segunda-feira, 30 de março de 2015

A gangorra e a ventania

Fonte da imagem: http://wallpaper.ultradownloads.com.br/120445_Papel-de-Parede-Folha-no-inverno_1920x1200.jpg

Era um dia frio de intenso silêncio, no qual o despontar do dia sibilante nas vozes dos pássaros cedeu à força da lacerante rajada de vento, pronta para o corte profundo na mais resistente camada de epiderme. O verão havia ficado para trás e, com ele, todas as aventuras que tinham sido a constância de uma vida que se esvaiu em pleno ar. 

Da janela de seu quarto, Isadora prostrava-se a contemplar os sinais que o proeminente inverno dava para quem sábio era o bastante para perceber o momento certo de parar. Tudo parado, quieto e gélido, prospectando o mais irascível monge nos meandros confusos de sua mente armada. 

Células paradas, indicando que a entropia, enfim, marca a morte de cada um de nós, no exato instante em que a morte chega em uma simples respiração. Seguindo a epifania do inverno pronto a quedar no solo, a jovem se encontrava a meditar sobre os rumos de sua vida nos últimos meses, não sem antes desenhar nos vidros das janelas embaçadas folhas rústicas em uma significativa aquarela que somente Isadora conseguia compreender.

O som metalizado dos mensageiros de vento rasgava a quietude da antiga floresta embranquecida pelo algodão refrescante, provocando lembranças que Isadora tentava, com sofreguidão, esquecer. Povoando sua mente, os atropelos de frases mal ditas sempre estavam a estocar o coração da jovem mulher, o bastante para que o silêncio da Natureza pudesse ser seu único aliado.

Um parquinho abandonado era a única memória de uma vida que Isadora não mais iria viver uma existência plena, eivada, dia após dia, pelas insistências de uma perfeição que sequer o resquício poderia ter sido.

Crianças? Parquinhos? Gangorras? O rangido da ferrugem espessa mostrou à mulher de longe estavam os tempos áureos em que os impúberes se equilibravam na brincadeira ingênua de enfrentar a gravidade por um pedaço de céu. Desolador infinito de um vazio gutural, que sufocava Isadora e não a deixava respirar com calma o mentolado ar que os pinheiros desprendiam.

Sem gangorras. Sem brincadeiras. Sem crianças e sem esperanças. Era somente Isadora e o vento, para lá e para cá, no centenário som da inaudível solitude, local seguro para onde formulou sua devoção, sem saber, com isso, que o inverno traria, adiante, o renascimento em mais um passar de vento a bailar languidamente por toda sua coluna.

domingo, 29 de março de 2015

Quando é necessário cortar o mal pela raiz...

Mais um impacto nesta semana: Angelina Jolie operou o útero, ovário. Arrancou logo tudo, com a finalidade de evitar o câncer. Já tinha feito o mesmo com os seios. O que desperta o debate, contudo, é que todos esses procedimentos foram realizados sem que uma só célula eivada pelo câncer já existisse.

Foram as estatísticas em cima da constatação - via exame - de células passíveis de desenvolverem câncer. Só a probabilidade bastou para La Jolie tomar uma decisão corajosa e remover tudo que, em seu corpo, poderia desenvolver campo fecundo para essa nefasta doença.

Cortou o mal pela raiz, sem pena. 

Sem dó, ou piedade. Poderia nunca se desenvolver o câncer? 

Sim, provável. Poderia aparecer? Sim, mais provável ainda. O grande ponto é que, sendo provável, ou não, La Jolie, antevendo probabilidades, não quis perder tempo em esperar para ver o que seu destino -e células - prepararam para ela.

Antecipou-se em cima do que era evidenciado dentro do campo do possível e tomou sua decisão. Não olhou para trás, bem como não quis "pagar para ver" o que, em sua experiência, parecia ser o óbvio a acontecer, pois o câncer havia devastado as mulheres de sua família. 

Para não ser pega de surpresa diante do que viu como inevitável, agiu. 

Foi acusada, condenada, aplaudida (como sempre, polêmica). Mas, acima de tudo, agiu, quando, ao contrário, muitas mulheres não fazem, jogando-se, assim, no precipício, quando, adiante, o padrão aparece.

Esse tipo de prevenção pode soar maluca - acredito que só é porque é a La Jolie, que é estereotipada como "excêntrica" (palavra politicamente correta para quem é tido por louca), mas, de fato, os avanços da Medicina já permitem procedimentos que aumentam a qualidade de vida. 

Nunca se imaginou, um dia, poder se rastrear uma célula hereditariamente hábil a produzir uma doença. Quando isso finalmente é possível, abrem-se portas para a superação da obviedade. Parabéns pela escolha! 

Por onde anda a autêntica pós-punk da Trivago?

Fonte: http://www.gosee.us/prev/304x/images/content2/tri3.jpg

Engraçado como a sutileza pode produzir indeléveis mensagens subliminares... Tempos atrás, todo mundo ficou maravilhado com a genialidade da propaganda da Trivago (um site de ofertas de hotéis), na qual dois jovens se encontram num hotel: ele, com rabo-de-cavalo e terno, ela, com o visual punk apocalíptico.

Eles se entreolham na piscina, mas cada qual não sabe do visual do outro. Quando se encontram no elevador se observam nas suas especificidades. 

Muito legal a propaganda! Deveria até ter faturado algum prêmio.

Agora, porém, depois do elevador, muita coisa entre os dois deve ter acontecido. O mais importante, porém, foi observar como, mais uma vez, o paradigma androcêntrico conseguiu coaptar a moça punk. 

Nessa nova versão, ela já está de cabelo comprido e vestidinho frugal (!), sendo carregada - como uma princesa frágil e sonolenta - pelo galã (ele está do mesmo jeito, evidenciando, ali, no plano simbólico, que não houve mudança de sua parte) até o quarto, onde, depois, são vistos escovando os dentes, na maior intimidade.

Qual a mensagem? 

Perca sua identidade e autenticidade, mas ganhe um homem. Deixe seu cabelo crescer, use vestido e rabo-de-cavalo e seja feliz com alguém ao seu lado. Ah, sim, de preferência alguém hetero. Docilize-se! Acalme-se e se domestique, pois somente assim tudo será perfeito.

Simples assim. 

E a ilusão continua no inconsciente coletivo, pois as moçoilas dão suspiros, desejosas do cabeludo (de terno, claro, pois designa grana) e de todos os sonhos que de um conto-de-fadas pode ser vivido, ainda que às custas de nossa essência.


Fonte da imagem: http://1.bp.blogspot.com/-TXfPVsQslxg/U_UWp6d9PFI/AAAAAAAAAjM/DstRuLKwhPM/s1600/anuncio-Trivago-Berlin-2014.jpg

Que padrão e que beleza? A opressão ingênua dos programas televisivos e o desserviço à diversidade

Fonte da imagem: http://www.chat-feminino.com/imagens/posts/estereotipos.jpg
Nos domingos frugais em que me entrego à celebração do ócio contemplativo, costumo fazer "pesquisas de campo" em torno do tema - estética e feminino. Para obter sucesso em minha intentada, assisto toda sorte de programas voltados ao público feminino, sobretudo no Lifetime e na GNT, canais usualmente destinados à "valorização da mulher". 

