domingo, 27 de julho de 2014

Scotish bagpipe? Não, proselitismo humanoide dominical ou ode ao direito dos animais

Fonte da imagem: http://www.fiocruz.br/biosseguranca

Durou frações de segundos o arrebatamento, a sensação momentânea de ser projetada para uma highland escocesa ou, ainda, para os grandes vales esmeralda irlandeses. Não se trata, contudo, do "arrebatamento" crístico da mão divina levando os escolhidos, mas, antes, da surpresa em plena luz do dia deparar-me com uma melodia que tem o condão de tocar suavemente minha alma e me motivar a ser feliz.

O som da gaita de fole ainda está reverberando aqui em casa agora, mas horas atrás era vívido o som com que cada uma delas se harmonizava à percussão. Nesse exato momento em que escrevo - ou em que alguém lê meus escritos - o som fricciona meu peito, massageando meu coração e conduzindo à cada uma das células a felicidade em gotas de compasso.

Eu estava passando cera no chão da sala - tentando me recompor de mais uma tempestade que me drena as energias e a vontade de estar aqui quando - ao fundo, comecei a escutar uma série de músicas que me faziam acreditar estar em um pub vertendo uma boa caneca de stout gelada. 

O desalento, o cansaço, o derrotismo e, sobretudo, a vontade de sair correndo e desistir aplacaram-se, por instantes, na medida em que parei meus afazeres para tentar descobrir de onde vinha aquela música. Acreditei que estivesse vindo da casa vizinha, pois aos finais de semana uma banda lá se reúne para ensaiar. Pensei em tocar a campainha deles e simplesmente agradecer por essa melodia que me salvou o dia. 

Meu coração sucateado e cansado alegrou-se, encheu-se de júbilo em acreditar que aquela seria a música a me resgatar do limbo existencial em que insisto em me lançar. Desconfio até que a musiquinha foi uma artimanha dos deuses para que eu hoje pudesse respirar e viver em meio de tanta estranheza que o espelho me mostra a cada dia.

Mas quando abri a porta da frente para ir até a casa vizinha, deparei-me com um grupo de pessoas reunidas em uma bandinha marcial, estandartes formais e roupas que me lembravam o uniforme da Grifinória. Vi, ao longe, os tocadores da gaita de fole, os percussionistas e, qual não foi a minha surpresa ao abrir o portão de minha casa, dois adolescentes simpáticos, que desejavam falar comigo. 

Um deles mostrou um exemplar de um livro chamado "Psicose ambientalista", argumentando e ponderando a respeito da desproporção entre a penalização mais recrudescida do crime de maus-tratos a animais e o abandono de incapazes, falando em "inversão de valores" e no que isso tinha de absurdo. 

Achei interessante o título e talvez devesse ter sugerido outro, o "Psicose especista", de cunho menos conhecido porque, afinal de contas, quando se é sociabilizado em um paradigma dominante, tudo que é diferente passa a ser tomado como estranho e, porque não dizer, errado. Como não estava a fim de ir para a fogueira pela milionésima vez, calei-me e ouvi. Estava curiosa em saber o que significava aquele encontro Hogwarts em pleno domingo gélido.

Bem tranquilamente argumentei com aquela criança - que, por certo, foi doutrinada no paradigma da submissão da Natureza, bem típico da estrutura dual que tem na Queda o vetor para o ser humano sobrepujar o mundano e o meio ambiente - que particularmente não tinha eu problema algum com isso e que concordava com a penalização. Que acreditava existir espaço para todas as demandas em termos de direitos.

Rapidamente eles se despediram, não sem antes deixar um folheto do instituto que representavam (vinculado à Igreja Católica Apostólica Romana), no qual, na última parte, estava descrita a ideologia a que se propunham: a submissão da natureza (com "n" minúsculo) a "benefício do homem". Eis o motivo pelo qual estavam circulando pela cidade, em uma banda, com músicas honoríficas, para a sensibilização em torno da ideia de que um animal é menos importante do que um ser humano.

Não sei se me pegaram em um dia de anestesiamento da alma ou, ainda, se eu realmente cansei de todo e qualquer enfrentamento direto, mas, sinceramente, escutando aqueles dois jovens falar sobre importância de bens jurídicos eu, de plano, desliguei meus botões e só me vi em uma grande galeria de silêncio. 

Tudo ficou silencioso a partir dali. O mover das bocas não repercutia mais som, a banda não mais tocou e eu, calmamente (já disse, não sei se por quietude da alma ou por mera desistência diante de tudo), guardei em meu peito a memória emocional que as gaitas de fole trouxeram para a minha vida. Não fazia a menor importância para mim o monólogo da justificativa do meu posicionamento. Muito menos fazia sentido mudar a opinião de alguém. 

