energias e propósitos preexistentes, usualmente imanadas por quem fabricou o artefato.

Para tanto uso essência de mirra, benjoim, losna, pinho, barbatimão, cânfora ou arruda, tomando o cuidado de espalhar de baixo para cima (pois é a direção de expulsão ou retirada). Uma vez purificada a vela utilizo outra essência para imantá-la com o propósito a ser desenvolvido, espalhando ao longo do artefato de cima para baixo (sentido de atração). 

Finda essa etapa escrevo sempre meu nome completo ao longo do corpo da vela, de cima para baixo e, a partir daí, insiro em outros pontos o que desejo desenvolver, sempre focando em minha necessidade no momento. Aconselho também a inserção de símbolos rúnicos relacionados à intenção desejada.

Consagro ao panteão que reverencio e, após, acendo.

Está feito, está feito, está feito, feito, feito!



segunda-feira, 22 de julho de 2013

)O( Invocação da Lua Rosa )O(

Não gosto muito de popularizar meus enredos mágicos porque além de serem herança familiar e selados hermeticamente, acredito que toda bruxa deve criar sua receitas.

Mas como hoje é um dia especial de inspirada Lua Rosa, decidi compartilhar um encantamento muito poderoso, que agrega um vórtice muito forte.

Como se trata de lua de desejos - Lua Rosa -, decidi trabalhar com isso hoje. Daí reuni algumas demandas pessoais e as escrevi em um pedaço de papel sobre o qual verti algumas gotas de essência de calêndula.

O papel é branco - porque estava lidando com vários pedidos e achei que a cor branca seria neutra para abrigar todos eles - e não precisa ser grande: o bastante para desenhar um pentagrama e, em cada ponta dele, um aspecto a ser imantado [coloquei cada pedido na respectiva ponta dos elementos]. 

No centro do pentagrama escrevi a palavra EU (porque já havia aberto o círculo e entrado em contato com meus ancestrais, de modo que escrever meu nome completo seria despiciendo), mas você pode escrever seu nome completo no centro do pentagrama. Não importa, pois, ao final, o que é relevante mesmo é constar a identificação entre o centro do pentagrama e o seu EU, sua alma.

Atrás do mesmo papel coloquei 4 desejos. 

O número quatro veio em função de ser o número da minha alma, mas não vejo problema algum na lista ser maior. Apenas acredito que podemos fazer um excelente trabalho usando de maneira equalizada aspectos numerológicos e astrológicos.

Pois bem.

Depois da escrita mágica comecei a imantação da rima abaixo, recitando-a para cada um dos quatro pedidos e, ao final, recitei uma completa para a lista toda, que foi lida integralmente. 

Em seguida alimentei meu caldeirão com canela, cravo, pimenta, incenso de igreja e mirra, além de um pão consagrado, pois esses ingredientes estão magicamente impregnados pela horda da fertilidade, fecundidade, atributos que eram comuns a todos os meus pedidos. 

Na medida em que ia colocando cada um dos ingredientes, consagrei-os devidamente e, ao final, ateei fogo, queimando o papel ao mesmo tempo em que recitava o encantamento. 

Quando tudo estava finalizado, um básico bater de pés três vezes no chão e o bradar de "está feito, está feito, está feito, feito, feito", invocando a fixação que o elemento Terra traz (não podemos esquecer que a Terra está relacionada à determinação, fixação, bem como à fartura, prosperidade, fertilidade, atributos muito interessantes na hora de realizar algum encantamento. 

)O( Invocação da Lua Rosa )O(


"Nessa noite de Lua Rosa
Escutem os céus minha canção
Que o ar eleve meus sonhos e desejos
Que hoje se realizarão
Urja, Lua, em seu bálsamo consagrado
E me acolha no pedido invocado
Que tudo aquilo que hoje imanto
Venha até mim por esse encanto
Que abençoado três vezes meu pedido seja
E que tu, ó Lua Rosa, trago o sonho que minha alma almeja!"
- So mote it me!!! -



Que venham os bons auspícios da Lua Rosa que todos os desejos traz!!!!

Às 15h08 a Lua entrou em Aquário, trazendo aquela sensação deliciosa de um vanguardismo que se aloja em no despojamento universalista  quase blasé, indo abraçar o Sol que se reveste de Leão às 12h57 e, ao som dessa sinfonia mágica, a Grande Mãe hoje nos brinda com o espetáculo de uma Lua Rosa!