Sinceramente? Cada vez que ligo a televisão, fico mais confusa. Talvez não saiba bem o que o feminino quer dizer, ou, na pior hipótese, o que esses canais querem, ao final, transmitir como mensagem de uma vida e uma estética politicamente corretas. Sinto-me desconcertada diante do que pode ser uma mensagem equivocada a ser transmitida, em massa, para mulheres ávidas por aceitação e amor, dispostas, assim, a entrar em uma montanha-russa emocional que acaba colocando em xeque-mate toda e qualquer tentativa de emancipação da mulher dos estereótipos androcêntricos e machistas.

Pérolas da vez nesta semana: primeiro, um programa chamado Dormindo com meu estilista, no qual os maridos saem a campo para as compras das roupas que acreditam revitalizar suas parceiras, visivelmente cansadas pela tarefa da maternidade e administração do lar (não seria mais fácil entender que o problema não está na roupa, mas na unilateralidade das funções atribuídas para a mulher? Ou seja, ao invés de se comprarem roupas, simplesmente dividirem-se as tarefas? Enfim...).

A história da semana aborda uma jovem dona-de-casa de 29 anos - já aparentando 40 - que emagreceu vertiginosamente depois do segundo filho, o bastante para fazer com que eu suspeitasse de anorexia, já que, ao menos na frente das câmeras, ela não conseguia se enxergar macérrima (esquálida). 

Sempre achava gorda, dado o trauma da aquisição de quilos na segunda gestação [abrindo uma brecha aqui para comentar o que acredito ser um desvio de perspectiva, pois algumas mulheres atribuem o nome "gordura" ao que é, por excelência, a protuberância da barriga oriunda da gravidez. Isso me leva a refletir se o problema está realmente no excesso de peso ou em não se aceitar, durante a gravidez, na inerente mudança de corpo]. 

Detentora de uma visível baixa autoestima, recusava-se a acreditar no seu marido, que sempre lhe dizia ser linda e maravilhosa, vestindo moletons, roupas folgadas e jeans. Cara lavada, rabo de cavalo, óculos: acima de tudo, esquálida. Esquálida, mas com a autoimagem de uma pessoa obesa.

U$7.500 foram entregues para o marido que, sem eira nem beira, começou um périplo de compras do que entendia serem roupas mais adequadas à esposa. Depois de muita aquisição entendida pela hostess do programa como "nada a ver", ele revitaliza o guarda-roupa da esposa, incrementando-o com tons das cores mais alegres, roupas mais justas e sapatos diferentes dos tênis que ela costumava calçar.

Ela, então, toma um banho de loja, indo ao salão, cortando e delineando o cabelo, fazendo maquiagem e, ao final, apresentando-se para toda a família com uma das roupas novas. Sente-se bem, animada e revitalizada, pois, agora, recém-saída da concha de timidez e encobrimento na qual se colocou depois de dar à luz, voltou à tona como uma verdadeira Fênix, satisfazendo a seu marido-estilista, que desejava a volta da "esposa de antes".

Toda a família a legitima, soltando um uníssono "Ohhhhhh" quando, enfim, a jovem esposa aporta no horizonte da passarela, vestida de vermelho, cabelos na chapinha, batom rubro. 

Esse é o cenário...

Não estou discutindo se usar amarelo ou azul tornam uma pessoa mais bonita ou feia. Muito menos estou apregoando uma nova "queima de sutiãs", achando que a moça tinha mais que andar de moleton (até porque detesto moleston e tênis, que me lembram esteticamente o uniforme impessoal dos colégios em que estudei).

O que chamou minha atenção, contudo, foi o pragmatismo com que se procura, nesse programa, anestesiar o que estruturalmente é o epicentro, ao meu ver, de todo o mergulho na sombra: a insistência de manutenção de estereótipos estéticos, a partir dos quais se nega beleza e validade ao que não está de acordo com o paradigma

Saltos altos, roupas justas, muito batom e transformação externa. Esse é o retrato do modelo de beleza que se cobra da mulher moderna, ainda que, no caso da moça, vá se ficar à beira de um fogão (ela havia largado o emprego em nome do lar e dos filhos, o velho e bom discurso dos papeis dicotomizados segundo a dobradinha sexo/gênero). 

Tudo o que não estiver nesse molde não é bonito. Repele-se como a uma chaga, pretendendo-se, com isso, formular uma homogeneização, em larga escala, de todas as mulheres do mundo, negando, assim, as diferenças e enaltecendo uma pasteurização de todas a partir dos modelos além-Equador.

O outro programa - brasileiro, diga-se de passagem - chama-se Troca de Estilos e envolve duas amigas que, diante das câmeras, fazem acusações veladas e recíprocas, em relação ao que cada uma mais detesta no estilo da outra. 

Se eu não estivesse ouvindo a hostess falar em português, diria estar diante de mais um programa anglo-americano, pois os modelos são exatamente os mesmos daqueles transmitidos na Terra do Tio Sam e na Oropa. Padrão, enfim. Mas, neste caso, enganei-me, pois o programa é brasileiro mesmo e, dentro do meu objetivo de pesquisar, arrisquei-me a continuar no canal.

O desafio da semana: uma amiga, a "despojada" - segundo valoração tanto da cara-metade, quanto dos profissionais de moda que prestam consultoria para o programa - e a "patricinha", estereótipo atribuído pela amiga, mas não validado pelos mesmos profissionais.

A despojada tinha um estilo de vestir alternativo para os padrões de moda transmitidos e defendidos no programa: era adepta das compras em feirinhas hippies, detestava saltos, abusava das saias coloridas. Um primor de simplicidade, coroada pelos acessórios artesanais brasileiros (colares de contas de açaí, pulseiras de palha) a realçar a beleza "cara limpa", já que a jovem, como ela mesma disse, detestava maquiagem.
Fonte da imagem:http://www.justlia.com.br/wp-content/uploads/2013/10/hippie1.jpg 
Sua amiga "patricinha", por outro lado, era um outdoor ambulante (visão da amiga despojada), o oposto da amiga: o que se via em seu visual era a poluição das marcas e das etiquetas que sobrepujavam o estilo do qual não abria mão para as baladas cariocas.

Tudo nela realçava a indústria famigerada do consumo, desde a típica bolsa famosa a tiracolo (no antebraço), passando pelo salto alto (extremamente alto, de arrepiar literalmente a coluna) e a pesada maquiagem, que me fez questionar como ela poderia fazer para retirá-la todos os dias (com martelo e formão?).