Só as gaitas importavam... Fiquei com elas. Guardei-as dentro de mim.

Percebi, ali, que cada qual tem sua visão de mundo mesmo e, dentro dela, muito pouco provável que alguém mude alguma coisa ou valor dentro de si sem que realize um profundo exame de consciência. Esse pequeno episódio em meu domingo me pôs a pensar nos espetáculos da minha vida, nas pequenas grandes situações em que me desgasto - e desgasto os outros - com tentativas de mudanças. 

Lembrei-me da minha vida e, para além dela, do momento sui generis que estou experimentando, onde, talvez, esteja eu numa simbiose eterna, sendo cada um dos meninos da gaita de fole e do folder proselitista, dando murro em ponta de faca, uma faca bem afiada que, dali a pouco, cortará meu dedo.

O que aprendi hoje? 

Não existe mudança drástica, não se muda ninguém (e nem é justo que se pretenda fazer), cada um oferece o que tem dentro de si para doar e, sobretudo, se quiser eu mudar algo, preciso mudar dentro de mim as escolhas, para que eu não me converta em um menininho carregando um folder a pretexto de convencer alguém de algo que nem mesmo ele sabe o que é...

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Clãs, covens e solitudes: derradeiros momentos de escolhas

Fonte da imagem: http://allthingsarthurian.files.wordpress.com

Dias atrás fui brindada pela visita de um grande amigo e dirigente de um coven, sacerdote da mais alta nobreza de espírito e dotado de uma sensibilidade ímpar, uma aura altamente sofisticada. Correspondemo-nos há 10 ou 14 anos e, por ocasião da realização de um evento aqui no Cerrado, ele veio com sua sacerdotisa e, de quebra, fez minhas novas tatuagens (amei).

Passamos um dia muito bom aqui. 

Fiz um almoço consagrado (para variar, só poderia ser porco assado mesmo, em homenagem aos nobres ancestrais celtiberos), elaborando com todos um clima descontraído demais, o bastante para produzir muita reflexão e alegria - a despeito de me fazer imergir em uma profunda ponderação. 

Em relação a esse aspecto, em especial, sou extremamente grata ao meu querido amigo e irmão de longas eras, tanto pelas maravilhosas tatuagens, quanto pelo diálogo providencial e enriquecedor. É importante trocar ideias e se permitir a abertura da alma para outros posicionamentos. A interlocução com ele possibilitou uma mudança vetorial nos rumos de minha vida. Gratidão, gratidão, gratidão.

Trocamos muitas ideias a respeito da Arte, bem como conversamos a respeito do saudável desenvolvimento do paganismo no Brasil. O diálogo com ele renovou em mim algumas questões que insistia em deixar no "quarto de despejo de resoluções". Aqueles pensamentos que demandam escolhas que eventualmente não desejamos ou não estamos prontas para fazer.

Pensei, especificamente, na minha colaboração para o desenvolvimento consciente do paganismo no Brasil e, confesso, dentro disso, um filme passou rápido à minha frente, com as pitorescas cenas que fizeram parte da minha vida durante toda a senda elaborada. Lembrei-me da minha mãe, minha avó e, claro, de toda a linhagem ancestral originária da minha família.

Conectei-me com a egrégora ancestral da casa de onde exsurgi. Com as fortes e impetuosas mulheres que carregaram o nosso nome antes mesmo de eu sequer a pensar em vir para esse mundo. Uma pontada de saudade da casa da vovó bateu em meu peito.

Isso, claro, não veio isoladamente...

Por que tive essa epifania?

Porque, em certo momento, tive o insight que sempre me persegue e que pode servir de experiência útil para quem está adentrando na Arte: desenvolver um coven

Manter-me na solitude? 

Mudar para perto da minha mãe e celebrar com ela nossos segredos de família? 

No caso de estruturar um coven, publicizar mistérios que só fazem sentido para nossa casa? 

Verter para o cerimonial da tradição na qual fui iniciada? 

Quais as implicações?

Fico surpresa (no melhor sentido da palavra) com as pessoas que rapidamente optam pela criação de um coven - ou clã - pois às vezes me sinto morosa demais, já que há 20 anos pensando nisso... 

Exatamente por me enxergar em um túnel do tempo que me ocupa esse lapso todo que o diálogo com meu amigo trouxe respostas. E mais perguntas. Na espiral sem fim que povoa o limiar de um momento, a eternização do ciclo de vida-morte-vida.

Não encontro respostas e, confesso, cada dia tenho mais dúvidas, todas saudáveis, sem pensarmos que temos a eternidade para experienciar tudo até a final integração monádica. 

Mas, enfim, voltando à preocupação...

