domingo, 16 de novembro de 2014

Do pau-brasil à Hy-Brasil: as brumas míticas dos locais sagrados para os antigos celtas

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Não é novidade alguma toda mitologia se firmar em uma dicotômica divisão do mundo: físico versus espiritual, bem versus mal, visível versus invisível. Boa parte das culturas - ocidentais ou orientais - sempre contrapõe dimensões, espaços ou locais físicos que se mostram como uma espécie de "além-mundo" perceptível e sensível, portais de acesso a outras realidades imperceptíveis aos olhos céticos.

De um lado subsistiria o mundo palpável e ordinário, visível e táctil. De outro, um universo mágico, geralmente alcançável após uma árdua expedição na qual se realizam verdadeiras "provas de fé" e coragem aos guerreiros e às guerreiras [basta lembrar que na mítica celta geralmente as provas eram compostas de uma tríade de esforços, exigindo muito esforço de quem se arvorasse da missão].

Avalon é exemplo disso: ilha de sacerdotisas que resguardam o Rei Arthur até o momento em que a Inglaterra dele mais necessitar. Ou, ainda, lar sagrado dos segredos mais ocultos da humanidade e local de descanso no além-vida para alguns segmentos do paganismo (Terra da Maçã). Os sídhes também, como moradas invisível em montes, picos ou montanhas habitados na Irlanda pelos filhos da Deusa Dana após da tomada da Ilha Esmeralda pelos formoire.


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Muito se fala e já se falou sobre Avalon: hoje desejo compartilhar algumas ideias sobre Hy-Brasil - a ilha fantasma - outro local sagrado para os irlandeses e que supostamente teria dado azo às especulações sobre nosso país, Brasil. Seria uma mera coincidência atribuir ao país específico nome? 

Os livros de História do Brasil costumavam trazer a origem do nome do nosso ilustre país atrelada à madeira que os portugueses encontraram no litoral (pau-brasil). Após um suceder de nomes - Ilha de Vera Cruz, Ilha de Santa Cruz - a nomenclatura "Brasil" quedou mais condizente com a natureza aqui encontrada (que serviu de inspiração), pois teria sido o pau-brasil a fonte de inspiração (mesmo diante da coincidência de, em Portugal, bem como na Espanha , redutos celtas, essa lenda ser de conhecimento geral).

O que poucas pessoas sabem, contudo, é que no século XX essa versão histórica começou a ser contestada e difundida, principalmente pelos autores Adolfo Varnhagen e Capistrano de Abreu, coligando Brasil à ilha mágica próxima à Irlanda, lar de fadas, bruxos e magos.

Na mitologia irlandesa, Hy-Brasil - também é conhecida por Hy-Breasal, Hy-Brazil, Hy-Breasil, Breasil ou Brazir - era uma ilha envolta em brumas e somente acessível durante sete dias por ano, ocasião em que a névoa baixava e deixava à mostra uma terra linda, repleta por uma vegetação abundante, rios, cachoeiras e fertilidade. 

Para os irlandeses, quem conseguisse tocar uma porção sequer da ilha viveria eternamente, fato esse que levou muitos navegadores à busca por Hy-Brasil, sem , contudo, sucesso. A historicidade cartográfica traz relatos de navegadores que já teriam encontrado a ilha flutuante, habitada por sacerdotes conhecedores dos segredos ancestrais da criação do mundo. 

Etimologicamente Hy-Brasil teria vindo do tronco do irlandês arcaico Uí Breasil [Í= ilha], a designar o clã antigo do rei Breasal [Bres = grande, belo, magnífico], local escolhido para descanso do rei após sua morte (reforçando a ideia sobre tais ilhas serem residências póstumas. 

Isso reforça a tese de Hy-Brasil ser uma segunda morada dos deuses Tuatha no Atlântico oeste (no que os irlandeses tanto veneram como "a terra do pôr do Sol", ou, ainda, de Tir na nÓg, terra da juventude eterna (ou terra da promessa, dos vivos, ilha verde etc).

Existem relatos medievos sobre a catalogação de tal ilha, informação conhecida, inclusive, pelos navegadores portugueses, pois até mesmo Cabral alegou ter passado pelo ilha no trajeto para cá. 

Antes dele - em 1497 - John Cabot já havia encontrado a terra, sempre mencionada geograficamente estando a sudoeste da Irlanda (por acaso - e não é acaso, o Brasil está situado nessa posição). No séc. 17, Alexander Johnson e sua tripulação também teriam encontrado a ilha, tendo desembarcado lá e conversado com moradores locais, de quem receberam presentes. 


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Para o mundo mágico, estamos assentados na própria ilha, quer seja por sua "descoberta" providencial, ou, ainda, pela nomenclatura sincronicamente articulada com a vegetação que, diga-se passagem, lembrava o verde esmeralda da Irlanda. 

Disputamos, contudo, o título, com a Groenlândia, outro paraíso verde esmeralda, em posição cartográfica idêntica em relação à Irlanda e dotado de uma força mística e telúrica imanente. Brasil ou Groenlândia? Não sabemos, pois a força vital e as egrégoras que promanam desses dois países alimentam ambas versões. 

De outra sorte, se Cabral estava ciente e preordenado a encontrar o lar de Breasil não sabemos, mas as incertezas em relação ao percurso, bem como as informações que hoje colocam em xeque-mate a ingenuidade do acesso à terra findam por reforçar a crença de ser a ilha fantasma bem mais real do que se possa imaginar.  


Fáilte, Hy-Brasil!

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Enfim, o fim e outros começos: é tempo de Samhain no limiar da roda céltica da poesia!

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Fáilte, Samhain!

Dia 31 de outubro é, sem dúvida, o dia mais preciosamente mágico para as comunidades e famílias pagãs que reverenciam a roda celta do viver-morrer: trata-se do giro para Samhain, o dia de reverência ancestral às casas, bem como de desnudamento dos véus estelares que separaram os mundos dimensionais dos vivos e dos mortos. 

Já estou vivenciando internamente o momento da finalização: minha roda inicia seu fim na sexta-feira, culminando energeticamente na derrocada da roda de 2014 no dia 02 de novembro [aliás, nunca é demais repisar a coincidência de celebrações em culturas e países distintos, Dia de Finados, Dia de Todos os Santos, Dia dos Mortos]. Diante do fim, o inevitável: preparar-me para ele, com o agradecimento pela colheita do ano e a projeção do que desejo para minha vida na outra roda

Esse é o sentido de Samhain!

Nada simbólico, mas vivencial: não se trata de metáfora, analogia, representação ou simbolismo. Viver a roda é experienciá-la em cada ponto longínquo de nosso corpo e alma, coligando emoção, necessidade e o conhecimento sobre a data, para que a magia seja plenificada. 

É sentir a morte de nossas células, bem como a revitalização de nossas almas no ressurgimento, firme, forte e pleno, de nossos corpos restaurados em sua plenitude e força. 

O viver mágico consiste no percurso de uma senda que nos aloja cada vez mais conectados com o Sagrado e mais distantes do que se convenciona chamar de "mundo". Não há palavras para traduzir essa bem-aventurança em estar presente no aqui e no agora, vivendo a roda da vida e edificando a sina que nos leva ao passeio frugal até a casa de nossos ancestrais. 

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Não se trata de "Dia das Bruxas" ou simplesmente "Halloween", como muito se pretende agregar à ideia, mas, antes, de uma finalização dos oitos festivais de colheita que sinaliza o término do ano celta. 

Isso porque, em outras postagens tive oportunidade de comentar a simplicidade da estrutura temporal para os celtas: inverno e verão, dia e noite, início e fim. 

Seguiam o curso/fluxo de uma Natureza percebida nas dicotomias cujas nuances e meio-termos pontuam a mandala da roda (a exemplo da modificação gradativa do gelo para a floração, ou, ainda, do dia para o entardecer). 

O fim, com isso, não sela extinção, para impulso criativo para outros e novos ritmos. O fim não é tristeza, mas o enredo adocicado do júbilo celebrado entre irmãos que concebem a morte como parte de um processo natural e inexorável de retorno aos braços do Sagrado para o renascimento em outra vida. 