Hipoteticamente, cada uma delas haveria de incorporar um pouco das observações que faziam em relação uma à outra. Mas o que vi, sinceramente, foi a compactação da amiga desencanada em uma forma de bolo que nada tinha a ver, ao final, não só com o estilo de roupa, mas de vida. 

A mulher que adquiria a roupa da feirinha - fora do circuito das grandes indústrias que se prevalecem do trabalho escravo ou da exploração de mão-de-obra barata, contratada em países periféricos - cedeu espaço para a chamada "hippie chique", ou seja, aquela pessoa que aparenta ter um estilo alternativo, mas que se alimenta da moda paradigmática, fomentando a roda vida do atentado contínuo à sustentabilidade.

Sumiu a garota preocupada com o meio ambiente, e, no lugar dela, apareceu uma com petróleo na boca (lembrando que alguns batons têm o mineral na composição ou, ainda, testam o produto em animais, para que as boquinhas das mulheres não tenham reações alérgicas). 

Até em cima de um salto colocaram a moça, sempre ovacionada pela equipe de experts a reproduzir - com a autoridade que lhes confere a pesada indústria da moda - os anseios das indústrias, mais interessadas em...vender.

A patricinha, por seu turno, cedeu o bastante para retirar as etiquetas da visibilidade das roupas, encobrindo-as no que é a mera repetição do estereótipo, em outras bases: virou hipster, feliz da vida, crendo piamente que sua atitude acarretará a mudança dos padrões climáticos da Natureza em hecatombe nuclear.

Moral da história: todo mundo saiu feliz. Uma, a consciente, anestesiou-se com o torpor da moda em decomposição, cedendo em nome da amizade. A outra, achando mesmo ter saído da Matrix, trocou seis por meia dúzia. 

E a espectadora? 

Bom, um pouco de senso crítico e canja de galinha não fazem mal à prudência: moda é uma questão de se sentir bem internamente, estando, ou não, no paradigma dominante. O que importa é a consciência do próprio valor, pois, a partir dela, a estima se eleva e nos tornamos pessoas mais imunes aos ilusórios tentáculos da indústria da moda: mais reflexão e menos marca.

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segunda-feira, 23 de março de 2015

Ode à dignidade (in)contida em um soprar de velas

Fonte da imagem: http://images.fineartamerica.com/images-medium-large-5/wheel-of-the-year-antony-galbraith.jpg
Quando era pequena, sempre desejei fazer 15 anos. Não para debutar, usar vestidos "bombom sonho de valsa" (como diz minha mãe em sua versão pós-feminista revisitada) ou dançar com um príncipe encantado que vira sapo ao menor toque. Nada disso. Desejava a idade avidamente como um marco definidor de um rito de passagem, alavanca para outras etapas da vida.

Os 15 anos representaram o despontar da vida: até pintar a unha de vermelho fiz, para deixar clara essa transição. Mas, assim que chegaram, desejei os 18, pois estava ávida por tirar a carteira, dirigir e desbravar o mundo! Afinal, até mesmo nos aspectos mais profundos da psicanálise junguiana, o carro simboliza autonomia, liberdade e autodeterminação.

Os 21 foram intensamente queridos, para dar um sentido de completa e total capacidade de reger minha vida. Precisava, pois, investir em uma carreira, algo que me trouxesse o suficiente - nunca fui ambiciosa - para viver modicamente. Adveio a transição da Física para o Direito, selando, assim, todo o meu futuro até aqui. Vi, vidi, vici.

Minha mãe contribui significativamente para esses desejos, sempre me dizendo que, ao chegar os 30 anos, eu iria simplesmente "acordar" e ver a vida, o mundo e as relações humanas de uma forma menos idealizada, mais amadurecida. Lembro-me de ter ficado a véspera do meu aniversário acordada, a fim de checar realmente se minha mãe tinha razão. 

Não sei bem se fui sugestionada por tais palavras de força e poder, mas, de fato, ao dormir com 29 e acordar com 30, fui arrebatada por um "derrame" de consciência, observando processos que, outrora, não conseguia sequer sensitivamente acessar. 

Muito da afoiteza ali cedeu espaço para a desaceleração da ansiedade com a qual até então regia meus passos e escolhas, o que definia, muitas vezes, decisões que imprimiram, de certa forma, desconforto à alma (hoje vejo essas escolhas como mero transcurso de vida, sendo grata. Mas, de qualquer sorte, tendo consciência de que foram, naquele momento, dolorosas). O mundo sorria para mim refletindo a satisfação do meu espírito em simplesmente se render ao transcurso da vida. 

Enquanto sonhava com meus 35 anos, comecei a pesquisar todos os cortes de cabelo, em mais um rito de passagem, marcando a transição para a maturidade e a segurança. Afinal, esse são atributos que, em uma mulher, rompem com as convenções sociais, dentre as quais, a eterna fascinação que os cabelos longos exercem no masculino (e que, muitas vezes, reproduzem relações atávicas no binômio submissão/controle). 

Cabelo tosado, feminismo a tiracolo, revolta e indignação com o masculino, misandria: eis o retrato fidedigno do que povoava minha vida nessa época. Amor e dor compunham uma ambivalência que não conseguia distinguir, por mais que tentasse, tamanho o envolvimento em simplesmente ceder à mais profunda imersão nos meandros escondidos de meu emocional fragmentado. 

Cortados os cabelos, aguardei, dia a dia, o despontar dos primeiros fios brancos recém-chegados com os 40 anos. Foi quando, de súbito, tudo parou à minha volta: um dia, minhas células, meus átomos, tudo, simplesmente todo o meu mundo parou em uma respiração. 

Deixei de esperar o devenir dos anos, bem como de ansiar a chegada do "dia seguinte". Parei de pensar nos futuros ritos de passagem - por achar que todos eles já foram devidamente cumpridos ao longo da vida - e passei a me ocupar em me conhecer melhor, esse, sim, um desafiador rito constante de passagem.

Mente inquieta de 15 anos "desde sempre", corpo se modificando dia após dia, marcando os sinais comuns da chegada do inverno. Um dia, enquanto descia por uma escada no jardim da minha casa, meu pé direito (justamente esse, que tantas e tantas vezes tinha me consolidado fortemente ao chão), ao pretender pisar a pedra solta, vacilou. Tremeu, juntamente com todo o resto do meu corpo.

Esfriei. Gelei. Temi. Tive receio de pisar o solo, quebrar meu pé, esfacelar-me em mil pedacinhos! Como? Sempre fui "guerreira", "lutadora", "batalhadora"! Ora, isso não tem nada a ver com ser ou estar isso tudo, mas com simplesmente aceitar, de maneira resignada pela sabedoria, que os processos internos de desintegração da matéria, começaram a dar os primeiros sinais de vida.

O peso não diminui como outrora... O cabelo e as unhas têm sua estrutura modificada: perdem queratina e elasticidade. Os seios pendem com a inerente gravidade, bem como a musculatura corporal passa a conviver com a flacidez. 

