terça-feira, 29 de março de 2011

Retorno triunfal aos largos braços da ancestralidade...

Tempos de hibernação não existem aleatoriamente: são feitos para a introspecção, o mergulho dentro de si ante a certeza de ser o momento necessário para profundas reflexões. Assim como a sábia Natureza se prepara no outono para a chegada do frio, precisamos nos acalentar, dia após dia, imersas em nossa mais entranhada zona de aconchego, para, quietas, lânguidas e calmas, podermos nos nutrir para o enfrentamento dos percalços do frio externo, dos predadores e das intempéries que ameaçam nossa existência... Depois de muito tempo hibernando, hoje decidi acordar saudando minhas origens céltico-galegas... Logo pela manhã celebrei minhas ancestrais, meus ancestrais, deidades que, antes de minha efêmera e maravilhosa existência, já aqui se encontravam, preparando a terra - e seus mistérios - para minha chegada nessa era, nesse plano. Reconectei-me, revigorada, aos antigos mistérios da Terra, da Água, do Fogo e do Ar, saudei o panteão antigo daqueles e daquelas que, nessa Terra Hi-Brasil, acolheram meus antigos... Olhei, enfim, para as fotos do meu clã, dispostas, uma a uma, numa mágica linhagem: minha bisavó, avó querida (ainda conosco) e, por fim, minha grande mãe. Lembrei-me do dia de domingo, da minha data solar, desfrutada com parte do meu clã que, há tempos, eu não via. Tudo, enfim, igual ao que sempre foi, porque linhagem, hereditariedade, clã e sangue são realidade que nos agrega, vincula-nos ao que existe de mais real, crível e magicamente visível: nós mesmas! A música e a poesia estavam presentes... Da janela do escritório - de onde escrevo, sempre cercada de plantas, do Sol e da Vida - sinto-me grata pelo simples fato de haver renascido esse Equinócio de Outono. Gratidão... Lembrei-me que já havia um certo tempo desde a última vez em que ergui meus braços para empunhar meu athame aos céus e a terra... Mas, quando assim novamente fiz, foi como tempo algum tivesse passado, porque a centelha renovadora do abraço forte da matrilinearidade veio ao meu encontro! A chama que outrora eu achava estar perdida, por fim, mostrou que sempre estivera aqui me acolhendo em seus longilíneos braços, convidando-me a experienciar, mais uma vez, o balé dos elementos e da mágica contida no Universo. Os ritos sagrados possuem a mágica propriedade de formar egrégoras de força e energia, que não se dissipam tão facilmente, ainda mais quando se está diante de uma linhagem de pura força, o clã daqueles que deixaram suas marcas aqui para que meu DNA pudesse me fazer ser exatamente o que sou. Daí a (re) conexão ser apenas um acesso a uma energia que já está em mim... Basta me lembrar quem sou...

domingo, 20 de março de 2011

Celebrando a chegada do Equinócio de Outono!


Dia 21 de março despedimo-nos da honrada data solar de Apogeu da Luz para, enfim, abraçar a mudança de ciclo com a chegada de Mabon, um festival que marca o Equinócio de Outono aqui no hemisfério sul.

Como toda grande virada para outros ritmos, Mabon espelha agradecimentos pelo que passou e foi colhido em Lughnasadh e armazenado para a grande transmutação em Samhain, quando, diante da hibernação da luz, prestamos odes à reflexão, com o fim de nosso calendário.

As sementes e os grãos das colheitas são abençoados e estocados para os dias frios, sendo a data um convite à calmaria de espírito, visando, assim, poupar energias para o devenir de Yule, após a virada do ano celta do dia dos mortos. As folhas começam a secar nas árvores que se coordenam, uma a uma, para armazenamento de forças para o inverno que se aproximará. A superfície abençoada da Terra cede espaço a novos contornos de cores, mostrando o quanto a Natureza é bela em seu benevolente arco-íris renovador!

É dia de pães pesados e integrais, vinhos quentes e proteína farta! Usamos cores terra, marrom, terracota, marcando bem uma mistura entre o aquecimento de Litha (amarelo e laranja) e a sisudez do inverno (cinza, marrom, preto).

Em Mabon a Natureza toda se prepara para se estabilizar numa baixa metabólica: eis o grande sentido revelado na sabedoria incomum dos grandes ancestrais que, por meio do intenso fluxo de trabalho, guardavam sabiamente as provisões das colheitas nos outros festivais de roda para, diante do frio e da quietude da neve, poderem se manterem até o aquecimento da terra.

Não se trata de mera "gulodice" material ou espiritual, aquela velha noção de ganância que usualmente nos impeliria para a retenção de proventos de toda sorte "debaixo do colchão", pois a Natureza não segue tamanha mesquinharia como pressuposto.

Não, em Mabon a provisão é algo inerente ao ciclo de vivência do sagrado que reside na sabedoria de antever uma situação de contingência natural, que segue, por sua vez, o grande ritmo da vida!

Um suporte para os momentos de dificuldade que, a bem da verdade, fazem parte de nossa trajetória aqui. Suporte este que, por sua vez, tinha um destino certo: longe de ser meramente estocada, a alimentação dos antigos seria, adiante, consumida pela coletividade, marcando, assim, uma provisoriedade na compreensão do que significa a palavra "providência".

Os antigos eram realmente omniscientes, não?

Percebiam no recolhimento diante da dificuldade do inverno rigoroso a preparação para a vida, enfrentando, com dignidade, a baixa temperatura, a escassez de caça mas, sobretudo, a celebração em torno do calor da fogueira do clã: eis a grande lição que percebo e vivencio em Mabon! Guardamos nossas bem-aventuranças para, em volta da fogueira, compartilharmo-nas com nossas pessoas mais amadas!

Aqui no cerrado não temos neve, mas vivenciamos um inverno de muita seca, com temperaturas altas durante o dia, com o Sol mais frio do que o usual. Com a chegada da noite, o frio enfrentado por nossos ancestrais aparece, para nos lembrar, dia após dia em nosso inverno pessoal, que luz e sol, vento frio e brisa quente estão mais próximos de nós do que supomos, pois formam nossa paleta de experiências.

Olhar para elas com o tom de desapego da carga emocional do que sombra e luz significariam como metáforas de "bem" e "mal" é importante para a superação da dualidade que tanto nos apartou da Natureza.

Eis o sentido da bruxaria para a minha vida, uma dimensão que não é mais semântica ou discursiva, mas, antes, uma vivência que já "colou" em cada um dos átomos que formam meu sistema corpo-alma. Com isso, a transcendência cede vez para a imanência em que sentir os deuses parte de um estado latente em si, não mais uma "elevação" para algo surreal e etéreo.

Por isso, longe de representar um festival em que apenas rendemos graças à colheita passada, Mabon marca a gratidão diante de um devenir de novos ciclos. Mas, para o novo entrar, é sempre importante lembrar que o antigo precisa, de alguma maneira, sair. Ou, como me disse ontem uma pessoa extremamente querida, basta a transmutação, a transformação, no lugar da mera noção de destruição.