Girando pelos oito sabás, Samhain marca a morte sacrificial do Cornífero - símbolo fálico de fertilidade - que, adiante, em Yule renascerá no ventre fecundado da Grande Mãe provedora. O Cornífero atingiu seu ápice de espargimento seminal, cumprindo a tarefa de povoar e disseminar. 

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Como adulto e macho, Ele ruma para o direcionamento consciente do seu fim. Tragédia, fatalidade ou evitabilidade? Não importa, pois a narrativa celta marca - ao contrário da pegada grego-romana -  a adoração pelo abraço da morte, já que o destino nos encaminha para as moradas de nossos antepassados. O Deus morrerá no invólucro de uma roda para despontar revigorado em outra existência, razão pela qual Samhain e Yule se dão tanto as mãos!

A tessitura das fronteiras encontra-se tênue, ao mesmo tempo em que as vibrações findam por formar egrégora forte de conexão com o Outro Mundo na noite do dia 31 de Outubro, possibilitando toda sorte de comunicação com os antepassados. Sim, claro, já que a senda vivificada nesse dia invoca o perecimento do Deus Cornífero, o ato reverencial consiste na devoção aos que já foram. Por isso Samhain remonta ao silêncio, à austeridade e, sobretudo, ao respeito a quem não está mais em carne. 

O acionamento dessa egrégora é essencial para compor, noutro giro, a polaridade da realização do devir em Yule. Afinal, só podemos seguir e cumprir nossas metas fortalecidos e confiantes, tarefa assumida pela coligação ao passado e catalisada pela colocação de velas acesas (na cor laranja, roxa ou preta) nas janelas das residências [guiando os caminhos e abençoando os liames consolidados na noite sagrada].

A tradição recomenda, ainda, a colocação de comidas (à base de abóbora, cereais e carnes), acepipes e bebidas (vinhos quentes) a serem partilhados durante a noite para os ancestrais se nutrirem do alimento abençoado. Pode soar ingenuidade acreditar que não, mas os espíritos se nutrem dos campos eletromagnéticos elaborados em torno dos alimentos consagrados. 

Noite de queima, por excelência, dos agradecimentos pelas colheita, em ervas auspiciosas para tanto, como manjerona, manjericão, louro. Se a Lua estiver bem aspectada, faço, ainda, outra queima, de tudo de desejo alcançar e construir no ciclo seguinte, queimando com cravo, canela, gengibre, mirra ou alecrim. 

Escrevo tudo em uma lista, imanto a vontade em uma rima entoada ao som de tambores e sopro três vezes antes de jogar no caldeirão. Esse ano não estou certa sobre acender a lareira (o que é ideal), pois está chovendo muito aqui no cerrado e a lareira que temos fica no jardim. Mas os pedidos no caldeirão já resolvem. 

De resto, reúna quem você mais ama e glorifique suas ancestralidade nessa noite auspiciosa! Seja feliz, forte e pleno!

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terça-feira, 23 de setembro de 2014

Ostara, Alban Eilir ou simplesmente let it be: vivendo o florescer da regeneração do espírito

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Passei o dia de ontem às voltas com a recuperação de um mal-estar súbito no fígado, órgão que sempre está associado à raiva, frustração, mas também a eventuais ataques ou desequilíbrios concentrados no plexo solar, eixo vital de energia). 

Com isso me lembrei não ter postado nada sobre a chegada da Primavera, dia 22 de setembro, a partir das 22h32min. Não postei texto, ou celebrei a roda ontem, por estar totalmente esgotada e drenada em minha força vital - bem designativo de déficit no fígado - e, com isso, apenas agradeci, como, de fato, agradeço todos os dias em que desço da minha casa para o trabalho, atravessando uma extensa alameda repleta de ipês amarelos e paineiras.

Hoje, contudo, senti-me renovada pelos raios de sol de angulação auspiciosa para trabalho de cura, pois a Lua está Negra em Virgem, em um dia dedicado à intensidade da guerra, fazendo-me lembrar da força de Morrighan, a grande Deusa e seus três corvos, que providencialmente dilaceraram as vísceras de CuChulain quando o herói, enfim, pereceu. 


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Conectada à Deusa Negra em mente/coração e ao som dos tambores e bodhráns da banda escocesa Albannach, abri todos os caminhos até a chegada ao meu local sacro de atividades. Depurei, ao longo da trajetória, a alma e o corpo de toda e qualquer ligação que pudesse manter a sensação de drenagem e a falta de energia. 

O fígado, disciplinado, respondeu atentamente ao chamado ancestral, motivado pela energia e respiração, coordenando o ritmo da visualização à vibração da cor verde a sibilar "eu respiro e me curo, afastando todo o mal e a doença". Esses são os comandos básicos aos quais a alma atende, quando devidamente acionada pela repetição ritmada de frases ou rimas. 

Essa foi, então, minha especial forma de consagrar à Primavera festiva meu processo especial de regeneração e cura! Viver a senda é percorrer o caminho, experienciando em cada ponto remoto de nossas células vitais o chamado para a harmonização com o Universo. Meu especial dia de celebração da roda da vida, em qualquer que seja a reverência feita pelos mais diversos clãs, nesse ou no outro hemisfério!

Ostara ou Mabon em termos de calendário de hemisférios distintos, ou, ainda, dentro da roda celta de celebração da vida, Alban Eilir, que reúne os atributos vitais de regeneração e vida, na abundância da lactação, do nascimento e, sobretudo, de luz, muita luz! A luz que dissipa a incerteza, a dúvida, a mácula da doença e, sobretudo, o véu da ignorância...

É tempo de regeneração da Terra, que saiu do inverno rigoroso para se refestelar na abundância das florações. Ipês amarelos se reunindo como buquês, enquanto paineiras se acotovelavam para saudar o Sol despontando de maneira absolutamente majestosa!

Eis que a cura vem chegando! E quando uma egrégora se agita, transformação, na certa, sempre ocorre! Que venham os desafios para serem transmutados em dádivas!

terça-feira, 2 de setembro de 2014

De magos, bruxas e feiticeiros: relíquias semânticas na obra de Jeffrey Russell

Fonte: http://imguol.com
Depois da finalização do doutorado, voltei a me dedicar às leituras lúdico-científicas sobre o viver mágico e bruxesco e, no meio das pérolas, deparei-me com o livro História da Bruxaria, de Jeffrey B. Russell e Brooks Alexander (São Paulo, Aleph Editora, 2008), um sólido e consistente compêndio organizado por um historiador medievalista estadunidense com formação na Universidade de Berkeley.

As andanças pela Antropologia Jurídica (por meio da pesquisa etnográfica e das leituras correlatas) trouxeram um incremento na sensibilidade para o tema, unindo a vivência no Sagrado Feminino e na ancestralidade a um desejo enorme pela articulação com o instrumental que a academia traz de suporte para os processos interpretativos. 

Noutro giro, têm colaborado sensivelmente para uma remodelagem dos próprios processos intuitivos tão mal compreendidos pela "ciência tradicional", mas paradoxalmente satisfatórios sob o contexto de uma proposta fenomenológica de imersão nesses temas tão controvertidos. 

Embalada por essa euforia, voltei minha atenção para esse livro e, com isso, decidi compartilhar algumas reflexões bem embrionárias, com a consciência bem leve no sentido de não formar ilhas de pretensões quanto à verdade, mas, antes, de dividir propostas interpretativas razoavelmente construídas. 

Antropólogo/as, mago/as, feiticeiro/as e bruxo/as que me perdoem em suas áreas, mas em uma sociedade marcada pela complexidade (Morin), a retirada de marcos divisórios é altamente saudável quando nos posicionamos no sentido de procurar compreender processos de construção de saber.

Havia lido a obra acima logo no ano de sua edição, mas costumo sempre revisitar os livros, uma vez que nossas ideias, pensamentos e concepções se modificam diuturnamente. Estou apreciando agora uma leitura mais pausada e deliciosa, atentando para detalhes que, outrora, não foram observados.
Fonte: http://img.travessa.com.br/livro

Gosto muito desse tipo de leitura, que une o acadêmico/científico à ludicidade que a narrativa histórica e mítica traz para a estruturação do pensamento. 

Esse toque acadêmico, ao meu ver, torna o trabalho ainda mais interessante, uma vez que boa parte da literatura referente à bruxaria no Brasil - tem se revestido ultimamente de uma superficialidade ímpar, pautada pela falta de referências e dados confiáveis, para não dizer o mais completo senso comum em termos de conhecimento. 