Ela não é desarrazoada. 

Afinal, minha família migrou em face de uma maciça perseguição religiosa que vitimou clãs e pessoas na Espanha, um território cuja marca maior reside no multiculturalismo. A publicização, nesse contexto, pode denotar para mim aniquilamento. Dentro disso, sinceramente falando,  acredito que o mundo pós-moderno - muito menos o Brasil varonil - não têm mostrado sinais de melhoria ética no respeito à diversidade e ao multiculturalismo. Ainda mais quando a pauta se refere à expressão de espiritualidade e religiosidade.

A questão aparentemente é simples se focada com o distanciamento que usualmente usamos para avaliar ou julgar aquilo em relação ao qual não temos a experiência vivificada. Mas quando, por momentos - átimos de segundos - permitimo-nos empaticamente tentar perceber a sensação de uma fogueira e do sofrimento inerente ao arder das chamas, a coisa adquire outro significado. Afinal, como diz o ditado, pimenta nos olhos dos outros é refresco e, com isso, fácil demais é falar sem saber empiricamente o significado do que está sendo julgado.

Pensar no quanto a sociedade brasileira é discriminadora, perversa e intolerante me desanima em termos de exposição das ideias relacionadas ao paganismo, quiçá à estruturação de um grupo formal. Não tenho o menor pudor em me enxergar temerosa (para algumas pessoas pode ser covardia até) e reticente em organizar algo mais formal e elaborado do que as práticas de fundo de quintal que realizo.

Tenho experiências agregadas de vexatória discriminação que me fazem arrepiar o cabelo. O caso em SP da moça que foi sumariamente linchada na rua, sendo chamada de bruxa pelos algozes auto legitimados retira o fôlego em relação à propalação de temas correlatos ao paganismo e à bruxaria. Basta-me ser reiteradamente estereotipada em face da cor do meu cabelo, dos anéis, das tatuagens, das roupas e, sobretudo, das ideias que sustento. 

Nesse sentido, não faço muito esforço para me deixar mais discreta, porque não saberia ou desejaria fazer isso. Isso porque acredito que sou externamente o que sou internamente - não que outras pessoas não sejam - de modo que vivencio minha identidade naturalmente de dentro para fora e de fora para dentro, sem distinção. 

Não consigo explicar de uma maneira melhor, mas como não quero ser mal interpretada, tentarei clarificar minhas ideias. O que desejo dizer, com isso, é que apenas fluo sem me preocupar com qualquer que seja o estereótipo, ainda que tenha consciência de sofrer as consequências da escolha. Os estereótipos existem, mas acredito que se eu agir às avessas, fomentarei ainda mais, tal estereotipização. Na verdade, acredito que seja uma espécie reversa dela.

Com isso, não me preocupo com esse detalhe. 

Vou seguindo a vida normalmente e, para além dessa polêmica, acredito também estar na colaboração para a mudança de perspectiva quanto ao paganismo no Brasil. Esse é um ponto importante para mim e que veio como resposta à minha inquietude em contribuir para toda essa mudança.

O silêncio, dentro disso, aparentemente tem sido a minha melhor companhia, bem como a lealdade de poucos - pouco/as mesmo - amigos e amigas, leva-me ao isolamento que tomo como necessário para me preservar a alma de dispêndio desnecessário de energia. Sinto-me deliciosamente solitária em meu peculiar mundo de abstração mágica, mas plena em completude espiritual na certeza da clarificação de desígnios a povoar meus passos.

Não estou, com isso, criticando ou julgando pejorativamente quem se lança nessa empreitada. Não. Ao contrário, admiro muito a coragem e a disposição de tamanho ato de doação e disponibilidade em se realizar um sério trabalho, pois o paganismo no Brasil precisa ainda romper as fronteiras do preconceito e da intolerância. Apenas não tenho me sentido disposta a percorrer essa jornada, em face de uma necessidade indomável de me manter reclusa em meu estado natural de eremita. 

Isso, claro, não denota o abandono das funções naturais de um sacerdócio solitário, pois o que poderia ser um sacro ofício comunitário convola-se no trabalho pontual caso a caso, numa espécie de artesanato individual que envolve o trabalho pontual com as pessoas que volta e meia me interpelam a respeito da Arte. 

Mas, ainda que desejasse seguir o caminho coletivo, iria esbarrar em outros dilemas: como trabalhar ou harmonizar segredos e mistérios que dizem respeito à minha família de sangue com a necessidade de estruturação de um clã unido por laços de afinidade e empatia? 