Não, a Lua não estará rosada, a despeito de estarmos em pleno inverno seco de cerrado, ocasião em que realmente o céu cinge-se de lilás e tons grená. 

A Lua Rosa coincide com uma data muito especial em alguns círculos wiccanos, bem como em algumas tradições de witchcraft, stregheria, bruxaria tradicional e magia que baseiam seus ritos no calendário lunar (e não solar gregoriana), dividindo o ano em etapas subsequentes e circulares: daí o mito da roda do ano, na espiral de celebração de equinócios, solstícios, bem como de ritos de colheita (basicamente nossas crenças centrais, de reverência e gratitude a cada etapa de uma vida de plantio, colheita e consumo, lembrando sempre o eterno ciclo de vida-morte-vida).

Trata-se de uma Lua Cheia (também chamada de plenilúnio, ou seja, a plenitude da Lua, em seu aspecto Mulher e fertilizadora) que antecede o sabbat mais próximo (para quem segue a Roda do Sul, em breve comemoraremos Imbolc em 01 de agosto, época de leite e abundância), potencializando todos os desejos, pedidos, aspirações e vontades direcionados em eventuais trabalhos mágicos. 

Não costumo realizar trabalhos mágicos mais densos e elaborados em esbats - pois acredito que a data deva ser dedicada à saudação da Lua Plena - mas demandas que dizem respeito a projetos, metas, desejos, sonhos e aspirações são bem-vindas, pois se trata, ao meu ver, de expansão sob os auspícios dessa lunação específica. 

Com isso, conecto-me à energia dessa lua especial, imantando sempre em um papel regado por óleo essencial respectivo meu desejo: emoção + necessidade + conhecimento, requisitos essenciais para que programemos mente, alma, espírito e matéria (em nível celular, atômico e eletromagnético) para transformar o ambiente, transformando nossa realidade. Isso é mágica!

A seguir, queimo meu papel no fogo do caldeirão ardente, pois o fogo é um agente transmutador, que reelabora - em nível invisível e físico - substâncias. 

Além disso, nunca é demais lembrar que a fumaça evoca a comunicação que o ar faz com o plano etéreo, local onde as formas-pensamento criam realidade. 

Agrego ervas e resinas que tenham correspondência mágica com o tema (ou seja, o requisito 'conhecimento' é importantíssimo aqui) e entoo uma das rimas que trago em meu livro ancestral. Costumo sempre me lembrar da lei de retorno e sempre imantar: 

"O que for real, que a Terra fixe,
a Água purifique e assim permaneça.
O que for ilusório, que o Fogo transmute,
o Ar carregue e assim feneça"

Simples assim. Bruxaria é a nobre arte de se transformar por intermédio da conexão com o sagrado que reside em nosso campo mais profundo de estado invisível, plasmando na dita "realidade física" uma verdadeira reprogramação funcional. 

Céad mile fáilte!
Blessed be!
So mote it be!



terça-feira, 16 de julho de 2013

Ciclos e giros na roda que não pára...

Estou recolhida em casa e o silêncio tem sido ultimamente minha melhor companhia em tempos de renovação e troca de pele. Depois de um ciclo de realizações foi chegada a hora de mudar os rumos de minha vida para o abraço de novos planos e rumos. 

Lembro-me da árvore celta do renascimento a marcar tantos ciclos e etapas já experienciadas nesses meus dias terrenos. Indo e vindo componho a estrada com aventuras das mais inusitadas, todas firmadas no descobrimento de histórias que, ao final, vão se somando em largos passos de gratidão.

Sou GRATA! 

Diante do inevitável final de ciclo de um trabalho a única palavra que veio à mente foi um sibilante OBRIGADA à ancestralidade que sempre me acompanha nessa trajetória. Tanto aprendi! 

O bastante para não olhar para trás, mas, antes, reverenciar os momentos passados - um ciclo de seis meses, tal qual o braço de um triskelion - com os olhos marejados por tantas lágrimas que estão a lutar insistentemente com a gravidade.

