domingo, 30 de setembro de 2018

De ervas, plantas e caldeirões: a sagrada arte da cura e do bem-estar a partir das tradições ancestrais de utilização de ervas


Um dos maiores ofícios da arte sagrada da cura e do bem viver consiste no contato, conhecimento e manuseio das ervas, quer seja por conta das propriedades curativas, como, também, para alimentação, ritualística ou aromaterapia.

Qualquer que seja a finalidade, a manipulação herbal revela a conexão sagrada, bem como o contato com a Natureza na imanação de seus dons e aspectos mais mágicos, demandando do(a) iniciado(a) uma imersão profunda em um universo ímpar de informações e, sobretudo, sensibilidade e intuição. 

Isso porque a mera apreensão de técnicas como instrumento racional não se revela o bastante para penetrar nesse mundo rico e complexo, cujo acesso se faz, sobretudo, pelos portais da mente não-racional ou analítica (eterna julgadora), mas por processos intuitivos e sensitivos. 

A cisão entre uma "ciência" oficial, usualmente androcêntrica, patriarcal, cartesiana e compartimentada e o conhecimento ancestral, unicista, matriarcal, holística e circular relegou a herbolária para um aspecto místico ou mágico. 

Basta ver como a indústria farmacêutica mainstream desqualifica os ingredientes herbais, focando medicação que não estimula o sistema imunológico, tornando-nos passivos e meramente expectadores das prescrições médicas, usualmente replicadas com certo ar blasé de incompreensão das reais necessidades da nossa alma. 

Outrora tratada como sobrenatural, a herbologia, no âmbito das práticas de bruxaria e dos sistemas xamanísticos, marca a retomada desse aspecto vivencial, uma senda iniciática que nos encaminha para a conexão com nossa ancestralidade e nos aloja para uma posição de protagonismo de nossa própria cura. 

Além disso - desse aspecto curativo - a herbologia nos conduz a um universo mais amplo de práticas e vivências cotidianas, nas quais o caminho de conexão com a Natureza é muito mais do que a extração de ervas para procedimentos terapêuticos.

Isso se manifesta de forma mais perceptível na utilização de ervas para temperos, elaboração de produtos de higiene, limpeza doméstica etc. Ou seja, a verdadeira ideia de comunhão com a Natureza pela experienciação Dela em nossa vida diária. 

Egrégora atemporal, a herbologia constitui um acervo de informações presente no consciente coletivo imemorial, presente na historicidade dos saberes tradicionais, que comungavam com a Natureza e, a partir Dela, recebiam, por conexão, as revelações herméticas sobre os usos e as propriedades de cada erva ou planta.

Eis a razão pela qual boa parte desse conhecimento se replicou na chamada bruxaria familiar, aquela transmitida por herança mágica, ora consciencial, ora por rememorização, no âmbito de clãs e famílias, quase sempre femininas: o caldeirão no centro da cozinha é o coração de uma casa e o segredo de todos as receitas herbais. 

Hoje trouxe para nossa conversa o processo de secagem de algumas plantas especiais, compartilhando um pouco das práticas da minha tradição. Antes, porém, vou trazer algumas referências que considero credenciadas para que igualmente possam fazer suas pesquisas e, aos poucos, reunir um bom acervo de consulta.

Tomo sempre a cautela de registrar no meu livro familiar cada uma das pesquisas a respeito do uso de ervas, concentrando os aspectos diferenciados e as intuições que vêm à tona quando estou manipulando cada uma das ervas.

Lendo alguns trechos, voltei-me ao uso de ervas em óleos essências, bem como às utilizações no dia-a-dia, tanto no aspecto mágico (de transformação específica de uma realidade plasmada), como no tratamento de adversidades. 

Alguns livros de cabeceira sempre povoaram meus estudos. Além do que me foi transmitido pela minha casa ancestral, sobretudo por minha mãe, gostei de ler alguns compêndios, desde W.B. Crow no livro Propriedades ocultas das ervas e plantas: seu uso mágico e simbolismo astrológico, além de Nutrição Vital: uma abordagem holística da alimentação e saúde, da Soraya Vidya Terra Coury.

Também costumo me debruçar sobre o compêndio Plantas Medicinais no Brasil: nativas e exóticas de Harri Lorenzi e F.J. Abreu Matos. Eles me deram um norte no encontro entre os horizontes do conhecimento ancestral e o chamado científico (que é caracterizado por teses e repetições laboratoriais). 

Sem deixar de mencionar o clássico As plantas mágicas: botânica oculta de Paracelso, acervo quase mítico do rol de práticas do séc. XV-XV, que se dedicou ao estudo sistematizado das ervas. Muitos outros livros existem à disposição, mas sempre lembro que é muito interessante - até mesmo por formação esotérica familiar - buscar as raízes no que a casa ancestral de cada um de nós guarda em termos de conexão e egrégora.

Essa semana dediquei-me à secagem de ervas, separando da nossa horta aqui em casa endro, tomilho, manjericão, sálvia, boldo, lavanda e alecrim: todas são plantas com atributos bastante significativos e caraterísticas próprias.

Para quem se conecta aos aspectos astrológicos, bem interessante seguir as lunações e entrada da Lua nos signos para fazer a colheita, sempre agradecendo à Natureza pelo compartilhamento das ervas. A aspectação da Lua na casa dos signos revela o ponto de apoio anímico da energia que poderá ser imantada em determinado trabalho mágico.

Não recomendo o processo de lavagem das folhas das plantas, sobretudo nos grandes centros e cidades, onde a água é fluoretada, pois esse ingrediente se incorpora às ervas, modificando sobremaneira sua constituição. Preferível a secagem ao sol, porque o flúor evapora no processo. Particularmente colho a planta e a uso diretamente, aproveitando a energia telúrica e o prana sempre presentes na biosfera.
Depois da coleta, separo ramos generosos e os amarro com barbante, fazendo a entonação rimada que costumo realizar, por intermédio da chamada magia dos nós. 