A resposta é bem óbvia: não é possível, porque em uma tradição de sangue o vínculo é helicoidalmente firmado em gerações e eras, nos pactos que são eternos. Tal qual o ditado "uma vez bruxa, sempre bruxa", uma família de sangue se lastreia na consuetudinária transmissão de conhecimento, bem como na vivência compartilhada de preceitos que fazem sentido para aquela sinergia.

Isso não desmerece, por outro lado, vínculos de afinidade. 

Não tenho a pretensão de afirmar que a Arte praticada em família é mais ou menos importante do que a firmada pelo liame pactual. Nesse sentido, o mundo mágico já está cheio de desavenças que sinceramente creio serem inúteis e pouco saudáveis para o desenvolvimento do paganismo e, em especial, da bruxaria no Brasil. 

Esses conflitos, para bons entendedores, resumem-se a simplórias disputas pelo monopólio do poder de declaração da verdade, o que, para mim, já se eiva do mais completo fracasso, e por que não dizer, de uma autocracia ímpar, já que elimina o pensamento divergente pela afirmação de existência de linhagens puras ou impuras. O mundo sobreviveu precariamente a uma eugenia já na Segunda Guerra. Vivemos conflitos e guerras em face de eugenias. Por que, então, insistir em adotar o mesmo paradigma em relação ao qual tanto se criticou o mundo crístico? 

Paradoxal...

Já que não vejo ser possível publicizar e iniciar ninguém no que é intrínseco a uma estrutura familiar, sobrevêm outra pergunta: encampar, então, a tradição na qual fui iniciada aqui em Brasília? Em princípio, sim. Ainda que a egrégora seja distinta do panteão ancestral que elabora energeticamente o esteio dos meus flancos espirituais. 

Não teria problema em migrar, em tese, do tradicionalismo da bruxaria para a religiosidade wiccana. Outro grande mito a apartação pela discriminação, pois, sinceramente, conheço mais honestos e honestas (e competentes) wiccanos e wiccanas do que bruxos e bruxas mesmo. 

Isso porque em minhas andanças e trocas - tanto em grupos como em conversas de pé de caldeirão - encontrei charlatães de toda sorte. Hoje me limito e permito dialogar com quem respeito e admiro. O resultado disso está na deferência com a qual me refiro tranquilamente a essas pessoas aqui, pois elas sabem quem são para mim: como ariana tripla, converso, dou pitaco e participo somente daquilo no que acredito. O resto e para o restante, mais silêncio.

Não, a questão não está na migração, mas, antes, na incapacidade que vejo em harmonizar uma egrégora de um coven com a herança que me foi brindada. Não acredito ser interessante misturarem-se egrégoras, até mesmo porque, em termos de ancestralidade, é possível se pensar em energias dissonantes e incompatíveis. Um exemplo disso consiste nos ancestrais ritualísticos provenientes de sociedades que se lançaram como conquistadoras, em contraponto a sinergias ancestrais dos que sofreram os influxos da conquista.

Tenho como temerário em relação à sobrevivência do clã, já que estamos falando de energia e polarização. Não celebro com meus amigos o que celebro quando estou só, porque as práticas afetas ao meu sangue e clã fazem sentido para minha família de sangue. Mas celebro rodas com meus amigos e minhas amigas, numa espécie de território energético neutro, pois cada qual tem sua ascendência. 

Isso iria de contraponto ao hermetismo do culto dos ancestrais da terra, protagonistas primevos da expressão arquetípica deídica. Com isso, confesso, tenho muita dificuldade em alinhavar energias diferenciadas, sem deixar de mencionar egrégoras coletivas de rodas. Não, não creio ser possível me fragmentar a esse ponto (e, de novo, não estou julgando pejorativamente quem faz, mas reconhecendo uma limitação ou desiderato ideológico/espiritual meu). 

O que, então, dentro dessa miscelânea de ideias aqui, poderia eu fazer? Hahaha (rir sempre é excelente, até porque desconheço bruxas e bruxos taciturnos e que se privam desse ato máximo de liberdade), enfim. Elaborar a continuidade da egrégora familiar de sangue, transmitindo para a descendência o que adquiri. Uma opção... Seguir na posição neutra, digna de uma Suíça, rodando e girando, de um lado, e prosseguindo solitária no caminho que só pode ser percorrido por mim. Um e outro são viáveis. 

O primeiro traz outra ponderação: alinhar a ancestralidade à harmonização da vida com um parceiro sensível a isso (mas que se contente em subsistir fora do sistema tradicional, ainda que compartilhados sejam os ritos suíços). 

Talvez seja tema para outra postagem a reflexão sobre parcerias e casamentos entre pessoas de perspectivas religiosas e espirituais distintas, mas, em breve afirmação, malograda é, para mim, a união nesses termos, quando se trata de transmissão de conhecimento ancestral.