Acho que vou me render, ao final, à queda e aproveitar o momento para purificar-me - afinal, o que são lágrimas que não o transcurso dadivoso da água a limpar o caminho por onde quer que passe...

Sigo, enfim, a jornada fascinante do viver com a certeza de estar no caminho certo porque, afinal, qual o caminho que não é certo? Apenas aquele que não nos atrevemos a seguir. Tudo é aprendizado quando, depois, olhamos o passado sem a dor da memória emocional que pode insistir em mandar lembranças.

Tudo passará, até mesmo a dor que vem e vai no balanço da frustração sob a qual sou a única senhora de mim. Expectativas acarretam frustrações, bem sabemos, mas, o que fazer? Viver, ora, a profundidade do que o sentimento traz de superação. Quando voltamos disso reconhecemo-nos mais fortes, firmes e digno/as. 

É muito bom caminhar sobre as mansas águas da honorabilidade!! 

Esse é o sentido misterioso de um ciclo que se finda e traz, de plano de pronto, mais outro que, dali adiante, comporá nossa abençoada sina de experiências. É isso que advirá no momento em que nossos olhos terrenos cerrarem-se para esse plano. É isso que deixaremos para trás quando os olhos da alma abrirem-se, enfim, para saudar o Infinito!

Deixo um momento especial em minha vida saudando o desconhecido que, mais uma vez, abre-se para o passo largo que insisto em dar...

Blessed be!

terça-feira, 9 de julho de 2013

Fluxos, refluxos e inconstâncias: a necessidade de repensar os dias sagrados de poder menstrual

Em idos de pós-modernidade onde menstruar transformou-se em um verbo incômodo, inconveniente e, sobretudo, em verdadeira palavra impronunciável, importante desvendar alguns tabus arraigados nas as sociedades "modernas" que transformam cotidianamente o Sagrado Feminino em objeto de chacota e desumanização...

Desde as propagandas de absorventes - que fazem questão de atrelar ao fluxo menstrual uma conotação de intenso sofrimento e infelicidade plena (basta observar as propagandas que trazem a "plenitude" de se usar uma "calça branca") - até as inúmeras teorias a respeito da experiência em vivê-lo (experienciá-lo ou não experienciá-lo, eis a questão), o assunto virou vitrine nos mais distintos nichos, o que o torna ainda mais interessante de ser analisado sob a perspectiva de enlace com o Sagrado Feminino. 

Em algumas tradições antigas (refiro-me, sobretudo, às sociedades proto-cristãs nas quais se deu o apogeu da cultura patriarcal a relacionar a menstruação a pecado e sujeira), o período de fluxo menstrual era considerado o momento de ápice na expressão de poder feminino e, dentro disso, de magicidade. Isso remonta a uma ideia ancestral de força contida no sangue, já que em tempos remotos não se sabia, ao certo, a razão pela qual a mulher sangrava mensalmente sem fenecer, ao passo que o homem ferido em uma guerra poderia vir a óbito por razão de um leve ferimento infeccionado.

Sangue aglutina na vermelhidão vívida e férrea o poder de vida, mas é bem verdade que também marca o prenúncio de morte nas antigas batalhas dominiais na Europa antiga tão marcadas em nosso consciente coletivo pela identificação imediata com os filmes épicos ou beligerantes. O rubro atrai a atenção de nosso cérebro, reverberando o apelo à ira, raiva, auto-estima, paixão e ao poder (tanto que a pedra representativa dos cardeais e papas, bem como do/as advogado/as) na mandala cromoterápica. 

Naquelas comunidades anciãs os ciclos menstruais das mulheres conviventes no mesmo grupo apresentavam sincronia, marcando a pontual ocasião em que se deveriam se recolher dos afazeres diuturnos para vivenciarem o momento de expressão plena na conexão com o sagrado. 

Reunidas em uma casa comunal procediam a rituais depurativos, bem como a técnicas de visualização e profetização, além do compartilhamento de histórias de suas ancestrais, afastando-se, assim, da comunidade (e de seus parceiros e companheiros) para experienciarem um momento único ao lado umas das outras. 

Tais ciclos observavam os períodos de 28 dias, correspondentes às fases lunares (Nova, Crescente, Cheia e Minguante) que igualmente se sincronizavam a uma misteriosa teia de vida a unir em conexões causais toda sorte de eventos e fenômenos. Lua e sangue, nesse contexto, trouxeram para as práticas pagãs modernas heranças simbólicas muito fortes para a catálise dos eventos a serem conduzidos por ocasião de algum bruxedo ou feitiço.