Com isso, entre estudar bruxaria bebendo à fonte de antropólogos, sociólogos, historiadores e mitólogos, ou recorrer às bruxas e aos bruxos circunstanciais (ou seja, as pessoas que vão dormir clérigas e, no meio da noite, decidem ser bruxo/as "desde sempre"), é preferível buscar alento nos primeiros. Isso porque o relato histórico-antropológico se reveste de elaboração sofisticada, segura e profunda, que pode muito bem ser complementada, tanto por outras fontes, dentro e fora da academia.

Comprometidos com a interpretação sobre as vivências, deixando clarificado o ponto de vista nativo, antropólogos tendem, em regra, a adotar uma visão séria e específica não só em relação ao fenômeno, mas ao sentido que ele adquire para quem o vivencia, imergindo naquilo que se entende por "fusão de horizontes" (nativo e antropólogo). 

Muito honesto sob a perspectiva de se falar em sociedades no ontem e hoje, ainda mais quando se tem à frente movimentos que pretendem se apropriar de determinada "herança", no intuito de reivindicar o monopólio de conhecimento (o que historicamente deu azo à exclusão, perseguição e apartação).

Já o folhetim de colagens e plágios usualmente feitos pelos neófitos de plantão não trazem muito, a não ser a consolidação de alguns dados instrumentais básicos (por exemplo, referência de algumas ervas, cristais, astros etc.) que já estão no senso comum e, portanto, não demandam maior elaboração mental para acesso. Diria até que não passam de simples feitiçaria oportunista, ou, nas palavras de Evans-Pritchard, baixa magia, de cunho imediatista e instantâneo, dissociado da imersão no viver bruxesco (neologismo essencial para mim, no intuito de diferenciar da magia e feitiçaria).

No campo da literatura específica sobre bruxaria, melhor sorte não se encontra, pois além das referências serem, quase sempre, pautadas em impressionismo do/a autor/a - que "aciona" uma fonte mágica familiar, tradicional ou alienígena para se legitimar em campo - persiste dúvida quanto a pontos-chave, a exemplo da autenticidade das fontes, legitimidade do conhecimento de autores e autoras, entre outros. 

Foi importante, é bem verdade, a coletânea wicca dos anos 80-90 no Brasil, pois muito se traduziu e importou, tanto dos EUA como da Inglaterra. Mas depois de devidamente clarificados os referenciais, o percurso de publicização de tais referências iniciou uma descendente que, ao meu ver, acelera a cada dia a decadência ética no meio bruxesco. 

Isso por conta da falta de adequada compreensão do que são a bruxaria, wicca, feitiçaria e a magia, levando o/a leitor a se embrenhar por uma celeuma de confusas terminologias e sincretismos que nada têm de pluralismo cultural ou multiculturalismo, mas de rasteira bricolagem, ou, como C. Geertz tensionou sob a alcunha de "teses centauro", recortes e colagens de práticas distintas, sem a devida articulação ou contextualização das referências donde as práticas promanam.

Uma fornada de livros de autoajuda e "diários familiares" que lembram a literatura Crepúsculo (quem dera fossem Anne Rice) pretende invocar uma herança única, quase sempre de um ancestral que apenas o/a próprio/a sacerdote conhece, parecendo um plágio de Gerald Gardner com sua avó pouco conhecida, a Bruxa Um. Ou seja, autorreferencial, dogmática, hermética e validade em si. 

Deusas e deuses são acionado/as, ora como projeções sincréticas de uma Grande Mãe (como se toda a mulher, ou as deusas fossem, à unanimidade, mães, procriadoras e matriarcas), ora na autogênese de um eco feminismo que ainda não encontrou espaço, dada a fragmentariedade nas concepções pretensamente universalistas de mundo, geralmente o eurocêntrico, branco, capitalista e inconscientemente cristão.

Ao longo de 30 anos de biblioteca, reuni um compêndio considerável de livros que me serviram de base para, no aqui e no agora, firmar uma ideia (ainda que provisória) sobre a frágil base em que se lastreia o campo do conhecimento sobre bruxaria no Brasil, quer seja em termos de vivência, como, também, no acervo de informações. 

Sem polemizar muito sobre um assunto que tem se tornado enfadonho e apartatório (hereditariedade versus aquisição do status de bruxo ou bruxa), importante repisar que a herança de uma mãe letrada, literata, filósofa e bruxa (aí, sim, por nascimento, nome, ancestralidade e, se não bastar isso tudo para quem adora um pedigree, vivência em um modus vivendi estritamente) constituiu todo o diferencial, já que a senda pressupõe PERCURSO, e não apenas o folhear de páginas e mais páginas de livros e, no caso da pós-modernidade selfie, o "passar de dedos com L.E.R." pelo touch screen de uma Wikipedia e demais acervos pasteurizados).

Com isso, não posso deixar de mencionar as confusões semânticas nas traduções equivocadas feitas na afoiteza, que trazem conteúdos confusos e que podem nos dar a falsa sensação de profundidade, mas que encobrem, ao final, despreparo por parte de grupos, clãs e pessoas pretensamente comprometidas com o estudo da bruxaria e mais interessadas em fincar raízes na egolatria de elaboração de dogmas para se auto legitimar no monopólio do poder de dizer o que é bruxaria, de onde surgir, como se expressa...

Ou, pior ainda, arvorar-se na prerrogativa de autocraticamente rotular, definir ou afirmar quem é ou deixa de ser bruxo ou bruxa. Mais até, de separar semanticamente até mesmo o que é wicca e bruxaria, bem como quem é wiccan ou bruxo. Gavetas, gavetas e mais gavetas de classificação, com o diferencial equivocado de alojar dentro delas um microcosmo da mais completa bagunça - já que estamos falando em metáforas...

Grosso modo - e de maneira bem rasteira - isso é incidir no mesmo equívoco histórico tão debatido na pós-modernidade de pagãos e neopagãos ávido/as pela liberdade de expressão de suas crenças e práticas. O mundo pagão e, mais especificamente, a bruxaria, não necessita de tamanho desserviço à coletividade, pois o paradigma oficial já cumpre bem esse papel etnocêntrico e apartatório. 

Mas voltando ao livro, achei-o de uma honestidade ímpar, pois Russell inicia sua abordagem pontuando alguns equívocos que percebeu ao longo de sua observação e pesquisa (sim, ele chegou a entrevistar e acessar alguns bruxos e algumas bruxas para encetar o acervo). Separei alguns deles, muito mais para provocar a reflexão do que para propriamente desenvolver os temas:


  • curandeiro/a ser sinônimo de bruxo/a (pois dentro da percepção antropológica, sobretudo nas matizes africanas, o/a curandeiro/a ocupava um status social de praticar magia em contraponto à bruxaria);
  • concepção errônea sobre as bruxas praticarem missas negras como liturgia unívoca (ele faz um passeio histórico na corte de Luís XIV, onde se praticavam missas negras como forma de satirizar o catolicismo);
  • bruxaria ser um fenômeno característico da Idade Média (a partir do relato sobre as inquisições no apogeu da Idade Moderna) ou, ainda, esparsa na Antiguidade.
  • a Inquisição ser a única responsável pela caça às bruxas, quando as perseguições também eram secularizadas (França);
  • bruxaria ser compreendida como superstição, uma vez se constituir em um sistema de práticas calcado em uma cosmovisão coerente em termos de fundamento (não de dogmas);
  • bruxaria se contextualizar em um mundo "sobrenatural" ante ao princípio unitário de Physys;
  • formação etimológica equivocada da palavra witch em cima de um conteúdo midiático muito forte em torno da suposta "herança celta" que significaria "sabedoria". 
Muito interessante, confesso, esse último ponto. Sobre ele vou me debruçar agora, até mesmo por acreditar na vivificação da palavra - entendendo, com isso, que o simbólico e narrado tem tanto significado real e material quanto o que podemos vislumbrar no plano físico. 

Mas, enfim, vamos lá.

Russell desconstrói a ideia de pertencimento da palavra witchcraft ao campo semântico do verbo witan no inglês antigo, que redundaria numa arte de sabedoria (wisdom). Com isso, a "arte dos sábios" não seria uma definição apropriada para a palavra witchcraft, usualmente tomada como uma via ou caminho de mudança da realidade (arte de modificar o mundo segundo o próprio desejo). 