Dessa forma, novo e velho, enquantos paradigmas dentro de nós (valores, crenças etc.), coexistem e pulsam, porque nos formam e orientam nossos passos até aqui, em fluxos constantes de latentes modificações.

Se não temos a sensibilidade em perceber a sutileza da transformação, podemos equivocadamente acreditar em um fim - geralmente dolorido -quando, de fato, inexiste distinção entre início e final para a Natureza. Essa aparente ruptura que nos soa a "destruição" pode, por sua vez, trazer a falsa sensação de "vazio" diante dos acontecimentos que são lidos falsamente como inícios e finais.

Afinal, sendo cada uma de nós um caldeirão de experiências, tudo existe ao mesmo tempo! Daí a ideia de vivenciar a transformação como o vento saudável dos limiares de vida. Foi essa a grande lição apreendida em minha vida nesses últimos meses...

É a transformação - e não a dicotomia destruição-criação - a marca maior do Universo . No caso, em Mabon, fica bem claro isso para mim, pois o outono nada mais é do que a estação "entre-estações" nitidamente antípodas (verão e inverno), dizendo-nos, assim, que entre o branco e o negro existe o cinza, bastando ajustar nossas lentes para a superação da dualidade...

Fàilte, Mabon!

segunda-feira, 14 de março de 2011

Mais um livro!

Estou em linha de produção de mais um livro, desta vez contando a história de um psicopata. Claro que se trata de um caso verídico, para servir de alerta para as pessoas...

domingo, 13 de março de 2011

Passando a limpo a vida que retorna plena!

Achamos que a dor de outrora, insuportável, não irá passar. O peito, calejado, retumba em intensa dissonância com o que desejávamos. As lágrimas não se contém nos olhos, derramando-se incessantemente, no que seria o infinito a nos mortificar. Pensamos que o céu cairá em cima de nossas cabeças, sufocando-nos com os dejetos do que produzimos de ilusão.

Que nada! A bem-aventurança de ser coerente consigo consiste em olhar a dor, abraçá-la e deixá-lo, como tudo nessa linda vida, ir embora! Assim é com a dor, assim é com o amor. Assim é com as pessoas, as que mais detestamos, bem como as que mais amamos. Assim é. É, sem complementos, sem predicativos...

Com a chuva que bate à minha janela, percebo o sol, que, logo após - talvez não - aparece depois da trovoada, ainda que o horizonte fique um pouco nublado.

Afinal, sempre é destino do sol surgir na abóbada celeste, pois a terra, a doce Terra, precisa dele para sobreviver e ele, planejado, tão perfeitamente coerente em sim, ensina ao mundo seu poder de intensa glória.

Destino mesmo? Nada, destino é o nome que damos para a urgência em saber se existe, ao final, algum projeto. Para a Natureza, ser assim o é...Nós que, do alto da ignorância, interpretamos o fato, o espaço, a vida com as lentes que ofuscam nossas potencialidades de superação de nós mesmos.

A vida urge! Que beleza! A vida urge após o impacto, não pedindo licença para prosseguir com seu rumo. Que direito teria eu em obstaculizar percurso tão bonito como o da vida? Da minha vida?

O tempo de sol prossegue dentro de cada uma de nós, mesmo que cingidas, um pouco, quem sabe, em carne plena.

É visceral sentir que a dor se foi e manteve a alma impoluta e cheia de bem-aventurança. Nesse percurso ciclos foram renovados, pessoas foram reconhecidas. Reconheci-me em cada passo, como articuladora de minha própria vida, não mais deixando que qualquer gota de minha felicidade pudesser ser conduzida por outro que não a minha doce e nobre pessoa.

Auto + nomos é não se arrebanhar, por se observar cercada de si, o tempo inteiro...

Ainda que interagindo, a águia continua seu vôo solo, mordisca a presa lá embaixo, permite-se - vez em quando - firmar seus pés em solo, mas acima de tudo - literalmente acima de tudo - galga novos voos em direção ao cumprimento de sua saga: rumar de encontro às infinitas possibilidades que sua vontade de poder lhe apresenta!

quarta-feira, 9 de março de 2011

O sacerdote asceta no médico-louco de Nietzsche

Obviamente se trata de Nietzsche em Genealogia da Moral, a partir da página 106, já no finalzinho da terceira dissertação. Deveria se chamar Genialogia da Moral, tamanha a perspicácia desse filósofo (ou, para alguns, filólogo) à frente de seu tempo, apregoando, muito antes mesmo, a "nova" ciência da mente...

Na terceira dissertação o alemão fala sobre o comportamento asceta - caracterizado pelo desapego de si, do mundo, da vida, enfim, tida como uma "ilusão" que deve ser abandonada em função da integridade do espírito.

Mais adiante, tece comentários sobre a função dos médicos e dos enfermeiros - claro, em sentido lato e filosófico - qual seja, "ter o domínio sobre os que sofrem", sendo, eles mesmos, os primeiros doentes, pois não poderiam ser os sãos a assistirem os doentes (hahaha).
Não estou fazendo um tratado sobre a Medicina ou a Enfermagem [escusas, pois apenas converso com o livro], mas, antes, apenas rindo internamente do diálógo travado entre a minha mente fecunda e o mestre alemão, a partir das experiências com os aspirantes a "dominatrix" iconoclastas de Hipócrates (deveria ser também Hipócrita), que, num arremedo de inspiração filosófica (será, duvido que tenha alguma formação na área, tanto que irá buscar o que não tem), erigem Maquiavel em O Príncipe como seu livrinho burlesco de cabeceira.

Pobre Maquiavel, deve se revirar na cova, ao saber da asnice dos que decidem ler sua obra ser o menor critério, a não ser o da ignorância de seu estado precário de espírito... Burlesca é a leitura perdida do estadista, para apenas justificar uma "estratégia" interna que longe está de ser inovadora, pois, claro, estamos falando em "primatas". Sempre são - ou somos - primatas! Isso é maravilhoso!

Adoro Maquiavel, claro, mas entendo que, para o aporte às pretensões de saída de uma degeneração ética dos que se vangloriam de ocupar um alto posto na escala vertiginosa da depuração moral (esses e essas, para Nietzsche, os/as mais doentes), ler o alemão traz mais alento.

Afinal, para o mestre, é preciso estar, em si, para si, doente para poder entender outro doente. Nisso, pergunto-me: residiria, respectivamente, no coração e na mente dominatrix o veneno da doença que leva o menino a estudar a si?

(...) Continunando...afinal, falo em Nietzsche.

O doente, fingindo ser o que não é, anda entre aves, colocando-se como superior, viril, frio, um urso [segundo Nietzsche], mas, a bem da verdade, apenas se faz seguro o bastante para, depois, poder fazer o que sabe bem: ferir, envenenando, no mesmo ato de "misericórdia" cordata, quem, como ele, degenera-se e se esfacela (p. 103).