Quando os dias primeiros de declínio do fluxo sanguíneo (resultante da descamação do útero) coincidem com a Lua Negra (3 dias antes da Lua Nova) e a ovulação coincide com a Lua Cheia, temos o ciclo da Lua Branca, momento propício para a magia de fertilidade (em qualquer que seja a área, não necessariamente em termos de reprodução). Basta observar a proximidade entre a ovulação (período auspicioso para fecundidade) e a Lua Cheia, apogeu de maior expressão de plenitude do satélite. 

A coincidência entre a descida do fluxo e a Lua Cheia, bem como entre a ovulação e a Lua Negra, remontam à Lua Vermelha, tempo de reflexão, alta meditação e trabalhos relacionados à sombra, limpeza e depuração. Essas correlações são importantes para quem deseja trabalhar a conexão com o Sagrado Feminino em termos de veneração ao próprio corpo e seus pequenos ritos. 

Diante da maciça propaganda em torno da menstruação importante revisitar algumas questões que podem influenciar os ciclos acima descritos. Refiro-me especificamente aos alteradores hormonais - ou seja - aos métodos contraceptivos que implicam ingestão de substâncias e alteração do metabolismo feminino.

É sabido que a ingestão de anticoncepcionais altera o ciclo, evitando a ovulação. Com isso o mecanismo mágico acima descrito modifica-se substancialmente, já que, a rigor, inexiste a fase de expulsão do óvulo. Em relação a tal, um pequeno ajuste: o período de descamação uterina (e sangramento) passa a ser critério para se identificar o ciclo da Lua (Branca ou Vermelha)

Assim, se a descamação ocorrer em um dia de Lua Negra tem-se a Lua Branca como orientadora dos trabalhos mágicos, ao passo que o sangramento na Lua Cheia aproxima o ciclo da Lua Vermelha. O diferencial nesse sentido, consiste em não se adotar a ovulação com critério definidor da lunação, fincando-se o parâmetro na fase de descamação uterina. 

Importante ressaltar - dentro do tema - que o uso de método anticoncepcional  constitui metodologia altamente invasiva e alteradora metabólica, na medida em que o funcionamento orgânico feminino é modificado por meio de agentes externos e alheios ao sistema. 

Em linhas gerais trata-se de uma transformação por meio de uso de verdadeiras "bombas" hormonais que podem acarretar efeitos colaterais geralmente inóspitos para a mulher. Por outro lado, considerando-se a possibilidade de malogro dos métodos físicos (tabelinha e coito interrompido),  o uso de métodos contraceptivos subsiste como uma realidade (ou necessidade) para a mulher pós-moderna. 

Não estou desejando realizar uma apologia pró ou contra o uso do anticoncepcional, mas o adequando às práticas mágicas realizadas pela "bruxa moderna", no intuito de transmitir conforto - e, no caso, aplacar eventual culpabilidade judaico-cristã ainda resistente -  a quem deseja potencializar os efeitos dos bruxedos e encantamentos sem abrir mão do conforto em lidar com as marcas de dor e sofrimento que a auto-culpa patriarcal produziu em nós. Por isso sugeri o ciclo parcial de agregação à Lua (a partir do momento de descamação uterina).

Sem culpa!

Voltando ao enredo ancestral, durante os dias de poder menstrual as antigas matriarcas não dividiam seus leitos com seus parceiros em algumas culturas, preservando a energia gerada ali para a realização de trabalhos psíquicos (como os de cura), bruxedos e visualização de presságios. Isoladas, contavam com a reverência dos parceiros à misteriosa figura da Grande Mãe nutriz que, dadivosa em seus bálsamos, produzia a conexão e se plasmava nas mulheres do clã. 

Pouco a pouco, porém, com a progressiva transposição de uma sociedade cooperativa para o modelo patriarcal, as tradições de isolamento feminino foram cedendo espaço para o convívio entre homens e mulheres, o quem posteriormente, com o "salto" quântico para as sociedades industriais, selou de vez a preservação de tais tradições em ternos de coletividade. 