No segundo, de executoriedade já exercitada, comprovada, sentida e vivificada, o caminho é bem fecundo, pois a missão de pura e simplesmente viver um estado de alma já me encaminha para a plurifuncional atividade que cerca a Arte. Um óleo aqui, uma poção ali, uma massagem integrativa acolá. Um mapa astral, uma dagyde, um cristal. 

Lá e cá, qualquer que seja o propósito, já me impelem tanto para a auto realização quanto para - quando instada - o auxílio a quem necessita. Daí o conforto em saber que, de uma forma ou de outra, estou colaborando para desmistificar as fábulas em torno da atividade mágica de transformação do Universo.

Com isso e depois de tudo isso que tais ponderações representaram para mim, posso, hoje, enfim, quedar mais tranquila em relação à sensação de puro pertencimento ao mundo pagão. Com orgulho disso. Com gratidão. E com Amor...

Afinal, a que se destinam os relacionamentos???

Fonte da imagem: http://thumbs.dreamstime.com

O que representam os relacionamentos em nossas vidas? 

Essa é uma pergunta que sempre está a povoar a mente e os corações de boa parte dos seres humanos que ousam sair da zona de conforto para analisar o que poderia ser apenas uma condição inerente ao instinto primitivo de acasalamento.

Afinal, como a maior parte das espécies, o ser humano nasce em meio a uma estrutura preexistente que o bombardeia de referências à procriação, prole, acasalamento, estruturação familiar, podendo passar despercebida, com isso, a reflexão sobre as expectativas e finalidades que estar com o outro pode representar em nossas vidas. 

O resultado mais imediato desse conformismo biológico, por sua vez, pode nos encaminhar para uma pasmaceira existencial, acrescida de insatisfação, frustração e demais sentimentos que, a longo prazo, trazem a decadência de nossas qualidade de vida rumo ao crescimento espiritual, bem como de nosso percurso numa senda comprometida com a aprendizagem. 

Muitas doenças e transtornos que somatizamos no corpo nada mais são do que a cristalização de um estado de alma insatisfeito, infeliz e frustrado. Basta perceber a quantidade de doenças cardíacas que, ironicamente, alojam-se naquele que, a rigor, é o órgão vital do sentimento e da amorosidade. 

Ou, ainda, noutro giro, de doenças gástricas e intestinais que abrigam a dificuldade das pessoas na digestão do outro, ou, então, na absorção e catalogação de ideias, sentimentos e valores. 

A psicóloga Louise Hay dedica-se a estudar a causa emocional das doenças. Na verdade, poderia eu até mesmo ir até a medicina chinesa, à ayurveda ou homeopatia para analisar o mesmo tema, mas como o ocidental sempre é desconfiado daquilo que não está em nosso sistema de crenças, achei oportuno invocar os estudos de uma psicóloga, pois além de ser considerada uma proposta de ciência, os métodos e as técnicas reflexivas são sempre sofisticadas.

Assim, por exemplo, o envolvimento em acidentes pode acenar a incapacidade de se defender, a crença no uso de violência como forma de interação, raiva, frustração e rebeldia sufocadas. As alergias, por seu turno, podem denotar um eterno sentimento de autodefesa - de se estar "armado" contra o mundo, ou, então, falta de autoconfiança. 

A ansiedade, na falta de fé, de confiança em si e no além-vida. Os transtornos no trato respiratório denotam pessoas que sempre militam no desespero e, com isso, tentar abraçar o mundo sem finalizar os projetos iniciados. O câncer revela o estado crônico de desamor e ódio internalizados e não conscientizados. A compulsão alimentar relaciona-se à falta de auto aceitação, à culpa, bem como à sensibilidade à críticas.

Os transtornos na garganta revelam a dificuldade em expressar ideias, ou, ainda, à culpa por "falar em demasia". O que dizer de uma simples gripe? Nada mais do que um forte abalo - sísmico - em relação a um baque emocional não sustentado pela pessoa. 

A insônia esconde culpa ou medo, bem como a labirintite encobre o medo de não estar no controle. Os distúrbios na pele relacionam-se ao poder exercido de outras pessoas sobre você. A sinusite refere-se a irritação com pessoas próximas. A TPM subsiste como rejeição da feminilidade, assim como a cistite encobre o medo ou a rejeição à sexualidade.

Esses simples sintomas correlacionados ficam bem explícitos em um relacionamento. Basta perceber a saúde de pessoas que iniciam uma coabitação pois, não raro, alguma delas ou ambas manifestam doenças em face do enfrentamento de uma nova e diferente situação. Por isso fiz questão de abrir esse espaço no texto para interpolar essa sintomatologia.