Em que medida é asceta essa figura higienizante? [voltemos um pouco, tanto para entender o asceta, como para contemplar o menino-dominatrix]

Quando, negando a vida, por meio da homília e da capa de simploriedade - ou seja, repudiando o mundo a que reputa ser de ilusões - cria a representação de tudo [amor, caridade, compaixão] a partir da negação de si, e, negando a si, pretende ser o que não é, projetando-se no modelo que nunca virá a ser, um molde imperfeito, inimigo da vida!

Ele, porém [sobre quem falo? Sobre o asceta, o moço dominatrix ou sobre mim quando decido eventualmente sair do círculo sagrado de mim mesma para tentar interagir com a tipologia do überman estereotipado e caquético?], desejando ser outro, prende-se, cada vez mais, aqui, no modelo do que repudia, mas que, ao final, é, por pressuposto...

Tenta, tenta, tenta e, não passando de um embuste em si mesmo, acotovela-se na batalha campal que trava contra si e os outros. Firma-se como o mais fraco, o carneiro que deseja ser a águia, mas que nunca sairá, por fim, do chão.

Para Nietzsche, o asceta constitui a mais alta excelência na conservação e afirmação da vida, já que se firmar num comportamento de negação apenas reforça "contra o que" essa tentativa se volta: a vida, em sua pulsão.

Pobre asceta! Pobre menino-dominatrix! Pobre de mim!

terça-feira, 8 de março de 2011

PB Agora - Saúde - 50% dos homens têm o vírus HPV

PB Agora - Saúde - 50% dos homens têm o vírus HPV

É, minha gente, é!!!

Há muito de fraqueza no que se toma como a mais forte virtude...

A (in)capacidade de cumprir promessas advém da fraqueza inerente ao ressentido que esconde do mundo o que traz de pior em seu caráter.

Quanta simplicidade pode residir em um olhar de si?

Para Nietzsche,

"O homem “livre”, o possuidor de uma duradoura e inquebrantável vontade, tem nesta posse a sua medida de valor: olhando para os outros a partir de si, ele honra ou despreza; e tão necessariamente quanto honra os seus iguais, os fortes e confiáveis (os que podem prometer) – ou seja, todo aquele que promete como um soberano, de modo raro, com peso e lentidão, e que é avaro com sua confiança, que distingue quando confia, que dá sua palavra como algo seguro, porque sabe que é forte o bastante para mantê-la contra o que for adverso, mesmo “contra o destino”-: do mesmo modo ele reservará seu pontapé para os débeis doidivanas que prometem quando não podiam fazê-lo, e o seu chicote para o mentiroso que quebra a palavra já no instante em que a pronuncia"

Apenas o forte, pleno de si empenha sua palavra, não porque seja difícil fazê-la, mas, porque sendo livre em relação à vontade, decide fazer dela o que melhor lhe aprouver. Mesmo contra o destino. Uma virtude, enfim, e não uma moralidade de doação para alcance de um além-túmulo que nos coloca, no agora, a projetar um devenir que não existe...

O que acho providencial em relação aos carneiros - os cordeiros que se mostram adocicados - diz respeito ao fato de motivarem, uns dos outros, a violar as águias, ou, ao menos, a tentar. Mas nada modifica a Natureza, pois carneiros sempre serão carneiros e nunca passarão do chão. As águias, contudo, podem voar e pousar...

A lógica da fortaleza em Nietzsche...

"Enquanto o homem nobre vive com confiança e franqueza diante de si mesmo, o homem de ressentimento não é franco, nem ingênuo, nem honesto e reto consigo. Ele ama os subterfúgios, os refúgios, os caminhos ocultos.
(...)
Mesmo o ressentimento do homem nobre, quando nele aparece, consome-se e se exaure numa reação imediata, por isso não envenena: por outro lado, nem sequer aparece, em inúmeros casos em que é inevitável nos impotentes e fracos."
F. Nietzsche

O refrescante vento da mudança...

Existem mudanças avassaladoras como uma ventania tropical, assolando tudo ao seu redor e transformando a pasisagem por onde quer que passem...

Chegam para atordoar, transformar a partir da destruição do que era, até então, firme, forte, caro e seguro para nossa vida. Essas tormentas, porém, podem ser rapidamente esquecidas - tal qual uma reportagem sensacionalista sobre alguma tsunami - de modo que, num menor sinal de fenecimento da ventania, o que habitava o espaço logo volta, retomando o que seria seu leito original.

Outras mudanças, contudo, são assentadas por uma brisa que, aos poucos, sussurra em nossos ouvidos. Um sinal aqui, outro acolá. É uma espécie de enamoramento, onde a suavidade penetra languidamente, sem o atropelo do tufão, mas não menos contundente e edificante...

São essas as mudanças que desalinham paradigmas...que dissolvem as ilusões. Provocam fendas irremediáveis, pois transmutam, em defintivo, nossas geografias pessoais. São mudanças que nos trazem para a inquietante retomada de consciência, onde a ciência traz a ação, e não apenas o pensamento inerte e empoçado da pasmaceira.

Há tempos a brisa vinha se enamorando de mim.

Eu, contudo, fiel a um núcleo que julgava "denso" [na verdade, o medo de me enfrentar na profundidade do que sou], negligenciava o que essa gentil moça estava a me dizer. Afinal, ouvi-la pressupunha olhar para mim e para as pessoas que me eram caras, num aceno de prováveis rupturas que não estava disposta a fazer.

Todas as vezes em que ela se aproximava eu a repelia, negando-me incessantemente e, com isso, passando por cima do que tenho de mais importante, minha intuição eivada de emo-racionalidade...

Foram-se passando anos, quase vinte, sem que eu percebesse o quão poroso e infértil era o chão em que pisava, solo cuja composição estéril foi por mim mesma construída...

Como fiz isso? Pergunto-me...Simples.

Não querendo sair da zona de conforto porque - eu já sabia - se eu saísse da minha concha, nada, absolutamente mais nada haveria de resistir e existir. Quebraria os frágeis cacos - já estavam quebrados mesmo - com os quais compartilhei minhas ilusões pessoais que, a bem da verdade, foram um "surto coletivo" em boa parte do tempo de diversão.

Mas a providência está sempre certa, pois é na hora da dilaceração da alma que essa brisa ganha força, impulsionando-nos também nessa mesma força, rumo à tomada de consciência em relação ao equívoco.

Assim acordei, em um lindo dia azul, disposta a sangrar, ainda mais, todas as mentiras consolidadas em minha mente.

Não, não, não existem erros. Não existem culpados.

Apenas couraças de fragilidade! E pactos de conveniência para se manter a frágil liga que a brisa já acenava ser incongruente.