No lugar da veneração, do culto e da troca, a cólica, a TPM e o mau humor, todos fortemente catalisados por uma propaganda maciça de desqualificação do ciclo menstrual, para se reputar ao período um momento de sofrimento, dor e, claro, loucura. 

Existem relatos bem interessantes de inexistência de tais "sintomas" (sintomas da derrocada da sociedade pós-industrial, e não da menstruação) em comunidades indígenas, bem como em coletividades que não compartilham a ordem esquizofrênica da divisão do trabalho. 

Atualmente as demandas por equalização de gêneros têm trazido importantes reflexões nos círculos mágicos e clãs a partir do questionamento acerca da necessidade de apartação feminina durante o período menstrual. Nos locais onde a liturgia ainda se mantém na devoção unilateral ao arquétipo da Deusa o afastamento acena ser condição elementar para o êxito dos trabalhos mágicos. De outra sorte os círculos mistos tanto podem trabalhar a miscigenação de forças (masculino e feminino), como também observar a apartação entre os pares durante o período. 

O que transparece como mais adequado? 

Eis a dúvida para a qual a resposta mais razoável ainda parece ser a relativização de acordo com a perspectiva adotada pelo clã, coven, ou, ainda, pela bruxa solitária. Não se trata de um niilismo incongruente ou sincretismo que tudo permitem, mas, antes, de uma adequação ao que o grupo ou a bruxa solitária reverenciam como elaboração de suas respectivas maneiras de sagrar o Feminino.  

Para a prática de bruxaria solitária é bastante interessante o isolamento como natural resultado de experienciação dessa senda de autoconhecimento. Passei muito tempo de prática solitária preservando-me nos dias de sangue e utilizando o tempo útil no recolhimento da meditação, quase sempre por meio do afastamento dos afazeres profissionais e do convívio social. 

É bem verdade, contudo, que o afastamento também acenava ausência de empatia energética na parceria que um relacionamento poderia oferecer, tendo em vista que nem todas as pessoas professam o mesmo caminho de autoconhecimento que eu (nem estou sugerindo isso).

Mas diante da afinidade energética e do compartilhamento de temas comuns na senda de conexão com o sagrado não vejo problema em imergir nos mistérios do sangue com o parceiro, conquanto isso seja decidido em comum pelo casal, bem como desenvolvido ao longo de um tempo de dedicação recíproca ao desenvolvimento energético e psíquico (caso contrário estaríamos diante de parasitismo ou vampirização psíquicos). 

Considerando a plenitude de um ciclo energético altamente rico, fértil e poderoso, a união sexual entre parceiros durante o período de declínio de fluxo sanguíneo (ou até mesmo prosseguindo na ovulação) potencializa toda sorte de elaboração mágica elaborada pelo casal, atuando como catalisador de eventos cuja mentalização (ou visualização) demanda ser plasmada do plano sutil para o psíquico (ou físico). Daí a crucialidade em desenvolver um relacionamento harmonizado, na medida em que os planos sutil e físico entrelaçam-se na formação de egrégoras. 

Com isso, a rigor, valeria o mesmo princípio hermético: necessidade, conhecimento e emotividade na realização do ato. Por intermédio da adequada preparação ritual forma-se um vórtice energético altamente produtivo e que pode chegar até a empreender a uma ruptura dimensional para permitir acesso a outros planos existenciais. 

Quer seja um simples esbat no qual Deus e Deusa unem-se no hiero gamos para o alcance da unidade, como em um sabbat ou no cotidiano das práticas pagãs, a união sexual entre parceiros durante o período de declínio menstrual é hábito saudável e sugestionável para o equilíbrio energético entre os pólos.

Sem deixar de mencionar os benefícios para a fisiologia feminina encontrar-se com seu contraponto (no caso adotei o paradigma heteroafetivo/sexual como referência em virtude de minha experiência pessoal, sem prejuízo da liberdade que a plenitude de escolha sexual acarreta), na medida em que as feridas patriarcais de outrora passam - pela confluência harmoniosa dos parceiros - a ceder espaço para a verdadeira cura energética ante a conscientização sobre equalização, completude e complementaridade. 