Wiccian, verbo a partir do qual Russell deriva wiccan (bruxo) e wicce (bruxa), remonta ao ato de "lançar um feitiço" (spell) ou "lançar um encantamento" (p. 13). Nos dicionários de old english podemos encontrar a referência a "fascinar" no sentido de "encantar" (to charm, que, depois, vai se aproximar da noção de glamour, outra palavra designativa de encantamento no tronco francês). 

A palavra etimologicamente vinculada à sabedoria é, para Russell, wizard (mágico), pois deriva da raiz wise acima descrita, que teve o apogeu de sua utilização no século 19 (especificamente a partir de 1825 (p. 14). Quer seja um ou outro tronco semântico, a palavra apresenta muita controvérsia. 

Sorcerer, derivada do francês sorcier (e introduzida na Inglaterra entre os séculos XV e XVI), indistintamente passou a representar bruxo ou feiticeiro, a despeito de originariamente ser vinculado à feitiçaria, ou seja, à prática específica de um procedimento com o simples propósito de alcance de uma finalidade.

Mageia, donde promana o radical -mag (que bem próximo está da palavra galega meiga, correlata à bruxa) que dá ensejo à magia, advém do grego, remontando ao que estava mais próximo à tentativa de cientificidade de práticas intelectuais sofisticadas, quase sempre relacionadas a cientistas em auxílio de reis e monarcas. 

Basta lembrar da busca incessante dos alquimistas reais pela pedra filosofal, saga da qual nem mesmo Sir Isaac Newton passou incólume, já que na boca pequena corre o boato famoso de sua filiação às práticas alquímicas em momento anterior à dedicação à Física e às Ciências Naturais.

Essa primeira cisão contrapõe antropologicamente alguns conceitos: feitiçaria, bruxaria e magia. A feitiçaria consiste, em Russell, na utilização de instrumentos, ervas e utensílios de maneira prática e voltada para determinado fim, enquanto a bruxaria consiste na vivência em senda, uma qualidade intrínseca, inerente e invisível de algumas pessoas. 

Nesse contexto, todo/a bruxo/a pratica feitiçaria, mas não se pode afirmar que todo/a feiticeiro/a é bruxo/a, na medida em que a bruxaria pressupõe um conjunto de práticas contextualizadas em uma senda pessoal ou familiar de vivência em uma cosmovisão na qual a interconexão - visível ou invisível - é a chave de compreensão para tudo.

O próprio Evans-Pritchard na obra clássica Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande,  traça uma linha diferencial - no âmbito das sociedades africanas - entre aquelas pessoas cuja mera presença física já ocasionava malefícios em uma comunidade (bruxos e bruxas), daquelas pessoas que, não possuindo tal qualidade ontológica, valiam-se de um instrumental prático para alcance de um fim específico (feiticeiro/as). 

Fonte da imagem:  http://www.wargamesfoundry.com/

Com isso, um/a bruxo/a age no mundo - e o transforma - apenas por existir nele, enquanto o/a feiticeiro/a, sem a vivência mágica ou a imersão em um saber/viver diferenciado, contrapõe-se à bruxaria (doctor witches) ou, ainda, apropria-se de aspectos dela para mudar algo.

Importante ressaltar que ainda que se trate de uma comunidade (no caso, a experiência de Evans-Pritchard nos azande) com tradições distintas sob o ponto de vista eurocêntrico, Russell crê na herança arquetípica - com padrões relativamente universalizáveis, porém não homogêneos sob o aspecto analítico-comparativo - a via interpretativa para tais proximidades, encetando, com isso, as distinções entre magia, bruxaria e feitiçaria tão largamente confundidas no senso comum do mundo esotérico.

O/a mago/a, por sua vez, possui um acervo mais sofisticado, como os sábios que auxiliavam a nobreza nas cortes: alquimistas, astrólogos etc., quase sempre cercado por muita erudição, livros e, sobretudo, conhecimento formal, quase "científico". 

O/a bruxo/a, ao contrário, não acessa o conhecimento formal por erudição, mas por vivência intuitiva em um percurso ou agir mágico - razão pela qual não se vale de um uso litúrgico e erudito de instrumentalizações, mas de utilização de um poder pessoal que já lhe é inerente. 

A relação com o mundo de ervas, cristais, astros de demais artefatos presentes na Natureza potencializam tal poder, tido por colaboração interconectiva, na qual a bruxa representa parte de um cosmos maior do que sua existência e, por isso, nada de sobrenatural, mas, antes, de perfeitamente acessível por outros meios que não a racionalidade.

Esse ponto é interessante para se entender a cisão com a magia acima descrita, uma vez que a ritualística formal e repleta de instrumentos é marca característica do sistema de alta magia (alta por supor também uma ideia de cosmos, mas sofisticada sob a perspectiva de erudição e conhecimento formal, o binômio que separou de vez a ciência do dito "sobrenatural").

O uso de espadas, cálices, bolines, athames etc. passaram a identificar a atividade mágica (alguns escrevem mágicka para distinguir do ilusionismo), quase sempre fulcrada numa outra dimensão de interação energética: hierarquia entre o mago e as entidades com as quais irá dominar, convencer ou articular em prol de sua causa. Daí a função primordial do círculo mágico, qual seja, de produzir um enredo sinergético de proteção para que o/a mago/a possa elaborar seus pactos com os seres de outros orbes. 

Essa herança que fortemente impregnou de sincretismo a bruxaria reelaborada como resultado de uma suposta trajetória de reconstrutivismo celta tem dividido muitas tribos, na medida em que ora se aloja para a wicca a formalização de uma instituição religiosa, quer seja no culto à Deusa e ao Deus como casal polarizado em uma cosmovisão igualitária, como, ainda, na elaboração eco feminista de auto criação com a qual algumas tradições cultuam apenas a Mãe e alojam o masculino para uma posição de consorte e subalterno adorador.

A partir daí, outras importantes ideias defluem: a wicca, a despeito do tronco linguístico comum - wicca, wicce e wiccian - não configura sinônimo de bruxaria no sentido antropológico do que significa esta como uma vivência no âmbito de um grupo social, pois se trata de uma religião neopagã, contemporânea, caracterizada pela formalização, bem como pela elaboração de um expediente litúrgico e dogmático, ora centrado em uma cosmovisão matrilinear de deidade central, ora polarizada no arquétipo do casal sagrado e complementar.

É sincrética, tanto no sentido instrumental - pois se vale de artefatos utilizados na magia cerimonial - como no reverencial, uma vez que se apropria de elementos cosmo-explicativos de várias expressões religiosas (desde a greco-romana, passando pela celtíbera, nórdica etc.). 

Sobretudo, é recente na História da ocidentalidade, uma vez que seus primeiros escritos remontam aos trabalhos importantes de Gerald Gardner, Margareth Murray (séc. XIX/XX), Alex Sanders - em uma primeira e segunda gerações, bem como dos pós-neopagãos de cunho ativista, como Margot Adler, Starhawk, Laurie Cabot, entre outras (estou simplificando a lista, muito mais ampla).

A bruxaria, por sua vez, remonta à vivência ancestral ressignificada na pós-modernidade sob o conjunto de práticas contextualizadas numa vivência de cosmos onde tudo se liga. Eis o sentido pelo qual não comporta a alcunha de religião, já que, grosso modo, nada existe para ser religado (na medida em que teia da vida coliga tudo e todos no Universo). 

A dualidade macho-fêmea não constitui o ponto central da bruxaria, muito menos a reverência a uma Grande Mãe e um Deus consorte. Parte do acervo finca-se na apologia ao tronco ancestral do qual advém o/a bruxo/a, quase sempre transmitido oralmente, de geração a geração e silenciosamente (motivo pelo qual se reveste de hermetismo).

O lacre hermético em torno de mistérios e segredos, contudo, não poupou a bruxaria da influência sincrética no uso de artefatos importados da magia cerimonial, pois não são raros os casos em que famílias guarnecem suas casas com punhais, cálices, bolines, pentáculos, ou, ainda, formalmente apresentam uma fachada cristã, encobrindo, contudo, segredos de família. 