Se os dilemas no relacionamento são integralizam o nível mental consciente, a tendência é a reprodução eternizada de tais transtornos, que podem passar a ser crônicos, convertendo-se, com isso, em doenças mais sérias e graves.

Pois bem, retomando à ideia inicial de funcionalidade do relacionamento (já que tentei acima apresentar uma lista módica de sintomas de somatização que podem ser percebidos em relacionamentos nos quais a clarificação dos dilemas ainda não aconteceu ou foi devidamente enfrentado), o que representa a vida com outra pessoa?

Há tempos cheguei a comentar aqui o que percebo como desacerto de se firmar no outro a "complementaridade", como se estivéssemos eivados de pedaços e, com isso, passássemos a vida inteira tentando integrar a alma procurando - como em um quebra-cabeças - uma parte de supostamente nos faltaria. 

Ou então, em outra célebre frase, falamos que a outra pessoa é a "metade da laranja", ou a "tampa da panela", sempre com a ideia centrada na fragmentação de nossa alma, que demandaria de uma outra pessoa para ser plena e feliz.

Ainda subsiste um modelo - ou paradigma - dominante de relacionamento no qual as pessoas insistem na reprodução dessa fábula, colocando-se atavicamente como quebra-cabeças eternos e, com isso, pretendendo coaptar outra pessoa para integralização da alma. 

Ou seja, uma vampirização psíquica mascarada em sentimento de solidariedade que nada de solidário tem (a não ser que a pessoa ache extremamente desabotoar a gola e entregar o pescoço a um vampiro de energia e de alma).

Estar com o outro, dentro dessa lógica perversa, advém da necessidade de suprir demandas não satisfeitas individualmente, e não pelo mero beneplácito de se optar estar ao lado de alguém apenas por se desejar estar ao lado de alguém. Por incondicionalidade, por gratuidade. Por não se precisar, enfim, estar ao lado de alguém.

O relacionamento se torna pesado nessa via, na medida em que um pólo é demandado diuturnamente a suprir necessidades projetadas pelo outro e, que, sinceramente, são de interesse pessoal e de crescimento do outro. 

Quando um lado da relação finda por se sobrepor ao outro na unilateralidade afetiva não se está diante da doação. Muito menos da compaixão. Antes, essa via "torta" de ação vitimiza o outro, aniquila o potencial de realização do outro. Mina, enfim, o outro, em relação à sua capacidade de buscar o bambu, fazer a vara e pescar.

Um relacionamento equitativo busca o paralelismo dos caminhos percorridos por cada qual, e não a superposição de estradas. O dar as mãos não denota colocar o outro nas costas para percorrer a estrada com um peso maior do que o do próprio corpo. É o andar juntos, dialogar, ouvir mais do que falar e, sobretudo, respeitar o sentimento do outro, ainda que internamente achemos ser absurdo ou com ele não concordemos.

Não me refiro a eventualmente uma pessoa estar à disposição para dar a mão e até mesmo para fazer isso. Mas existe uma diferença enorme entre viver carregando uma pessoa no colo e ajudar excepcionalmente alguém - carregando-a no colo - quando estritamente necessário. Isso porque, no primeiro caso, exaurimos nossas forças e nos anulamos internamente, ao passo que no segundo caso estamos realmente - e com ponderação - exercitando a solidariedade no seu aspecto mais profundo.

É o viver a vida do outro e se apropriar dela para se pretender alcançar a plenitude que constitui o maior dos males que a humanidade ultimamente enfrenta, pois, com isso e em um macrocosmo, as relações assistencialistas passam a ocupar o espaço da descoberto e do desenvolvimento pessoal, do afã em crescer como indivíduo. 

Muito ouço sobre carma coletivo, mas é importante sempre frisar que a fragmentação ainda nos leva à sensação de ego e de divisão, não sendo infrutífero percorrer a jornada da individualização como meio de crescimento e de descoberta do potencial de crescimento em grupo, na medida em que isso advém da conscientização, bem como da longa trajetória de autoconhecimento.

O relacionamento afetivo não é um abandono de si, um despojamento da própria natureza, mas, antes, uma convivência de dissensos. Caso contrário seria um processo de nulificação de alma, contramão de um percurso evolutivo. 

É a consciência de se estar em uma simbiose elaborada por dois seres autônomos e protagonistas que simplesmente optam por estarem juntos pura e simplesmente porque NÃO PRECISAM um do outro. Porque isoladamente sobrevivem um sem o outro normalmente e, com isso, não depositam ansiosamente as fichas de suas felicidades na outra pessoa.

Nele (no relacionamento), descobrimo-nos em frente ao espelho, na medida em que projetamos no outro nossas idiossincrasias e, com isso, recebemos de volta a resultante do que enviamos. Trata-se de uma elaboração constante de uma unidade a partir de individualidades, e não um sistema amorfo no qual inexistem pessoas. Ou seres. 