"(...)
Que a estrada se abra à tua frente.
que o vento sopre levemente às tuas costas
Que o sol brilhe morno e suave em tua face.
Que a chuva caia de mansinho em teus campos.
E até que nos encontremos de novo.
Que os Deuses te guardem na palma das mãos
(...)"





quarta-feira, 3 de julho de 2013

As above so below: os pequenos rituais de limpeza e purificação...

Sempre fui adepta dos aromas exóticos que os incensos oferecem aos olfatos mais aguçados e sensíveis, por entender que paladar e olfato são as portas de entrada para percepções sensoriais mais profundas. 

Desde o sândalo - com sua acentuada nota de docilidade cortante - até o jasmim em sua fragrância cítrica, tudo sempre foi (e é) uma novidade em termos de busca por cheiros diferenciados para finalidades distintas no mundo mágico. 

Acordei inspirada pela Grande Mãe de Sabedoria Infinda a compartilhar algumas ideias sobre profundidade que um ritual de limpeza oferece a partir da escolha dos elementos usados para se depurar o ambiente. 

Isso, ao longo da trajetória familiar - sobretudo nas lições sábias da matrilinearidade do clã de La Vega - descobri pouco a pouco o que a Natureza revelava como conhecimento gratuito, materializado no uso de instrumentos, ervas, defumadores e substâncias como acetona, amônia e cânfora.

A limpeza astral - ou energética - contextualiza-se bem nessa jornada mítica rumo ao maravilhoso mundo dos cheiros, a partir da qual se desenvolvem  os pequenos (ou grandes) rituais mágicos em suas distintas expressões de finalidades. 

Dentro do preceito hermético de reflexividade entre mundos etéreo e físico - materializada na famosa frase "as above so below" ["como acima é abaixo", primeira lei hermética ou máxima de Trismegisto]- a limpeza e a purificação do espaço ocupam um lugar central, pois, por intermédio delas - como condição necessária e suficiente - os enredos mágicos e bruxedos tomam forma, harmonizando os planos dimensionais e desfazendo nodos, miasmas e demais formas-pensamento que eventualmente plasmamos, herdamos ou plantamos em nossas imanações conscientes ou inconscientes. 

Desde as antigas tradições de magia (cerimonial, alta magia) até a bruxaria tradicional - bem como a familiar - existe certo consenso em se ter nos planos (astrais, energéticos, anímicos etc.) dimensões coexistentes a formar uma realidade una, e não dual, como usualmente se cristalizou ao longo da historicidade, sobretudo a ocidental, que se especializou numa cisão - a dualidade - entre o mundo natural e o dito "espiritual".

[Nesse sentido prefiro usar a palavra "mundo etéreo ou invisível" ao invés de espiritual, por acreditar que a palavra "espírito" foi indevidamente apropriada e descontextualizada por algumas manifestações religiosas, de modo a agregar certo ranço de discriminação com tudo que não estaria contextualizado numa egrégora de cristandade, a exemplo do que Blavatsky e Kardec construíram em termos de dogmática em suas respectivas agremiações de base cristã]

Voltando ao tema e diante de tal raciocínio, a limpeza e a purificação "do que está acima" reverberam no plano do visível (ou seja, na dimensão densificada do físico), harmonizando, assim, as esferas dimensionais do que se vê e não vê. 

Na bruxaria familiar - bem como na própria wicca - a limpeza está simbolicamente vinculada à figura da vassoura - usualmente de piaçava - ora tida como artefato alegórico, ora erigido como verdadeiro instrumento cerimonial. 

Na Idade Média a vassoura passou a ser a marca identitária das praticantes de bruxaria, sob a alegação de galgarem as bruxas altos voos em cimas de suas vassouras, lambuzadas por unguentos que venciam os obstáculos da gravidade. Outros tantos relatos falam no uso no cabo da vassoura como o cajado cerimonial que, ao ser descoberto em eventual inspeção inquisitorial, transformava-se facilmente em um objeto ingênuo (vassoura).

Não importa o vasto contingente de interpretações dadas ao uso da vassoura, pois vale a regra: o que é é, a partir da agregação entre necessidade (que atrela motivação e desejo), emoção (gatilho subconsciente) e conhecimento (dados transmitidos), elementos vitais para o trabalho mágico e que se materializam na vassoura como um primeiro momento de limpeza etérea e física. 