A imunidade "gira a chave", transformando uma gripe em verdadeira doença degenerativa, pois o organismo, diante de superbactérias e supervírus, demora mais para se recuperar. Uma sinusite que antes eliminava com duas horas de natação, passou a me enviar direto para a cama, acometida com labirintite (não que eu esteja moribunda - como esse relato pode dar a entender, rs - mas apenas uma constatação) e atestados. Até plano de saúde valeu a pena pagar por agora, rs, pois, antes, achava um dinheiro desperdiçado, já que nunca ou muito raramente adoecia. 

Depois de 8 anos de yoga, meu joelho acostumado a fazer trikonasana hoje se encontra dolorido por uma espécie de torção, que me faz sentir uma dor permanente todas as vezes em que insisto em fazer um esforço maior. Acima de tudo, medo. O medo de esfacelar-me de novo, esse estranho desconhecido.

Trágico? Claro que não: é V-I-D-A, em seu curso natural a ser cumprido! Por que iria eu achar isso mórbido, bizarro e depressivo, se é apenas uma perspectiva inerente a todo e qualquer ser? Devo, pois, regozijar-me disso! Ser feliz com isso. Viver apenas!

Mas olhar e encarar a vida não é simplesmente fazer de conta que isso não ocorre. Ao contrário, é me sentir plena e grata tanto por chegar até aqui com dignidade, quanto celebrar os ciclos de eterno início e fim. É perceber em cada buraco de celulite e rasgo de estria as marcas apenas existentes em quem vive, profundamente, suas experiências, sem medo das sequelas. 

É olhar de frente cada um desses processos, pois a observação atenta do ritmo de desconstituição de cada pedacinho de matéria nos impele a realizar melhores escolhas para viver a trajetória que ainda está disponível até o dia incerto em que os olhos se cerrarem para essa realidade. 

Com isso, ao contrário de lamentar essas bençãos (que muitas pessoas evitam, quando evitam se olhar no próprio espelho), passei a ponderar e avaliar melhor os caminhos e as escolhas a fazer.

Dia 27 de março farei 42 anos outonais. O outono, aliás, é a estação que mais me motiva a enxergar no deslinde do tempo o beneplácito do Universo. Sinto-me no outono há tempos, mas a plenitude desse contingente de anos só agora me traz a sensação de estar vivendo os melhores dias de minha vida na mais pura gratitude.

Sim, o joelho, o pé, os músculos, o cabelo branco e o quedar dos seios me fazem olhar melhor para o que se apresenta à minha frente e realizar escolhas que possam trazer mais e mais sensação de bem-aventurança. 

Muitas pessoas podem achar que sou excêntrica por desejar viver assim, contemplando o que seria uma decrepitude. Para mim, contudo, é a mais ancestral forma de me conectar com o Sagrado. 

Sou do tempo em que os mais velhos (sim, mais velhos, nome lindo: velho, velho, velho. Não podemos negar a beleza que a mídia tenta encobrir, tentando converter a palavra "velho" em "melhor idade") eram respeitados pela juventude, que legitimava o conhecimento adquirido pela experiência durante a vida. 

Um tempo em que a sabedoria consistia em simplesmente se compreender que uma existência é mensurada pelo número de experiências que nos tornam pessoas melhores. 

Estando sozinhas ou, ainda, em relacionamentos, o joelho vacilante marca a prudência com a qual o corpo, marcado por toda trajetória, reconhece caminhos que não mais está disposto a trilhar. Histórias novas, que repetem, dentro de nós, padrões antigos que, a essa altura, devem ser superados pelo simples fato de sabermos deles em face da replicação em nossas vidas.

Ser grata com a vida que tenho recebido do Sagrado - das minhas maternas ancestrais - é aprender a me poupar de sofrimentos que estão além do mínimo, do básico, em termos de escolha. Carma, com isso, não é insistir no sofrimento, mas, ao contrário, perceber a fonte da dor dentro de nós e superá-la, sendo gratos pelo que até então se vive, deixando a vida seguir o fluxo do rio.

É sentir a dor do joelho desencadear a percepção de desejar aproveitar mais a vida, minimizando as situações de dor ao que é inerente ao transcurso da vida. Aliás, a vida, em si, já se incumbe de nos trazer desafios - é o dharma para os indianos, a sequência do viver, pura e simples. Mas insistir nas escolhas que trazem episódios recorrentes está longe de ser depuração de carma: é acumulação de mais e mais carma.

Dizem que é o caminho do amor ou da dor a via para amadurecimento. 

Hoje, às vésperas dos meus 42 anos, esse binário não mais significa cisões, porque, afinal, quando se começa a transcender a tudo isso, amor e dor fragmentam-se para deixar romper a quietude da alma que se liberta, pouco a pouco, das ilusões do mundo.

Feliz aniversário!!!

Breithlá Sona!




segunda-feira, 16 de março de 2015

Deusas de corpos fecundos, preenchei nossas almas de esperança!!

Fonte da imagem: http://riedmiller-foto.de/wp-content/uploads/2013/04/Naturhistorisches_Museum_Wien_22.jpg

Sempre que assisto a filmes sobre comportamento humano, procuro fazer conexões com minha senda espiritual, tentando perceber nos significados latentes deles elementos que me façam refletir melhor sobre todo esse acervo simbólico no qual nascemos e vivemos, bem como sobre a pressão que alguns estereótipos ainda exercem sobre nosso comportamento. 

Trata-se de um cuidado necessário para naturalmente se manter coerência em relação ao discurso e a prática, sob pena de imergir em uma hipocrisia prejudicial para o crescimento pessoal. 

Ou, por outro lado, do mínimo necessário para se manter a lisura da alma e a quietude interna, cotidianamente assolada pela constância dos modelos comportamentais que buscam limitar a experiência humana em adágios hedonistas do mais profundo vazio (como se vê em reality shows estilo BBB, Real Housewives etc).

Hoje liguei a televisão em um filme sobre anorexia em adolescentes: relata a história de uma jovem que acessou um site direcionado à devoção da anorexia e, com isso, passa a, pouco a pouco, parar de comer. O bastante para modificar toda sua vida, desde o relacionamento com sua família, até a perda de amizades caras a seu convívio.

Aos poucos, a fisionomia da jovem perde o brilho inerente à idade, e a mente, povoada pelo controle exercido on line pela blogueira administradora do site em questão, perde a sanidade. Foi necessário passar por uma tragédia familiar para que a adolescente pudesse voltar à vida e lutar contra essa sombra, alcançando, ao final, sucesso nessa batalha de improvável êxito.

Olhando a mensagem do filme, lembro-me das reiteradas propagandas e dos bombardeios midiáticos em torno de uma "ditadura da magreza", que pretende sempre deslegitimar o recente impulso libertário para que as mulheres "reais" (ou seja, de curvas) se aceitem (sugiro fortemente uma pesquisa sobre o sucesso da campanha da Dove, que já faz dez anos, a Campanha pela Real Beleza).