No Brasil colônia, por exemplo, era costume destinar uma cristaleira ou armário para alojar imagens de santos, velas e relicários no topo e, dentro (e lacrado) escondiam-se ingredientes e instrumentos de poder, com a finalidade de disfarçar e desviar a atenção de olhares curiosos. Na Europa, a vassoura sempre foi um subterfúgio para esconder a verdadeira natureza do cajado, instrumento fálico de poder que bruxos e bruxas poderiam portar.

Magia, bruxaria, feitiçaria e wicca são práticas distintas de experienciação de uma senda de transformação da realidade sensorial. Cada qual com suas especificidades e singelezas. Traçar zonas limítrofes não retiram de cada qual sua importância para o engrandecimento do paganismo no mundo e, sobretudo, no Brasil. 

Mas, de outra sorte, evidenciar as distinções e ressaltar as diferenças é, no mínimo, um passeio histórico, sem deixar de mencionar a busca pelo próprio caminho em tão vasta trajetória de possíveis percursos. Existe espaço para todos, sempre! Com respeito e reciprocidade, pois longe devem permanecer os tempos de Inquisição, na qual o paradigma dominante e oficial espoliava a beleza e a riqueza em ser diferente. 




quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Ode à hipertrofia de uma estrela

Redoma infinda que ao menor toque se rompe
Na força pretensa de uma voraz armadura
No alento de um coração cercado de espinhos indômitos
Fornalha sórdida do que não é mais dito
Encerra, bruta, o enternecido
Caminha, ao fim, para o que é inevitável: vida!

Mito? Fito? Dito?
Conflito em jugo no céu em rompante
Mina em pó, oscilante
Degredado lar de formosas calcificações
Escrito? Tangência medíocre que o boçal emperra
Palavras doces, energia etérea
Quiçá bandida de todas as intermináveis eras

Eis a pedra que lacera a alma
O limiar da sanidade em meio ao sórdido
Esconde-se aos poucos
Da própria sorte
Em meio a tanto ainda a ser descoberto...

Fui..
Serei...
Já se foi
Aquilo que vinga já não mais sibila
Vivificou-se em túmulos escondidos
Viveu e se esvaiu sem bem querer...
Mal querer...
Sem querer...

A celebração da vida na contemplação da morte: fragmentos de reflexões

Fonte da imagem: http://adancadasfadas.blogspot.com.br/2012/02/macha.html

Cada cultura e religião têm suas peculiares formas de lidar com a morte, ora em completo júbilo libertário, ora revestindo-se de sisudez e silêncio profundos. Algumas pessoas vertem lágrimas desconsoladas (paradigma cristão de contemplação do medo da morte), outras tantas mantém em suas frontes o mais puro semblante de languidez e tranquilidade (religiões orientais).

Não importam as manifestações, pois, diante delas, nossa certeza derradeira sempre aparece: fim de ciclos, jornadas e da percepção material de nossa passagem por esse planeta Azul. Implacável morte como desfecho do protagonismo enquanto organismo senciente. 

Sempre me perguntei por qual razão, mesmo diante da inevitabilidade da morte, no Ocidente e, sobretudo, no Brasil, ainda se opta em alguns nichos por encarar a morte como a resultante pecaminosa do declínio do ser humano do Paraíso. Já ouvi muitas pessoas falarem em "descansar", "dormir", "repousar", ao mesmo tempo em que, dentro do suposto sistema de crenças espirituais, não seja lá isso bem satisfatório.

Por que pensar sobre isso?

Porque espiritualmente não se descansa, repousa, ou muito menos se dorme da maneira como, em vivência fisiológica, o ser humano usualmente faz. Aliás, sendo a não-matéria despojada de dimensões tácteis, nada existe de perda ou decomposição fisiológica, já que inexiste, a rigor, o que decair em termos energéticos. 

Energia não se anula ou destrói: outro mito desarticulado por Lavoisier, repisado na Física Clássica, Quântica, Astrofísica e Biociência em geral. De potencial para mecânica, elétrica ou térmica, não importa: o devir é uma constância de redefinições do humano enquanto síntese de processos sinérgicos. 

Mas, enfim, não consigo entender o dormir...

Na mítica celta, a morte marca o encontro desejado com o panteão ancestral, uma confraria bem regada a vinho, cerveja e outros acepipes ao redor da mesa redonda no Outro Mundo, lar eterno de todas as casas antigas. Se a morte adviesse de embate em lutas, mais nobre e digna seria a passagem do guerreiro ou da guerreira para o lar de sua família. Eis o motivo pelo qual os romanos não entendiam como uma horda pequena de guerreiros celtas estavam a rir diante da morte óbvia no confronto entre Suetônio e Boudicca, rainha vermelha que empunhou sua espada com o grito de incitação para seu povo. 

A morte, enfim, era apenas mais um momento separado de uma sensação pelo véu da invisibilidade. Temida apenas pelo fato de se desejar galgar a dignificação do lar dos ancestrais, mas, de resto, nada triste. 

Por que dormir? 

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Quando somos nossos maiores algozes...

Fonte da imagem: http://www.startrescue.co.uk/blog/wp-content/uploads/2011/05/irish-road.jpg

De repente, ele chega de mansinho, sem pedir licença ou avisar e, quando percebemos, o cansaço se instala em nossa rotina, o bastante para nos anestesiar. A apatia e a indiferença começam a pulsar dentro da alma, desejando anular o que temos de melhor. 

Buscamos culpados, olhando ao redor para guilhotinar alguém. E, quando não encontramos, decidimos culpar a nós mesmos, fazendo-nos mil perguntas, quase todas convergentes para uma interrogação só: por que me meti nessa? Por que fiz determinadas escolhas? Por que insisto na mesma estrada?

Tempos atrás postei um texto sobre a causa emocional das doenças e, por ironia, quedei aplacada por uma cistite recorrente, que sempre me atinge quando estou no grau último de frustração e decepção em algum relacionamento. Lendo a obra de Louise Hay decidi mergulhar a fundo na cistite, procurando, com isso, compreender minhas idiossincrasias para ressurgir curada ou, ao menos, com essa intempérie superada.


Fonte da imagem: http://www.semstress.com/wp-content/uploads/2012/12/bexiga-dor-276x221.jpg
"Descontentamento com as atitudes do parceiro no âmbito doméstico"- será que ela estava escrevendo essa sintomatologia para mim? - comecei a rir sozinha, imersa em meu lacônico narcisismo - "Descontentamento com o desempenho familiar na convivência". Estava com uma bazuca pronta para acertar o alvo, deleitada pelo prazer de fechar meu saquinho de responsabilidade para entregar para alguém quando, mais adiante, li que, ao final, toda essa frustração reprimida - não dialogada adequadamente - deriva de uma idealização do outro, na medida em que desejamos que a pessoa seja outra e, de preferência, alguém que reze a nossa cartilha

Saí do seis para o meia dúzia, pois, se, de um lado, desejava aniquilar outra pessoa por intermédio cobrança por atitudes, de outra sorte percebi quase me lançar  - e de uma forma não menos dramática - no fundo do poço do autoflagelo e da culpa, questionando a razão pela qual ainda insisto. 

Insistir no que? Num relacionamento onde inexistirão mudanças por nós produzidas, já que não é interessante pretender ou querer mudar alguém? Insistir em achar que se pode mudar? Insistir em escolher alguém que "não muda"? Ou talvez insistir em insistir no erro do controle do outro, da intolerância e, de fato, em jogar pedra no espelho? 

Não sei, mas acredito que, em meio a tanta dor na urina e bexiga inchada, cada dia tem me motivado a me observar mais, no intuito de simplesmente deixar o fluxo da vida e procurar focar mais para meus dilemas. Isso é simplesmente mágico, pois se passa de uma posição de vítima para a proatividade em se firmar o pensamento no autoconhecimento, bem como na busca de soluções para a superação de mazelas que insistimos em alimentar.

De fato, eis o que descobri por intermédio dessa "bexigueira" toda: não tem muito a ver querer que o outro seja aquilo que desejo, porque, afinal, não seria ele - ou ela - uma pessoa autônoma, e sim um retrato ou projeção de nossas individualidades. De outra sorte, tal percepção me leva a refletir sobre meus limites em relação a lidar com o desafio de me enxergar a cada dia para, a partir daí, ponderar se devo continuar meu caminho nessa senda para vivenciar o caminho diferenciado que estar com alguém pode representar. 