O altar varrido invoca a percepção de limpeza a partir do elemento Terra presente tanto na piaçava da vassoura, como no movimento delicado e respeitoso de devoção ao espaço. Varrer esparge e bane uma categoria mais perceptível e densa de energia, iniciando, assim, o ritual mais profundo de purificação. Eis a razão pela qual se varre sempre um espaço de dentro para fora e, de preferência, para a rua.

Feito isso uma receita sempre infalível: borrifar os quatro cantos do ambiente, em sentido horário (particularmente caminho na Roda da Egrégora do Sul, segundo Coriolis) com acetona diluída em água (solvente universal) na proporção de 1:3 ou, ainda, com amônia em água na mesma proporção. 

De novo a regra - o que é é - pois os acentuados aromas de tais substâncias - bem como sua concentração que até causa náusea - são bons indicativos de limpeza astral. Não há miasma e forma-pensamento que resistam ao acentuado aroma dessas substâncias, conquanto, claro, não seja apenas um ato mecânico de borrifamento, mas, antes, um impulso volitivo no qual a fórmula necessidade + emoção + conhecimento dá a tônica. 

Vivendo e aprendendo com a sabedoria dos membros do clã: tempos atrás uma grande amiga (Dona Maria Beatriz) sugeriu-me a diluição de 5 pastilhas de cânfora em álcool e seiva de alfazema, o que achei pitoresco e interessante de ser investigado. 



Descobri no aroma da cânfora o mesmo aspecto de repulsa olfativa presente na amônia e na acetona, o que me parece ser bem providencial, até mesmo porque nas sendas esotéricas corre o relato de uso positivo da cânfora na época de disseminação da gripe espanhola

A cânfora é usualmente comercializada em pastilhas, mas descobri que pulverizada (ou seja, macerada em um almofariz, o famoso pilão) ela esparge o fogo melhor, aderindo à mistura feita em sede de defumação. 

Ainda que a medicina alopática negue veementemente - alegando ser placebo - nunca é demais mencionar a existência de outros paradigmas científicos e, no caso medicinais, a exemplo da medicina chinesa, aiurvédica  homeopática que, ao longo dos 6.000 anos, têm mostrado a derrocada dos antigos sistemas dualistas (medicina tradicional alopática é um deles, pois se pauta em premissas superficiais de ataque à consequência no plano físico-causal, e não ao plano unicista).

Mas voltando às descobertas... 

Já a seiva de alfazema - nunca é demais lembrar que a origem da planta, muito disseminada em rituais e cultos afro-brasileiros, remonta à Europa (sobretudo em locais de clima temperado, a exemplo da França, que ostenta as mais belas plantações do mundo), utilizada irrestritamente no tratamento da insônia, gripe, tensão nervosa, depressão, bem como no tratamento ginecológico (outro dia falarei mais a respeito).

Seu aroma não é tão pronunciado - em termos de repulsa - como as substâncias acima descritas, mas, antes, agrega um diferencial concomitantemente cítrico (tudo que é cítrico é agente de limpeza e veículo anti-depressivo) e suave, o que lhe encaminha para o trabalho de limpeza, purificação e harmonização. 



Daí a genialidade - grata, Dona Beatriz! - em se elaborar uma diluição de 5 pastilhas de cânfora em 2 porções de seiva de alfazema e 3 de álcool (5:2:3), formando uma mistura agradável ao olfato e que pode ser espargida no sentido anti-horário, pois não se trata apenas de expulsão e banimento, mas, antes, de uma mistura que limpa e harmoniza ao mesmo tempo.

Aliás, de tudo que aprendi até aqui com minha mãe avó e tias, uma dica: o que cheira bem indica que deu certo... O que cheira mal, a menos que seja da essência do elemento o odor (pois se trata de defesa da Natureza) indica erro no trabalho alquímico e a necessidade de voltarmos à experiência, na base da tentativa e do erro (grande lição apreendida com a magnífica Nôra Shannon).

Depois desse pequeno ciclo depurativo no qual Terra e Água são proeminentes como veículos passamos ao trabalho com o Fogo e o Ar: eis a colaboração dos incensos e defumadores tão apreciados no mundo mágico! Mais uma vez vale a regra: emoção + necessidade + conhecimento, elementos anímicos vitais para o sucesso de um ritual de purificação. 