Isso acontece exata e pontualmente concomitante ao movimento oposto, qual seja, de conscientização das mulheres sobre a auto aceitação e a reverência a si, independentemente da sua forma, volume e peso. 

Paradoxal? Sim, se considerarmos o Brasil como o segundo país que mais investe na área estética (parece que ninguém por aqui se encontra satisfeita com seus corpos), o bastante para fomentar essa discussão.

Nunca fui magra de acordo com um paradigma dominante (magreza, cabelo loiro, com chapinha, bolsa a tiracolo e óculos de marca) e sei bem o que isso significa em termos de desconexão com os estereótipos dominantes, que exigem uma dedicação diária à academia de caras e bocas, quase sempre sob o discurso hipócrita de "preocupação com a saúde", mas que encobre uma síndrome de baixa autoestima que impele, no fundo, para a construção imagética voltada para a satisfação do outro.

Sempre busquei fugir disso, nada obstante ser bombardeada subrepticiamente pelas mensagens contidas no duplo discurso dos relacionamentos, que ora "ovacionavam" meu vanguardismo (ou "autenticidade" e "singularidade", como já ouvi muitas vezes), ora se mantinham - pela linguagem de adoração aos seus próprios corpos - no paradigma dominante (que doce ilusão).

Isso me faz retornar - pois já postei algo sobre o tema no texto Esse ainda é um mundo de homens - à contraposição entre as macérrimas deusas greco-romanas e o esplendor da mítica Vênus de Willendorf, uma estatueta entre 9 e 11 cm, talhada (segundo a datação do carbono) há 30 mil anos.

Prova mais cabal da existência de um culto pré-cristão (o que atrai bastante minha atenção em termos de paganismo) de adoração ao feminino, bem como de intrínseca associação da mulher à Natureza, a estátua releva detalhes interessantes. 

Seios fartos e caídos, marcando tanto o peso da idade, como a experiência da amamentação e nutrição. Protuberância de carnes em um corpo de quadris largos, indicativo da maternidade: a deusa de Willendorf é uma humana de existência real, e não um arquétipo inalcançável a impor condições irrealizáveis a nós, mulheres.

Ela traz cicatrizes, ventre avantajado e largura, lembrando-nos do que significam as marcas da maternidade. Não se ocupa em evitar o inevitável: a passagem dos anos e o devenir da morte, mas, ao contrário, orgulha-se de ser o que, de fato, é: deusa plena no esplendor do que significa a concretude da vida!

Qualquer que seja a tradição pagã atual, a preocupação no resgate a tais concepções de mundo é a constante, eixo principal e elemento central de uma agenda que pretende - em nível planetário - insurgir-se contra séculos e séculos de opressão das mulheres. 

As deidades celtas são, sobretudo, fartas, plenas, enfim: SOBERANAS. Eriu, uma das deusas componentes da trindade - Banba e Fódla - tem na etimologia de seu nome a referência à plenitude e fartura (piHwerjon, abundante, segundo estudos linguísticos da Universidade de Gales). Ou seja, a magreza nunca foi a marca designativa das antigas civilizações pré-cristãs de origem celta.

Fonte da imagem: http://1.bp.blogspot.com/-rhDkyazOqZI/T6PptIZg6VI/AAAAAAAACs0/YgGXQrTkkCk/s320/2emki1c.jpg

E não poderiam mesmo estar, uma vez que a mulher, na sociedade celta, lutava lado a lado dos homens nas batalhas, não sendo crível a tese de apologia à magreza, até por questões de sobrevivência. Afinal, em sociedades cuja expectativa de vida não ultrapassava 30, 35 anos, a manutenção de um corpo saudável - que sobrevivesse ao frio intenso do inverno, bem como às vicissitudes das batalhas - era imperativo.

Com essa miríade de valiosas informações, passei, ao longo dos anos, a me aceitar mais, a olhar mais carinhosamente para cada marca, cicatriz e celulite em meu corpo, amando-me como sou e procurando, dentro disso, realizar escolhas que me libertam dos estereótipos. O resultado? Felicidade. Simples realização frugal a me embalar para a superação das obviedades.




domingo, 15 de março de 2015

Feminismos, femismo e machismo: quando os -ismos nos enganam

Fonte da imagem: http://2.bp.blogspot.com
Essa semana participei de uma mesa redonda sobre o papel da mulher no século XXI, desenvolvendo o tema feminismo. Plateia cheia, auditório repleto de pessoas desejosas em observar o que a mesa tinha a compartilhar sobre algo que ainda se consolidava como tabu: a) a desmistificação do feminismo como "o oposto do machismo" ou como "um movimento de mulheres mal-amadas e revoltadas", b) a clarificação do machismo como uma pérfida e perversa concepção de vida que trouxe à humanidade apenas destruição e malefícios.

Apresentei as gerações de feministas, situando-as no espaço e no tempo, bem como falei um pouco sobre as vertentes (ecofeminismo, ciberfeminismo etc.), não sem antes refletir - durante todo o tempo de fala - sobre a importância de contextualizar devidamente o tema a partir de um sentido mais concreto, para que a discussão não se tornasse enfadonha ante às abstrações que a dimensão teórica pode trazer. 


Pegando o gancho no que uma colega de mesa evidenciou sobre teoria ter que caminhar com prática, em átimos de segundos pensei em toda a minha trajetória que, longe de me enviar para uma contemplação vitimizante de vida, torna-se motivo - hoje percebo - de orgulho, pois tudo o que outrora se apresentou como situações de desrespeito ao Sagrado e às mulheres  trouxe uma lucidez enorme em relação à maneira como posso agora conduzir a minha vida e minhas decisões pessoais, acadêmicas e profissionais.


O que poderia ser denominado "dor resiliente" a cada nova experiência imprimiu uma tranquilidade de alma em identificar o processo, o padrão, bem como os limites e a necessidade de superação. Acredito que o melhor feminismo esteja aí: na trajetória pessoal com a qual cada mulher se supera diante dos padrões machistas presentes e vívidos em sociedade, bem como aqueles que também traz consigo e, pouco a pouco, deixa de realizar escolhas que as impelem (nos impelem) para envolvimentos machistas, atávicos e abusivos.


Com isso, o que hoje fica como percepção sobre a essência do feminismo consiste em concebê-lo como uma forma de pensamento político a se materializar em ações concretas - ora individuais, ora coletivas, rumo à compreensão de igualdade entre homens e mulheres, por intermédio da superação do paradigma androcêntrico (que elege o masculino patriarcal como epicentro de toda a construção social de mundo) e machista (que justifica, legitima e elabora a ideia de inferioridade da mulher e necessidade de submissão, em qualquer nível, ao homem).