Por isso, se não nos percebemos como seres humanos conscientes, atuantes e, sobretudo, protagonistas de nossas história e vida, essa metade da laranja será a condenação pura e simples a uma busca de moinhos de vento quixotescos. Nunca nos realizaremos assim. Nunca estaremos satisfeitos assim. 

Nunca poderemos ser felizes assim. 

Mas abandonar, por outro lado, o conforto de tal paradigma supõe avocar responsabilidade por nossas escolhas e decisões e nem todas as pessoas desejam sair do conforto ou da fase Peter Pan de suas vidas. 

Vivem imputando ao outro culpa por infortúnios e infelicidade. Queixam-se do menor alfinete caindo ao solo, buscam atribuir a quem está à frente a responsabilidade por aquilo que, a rigor, haveria de ser sua posição proativa no mundo. Seu sentimento de gratidão por simplesmente respirar e estar vivo nesse Planeta.

Tais pessoas não avançam e, mais, andam em círculos em uma autofagia eterna, correndo atrás do próprio rabo e não se realizando na vida. Ao final dela, resignam-se pois, afinal, não há escapatória mais a essa altura do campeonato, mas, antes disso, podendo fazer tudo diferente, quedam inertes, comprometendo sua vida e, no caso de um relacionamento, a vida de quem supostamente dizem amar.

Por isso, ao final, respondendo à provocação que eu mesma coloquei no post: qual a finalidade de um relacionamento? 

Depende...De várias variáveis. Um relacionamento sadio, pleno, íntegro e consciente nos encaminha para a superação de nossas limitações, bem como para a realização de nossos potenciais de interação e amorosidade. Um relacionamento confuso, sem base e desprovido de auto reflexão, serve como exemplo para que não incidamos em ligações dessa natureza. 

Ou então, usando a confortável escusa do carma, pode ser um encontro para compensação de débitos. Mas, ao que penso, débitos não são eternos. Dívidas não duram pelo infinito. 

Uma vez superada a questão, o relacionamento naturalmente se finaliza, pois de tudo - se esse for realmente seu espírito - advém a fraternidade e a compaixão, sentimentos legítimos que dizem ao nosso coração que nossas dívidas já estão quitadas. 

O que não podemos fazer - sob pena de comprometer a concretização de nossa meta em carne - é arrolar a dívida, como se estivéssemos pegando dinheiro a juros no banco: podemos correr o risco de passar a vida inteira pagando juros sobre juros, quando, a bem da verdade, quitamos nossos débitos a mais tempo do que poderíamos perceber...


quarta-feira, 9 de julho de 2014

"O mar carrega, um dia, enfim
O que sobra de todo o resto
De nada mais que habita em mim.
Eis que a pira se esvai, perdida em meio a tanta dor
que não me sai.
O que era tudo se perde no meio de palavras vazias
A solitude em companhia
Do que era intenso e se quebrou.
Donde, por certo, ressurgirá?
Não sei, apenas pranteio
Sem mais a mais
Restos mortais de um cadáver fétido
Do que era nobre e se deixou vagar.
Nada mais existirá.
A ampulheta acabará, ao fim, contorcendo a dor que insiste em ficar
Não se contém a fúria do que se findou
Apenas se lamenta, depois de cinzas, 
o que se foi sem a menor pretensão de ser amor.
Acaba-se tudo, como tudo enfim, na vida acaba.
A vida se acaba no acabar da fábula.
Nada,
Inexiste,
Nada inexiste no nada
O tudo que nunca foi mais do que a fagulha de uma tormenta
E que se acalma na certeza do fim"

Sobre lobos, cordeiros e matilhas: a era da inocência chega ao fim na arte secreta da bruxaria...

Fonte da imagem: http://lupusalimentos.com.br/wp-content/uploads/2013/09/alcateia_lobos.jpg

Paradoxalmente à ideia de calar e deixar o mundo escorrer pelos olhos atentos, costumo falar sobre o que "cientificamente" é discutível com alguma margem de argumentação válida em termos de reconhecimento pelo outro.

Comento tudo que passa diante de meus olhos físicos e etéreos: desde palpite político, discussão religiosa, gastronomia, literatura e até música, nada me escapa, pois a percuciência me persegue desde os tempos mais remotos de minhas lembranças de vidas. 

Se isso é ruim ou bom, não sei nem muito me interessa em termos de binário, mas acredito sempre que o senso crítico é essencial para não sermos carregados como cordeiros prontos para a imolação... Mas hoje minha reflexão não está no falar, e sim no escutar.