Ou seja, perceber se dentro do caminho escolhido as coisas fluem. Ou, caso contrário, observar que não. As coisas se ajeitam. Mas, para isso, estou tendo que refazer certos percursos, descobrindo que ainda insisto em me nulificar, em anular minha vontade em função de ajudar o outro. Nada mais hipócrita, pois nada tem de caridade isso. É o velho sentimento de fazer pactos que somente agridem.

O mais interessante nisso tudo consiste em observar que a cura para essa repressão toda enviada para a bexiga começa a despontar na medida em que deixo de fazer "caras e bocas" para cativar o outro e simplesmente sigo meu caminho. Isso tem sido essencial para eu descobrir, por vivência, que não se carrega ninguém nas costas, pois cada qual sabe ou deve saber de si. 

Simples assim...

De resto - e não menos importante - bastante água, cana do brejo e cavalinha, homeopatia. E conexão na gratidão.

Namasté!


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domingo, 3 de agosto de 2014

Felizes dias de Imbolc...

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O número três sempre foi significativo tanto para a o mundo mágico, quanto para a cosmogonia celta, representando a eternização do ciclo de vida e morte que, a rigor, é a base de compreensão dessa cultura tão vivificada. Os festivais de roda de colheita duravam três dias nos quais as celebrações renovavam votos de alegria, esperança e, sobretudo, gratidão, por isso aglutinavam toda sorte de atividades compartilhadas pelo clã.

Dia 01 de agosto marca o início das festividades de Imbolc na roda do sul, bem como de Lughnasadh para a roda do norte. Como estou bem tendente à formulação energética do clã, meu coração me encaminhou para observar a mudança sinergética para a comemoração segundo o giro no hemisfério sul. 

A data de celebração honra a grande e popular deusa Brighid, Brigit, Bríd, Bríde, Bridget, Brighit ou Briid, coincidindo com o chamado "pico do inverno", ocasião em que a incidência do Sol começa a afastar, pouco a pouco, a sombra do inverno. Nessa época do ano a luminosidade é linda, pois as cores ficam mais intensas, preparando-nos para o espetáculo primaveril que está por vir.

O Sol ainda não desponta com a plenitude de sua força, mas, de contraponto, já começa a afastar a escuridão. Data do despertar das sementes no solo, bem como do aumento da atividade lactante para o provimento das reses e demais filhotes. 

"Em leite" lembra a abundância que esvai das sagradas tetas da nutriz forte, que sobreviveu ao intenso inverno para garantir aos filhotes a poderosa alimentação que os sustentará. Na cultura celta, Oimelc significa "lactação", evidenciando a importância que a alimentação traz para o desenvolvimento da ria.

Nesse dia cultuamos Brid, deusa tradicionalmente cultuada em honra à fertilidade, cura, fogo e inspiração (poesia). Brighid é a padroeira dos ferreiros, artesãos quase míticos, cuja atividade era vista como a própria personificação da criação - já que o fogo conjuga o sopro da vida.

Esse ano convocamos uma egrégora no dia 01 de agosto - início dos festejos - sexta-feira, em honra à Brighid, com os cinco membros de nossa estrela sagrada. Como sempre, elaborei um cardápio auspicioso para a data, bem rústico e forte, pois o final do inverno, a despeito de despertar o calor, ainda traz consigo a brisa fria que demanda chama ao coração e estômago.

Carne de panela recheada com cenoura e paio, arroz com curry, salada e batatas sautè na manteiga e no cheiro verde marcaram as comemorações. Mas, antes, a abertura do círculo, com a convocação da egrégora ancestral, bem como o tocar do tambor marcaram o tempo dos corações batendo em sintonia.

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Em silêncio e em profunda concentração de propósitos, fizemos - cada qual - uma cruz de Brighid para agregar nossas intenções durante todo o ano. Nesse sentido, o crepitar das chamas consumindo minha antiga cruz trouxeram a lembrança do desapego, pois vi, pouco a pouco, a antiga cruz desaparecendo em meio ao fogo de nossa lareira. 

Brighid cura e inspira, elevando a frequência da casa e de nossos corações. Na Irlanda - reza a lenda - um fogo era alimentado em Kildare por 19 freiras e, em 02 de fevereiro de 1962 (QUINTINO, 2002, p. 74), a freira brigediana Mary Minehan acendeu o fogo perpétuo. 

É tempo de plantar sementes dos projetos, daquilo que desejamos desenvolver para o futuro. Imantamos na cruz nossos desideratos, elevando as estimas para a elaboração de uma egrégora saudável de criação de propósitos. Por aqui o clima não poderia ter sido mais agradável, com o ambiente de paz e tranquilidade. 

Estar ao lado de amigos e amigas não poderia ter sido uma melhor maneira de celebrar Brighid e a dignificação da arte, da cura, da poesia e do amor. Por mais que não seja, a rigor, uma deusa que personifica o amor, ela, por certo, agrega a amorosidade, sendo sempre lembrada por isso, já que também é guardiã das grávidas.

Com isso, desejo a todos e a todas que possam haurir da Terra os futuros ganhos. Que as sementes plantadas nasçam e renasçam, com a renovação das esperanças na primavera que está a despontar em nossos horizontes e corações. Que o segundo semestre seja marcado por júbilo em nossas vidas.

So mote it be!

Blessed be all of us!

Fáilte, Imbolc!

domingo, 27 de julho de 2014

Scotish bagpipe? Não, proselitismo humanoide dominical ou ode ao direito dos animais

Fonte da imagem: http://www.fiocruz.br/biosseguranca

Durou frações de segundos o arrebatamento, a sensação momentânea de ser projetada para uma highland escocesa ou, ainda, para os grandes vales esmeralda irlandeses. Não se trata, contudo, do "arrebatamento" crístico da mão divina levando os escolhidos, mas, antes, da surpresa em plena luz do dia deparar-me com uma melodia que tem o condão de tocar suavemente minha alma e me motivar a ser feliz.

O som da gaita de fole ainda está reverberando aqui em casa agora, mas horas atrás era vívido o som com que cada uma delas se harmonizava à percussão. Nesse exato momento em que escrevo - ou em que alguém lê meus escritos - o som fricciona meu peito, massageando meu coração e conduzindo à cada uma das células a felicidade em gotas de compasso.

Eu estava passando cera no chão da sala - tentando me recompor de mais uma tempestade que me drena as energias e a vontade de estar aqui quando - ao fundo, comecei a escutar uma série de músicas que me faziam acreditar estar em um pub vertendo uma boa caneca de stout gelada. 

O desalento, o cansaço, o derrotismo e, sobretudo, a vontade de sair correndo e desistir aplacaram-se, por instantes, na medida em que parei meus afazeres para tentar descobrir de onde vinha aquela música. Acreditei que estivesse vindo da casa vizinha, pois aos finais de semana uma banda lá se reúne para ensaiar. Pensei em tocar a campainha deles e simplesmente agradecer por essa melodia que me salvou o dia. 

Meu coração sucateado e cansado alegrou-se, encheu-se de júbilo em acreditar que aquela seria a música a me resgatar do limbo existencial em que insisto em me lançar. Desconfio até que a musiquinha foi uma artimanha dos deuses para que eu hoje pudesse respirar e viver em meio de tanta estranheza que o espelho me mostra a cada dia.

Mas quando abri a porta da frente para ir até a casa vizinha, deparei-me com um grupo de pessoas reunidas em uma bandinha marcial, estandartes formais e roupas que me lembravam o uniforme da Grifinória. Vi, ao longe, os tocadores da gaita de fole, os percussionistas e, qual não foi a minha surpresa ao abrir o portão de minha casa, dois adolescentes simpáticos, que desejavam falar comigo. 

Um deles mostrou um exemplar de um livro chamado "Psicose ambientalista", argumentando e ponderando a respeito da desproporção entre a penalização mais recrudescida do crime de maus-tratos a animais e o abandono de incapazes, falando em "inversão de valores" e no que isso tinha de absurdo. 