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Pensamento? Prática? Ativismo? Prática individual? Coletiva? Eis mais assunto, pois, ao longo das gerações de ondas do feminismo, observamos movimentações coletivizadas. Desde as sufragistas até as anarco feministas (que apregoam a supressão do Estado como ordem inerentemente patriarcal), o que tem desafiado minhas reflexões consiste em saber se o movimento necessariamente demanda uma junção de esforços (um coletivo, uma ONG, enfim, organizações). 


Na palestra lembrei-me das palavras da minha mãe durante minha infância e adolescência, impulsionando-me à conquista de meus objetivos, sem observar o que estruturalmente se elaborou em sociedade como um paradigma de inferiorização da mulher. Com isso e, para além disso, lancei-me rumo à autonomia sem observar os construtos vitimizantes que, se não superarmos, podem eternizar a fragilização da mulher.


Se, por um lado, reconhecer a coisificação da mulher torna-se o primeiro passo para a explicitação do longo processo histórico de apropriação patriarcal, por outro, a superação da ética vitimizante é condição vital para se reelaborarem relações mais equânimes e honestas, uma vez que a igualdade é simplesmente a deferência de mesmos direitos. Simples assim.


Mas, de outra sorte, reconhecer as ondas femistas também é observar outra percepção também presente em sociedade: a misandria, ou ódio ao masculino, usualmente confundido com a demanda feminista. No feminismo, em qualquer que seja sua vertente, os homens não são odiados ou alijados para um plano de inferioridade, mas, antes, o olhar de igualdade. No femismo, contudo, a igualdade cede espaço para o alojamento do masculino para a inferiorização, pretendendo-se "restaurar" um matriarcado que até mesmo historicamente é questionável (sugiro a leitura de O Cálice e a Espada, de Riane Eisler).


Acredito, dentro desse contexto, que a percepção de tais vertentes e diferenças - o que indiscutivelmente é um caminho solitário - aloja as feministas do século XXI para um ativismo individual, ou, em uma apropriação semântica, feminismo pós-liberal, que se estabelece a partir do paradigma liberal individualista, materializa-se na conscientização pessoal e, em cima disso, projeta-se numa cidadania que pode desembocar no somatório de experiências pessoais. 


A rediscussão do papel do Estado, do companheiro - ou das próprias relações heteroafetivas e/ou firmadas a partir dos modelos de gênero - bem como das relações de produção podem acenar para outras vias de transposição do machismo. O envolvimento em torno da ideia de redefinição de novos rumos no relacionamento com a Natureza e o planeta também aportam nessa nova pauta de discussões. Sobretudo, na mudança epistemológica com a qual se construíram conceitos e paradigmas no campo acadêmico.


Pensando nessas e em outras questões, terminei a semana satisfeita por essas escolhas, que me encaminham novamente para a movimentação reflexiva, chacoalhada por outros processos que findaram por me aproximar de mais um caminho novo e cheio de novidades.


sábado, 14 de março de 2015

Símbolos, signos e sinais: o recado auspicioso do Universo para o bem viver

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Relendo um dia desses Laurie Cabot, deparei-me com um relato dela sobre a importância que os sinais tinham em sua vida, bem como a necessidade de se considerar cada informação latente contida no sinal como um providencial recado do Universo para nossa experiência terrena. 

Ela ilustrou o assunto com uma situação pessoal, na qual se encontrava em dúvida sobre determinado assunto (acredito ser algo em torno de um aluguel de uma casa, uma mudança ou similar) e, enquanto pensava nisso, uma pena de corvo quedou à sua frente.


Essa aparente "coincidência" a encaminhou para um desfecho bastante positivo em relação à dúvida na escolha de um caminho, o bastante para que, doravante, começasse a se lançar na decisão pautada em cima de sincronicidades. 


Isso me levou a refletir sobre o papel que os sinais exercem em nossas trajetórias e a influência profunda (ou não) do que também os símbolos nos revelam. Em relação a tal, vale muito a pena me apropriar da literatura psicanalítica como meio interpretativo de tais eventos, uma vez que se passam nos abscônditos refúgios da psiquê humana.


Ao criticar o pensamento freudiano, Carl Gustav Jung vê nos símbolos idéias intuitivas ainda não formuladas, diferentemente do que Freud expunha como "conteúdo consciente". Assim, uma chave, por exemplo, - que, para Freud, encerraria um conteúdo consciente de abertura, introdução fálica ou algo parecido - não simbolizaria explicitamente isso, mas, antes, englobaria a ideia AINDA não convertida no conteúdo abertamente consciente. O inconsciente - sobretudo, o coletivo - traria o preenchimento do que o símbolo representaria de fato. 


Nesse contexto, todo símbolo, ao ser desvendado a partir dos meandros dos processos intuitivos e inconscienciais, poderia trazer significados específicos, hábeis a nos mostrar percursos e escolhas ainda não acessadas no plano consciente, mas perfeitamente elaboradas no plano do inconsciente, como no caso da pena de corvo que, para Laurie Cabot, adquiriu um significado especial de representação positiva de uma escolha. 


Comecei a prestar atenção a esses pequenos detalhes em relação ao espaço que os símbolos ocupavam em minha vida e descobri - ao longo do tempo - que isso é efetivamente real e produtor do que as pessoas menos atentas chamam de "ato mágico". Nada de sobrenatural: apenas outro plano de consciência e compreensão da ligação invisível entre cada elemento da Natureza. 


A partir do momento em que nos entregamos a esses mistérios, a vida corre com a fluidez necessária para que, mais e mais, adquiramos uma singular sabedoria, incomum e despercebida aos olhos de outras pessoas, mas compartilhadas por quem sibila na mesma sintonia.


Uma ave no céu, uma pedra diferente que se coloca no caminho, ou, ainda, uma chuva providencial no céu: símbolos de libertação, superação de obstáculos ou purificação. Os símbolos passam uma mensagem totalmente dependente do acervo de cada um de nós. Ainda que conectados pela universalidade do inconsciente coletivo - epicentro, segundo Jung, do repositório simbólico primitivo a inspirar a humanidade em sua caminhada - todos nós trazemos nosso próprio "vocabulário" e patrimônio interpretativo sobre cada símbolo.


Com isso, o que poderia ter um significado para uma pessoa pode ter outro completamente distinto para outra. Eis a razão pela qual já me posicionei contra esses manuais de interpretação de sonhos, já que trazem simbologias genéricas sobre cada um dos conteúdos oníricos. Depois passei a fazer uma espécie de "meio termo" entre o ceticismo e a dogmatização cega, uma vez que os significados ali contidos podem representar que está registrado no inconsciente coletivo.


Se, por um lado, os símbolos marcam conteúdos da psiquê, os sinais, de outro, indicam nortes ou direções possíveis, dentro do alcance do que os primeiros acenam. Tudo funciona de uma forma perfeita, na qual se pode caminhar sem medo de errar. O caminho para esse tipo de conhecimento, contudo, não se encontra na mente intelectiva, mas nos mecanismos intuitivos, que podem se materializar desde uma "voz interior" explícita até mesmo somatizações (como pontadas no estômago, sensação de gravidade zero etc.).