Um dia, saindo de minha casa, em uma situação de intensa dor física, dirigi-me ao local onde providencialmente permiti, pela primeira vez, a brisa entrar, descobrindo um mundo de possibilidades, entre elas, a de perceber o vazio e o abismo existente entre duas pessoas que se amam.

Sim, é possível amar assim... Mas, enfim, distanciando-se do que, ao final, toma-se como prejudicial ao próprio viver.

Sem dramas ou arrependimentos, pois, por derradeiro, cada um de nós sabe onde o sapato aperta, bem como o momento de dizer um grande "até logo".

Mas, e quando o "até logo" sempre foi a base em cima da qual assentou-se uma promessa não cumprida de amizade?

Sim, refiro-me a isso, exatamente ao atropelo das adolescentes desavenças que, com os anos, foram formando muralhas emocionais, cada vez mais e mais sedimentadas com omissão e fuga.

Refiro-me à evasão, ao silêncio, a abandono mútuo que, posteriormente, foi providencialmente "deixado de lado" às custas de um beneplácito cordato e cristão de perdão? Nunca se perdoou, ao final, porque a estrada, em si mesma, nunca fora assim. Nossa, como é feliz a verdade!

Libertadora verdade!

Quando comecei a pensar na competição, no empuxo inicial de inveja, raiva, arrogância, lembrei-me que foi esse, e não outro, o solo em que atraquei meu barco. O tempo apenas acomoda melhor a desavença, trazendo para o plano do simbólico o que era apenas o requinte do visível.

Sem problemas...Aliás, não existe mais problema quando se enxerga a vida como ela é, bem como as pessoas, como são [inclusive eu].

É assim que a vida segue seu fluxo... Para a frente, dizendo "até logo" ao que não comporta mais numa vida que nunca fora, ao final, o que se apresentava...

Dia Internacional da Mulher

"Recria tua vida, sempre,
sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e
faz doces.
Recomeça
(...)"
Cora Coralina
Uma data memorável...

segunda-feira, 7 de março de 2011

Dia Internacional da Mulher...

Na véspera do Dia Internacional da Mulher, muita reflexão, muita reflexão mesmo, a partir do diálogo com um texto abaixo - da Marjorie Rodrigues - que incomoda muita gente - geralmente aquelas com couraça muito forte e muita máscara para cair.

Estou compartilhando o texto, elaborado em 2009 e reproduzido, em série, nos diversos blogs do país. Ele desmistifica o discurso que se apresenta no visível, para trabalhar com o "ingênuo" discurso do romantismo da rosa que, a bem da verdade, serviu para nos oprimir.

Ou seja, de ingênuo, nada tem. Ao contrário, é perverso, porque nos coloca na mais baixa posição na escala evolutiva, que, a partir dos estudos deterministas, alocou o masculino para a posição "iluminada" e "racional"...

Não se trata de rosa, poderia ser uma bromélia, um abacaxi: o que está, por agora, na reflexão que faço, é o significado de fragilização que se insiste em atribuir como sendo uma "qualidade"ou um "atributo" feminino, esquecendo-nos das mulheres pro-ativas, empoderadas, que eram, por excelência, agressivas, enfim, HUMANAS!

Refiro-me à Boudicca, Joana D`arc, Olympe de Gouges, Elisabeth I e tantas outras guerreiras...literalmente guerreiras empunhando espadas!

Acho que devemos ser unid@s rumo à conscientização, que passa pela tomada de consciência pessoal em relação a reproduzir, num ínfimo de conduta, a máxima dos discursos de assimetria...

Simples, nada fácil, pois, fazer isso dói na carne de quem não deseja SE enxergar no processo. Vejo-me assim, empoderada que, por muitas vezes, queda no modelo. Vejo minhas amigas e amigos, ao final, pedindo esmolas emocionais. Tod@s nós...chafurdando na lama da ignorância em relação a saber lidar com a solidão.

Por outro lado, nunca me vi jungida e limitada a UM MODELO de feminino que se SUBMETE. Se percalços tive e tenho na vida, é porque, ao contrário, não estou a fim de negociar em termos de SUBMISSÃO.

Os percalços, nesses casos, são a contra-partida, a reação à agressividade, a LEGÍTIMA DEFESA em face da impropriedade da violência de gênero... Inexiste ilícito no caso de legítima defesa...

Se desejamos um relacionamento - em qualquer nível - igualitário, então sentemos tod@s à mesa, e não façamos o simples estratagema da fraude. Os pactos miseráveis que nos acomodam nas zonas de segurança que, pouco a pouco, transformam-nos em verdadeiros farrapos ambulantes.

Mas, se a fraude for a opção, que seja, então, em paridade.

Que seja a poligamia acessível a tod@s, e não tema de novela de quinta categoria, para legitimar a orbe masculina a esporrar, sob a batuta de a mulher ser "santificada". Que possamos pactuar tudo, a começar de nossos corpos e desejos...

Caso contrário, fraude!

Sou solidária enquanto ativista de gênero, mas crítica em relação à postura inerte das mulheres que pactuam a mediocridade, apenas e tão somente porque temem estar sós. Não acho que existam "culpas" do masculino, do feminino, isso é redução ao infinito: nada adianta...

Vejo nos condicionamentos um resultado dos empuxos históricos e políticos, fomentados, talvez, quem sabe, pelas relações edipianas fortes - ou, no caso de Freud, pela sandice dele em criar UMA interpretação bem usada e manuseada para controlar...

O mundo não é freudiano.

O mundo É. Sem predicativos, pois os predicativos são nossas lentes a olhar para o todo, comprometidas com a ordem a que já se submeteu.

Mas, que seja um devaneio mal-resolvido de Freud em seu lar, que seja a verdadeira inveja dele e do masculino em relação à vagina "dentada". Que seja. Não importa.

Sabem por que?

Porque nossas matriarcas machistas começam o desserviço no berço da criança, quer seja fazendo diferença na criação, dentro do binário "menino" ou "menina", quer seja alimentando o ego do rapaz, ao firmá-lo como "reizinho" e a menina como "princesa" [permissão para agradecer à minha mãe pela sensibilidade em me observar, comprando-me os presentes que eu realmente desejava: laboratório de química, telefone, escritório].

Não cresci em meio à bonecas.

Isso me faz menos mulher?

Querer correr com os meninos no recreio, faz?

Querer usar bermudão xadrez e andar de skate? Usar cabelo curto?

Não penso que faça, pois não sou mulher por uma vagina, mas assim sou porque - com toda a minha vida - eu ME TORNEI mulher, citando a grande Simone de Beauvoir.

E, no direito, não foi ou é fácil, porque, por vezes, escutei a fala "você é excelente advogada, poderia ter nascido homem para ser perfeita".

Quando estou na tribuna, prestes a fazer uma sustentação, ainda amargo - de maneira paradoxal - escutar que fui "clara e objetiva". Sou objeto de elogios em relação à minha oratória, mas, ora vejam, meus pares HOMENS NÃO.

Por que, porque sou FODA?