Achei interessante o título e talvez devesse ter sugerido outro, o "Psicose especista", de cunho menos conhecido porque, afinal de contas, quando se é sociabilizado em um paradigma dominante, tudo que é diferente passa a ser tomado como estranho e, porque não dizer, errado. Como não estava a fim de ir para a fogueira pela milionésima vez, calei-me e ouvi. Estava curiosa em saber o que significava aquele encontro Hogwarts em pleno domingo gélido.

Bem tranquilamente argumentei com aquela criança - que, por certo, foi doutrinada no paradigma da submissão da Natureza, bem típico da estrutura dual que tem na Queda o vetor para o ser humano sobrepujar o mundano e o meio ambiente - que particularmente não tinha eu problema algum com isso e que concordava com a penalização. Que acreditava existir espaço para todas as demandas em termos de direitos.

Rapidamente eles se despediram, não sem antes deixar um folheto do instituto que representavam (vinculado à Igreja Católica Apostólica Romana), no qual, na última parte, estava descrita a ideologia a que se propunham: a submissão da natureza (com "n" minúsculo) a "benefício do homem". Eis o motivo pelo qual estavam circulando pela cidade, em uma banda, com músicas honoríficas, para a sensibilização em torno da ideia de que um animal é menos importante do que um ser humano.

Não sei se me pegaram em um dia de anestesiamento da alma ou, ainda, se eu realmente cansei de todo e qualquer enfrentamento direto, mas, sinceramente, escutando aqueles dois jovens falar sobre importância de bens jurídicos eu, de plano, desliguei meus botões e só me vi em uma grande galeria de silêncio. 

Tudo ficou silencioso a partir dali. O mover das bocas não repercutia mais som, a banda não mais tocou e eu, calmamente (já disse, não sei se por quietude da alma ou por mera desistência diante de tudo), guardei em meu peito a memória emocional que as gaitas de fole trouxeram para a minha vida. Não fazia a menor importância para mim o monólogo da justificativa do meu posicionamento. Muito menos fazia sentido mudar a opinião de alguém. 

Só as gaitas importavam... Fiquei com elas. Guardei-as dentro de mim.

Percebi, ali, que cada qual tem sua visão de mundo mesmo e, dentro dela, muito pouco provável que alguém mude alguma coisa ou valor dentro de si sem que realize um profundo exame de consciência. Esse pequeno episódio em meu domingo me pôs a pensar nos espetáculos da minha vida, nas pequenas grandes situações em que me desgasto - e desgasto os outros - com tentativas de mudanças. 

Lembrei-me da minha vida e, para além dela, do momento sui generis que estou experimentando, onde, talvez, esteja eu numa simbiose eterna, sendo cada um dos meninos da gaita de fole e do folder proselitista, dando murro em ponta de faca, uma faca bem afiada que, dali a pouco, cortará meu dedo.

O que aprendi hoje? 

Não existe mudança drástica, não se muda ninguém (e nem é justo que se pretenda fazer), cada um oferece o que tem dentro de si para doar e, sobretudo, se quiser eu mudar algo, preciso mudar dentro de mim as escolhas, para que eu não me converta em um menininho carregando um folder a pretexto de convencer alguém de algo que nem mesmo ele sabe o que é...

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Clãs, covens e solitudes: derradeiros momentos de escolhas

Fonte da imagem: http://allthingsarthurian.files.wordpress.com

Dias atrás fui brindada pela visita de um grande amigo e dirigente de um coven, sacerdote da mais alta nobreza de espírito e dotado de uma sensibilidade ímpar, uma aura altamente sofisticada. Correspondemo-nos há 10 ou 14 anos e, por ocasião da realização de um evento aqui no Cerrado, ele veio com sua sacerdotisa e, de quebra, fez minhas novas tatuagens (amei).

Passamos um dia muito bom aqui. 

Fiz um almoço consagrado (para variar, só poderia ser porco assado mesmo, em homenagem aos nobres ancestrais celtiberos), elaborando com todos um clima descontraído demais, o bastante para produzir muita reflexão e alegria - a despeito de me fazer imergir em uma profunda ponderação. 

Em relação a esse aspecto, em especial, sou extremamente grata ao meu querido amigo e irmão de longas eras, tanto pelas maravilhosas tatuagens, quanto pelo diálogo providencial e enriquecedor. É importante trocar ideias e se permitir a abertura da alma para outros posicionamentos. A interlocução com ele possibilitou uma mudança vetorial nos rumos de minha vida. Gratidão, gratidão, gratidão.

Trocamos muitas ideias a respeito da Arte, bem como conversamos a respeito do saudável desenvolvimento do paganismo no Brasil. O diálogo com ele renovou em mim algumas questões que insistia em deixar no "quarto de despejo de resoluções". Aqueles pensamentos que demandam escolhas que eventualmente não desejamos ou não estamos prontas para fazer.

Pensei, especificamente, na minha colaboração para o desenvolvimento consciente do paganismo no Brasil e, confesso, dentro disso, um filme passou rápido à minha frente, com as pitorescas cenas que fizeram parte da minha vida durante toda a senda elaborada. Lembrei-me da minha mãe, minha avó e, claro, de toda a linhagem ancestral originária da minha família.

Conectei-me com a egrégora ancestral da casa de onde exsurgi. Com as fortes e impetuosas mulheres que carregaram o nosso nome antes mesmo de eu sequer a pensar em vir para esse mundo. Uma pontada de saudade da casa da vovó bateu em meu peito.

Isso, claro, não veio isoladamente...

Por que tive essa epifania?

Porque, em certo momento, tive o insight que sempre me persegue e que pode servir de experiência útil para quem está adentrando na Arte: desenvolver um coven

Manter-me na solitude? 

Mudar para perto da minha mãe e celebrar com ela nossos segredos de família? 

No caso de estruturar um coven, publicizar mistérios que só fazem sentido para nossa casa? 

Verter para o cerimonial da tradição na qual fui iniciada? 

Quais as implicações?

Fico surpresa (no melhor sentido da palavra) com as pessoas que rapidamente optam pela criação de um coven - ou clã - pois às vezes me sinto morosa demais, já que há 20 anos pensando nisso... 

Exatamente por me enxergar em um túnel do tempo que me ocupa esse lapso todo que o diálogo com meu amigo trouxe respostas. E mais perguntas. Na espiral sem fim que povoa o limiar de um momento, a eternização do ciclo de vida-morte-vida.

Não encontro respostas e, confesso, cada dia tenho mais dúvidas, todas saudáveis, sem pensarmos que temos a eternidade para experienciar tudo até a final integração monádica. 

Mas, enfim, voltando à preocupação...

Ela não é desarrazoada. 

Afinal, minha família migrou em face de uma maciça perseguição religiosa que vitimou clãs e pessoas na Espanha, um território cuja marca maior reside no multiculturalismo. A publicização, nesse contexto, pode denotar para mim aniquilamento. Dentro disso, sinceramente falando,  acredito que o mundo pós-moderno - muito menos o Brasil varonil - não têm mostrado sinais de melhoria ética no respeito à diversidade e ao multiculturalismo. Ainda mais quando a pauta se refere à expressão de espiritualidade e religiosidade.

A questão aparentemente é simples se focada com o distanciamento que usualmente usamos para avaliar ou julgar aquilo em relação ao qual não temos a experiência vivificada. Mas quando, por momentos - átimos de segundos - permitimo-nos empaticamente tentar perceber a sensação de uma fogueira e do sofrimento inerente ao arder das chamas, a coisa adquire outro significado. Afinal, como diz o ditado, pimenta nos olhos dos outros é refresco e, com isso, fácil demais é falar sem saber empiricamente o significado do que está sendo julgado.

Pensar no quanto a sociedade brasileira é discriminadora, perversa e intolerante me desanima em termos de exposição das ideias relacionadas ao paganismo, quiçá à estruturação de um grupo formal. Não tenho o menor pudor em me enxergar temerosa (para algumas pessoas pode ser covardia até) e reticente em organizar algo mais formal e elaborado do que as práticas de fundo de quintal que realizo.

Tenho experiências agregadas de vexatória discriminação que me fazem arrepiar o cabelo. O caso em SP da moça que foi sumariamente linchada na rua, sendo chamada de bruxa pelos algozes auto legitimados retira o fôlego em relação à propalação de temas correlatos ao paganismo e à bruxaria. Basta-me ser reiteradamente estereotipada em face da cor do meu cabelo, dos anéis, das tatuagens, das roupas e, sobretudo, das ideias que sustento. 