Quando a voz da intuição dispara o alarme está na hora de parar, respirar e perceber os símbolos e os sinais, lançando-nos no caminho. Adoro a figura mítica do Louco do tarot mitológico de Liz Greene, que espelha uma pessoa fora dos ditames do mundo racional e que se encontra à beira de um precipício, contemplando o caminho ainda desconhecido e sendo totalmente guiado por esses processos inconscientes e primitivos. É o retorno ao berço primevo de nossas essências, que manifesta, no plano dessa existência, a exigência de escape do automatismo que tem levado a humanidade à bancarrota.

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domingo, 8 de março de 2015

A amora que foi meu sonho...

Ontem eu disse adeus a uma velha amiga, que me acompanhou por todo o tempo em que morei na Candangolândia. Ela veio de um galhinho singelo, colocado despretensiosamente na terra, vindo a fincar raízes sólidas e me brindar com tanta amorosidade!

Ontem ela veio à tona, não sem antes me fazer verter lágrimas de gratidão e tristeza. Gratidão pelos chás de folha de amora, pelas geleias e pela frondosa sombra que me protegeu.


Tristeza por deixá-la para trás. Mas a vida é feita de ciclos e de escolhas. Eu escolhi tê-la comigo, mas as pessoas que morarão na casa podem não ter a mesma opinião. Devo respeitar, então, a escolha e me conformar com a derrubada da minha querida amoreira. 


Trouxe para cá três galhos, na esperança de fazê-la renascer aqui. Acredito que conseguirei, com muito amor e carinho. Um dia nos encontraremos de novo!


Na primeira floração as frutas ainda vieram sem gosto, típico dos inícios. Mas, posteriormente, o azedinho das amorinhas passaram a povoar o solo da casa, ou, então, a boca dos dogs, que ficavam roxas pela degustação pueril das brincadeiras deles.


Minha querida amoreira, que deixará saudade. Como não sentir saudade? Um dos primeiros textos que escrevi - chamado A amora e o sonho - foi em homenagem à ela. Inerentemente à minha amoreira, que me fez ter uma experiência transcendental de sublimação das minhas limitações e dores, para a emancipação da alma.


Como esquecer, pois, esse ato da mais profunda compaixão que essa árvore nutriu por mim? Seria eu muito ingrata se a queda da minha amoreira passasse despercebida.


Um dia nos encontraremos de novo, pois muitas vidas cabem em uma vida, bem como muitas escolhas comportam uma escolha. Novos temperos, novas decisões e novos desafios. 


Minha companheira de textos, de estudos, de poesia. Uma nova etapa que exsurge de minha etapa cediça, com sabor de renovação e alegria. Que venham novos tempos de colheita!

O machismo nosso de cada dia...


No dia 05 de março, quinta-feira, participei de uma entrevista sobre o machismo. Perguntas básicas, a exemplo de se ponderar sobre o machismo como atributo partilhado entre as mulheres, aumento de violência no DF etc.


Achei interessante o momento, para desmistificar algumas quimeras quixotescas. "A mulher é machista", eis a provocação. Não, a mulher - genericamente considerada - não é machista. Isso seria negar até mesmo o trabalho de todas as mulheres engajadas nos movimentos feministas e de mulheres. 


Existem mulheres que reproduzem o modelo machista, mas seria leviano dizer que todas as mulheres do mundo são machistas. Aliás, seria reafirmar o machismo, desqualificando-se a mulher como protagonista de sua história. 


"A Lei Maria da Penha" aumentou a violência doméstica contra a mulher no DF. Não, não foi a lei que aumentou o número de casos de violência doméstica. Aliás, tenho resistência em acreditar que exista número de casos, quando, a bem da verdade, vejo existir um aumento de registros, reduzindo-se a cifra oculta de outrora. 


Ainda fiz alguns comentários sobre o machismo institucional e estrutural, deixando clara a ideia de ser necessária uma mudança sem precedentes na mentalidade da sociedade brasileira. Simples assim. 


Todo dia é dia de celebrar o Sagrado Feminino!

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Geralmente se comemora no dia de hoje, 08 de março, uma data especial de prestígio a nós, mulheres. 

Rosas são entregues nas entradas de supermercados, restaurantes, bem como lembrancinhas e promoções coroam o ir e vir nos shopping centers por todo esse vasto Brasil. 


Optei, contudo, por não sair de casa, pois ainda percebo nessas "boas práticas" um ranço de machismo subliminar que, sinceramente, não me atrai nem um pouco. 


Também não vou me ocupar de fazer um manifesto sobre o feminismo e a necessidade da conscientização das mulheres brasileiras, porque, sinceramente, acredito que autonomia e autoestima não são extorquidas por discursos inflamados e compartimentados em -ismos limitadores do espírito. Meu único propósito consiste no viver e nos rumos que isso - o que, por si só, já constitui uma grande tarefa - trará. 


Os rótulos, afinal - sempre os rótulos - acabam nos reduzindo a pequenas possibilidades diante do inevitável espetáculo que é o humano. O caminho do meio me levou a ficar quietinha em minha toca.


Ficar em casa é a maior comemoração que poderia ter, pois, ao final, posso passar o domingo na companhia de quem verdadeiramente me compreende e respeita no que trago de mais singular na essência feminina, fora dos limites que os estereótipos de gênero usualmente impõem às relações sociais. 


Fazer um delicioso carneiro ao forno, plantar mudas de boldo e amoreira e interagir com o silêncio da alma são a melhor maneira de comemorar a repetição do que tenho como diuturnos "dias da mulher". Para lá da cultura feminista e pós-feminista, o importante, aqui, é saber que trago dentro de mim o espasmo da criação, bem como a centelha renovadora a embalar as sementes que poderão mudar o mundo.


Ah, sim, rosas!


Ganhei a mais bela, que não foi cultivada para morrer em nome do marketing: ao acordar e sair no jardim, deparei-me com um lindo botão de rosa vermelha, ainda pueril, balançando ao vento. Ao invés da morte, celebrei a vida com o singelo botão que me brindou com seu carmim. 


Vi a dança renovadora da vida e da morte, pois trouxe da minha antiga casa uma rameira de amoreira, para ser plantada aqui. A árvore-mãe foi derrubada lá, não sem me trazer uma dor no coração, uma espécie de pontada. Mas respeitando os ciclos, contentei-me em trazer um galho (olho) de amoreira, torcendo para a amorosidade converter em árvore a delicadeza desse raminho tão querido.


Nascer, plantar, criar, gerar: marcas do Sagrado Feminino, ou, como apregoam as ecofeministas, o baluarte do vínculo entre a mulher e a terra. A preocupação com o ambiente e com a terra nos fazem recuar no tempo, para as épocas remotas em que a mulher era venerada como a única criadora da Terra. Hoje esse sentimento perpassa a percepção de gênese humana, para abrigar tudo que diz respeito a se elaborar algo, a se deixar uma marca nesse planeta.