Adepta do incenso por muitos anos - para falar bem a verdade, minha vida mágica inteira - evitei o uso dos defumadores, tendo em vista a praticidade que os palitinhos ofereciam em termos de facilidade na queima. Hoje mesclo o uso de incenso com ervas de defumação de acordo com a finalidade. 

Muito se fala sobre as diferenças entre incensos e defumadores... Confesso ter rido muito nos últimos 20 anos de proliferação de artigos na  rede virtual (por isso ainda prefiro os sebos e livros físicos, a exemplo da Estante Virtual) que nada esclarecem, mas, antes, trazem mais e mais confusão para as mentes percucientes e sedentas de conhecimento mundano.

O incenso consiste em uma mistura que traz como base uma resina, carvão ou massala na composição de um pó que tanto pode ser macerado e amassado em torno do palito, como, também pode ser usado in natura, ou seja, no próprio pó. 

O defumador é uma mistura herbal ou resínica granular que não contempla a maceração como modus operandi. As diferenças residem, assim, em um primeiro momento, tanto na composição da mistura (pois no caso do incenso, o carvão e a massala são as notas mais perceptíveis, a começar da cor e da textura), como na coloração. 

Sem deixar de mencionar a necessidade de maior expertise no manuseio de defumadores, pois dependendo das resinas e das ervas usadas, torna-se necessário o domínio na articulação entre o fogo e o ar, ao contrário do incenso, no qual o acendimento é mais simples. 

Há quem diga que o nível de adentramento nos planos sutis é mais profundo quando se utiliza a defumação ambiental para a purificação, mas lembro que os relatos históricos dão o mesmo crédito para o incenso e para a queima herbal/resínica, já que, ao final, a equação necessidade+emoção+conhecimento é a mesma. 

Aliás, a queima de incenso/defumador agrega os três elementos (fogo, ar e terra), sendo profunda a purificação realizada. Seguindo, porém, a velha máxima do "que é é", o volume de resina/erva transmutado em ar tende a ser maior no caso da defumação, o que acena para uma proporcional limpeza, se comparada à sutileza com a qual o incenso revela seu alcance mais imediato. 

Dentre os absurdos que já li a respeito da polêmica incenso versus defumador uma última ressalva: a defumação não é um instrumento exclusivo dos sistemas sincréticos afro-brasileiros, assim como o incenso não é monopólio inventivo da Índia, pois a utilização de ambos remonta a povos das mais distintas origens e raízes, o que torna seu uso de irrestrita propagação. O diferencial reside na destinação do uso do material, e não em uma alegada eficácia relacionada ao sistema religioso e mágico a ser manuseado. Há espaço para ambos.

Dada a necessidade de uma profunda limpeza, opto pelo manuseio do defumador granular, pois além de permitir a liberdade na escolha das ervas e das resinas, permite maior aprendizado na lida com os elementos, já que não se trata pura e simplesmente de atear fogo, mas, antes, de harmonizar a relação fogo-terra-ar para que a misture vingue e cumpra seu propósito. 

Ao final do processo de limpeza e purificação sempre imanto a energia com sal grosso, o eterno incompreendido elemento. Muito também se fala sobre sua potencialidade repulsiva (algumas pessoas equivocadamente entendem que um banho de sal grosso deve ser feito da cabeça aos pés), mas na liturgia europeia antiga - sobretudo na bruxaria familiar - o sal FIXA, pois a despeito de advir da evaporação da água, sal é elemento Terra, fixador universal de motivação e propósito. Ou seja, não contém em si mesmo o propósito de banimento, mas como cristal fragmentado, é programado para tal, como um computador. 

Daí, quando depurada a casa, a colocação de sal nas frestas e portas dar azo para a formação de uma barreira energética: não se trata da propriedade intrínseca do sal grosso, mas da programação (equação necessidade + emoção + conhecimento) feita a partir dele e após o ritual completo de limpeza. Afinal, "o que é real a terra fixa, a água purifica e assim permanece; o que é ilusório o fogo transmuta, o ar carrega e assim fenece" sabedoria antiga imersa nas brumas esquecidas por uma humanidade que se especializou no uso da razão e se esqueceu dos meandros do invisível...

Caed mille fàilte!