Nesse sentido, não faço muito esforço para me deixar mais discreta, porque não saberia ou desejaria fazer isso. Isso porque acredito que sou externamente o que sou internamente - não que outras pessoas não sejam - de modo que vivencio minha identidade naturalmente de dentro para fora e de fora para dentro, sem distinção. 

Não consigo explicar de uma maneira melhor, mas como não quero ser mal interpretada, tentarei clarificar minhas ideias. O que desejo dizer, com isso, é que apenas fluo sem me preocupar com qualquer que seja o estereótipo, ainda que tenha consciência de sofrer as consequências da escolha. Os estereótipos existem, mas acredito que se eu agir às avessas, fomentarei ainda mais, tal estereotipização. Na verdade, acredito que seja uma espécie reversa dela.

Com isso, não me preocupo com esse detalhe. 

Vou seguindo a vida normalmente e, para além dessa polêmica, acredito também estar na colaboração para a mudança de perspectiva quanto ao paganismo no Brasil. Esse é um ponto importante para mim e que veio como resposta à minha inquietude em contribuir para toda essa mudança.

O silêncio, dentro disso, aparentemente tem sido a minha melhor companhia, bem como a lealdade de poucos - pouco/as mesmo - amigos e amigas, leva-me ao isolamento que tomo como necessário para me preservar a alma de dispêndio desnecessário de energia. Sinto-me deliciosamente solitária em meu peculiar mundo de abstração mágica, mas plena em completude espiritual na certeza da clarificação de desígnios a povoar meus passos.

Não estou, com isso, criticando ou julgando pejorativamente quem se lança nessa empreitada. Não. Ao contrário, admiro muito a coragem e a disposição de tamanho ato de doação e disponibilidade em se realizar um sério trabalho, pois o paganismo no Brasil precisa ainda romper as fronteiras do preconceito e da intolerância. Apenas não tenho me sentido disposta a percorrer essa jornada, em face de uma necessidade indomável de me manter reclusa em meu estado natural de eremita. 

Isso, claro, não denota o abandono das funções naturais de um sacerdócio solitário, pois o que poderia ser um sacro ofício comunitário convola-se no trabalho pontual caso a caso, numa espécie de artesanato individual que envolve o trabalho pontual com as pessoas que volta e meia me interpelam a respeito da Arte. 

Mas, ainda que desejasse seguir o caminho coletivo, iria esbarrar em outros dilemas: como trabalhar ou harmonizar segredos e mistérios que dizem respeito à minha família de sangue com a necessidade de estruturação de um clã unido por laços de afinidade e empatia? 

A resposta é bem óbvia: não é possível, porque em uma tradição de sangue o vínculo é helicoidalmente firmado em gerações e eras, nos pactos que são eternos. Tal qual o ditado "uma vez bruxa, sempre bruxa", uma família de sangue se lastreia na consuetudinária transmissão de conhecimento, bem como na vivência compartilhada de preceitos que fazem sentido para aquela sinergia.

Isso não desmerece, por outro lado, vínculos de afinidade. 

Não tenho a pretensão de afirmar que a Arte praticada em família é mais ou menos importante do que a firmada pelo liame pactual. Nesse sentido, o mundo mágico já está cheio de desavenças que sinceramente creio serem inúteis e pouco saudáveis para o desenvolvimento do paganismo e, em especial, da bruxaria no Brasil. 

Esses conflitos, para bons entendedores, resumem-se a simplórias disputas pelo monopólio do poder de declaração da verdade, o que, para mim, já se eiva do mais completo fracasso, e por que não dizer, de uma autocracia ímpar, já que elimina o pensamento divergente pela afirmação de existência de linhagens puras ou impuras. O mundo sobreviveu precariamente a uma eugenia já na Segunda Guerra. Vivemos conflitos e guerras em face de eugenias. Por que, então, insistir em adotar o mesmo paradigma em relação ao qual tanto se criticou o mundo crístico? 

Paradoxal...

Já que não vejo ser possível publicizar e iniciar ninguém no que é intrínseco a uma estrutura familiar, sobrevêm outra pergunta: encampar, então, a tradição na qual fui iniciada aqui em Brasília? Em princípio, sim. Ainda que a egrégora seja distinta do panteão ancestral que elabora energeticamente o esteio dos meus flancos espirituais. 

Não teria problema em migrar, em tese, do tradicionalismo da bruxaria para a religiosidade wiccana. Outro grande mito a apartação pela discriminação, pois, sinceramente, conheço mais honestos e honestas (e competentes) wiccanos e wiccanas do que bruxos e bruxas mesmo. 

Isso porque em minhas andanças e trocas - tanto em grupos como em conversas de pé de caldeirão - encontrei charlatães de toda sorte. Hoje me limito e permito dialogar com quem respeito e admiro. O resultado disso está na deferência com a qual me refiro tranquilamente a essas pessoas aqui, pois elas sabem quem são para mim: como ariana tripla, converso, dou pitaco e participo somente daquilo no que acredito. O resto e para o restante, mais silêncio.

Não, a questão não está na migração, mas, antes, na incapacidade que vejo em harmonizar uma egrégora de um coven com a herança que me foi brindada. Não acredito ser interessante misturarem-se egrégoras, até mesmo porque, em termos de ancestralidade, é possível se pensar em energias dissonantes e incompatíveis. Um exemplo disso consiste nos ancestrais ritualísticos provenientes de sociedades que se lançaram como conquistadoras, em contraponto a sinergias ancestrais dos que sofreram os influxos da conquista.

Tenho como temerário em relação à sobrevivência do clã, já que estamos falando de energia e polarização. Não celebro com meus amigos o que celebro quando estou só, porque as práticas afetas ao meu sangue e clã fazem sentido para minha família de sangue. Mas celebro rodas com meus amigos e minhas amigas, numa espécie de território energético neutro, pois cada qual tem sua ascendência. 

Isso iria de contraponto ao hermetismo do culto dos ancestrais da terra, protagonistas primevos da expressão arquetípica deídica. Com isso, confesso, tenho muita dificuldade em alinhavar energias diferenciadas, sem deixar de mencionar egrégoras coletivas de rodas. Não, não creio ser possível me fragmentar a esse ponto (e, de novo, não estou julgando pejorativamente quem faz, mas reconhecendo uma limitação ou desiderato ideológico/espiritual meu). 

O que, então, dentro dessa miscelânea de ideias aqui, poderia eu fazer? Hahaha (rir sempre é excelente, até porque desconheço bruxas e bruxos taciturnos e que se privam desse ato máximo de liberdade), enfim. Elaborar a continuidade da egrégora familiar de sangue, transmitindo para a descendência o que adquiri. Uma opção... Seguir na posição neutra, digna de uma Suíça, rodando e girando, de um lado, e prosseguindo solitária no caminho que só pode ser percorrido por mim. Um e outro são viáveis. 

O primeiro traz outra ponderação: alinhar a ancestralidade à harmonização da vida com um parceiro sensível a isso (mas que se contente em subsistir fora do sistema tradicional, ainda que compartilhados sejam os ritos suíços). 

Talvez seja tema para outra postagem a reflexão sobre parcerias e casamentos entre pessoas de perspectivas religiosas e espirituais distintas, mas, em breve afirmação, malograda é, para mim, a união nesses termos, quando se trata de transmissão de conhecimento ancestral.

No segundo, de executoriedade já exercitada, comprovada, sentida e vivificada, o caminho é bem fecundo, pois a missão de pura e simplesmente viver um estado de alma já me encaminha para a plurifuncional atividade que cerca a Arte. Um óleo aqui, uma poção ali, uma massagem integrativa acolá. Um mapa astral, uma dagyde, um cristal. 

Lá e cá, qualquer que seja o propósito, já me impelem tanto para a auto realização quanto para - quando instada - o auxílio a quem necessita. Daí o conforto em saber que, de uma forma ou de outra, estou colaborando para desmistificar as fábulas em torno da atividade mágica de transformação do Universo.

Com isso e depois de tudo isso que tais ponderações representaram para mim, posso, hoje, enfim, quedar mais tranquila em relação à sensação de puro pertencimento ao mundo pagão. Com orgulho disso. Com gratidão. E com Amor...