Deixar árvores, reciclar lixo e cultivar uma hortinha estão no retorno ao simples. Esse é meu sincero voto de felicidade no dia da mulher. Todo o resto é simples especulação discursiva. E de discurso o mundo está cheio!

sábado, 7 de março de 2015

Quando o fim é apenas o começo...

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Tudo inevitavelmente caminha para um fim, essa é a constância da Natureza: entropia e vazio...Não O fim, mas UM fim, término de ciclos que antecipam novas vivências. O fim é motivo de festejos, ao anunciar a reinvenção de nossas trajetórias.

Tenho pensando muito em sair das redes sociais e, depois de ponderar bastante, decidi - nas últimas semanas - deixar o facebook. Foram seis anos de compartilhamentos, alegrias, tristezas e, sobretudo, muita, mas muita observação do fluxo de constantes informações e dados.

A empiria e, mais, a auto reflexão, fizeram com que eu paulatinamente me ocupasse em chegar a esse ponto da minha trajetória. Estou me preparando para deixar as páginas de facebook, não sem antes tomar a cautela - cuidado com as pessoas que me são caras - de informar que nas próximas semanas deixarei de participar desse espetáculo circense. 

Em seis anos deixei de viver momentos de silêncio com a Natureza, deixei de investir no meu projeto pessoal, sobretudo aqui no blog. Percebi que, durante esse tempo todo, o aumento progressivo de postagens no facebook foi inversamente proporcional às postagens aqui. 

Acredite que essa rede social poderia possibilitar a reflexão e o compartilhamento de vivências. Mas hoje, mais madura e cônscia, cheguei a algumas conclusões. Encaro-as com gratidão e naturalidade. 

Foram seis anos em que emburreci como ser humano, trocando as teclas de meus artigos pela janelinha de virais, mêmes e outros nomes que custo a decorar, pois não são da minha época (na qual amizades se cultivavam apertando as mãos e olhando-se nos olhos). 

Frustrei-me, pois, além de me deparar com recorta e cola acrítico e acéfalo, ainda purguei amargas sensações de engodo, quer seja nos virais fake, perfis fake e, sobretudo, pessoas fake. 

Fotos postando alegria enquanto a vida se despedaça em pleno ar, notas de dinheiro mostradas como apanágio da boa vida, enquanto o SERASA e o SPC carcomem os bolsos desesperados em mostrar uma vida que não se sustenta. 

Egos e guerras ideológicas, religiosas (em todos os setores, dentro e fora da cristandade e do paganismo, o que me deixou sem a menor vontade de falar, comentar e compartilhar). No paganismo, em especial, a frustração se multiplica, pois esses dez últimos anos têm servido de azo para uma proliferação de ataques pessoais e trocas de acusações que denigrem a imagem e a prática da bruxaria no Brasil. 

E mais. 

Deixei de viajar e sentir o vento, por me ocupar com murais, fotos, caras e bocas. Deixei de ficar no silêncio da minha casa e na companhia dos meus familiares por me prostrar sentada em uma cadeira - com a boca cheia de dentes vendo facebook e esperando a morte chegar, para parafrasear Raul Seixas. 

Deixei de experimentar da internet o que ela tinha de melhor, a ACESSORIEDADE, para me enxergar em um mundo no qual não participar de um facebook traz ostracismo e apartação. Não quero ser mais uma pessoa a naufragar no denso mar da busca de um sentido para tudo isso. 

Descobri que minha vida tinha um sentido bem mais lúdico fora daqui. Indo ao Jardim Botânico sem celular, laptop, netbook, flip flop e toda a parafernália invasora da Natureza, pude me lembrar de como a vida era mais frugal sem eu me conectar a tamanho oceano da mais pura imbecilidade. 

A rede social? Nome já diz: rede. 

Capta, mas não aproxima as pessoas. Como a microfísica capilar foucaultiana, coloca-nos em um estado de constante vigilância, no qual a vida de uns fica à mercê da espionagem de outros. 

E, ainda que se lacre, camufle ou crie novo perfil, fica a pergunta: existe liberdade e plenitude nisso? Em se necessitar encobrir a própria vida para não se sentir invadido? Creio que não. Há que entenda - uns pseudo anarquistas com quem troquei ideias (ou pseudo ideias, quem sabe) - que o facebook traz a hecatombe anunciada do Estado, sob a égide da libertação midiática e virtual. 

Quando me lembro disso solto gargalhadas, pois creio que os mais presos, retrógrados e chafurdados na lama da ignorância são os que sinceramente encaram as redes como instituições filantrópicas fofinhas e descomprometidas. Tudo tem compromisso com algo. 

A História não é aleatória, muito menos ingênua. Instituições não são, muito menos. Pessoas que criam as instituições também não. Nada é ingênuo, bastando se apertar um botão para os monstros internos saltarem. 

Não quero mais saber de direita, esquerda, Dilma, Aécio, PT, PSDB ou PQP, pois nada disso postado aqui representa o que é, para mim, a verdadeira politização.  Quero ser eu e isso me basta para buscar a realização como indivíduo, nada mais. 

Ser cidadã é ter ATITUDE diária, e não plasmada de 4 em 4 anos numa urna cuja credibilidade não sei para onde aponta. Ser cidadã não é dar indireta ou direta para o Governo ou para a oposição (lamento, mas no Brasil não existe oposição, se não perceberam isso. Existe o compartilhamento do queijo na ratoeira, por todos, todos, todos), mas criar espaços dentro da própria vivência (do círculo de relacionamentos) para se agir correta e eticamente. 

Ser cidadã é se esclarecer, a cada dia, pelos passeios que a vida proporciona. A verdadeira vida, que não está em uma rede social, em um selfie ou chat, mas na interação pessoal e física. 

Nas cartas que ainda podem ser escritas, nos livros que ainda podem ser lidos, nos gostos que ainda podem ser sentidos. Nos telefonemas de orelhão que trazem na expectativa de uma ligação a proximidade que acende a verdadeira saudade. 

A verdadeira vida está, enfim, na busca que as pessoas que te amam fazem, quando instadas a procurar por você, saindo dessa zona de conforto do botãozinho que reflete apenas um trsite e vazio arremedo autômato de repetição viral. 

Para quem fica desejo apenas que leia esse texto e reflita sobre o significado real do que é viver, pensando que a cada respiração não temos certeza dos próximos cinco minutos e na responsabilidade em se fazer uma escolha adequada para se viver melhor. Essa é, creio, a opção que entendo estar tomando por agora e, para quem me conhece MESSSMMMOOO, verá que se trata de minha postura final em relação ao que vejo como nefasto em minha vida. 

Novos desafios e novas conquistas... Let it be!