Não, porque existe a discrininação... e é bem mais fácil achar que não existe, pois, afinal, faz-se parte do paradigma dominante... No caso, da ignorância!

O texto abaixo choca quem tem preconceito.

Em relação ao tom da fala do texto, tomo-o por IGUALITÁRIO, pois, ou bem somos tod@s cordat@s (homens e mulheres, enfim, humanos) no sentido do uso da linguagem polida e refinada ser IRRESTRITA (e não domínio de gênero: masculino, rude, feminino, doce), ou manteremos a DESIGUALDADE.

Sou SUPER A FAVOR DO USO LIVRE DA LINGUAGEM E DA RISPIDEZ COMO FORMA DE CONTESTAÇÃO À SUBMISSÃO DO FEMININO!

E, quanto à data...

Véspera do dia Internacional da Mulher: licença para dizer a que vim...

Não sou mulher porque procrio, porque tenho TPM. Não sou mulher porque tenho um homem ao lado (um pau, para ser exata)... Não sou mulher por nada disso.

Sou mulher porque me tornei mulher, no embate pela igualdade...

É do alto da tribuna, falando para a Corte, que me vejo, na plenitude, não mais como mulher, mas como um ser que fala para outros seres!!!!

É do acúmulo dos meus títulos, e não de fraldas, absorventes e maquiagem, que mostro a que vim... É, enfim, na minha trajetória que se modifica a cada dia, o lugar de ato donde rompo e sigo...na infinitude do que posso vir a ser ao me permitir ser o que sou...

Foi isso que me fez sobreviver, inclusive, a um infeliz que, um dia, achou que poderia me exterminar...

Feliz DIA DA MULHER!

Dispenso essa rosa, por Marjorie Rodrigues

Reproduzindo, com ORGULHO, o que está disponível em http://observatoriodamulher.org.br/site/index.php?option=com_content&task=view&id=1259&Itemid=44

Dispenso esta rosa!

Dia 8 de março seria um dia como qualquer outro, não fosse pela rosa e os parabéns. Toda mulher sabe como é. Ao chegar ao trabalho e dar bom dia aos colegas, algum deles vai soltar: ”parabéns”.

Por alguns segundos, a gente tenta entender por que raios estamos recebendo parabéns se não é nosso aniversário (exceção, claro, à minoria que, de fato, faz aniversário neste dia). Depois de ficar com cara de bestas, num estalo a gente se lembra da data, dá um sorriso amarelo e responde “obrigada”, pensando: “mas por que eu deveria receber parabéns por ser mulher?”.

Mais tarde, chega um funcionário distribuindo rosas. Novamente, sorriso amarelo e obrigada. É assim todos os anos. Quando não é no trabalho, é em alguma loja. Quando não é numa loja, é no supermercado. Todos os anos, todo 8 de março: é sempre a maldita rosa.

Dizem que a rosa simboliza a “feminilidade”, a delicadeza. É a mesma metáfora que usam para coibir nossa sexualidade — da supervalorização da virgindidade é que saiu o verbo “deflorar” (como se o homem, ao romper o hímen de uma mulher, arrancasse a flor do solo, tomando-a para si e condenando-a – afinal, depois de arrancada da terra, a flor está fadada à morte). É da metáfora da flor, portanto, que vem a idéia de que mulheres sexualmente ativas são “putas”, inferiores, menos respeitáveis.

A delicadeza da flor também é sua fraqueza. Qualquer movimento mais brusco lhe arranca as pétalas. Dizem o mesmo de nós: que somos o “sexo frágil” e que, por isso, devemos ser protegidas. Mas protegidas do quê? De quem? A julgar pelo número de estupros, precisamos de proteção contra os homens. Ah, mas os homens que estupram são psicopatas, dizem. São loucos. Não é com estes homens que nós namoramos e casamos, não é a eles que confiamos a tarefa de nos proteger. Mas, bem, segundo pesquisa Ibope/Instituto Patricia Galvão, 51% dos brasileiros dizem conhecer alguma mulher que é agredida por seu parceiro. No resto do mundo, em 40 a 70 por cento dos assassinatos de mulheres, o autor é o próprio marido ou companheiro.Este tipo de crime também aparece com frequência na mídia. No entanto, são tratados como crimes “passionais” – o que dá a errônea impressão de que homens e mulheres os cometem com a mesma frequência, já que a paixão é algo que acomete ambos os sexos. Tratam os homens autores destes crimes como “românticos” exagerados, príncipes encantados que foram longe demais. No entanto, são as mulheres as neuróticas nos filmes e novelas. São elas que “amam demais”, não os homens.

Mas a rosa também tem espinhos, o que a torna ainda mais simbólica dos mitos que o patriarcado atribuiu às mulheres. Somos ardilosas, traiçoeiras, manipuladoras, castradoras. Nós é que fomos nos meter com a serpente e tiramos o pobre Adão do paraíso (como se Eva lhe tivesse enfiado a maçã goela abaixo, como se ele não a tivesse comido de livre e espontânea vontade). Várias culturas têm a lenda da vagina dentata. Em Hollywood, as mulheres usam a “sedução” para prejudicar os homens e conseguir o que querem. Nos intervalos do canal Sony, os machos são de “respeito” e as mulheres têm “mentes perigosas”. A mensagem subliminar é: “cuidado, meninos, as mulheres são o capeta disfarçado”. E, foi com medo do capeta que a sociedade, ao longo dos séculos, prendeu as mulheres dentro de casa. Como se isso não fosse suficiente, limitaram seus movimentos com espartilhos, sapatos minúsculos (na China), saltos altos. Impediram-na que estudasse, que trabalhasse, que tivesse vida própria. Ela era uma propriedade do pai, depois do marido. Tinha sempre de estar sob a tutela de alguém, senão sua “mente perigosa” causaria coisas terríveis.

Mas dizem que a rosa serve para mostrar que, hoje, nos valorizam. Hoje, sim. Vivemos num mundo “pós-feminista” afinal. Todas essas discriminações acabaram! As mulheres votam e trabalham! Não há mais nada para conquistar! Será mesmo? Nos últimos anos, as diferenças salariais entre homens e mulheres (que seguem as mesmas profissões) têm crescido no Brasil, em vez de diminuir. Nos centros urbanos, onde a estrutura ocupacional é mais complexa, a disparidade tende a ser pior. Considerando que recebo menos para desempenhar o mesmo serviço, não parece irônico que o meu colega de trabalho me dê os parabéns por ser mulher?

Dizem que a rosa é um sinal de reconhecimento das nossas capacidades. Mas, no ranking de igualdade política do Fórum Econômico Mundial de 2008, o Brasil está em 10oº lugar entre 130 países. As mulheres têm 11% dos cargos ministeriais e 9% dos assentos no Congresso — onde, das 513 cadeiras, apenas 46 são ocupadas por elas. Do total de prefeitos eleitos no ano passado, apenas 9,08% são mulheres. E nós somos 52% da população.