O nó concentra energia entoada e densificada, agregando em sua extensão o direcionamento da vontade. Por intermédio dele podemos canalizar vontade focada e plasmada, agindo como um verdadeiro gatilho subconsciencial, o que, de fato, representa a síntese da magia e dos processos xamanísticos.

O processo de secagem depende das condições climáticas. Aqui no cerrado a maturação da erva leva, em média, 10 ou 15 dias, extraindo-se daí um excelente componente para chás, extratos e comburentes para fogueiras. Sem deixar de mencionar a utilização como defumadores e incensos. 

Geralmente destino a sálvia e o alecrim para fazer defumadores, amarrando-os na forma de bastões, ao contrário dos ramos de manjericão e endro, que amarro generosamente em forma longitudinal. 

Depois de prontos, basta dedicar ao propósito, por intermédio da imantação na erva de sua destinação plasmada: com isso está feita toda a mágica. É simples! Acessível a todos. Nada de complexo, mas, antes, um exercício cotidiano que nos encaminha para a liberdade, o autoconhecimento e a plenitude!

Tudo de bom para todos!

Que todos em todos os mundos sejam plenos e felizes!

Sláinte!!!!


terça-feira, 25 de setembro de 2018

A carne que sangra e renasce na superação resiliente


Uma das frases mais belas e paradoxalmente tristes que já tive a oportunidade de ler é de José Saramago e diz literalmente o seguinte: "Se tens o coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia". 

E por que o paradoxo? 

Afinal, poderia ser mais uma frase a colorir um estado profundo de tristeza em face do sofrimento, representado na frase pela expressão "...e sangra todo dia", não fosse um detalhe curioso, que diz respeito ao simples fato de igualmente ser libertador ter um coração de carne: a capacidade de amar pura e simplesmente, sem a interferência do mental comprometido pelas sombras de nossas limitações

Sem interesse algum que não seja o bem viver, o bem querer, a manifestação idílica de um estado de calmaria da alma. Uma realização do espírito. A verdade que promana do coração de cada qual.

Essa potente frase, desse potente e sensível escritor, traz à luz um lampejo otimista de observarmos que, independentemente do que as outras pessoas elaboram dentro de si como justificativa para estar ao lado de alguém, isso, de fato, é uma demanda ou um dilema do outro. 

O nosso dilema, derivado da maneira como vivenciamos esse estado pleno, consiste em simplesmente compreender os desafios que são plasmados pelas consciências de cada um de nós, que ilustrarão a maneira como, durante a vida, construímos verdades, histórias e caminhos.

A minha sempre foi e é viver sem medo de encarar a verdade, pois, afinal, ela é libertadora e clarificante. O que traz a contingência do medo, contudo, é a sombra, a não verdade, o truncado, não dito e acobertado. A torção que se faz dos fatos para, com nossa interpretação deles, gerarmos outras verdades, mitos e ilusões.

Eis a grande lição da frase de Saramago: o coração forjado no ferro duro das vicissitudes e dos desafios da vida e que passa a moldar nossa forma de agir, tanto em relação a nós mesmos, como, também, em relação aos outros é o coração que não se permite amar.

É o coração que se movimenta pela escolha mental de racionalmente optar, diante de possibilidades quânticas, o que reside de bom para o usufruto de ônus, numa balança de custo-benefício incompatível com a nobreza de levemente sentir.

É com o cardíaco, e não com a pineal, que nos projetamos para a experiência incondicional do amor. 

A pineal nos aponta, juntamente com a coroa, para a experienciação da consciência, mas, de outra sorte, no movimento interno de alocação energética dos chackras, é de baixo para cima e, especificamente, do cardíaco para cima que o fluxo de transmutação se faz.

Um mental avantajado, expandido e senciente, sozinho, não quer dizer muito. Seríamos como o Dr. Spock, o grande conhecedor da saga Star Trek, dotado de grande conhecimento enciclopédico, mas frio. Ou seríamos como grandes magos negros, que detém conhecimento, pineal e coroa amplos e irrestritos, mas ausentes de sentimento verdadeiramente altruísta.

Tal qual o ferro... 

Esse elemento, aliás, é bem interessante, dado o coeficiente de sua dureza. 

Com eles muitas armas foram forjadas e, por meio delas, muitas vidas foram ceifadas ao longo da espiral cármica do mundo. Ou seja, corações sangraram pela força do ferro penetrando naquele que é o músculo mais forte e, ao mesmo tempo, mais sensível do corpo humano.

Em Kali Yuga o império do ferro encaminha os fortes de coração de ferro para a luta pela sobrevivência, pelo uso estratégico da mente potente no sentido de buscar a vida, o bem estar, a realização. Para se fazerem escolhas pelas oportunidades que se apresentam nessa balança de custo-benefício.

Essa é a vida em seu sentido mais terreno, árduo e duro. Como o ferro.

Eis o sentido da frase de Saramago, bom proveito para quem tem uma couraça no peito, para quem faz escolhas pela privação e pelo direcionamento proposital da consciência expandida. Bom proveito...

Pois somente quem sofre e lacera a alma em função da nobre arte de amar pode saber, de fato, o caminho para a superação e transcendência. Sangrar, pois, é libertário. E nós, mulheres, sangramos em todas as luas. 

Sangramos, sentimos dor, retornamos. 

Vivenciamos a resiliência ante o impacto diante do ferro, pura e simples. 

É assim que verdadeiros guerreiros moldam o espírito e a consciência para a projeção rumo ao crescimento...

O sentido do triskle, a espiral que movimenta a roda para mais um giro...