A rosa também simboliza beleza. Ah, o sexo belo. Mas é só passar em frente a uma banca de revistas para descobrir que é exatamente o contrário. Você nunca está bonita o suficiente, bobinha. Não pode ser feliz enquanto não emagrecer. Não pode envelhecer. Não pode ter celulite (embora até bebês tenham furinhos na bunda). Você só terá valor quando for igual a uma modelo de 18 anos (as modelos têm 17 ou 18 anos até quando a propaganda é de creme rejuvenescedor…). Mas mesmo ela não é perfeita: tem de ser photoshopada. Sua pele é alterada a ponto de parecer de plástico: ela não tem espinhas nem estrias nem olheiras nem cicatrizes nem hematomas, nenhuma dessas coisas que a gente tem quando vive. Ela sorri, mas não tem linhas ao lado da boca. Faz cara de brava, mas sua testa não se franze. É magérrima (às vezes, anoréxica), mas não tem nenhum osso saltando. É a beleza impossível, mas você deve persegui-la mesmo assim, se quiser ser “feminina”. Porque, sim, feminilidade é isso: é “se cuidar”. Você não pode relaxar. Não pode se abandonar (em inglês, a expressão usada é exatamente esta: “let yourself go”). Usar uma porrada de cosméticos e fazer plásticas é a maneira (a única maneira, segundo os publicitários) de mostrar a si mesma e aos outros que você se ama. “Você se ama? Então corrija-se”. Por mais contraditória que pareça, é esta a mensagem.

Todo dia 8 de março, nos dão uma rosa como sinal de respeito. No entanto, a misoginia está em toda parte. Os anúncios e ensaios de moda glamurizam a violência contra a mulher. Nas propagandas de cerveja e programas humorísticos, as mulheres são bundas ambulantes, meros objetos sexuais. A pornografia mainstream (feita pela Hollywood pornô, uma indústira multibilionária) tem cada vez mais cenas de violência, estupro e simulação de atos sexuais feitos contra a vontade da mulher. Nos videogames, ganha pontos quem atropelar prostitutas.

Todo dia 8 de março, volto para casa e vejo um monte de mulheres com rosas vermelhas na mão, no metrô. É um sinal de cavalheirismo, dizem. Mas, no mesmo metrô, muitas mulheres são encoxadas todos os dias. Tanto que o Rio criou um vagão exclusivo para as mulheres, para que elas fujam de quem as assedia. Pois é, eles não punem os responsáveis. Acham difícil. Preferem isolar as vítimas. Enquanto não combatermos a idéia de que as mulheres que andam sozinhas por aí são “convidativas”, propriedade pública, isso nunca vai deixar de existir. Enquanto acharem que cantar uma mulher na rua é elogio , isso nunca vai deixar de existir. Atualmente, a propaganda da NET mostra um pinguim (?) dizendo “ê lá em casa” para uma enfermeira. Em outro comercial, o russo garoto-propaganda puxa três mulheres para perto de si, para que os telespectadores entendam que o “combo” da NET engloba três serviços. Aparentemente, temos de rir disso. Aparentemente, isso ajuda a vender TV por assinatura. Muito provavelmente, os publicitários criadores desta peça não sabem o que é andar pela rua sem ser interrompida por um completo desconhecido ameaçando “chupá-la todinha”.

Então, dá licença, mas eu dispenso esta rosa. Não preciso dela. Não a aceito. Não me sinto elogiada com ela. Não quero rosas. Eu quero igualdade de salários, mais representação política, mais respeito, menos violência e menos amarras. Eu quero, de fato, ser igual na sociedade. Eu quero, de fato, caminhar em direção a um mundo em que o feminismo não seja mais necessário.

…Enquanto isso não acontecer, meu querido, enfia esta rosa no dignissímo senhor seu cu."

GENIAL!!

Dia da Mulher...

Véspera do dia Internacional da Mulher: licença para dizer a que vim...Não sou mulher porque procrio, tenho TPM...sou mulher porque me tornei mulher, no embate pela igualdade...É do alto da tribuna, falando para a Corte, que me vejo, na plenitude, não mais como mulher, mas como um ser que fala para outros!!!! É do acúmulo dos meus títulos, e não de fraldas, absorventes e maquiagem, que mostro a que vim...

Guardando-nos na caixinha ou réquiem para um estelionato emocional, parte 2

No amor carnal que se concretiza na efemeridade da explosão, tudo é pleno!

Sentimo-nos nas nuvens, com o coração cheio em si. Espaço e tempo tornam-se diminutos diante da certeza do preenchimento de uma potestade incompreensível a olho nu, mas que acena para um desejo intrínseco de perpetuidade que afasta o fim. Inevitável fim...

O coração palpita, as pupilas dilatam.

Cada centrímetro do corpo reverbera sinfonias atônitas diante da afinidade gerada no prazer. Além de se tratar de uma fisiologia anunciada, compartilhar momentos de intimidade revela existir um mundo novo, "para além" da intempérie emocional, pois se relaciona à dinâmica de uma história já compartilhada em mente e amalgamada em espírito.

As afinidades e sincronicidades daquele almoço incomum desembocaram na manifestação etérea dividida com aquele homem de semblante tão sereno. Logo, de plano, sua ideia foi a propositura do assenhoramento.

"Quero você para mim". Tão absorta em meus pensamentos de elevação de alma, deixei passar essa frase, sem me importar se, dali a pouco, o sentido de assenhoramente seria o descompasso entre nossas vontades dissonantes, com a colocação do arbítrio num direito de vida e de morte em relação à minha vontade...

Apaixonados, pouco a pouco, entregamo-nos. Ou, ao menos, essa foi a dimensão do que me movera até ali, saindo do sentido que o "eu" representava, para alcançar uma projeção ainda incompreendida do que poderia ser o compartilhamento de experiências com uma pessoa que se mostrava imensamente dotada da capacidade singela de amar.

"Vou colocar você numa caixinha" - que feliz!

Ouvi isso atentamente, em descompasso com minha intuição, que, naquele exato momento, despontou em sinal de alerta a me avisar, num sussurro desprezado, sobre uma pretensão ainda desconhecida, mas que beirava - uníssona - o descompromisso com o outro - esse "ser" tão encarcerado numa caixa!

Cega pela lente cor-de-rosa que paradoxalmente coloquei diante de mim para enxergar melhor a redenção do amor, calei-me diante disso. Permiti que o colorido doce de um conto de fadas assimétrico povoasse meu imaginário de mulher tão emancipada, pois, ao final, ofertei-me para a imolação da alma entregue, colocando em meu saquinho de carências toda a minha vida, de modo a entregar ao outro o destino de minha felicidade...

Quedava, enfim, diante da ilusão montada, esquecendo-me que a ilusão nunca se transforma em algo real...

sábado, 5 de março de 2011

Réquiem para um estelionato emocional...Parte 1

Começou assim, despretensiosamente, num olhar atento e furtivo, de canto de olho, que atravessou o ambiente e foi se instalar no olhar de um ser que se mostrou tão doce, sereno e gentil. Dizem por aí que, ao final, olhamos nosso reflexo projetado no outro, tendendo a achar que esse outro tão desconhecido será, ao final, parecido conosco, nas mínimas reações. Daí nos desarmamos, amamos, e achamos que tudo será lindo e lúdico, porque, compassivas, vemo-nos no outro de cima a baixo...

Convidada a me sentar com esse outro tão misteriosamente magnifíco, passamos um tempo agradável, o bastante para me lançar nas palavras sábias sobre ONG, vida, realizações. Ouvi parte de sua história de vida, seu curso concorrido na Universidade pública, seu cargo na administração pública. Um gentleman que se ofereceu para me levar até o carro, não sem antes me perguntar se eu estava "me relacionando com alguém", no intuito de indagar se "teria chance comigo".

"Nossa, existe esse ser?" - pensei... e quanto mais pensava, mais abria meu coração impoluto para aquela alma tão serena à minha frente. Nunca imaginaria que, um dia, pudesse querer tanto o meu mal, o bastante para machucar...ou tentar, pois, se aqui estou é porque me levanto firme e forte...

Tudo estava entrando bem calmamente em meu coração, despertando afinidade, pois, afinal, estava diante de um "par", um "igual". Nunca imaginaria que ali, naquele corpo aparentemente impoluto, habitava meu mais ferrenho algoz, uma alma cujo propósito de vida seria, dali adiante, atentar contra a minha vida e me submeter enquanto pessoa.

Aprendi, por fim, que bandido não tem estereótipo...esconde-se por trás da máscara de uma pessoa cordata, educada, atenciosa. Um ser que ofereceu um lugar em sua mesa para eu me sentar: só não sabia eu que a fartura de alimento, ali, naquela mesa, seria eu...Descobriria um tempo depois, já bem tarde, com suas mãos que, à escusa de me acarinhar, estavam, na verdade, em desespero, tentando salvar sua pele...Que egoísmo...

Pouco a pouco, enebriada pelo "achado" em meio a uma multidão que diuturnamente circula no restaurante, pensei estar diante da diferença. O bastante para o lançamento sem a menor pretensão de cautela, rumo a um desconhecido despenhadeiro. Entorpecida pela paixão avassaladora, não notei os sinais básicos...e, pouco a pouco, mais e mais, fui penetrando numa odisseia sem fim de construções lúdicas, perdendo-me de mim para viver a história desse Dom Quixote pós-moderno.

Não reparei - ou fingi que não percebi - quando ele, ao entrar em meu sacro lar, olhava para tudo, perguntando-me se eu "tinha estabilidade profissional". Será que se tratava de um golpe do báu? Afinal, morando num pardieiro - local que me apresentou como sendo um lar - pensei que se tratava de uma "pegadinha" perguntar aquilo justo para mim, já que minha casa sempre foi um local que fiz questão de deixar limpa...

Mas, enfim...

Também não percebi o sinal quando ele, bem calmamente, perguntou-me se poderíamos viver "um relacionamento aberto", pois julguei se tratar de uma proposta que ainda seria avaliada, e não um padrão de comportamento que ele já praticava... Ah, paixão! Faz tanto em nos cegar que sequer percebemos o óbvio, porque sempre acreditamos que alguém pode mudar, pelo simples fato de se relacionar conosco...

(...)

Reelaborando ideias...

Algo diferente pulsa dentro de mim...não se trata de ideias, projetos ou sonhos: é o romper do que se firmava, até então, de ilusões que, ao final, sem dramas, nào passavam de meras projeções da minha alma a se derramar nos outros...

Achamos que o outro pode ter a mesma reação nossa...

Muitas vezes, em atos narcisistas, achamos que a mera convivência conosco é o bastante para que o outro se perceba e, num ato de pura "iluminação racional", evolua. Ledo engano. Evoluir? Dentro de qual parâmetro? Do nosso, forjado à guisa de controle?

O discurso "racional" tem cansado, quando se presta apenas como subterfúgio para que não nos apercebamos de nossas complexidades. Afinal, agimos tanto no automático dos padrões que, ao final, entramos num túnel em que, lá na frente, só depois que o caldo entorna, conscientizamo-nos do condicionamento.

Tenho aprendido isso a partir do diálogo com as experiências de reprodução de padrões que ainda insisto em adotar.

A última quase me custou a vida...Não culpo tanto o crápula com que me relacionei (a referência à crápula deve-se apenas ao fato de, graças a ele e a sua incompetência como profissional na área de saúde eu ter me aproximado da morte), pois, sendo uma fraude, talvez, ele tenha se sentido atraído por uma parcela minha que o lembre seu embuste.

Hoje observo, depois de algum tempo, que ele está tão perdido como o restante da humanidade, sambando de um lado para outro sem saber de si. Eu, de meu turno, mesmo sabendo, ainda insisto em sair de mim e de minha essência para "esperar por meus amigos", quando, talvez, minha espera seja em vão, porque cada um tem uma história...

Eu que não posso deixar de ir para frente para, desacelerando, esperar um outro que nem sei se está a fim de ir para frente...O plano é meu, pombas! Cada um que viva o seu!

Tanto que, ao menor sinal de enfrentamento, quando provocado, ele reagiu como um primata...reproduzindo o padrão que, por projeção, laçou em cima de mim. Uma experiência ímpar de psicanálise. Mal sabia o cientista que, ao final, era ele, não eu, quem estava numa jaula de Pavlov...um ratinho...ou, melhor, primata...

Como ele vão outros e outras mais, iludindo-se, assim como eu, um dia, iludi-me em relação a um aspecto 'normativo' de humano, um devenir de um projeto de ação que, ao final, não se concretiza, pelo simples fato de o humano não se reduzir a um pacto de namorados....uma conversa "papo-cabeça" onde a mente domina...ledo engano mesmo...

Mas, do alto da nossa arrogância, julgamos muito os outros e não olhamos o tiro que damos no pé. Só depois, quando vem a sangria, olhamos para o que já sabíamos e, replet@s de remorso, tentamos resgatar o que não se resgata: DIGNIDADE...

quinta-feira, 3 de março de 2011

Pequenina alma...

Pequenina pessoa que me encaixotou, por átimos, pretendendo me guardar para si, para se esquecer de mim ao menor toque de atropelo.
Guardou, em vão, as memórias do que não passamos, do que não vivemos, do que não sentiu, porque, drenada, sua alma pouco sabe do amor.
Apenas guarda, glutona, seus projetos, engavetando junto ao coração flácido o devenir que nunca se concretiza, pois, para se sonhar é preciso ter um coração pulsando.
Satisfeito em apenas ter, não é e, não sendo, não pode, sequer, vir a ser amor.
Guarda nas caixas empoeiradas de seu armário repleto de amargas lembranças o incontido dentro do que decidiu, sozinho, ser o seu caminho.
Não chora, não lamenta, não sente, amargando, dia após dia, a trajetória da desumanização, para abraçar a monstruosidade do perecimento.
Pequenina pessoa que jaz morta, em plena vida, robótica e estupefata em face de sua frieza imersa em um grande lago de calculismo e meticulosidade.
Guarda tudo nas caixas, mas destroi as caixas, para não se lembrar de quantas pessoas já tomou para si e destruiu.
Não a mim!!!
Não me encaixotou, ao final!
Pois não se subsume uma alma a um espaço físico diminuto: etérea, pulsátil e vibrante, a energia retoma, ao final, o que é seu - o espaço infindo.
Pequenina pessoa, de grande máscara, retira o véu e olha quanta mentira constroi em torno de si.
Olha-te no espelho e percebe que, de tanto tentar encaixotar o outros, ao final, sufocou a si dentro de uma caixa mofada: sua própria alma, que se perdeu ao vento...ao som de seu único desalento, não saber amar!

Desejos...

Desejo, por um dia, apenas, que a minha alma possa se desdobrar em infinitas filigranas de um doce veludo azul a despontar - pleno - no horizonte do meu viver, saindo para abraçar a doce relva de uma pradaria cálida, em meio a tantos sonhos de outrora que, por hoje, não mais existem.

Meu espírito - ainda livre, pois ainda vive! - anseia... Em meio a tantos desejos, que minha centelha ígnea e divinal possa ser encontrada e contemplada graciosamente, sem que meu admirador secreto deseje romper minha abóbada sacra para verter de mim meu fluido mais profundo e denso.

Desejo ser amada na liberdade, nada mais!

A liberdade de ser o que sou, apenas etérea no meu particular mundo de ludicidade a quebrar, com ousadia, o escárnio e a maldade do mundo dos "sãos", que são, sãos, bem insanos, no desamor que revelam sentir por si mesmos, protejado no espelho que já se rompeu em fragementos que não mais se recompõem...

Desejo ser olhada como a fina gota de orvalho, intangível na aspereza de quem não entende que não se capta ou coapta o que é sensível a um mero toque. Que meu amor possa ser reconhecido como o bastante, para que nessa infinitude, possamos, juntos, percorrer galáxias em átimos de segundos desencontrados.

Desejo...

terça-feira, 1 de março de 2011

Dia 08 de março: de vitimização a empoderamento...

Quando iniciei minha jornada nos estudos doutrinários feministas, mal sabia que a estrada de luta que já percorria assim o era há tempos, pois desde quando sei de mim me pego diuturnamente num mundo repleto de bizarrices e piadas de triplo sentido, de atitudes desqualificadoras e de pura discriminação.

O campo jurídico - do qual faço parte - sempre foi assim, um cenário bélico de competição de testosterona, onde a permanência como mulher, muitas vezes, era entendida e "manuseada" perante os tribunais num momento bem pontual: na hora de despachar uma peça, pois, só assim, a "beleza" poderia "cativar" e "amolecer" os corações (o verbo não seria "amolecer", muito menos o órgão seria o coração, mas para preservar algum caráter lúdico, preferi manter o véu de sonhos que ainda poderia embalar as neófitas em gênero e feminismo).

Nunca me deixei vencer por isso, pois a escolha que fiz foi por outra via: a de estabelecer meu espaço de poder e atuação muito mais pelo que sai da minha boca e de meu cérebro, do que pelo que toneladas de silicone e botóx podem propiciar. Não estou aqui querendo fazer um tratado contrário em relação aos benefícios dos tratamentos estéticos e plásticos, mas sim ponderando sua utilização com o propósito de atribuir, num plano de atitudes de poder, um peso maior à indústria da vaidade como sendo via para o exercício de potestade.

Pois bem, com essa escolha investi em mim. Em meus estudos, trabalho, na atividade intelectual. No empoderamento acadêmico e, no caso, profissional. Eis uma grande constatação posteriormente feita, pois o perfil "pro-ativa" era visto ou tido no binário de segregação de gêneros, como sendo "atributo natural" do império masculino.

Cansei de ouvir colegas - homens - sugerindo que eu fosse mais "calma, branda, serena" para "conseguir as coisas na conversa 'mansa'", pois "uma mulher precisa ser delicada". Percebi se tratar do Anjo da Casa de Virginia Woolf, materializado na boca enfadonha dos profissionais que, com desdém pelos diversos títulos que trago na bagagem, falavam em condicionamento da minha alma, algemando minha personalidade a um arremedo de ser que nada tinha a ver comigo.

Ser "delicada", "agressiva" nada tem a ver com ser ou estar mulher ou homem: trata-se do atributo universal inerente ao ser. Mas, dentro da profissão, amarguei 15 anos ouvindo isso mesmo...Que deveria ser delicada e mostrar, num decote, minha voluptuosidade para as autoridades, com o intuito de, cegando-os, conseguir o que desejasse.

Ou, então, no mesmo campo jurídico, mas em termos de academia, já amarguei inúmeras manifestações de desconfiança em relação ao conhecimento, por ministrar aula em um nicho outrora nitidamente masculino: direito penal.

Até hoje não temos, a bem da verdade, uma doutrinadora penal para escrever livros de dogmática, os famosos manuais, pois o campo é masculinista. não sei, talvez deva mudar isso, mas é assunto para outro post. A grande questão, aqui, é que a entrada em sala de aula sempre foi o momento crucial de expectativa, para saber quantos ou quantas alun@s iriam se contrapor à minha fala em face do gênero.

Minha experiência de sala - longe vão mais de 15 anos também - mostrou que, durante meu percurso, o universo masculino sempre se incomodou. E, enquanto assim fazia, outro fato acontecia: o universo feminino ia se empoderando intelectualmente.

Enquanto uns gastavam o tempo tentando encontrar vias de deslegitimar meu lugar de fala, outras preocupavam-se em fazer o que haviam de fazer numa academia: estudar. Isso fez e faz a diferença, pois hoje vivencio a experiência de observar um coletivo onde homens e mulheres, seres humanos, estão em igualdade, mesmo em suas diversidades...

Até então, ressignificava o dia 08 de Março como uma data dúbia, que trazia - em meu juízo de igualdade asbtrata e formal - uma pecha de revitimização e legitimação de diferença, pois em meu universo, o binário contraposto era igualdade e diferença. Depois que revi meus conceitos para perceber a dimensão da igualdade em seu aspecto "relacional", bem como na ressignificação do binário igualdade-desigualdade, e não igualdade-diferença, tenho no dia 08 uma data expressiva de lembranças...

Toda luta é marcada de tragédias...E o mundo estabelece datas que sempre estão a lembrar as dores e as tragédias exata e pontualmente para deixar claro o quão perto da morte todas nós estamos...

Viva o dia 08 de março!