Percorrer uma senda espiritual solitária traz o conforto de me permitir observar o mundo e, para além dele, voltar-me para minhas idiossincrasias mais paradoxais. O bastante para evoluir, crescer e firmar os marcos de um caminho que, ao final, só pode realmente ser percorrido por mim. Quanto mais me volto para a contemplação do mundo, mais percebo dentro de meu íntimo a necessidade de silenciar em relação a alguns preceitos de fé que somente fazem sentido para mim. 

Proselitismo reverso, ao meu ver, é tão ou mais pernicioso do que a tentativa de arrebanhar seguidores por intermédio da palavra, já que, a pretexto de libertar - clamando a reciprocidade como fundamento de ação - acaba sodomizando a liberdade do outro, por meio de uma agressiva e massiva forma publicitária de convencimento e manipulação. 

Quando me deparo com guerras deflagradas ou com liturgias folhetinescas das promessas de beneplácito por meio da bruxaria minha espinhela se arrepia de cima a baixo: o bastante para refletir sobre os rumos que a Arte tem tomado em um mundo repleto por informações superficiais ou falsas a respeito de ideias que parecem ter saído de um livro de histórias infantis.

A velha fala replicada em larga escala - "não existe bruxa má" - ou, ainda, a "bruxaria é do mal", trazem logo a mente a ilustração lúdica de unicórnios planando em nuvens de algodão-doce, tamanha a ingenuidade - ou ignorância mesmo - em se acreditar nas polarizações éticas, como se tudo e todos pudessem ser alojados em gavetas etiquetadas com "mal" e "bem". 

Em um encontro de bruxos e bruxas do qual participei tempos atrás ouvi algo bem parecido, por ocasião de uma "palestra" proferida por um expert no ramo (ou, ao menos, supostamente expert). Invocando um Conselho das Bruxas, essa foi a pérola da vez, na medida em que o rapaz - cheio de razão - afirmou e reiterou a ideia de que inexistem bruxas más. Em outro encontro - diante de outro grupo - ouvi algo a respeito do conteúdo semântico pejorativo relacionado à palavra "bruxa", que agregaria um sentido ruim ou repleto de dor, sofrimento e irascibilidade. 

Se não tivesse bem com a estima e a ancestralidade, talvez entrasse em depressão profunda ao ouvir isso, pois, afinal, negar a nomenclatura e tudo o que está por trás da palavra "bruxa" é refutar a historicidade, o passado e, sobretudo, os vínculos etéreos mais arraigados em termos de existências e encarnações. É negar a própria essência e, dentro disso, nulificar-se.

Sinceramente não sei de onde surgiu ou se elaborou essa percepção arco-íris sobre a bruxaria, mas desconfio que pode advir - quero crer - de uma baita injeção de otimismo na crença de um mundo hermeticamente melhor (talvez no qual inexistissem crimes, corrupção, etc. etc. etc.). Ou seja, um mundo absurdamente inexistente!

Falar que inexiste o propósito deliberado de se destruir alguém - como se isso fosse uma inexistência de finalidade destrutiva - é o mesmo que dizer que inexiste o céu no horizonte. Uma percepção ingênua, que pode até denotar o tal otimismo, mas que, a bem da verdade, não sei bem se é a mais pura demência, pueril perspectiva lúdica de um elo perdido ou, ainda, estado de coma profundo. 

O dogma de fazer tudo sem prejudicar ninguém é, como obviamente o nome já diz, um dogma, mas isso não quer dizer que tenha algum significado para quem deseja deliberadamente destruir, aniquilar, prejudicar outras pessoas. Isso existe? Claro que existe e a História bem mostra que a constância no planeta Terra não tem sido muito lá de países vivendo em harmonia, com ninfas saltitando pelos bosques orvalhados. 

De outra sorte, se a constância fosse unilateralmente a destruição, o planeta já teria explodido há tempos, o que mostra o desacerto em se acreditar nas polaridades puristas. Nem bem a bondade, nem bem a maldade. Os predicativos mesclam-se nas variações distintas do que nós, seres humanos, podemos produzir uns em relação aos outros. 

Com isso, tanto existem péssimos católicos, espíritas, umbandistas, bruxas, fadas, budistas, porque não é a rotulação sozinha que produz o estrago, mas a forma como se escolha a realização de alguma manobra destrutiva em relação a alguém. O que me espanta, por agora, é observar como a reação defensiva de alguns setores da bruxaria tem reacendido e acolhido a mesma óptica depreciativa e destrutiva que alimentou as fogueiras que assassinaram tantas irmãs. 

Daí o silêncio. Eis o estado da arte. O Estado da Arte pós-moderna no crepúsculo de uma era de ingenuidade em relação à bruxaria. Menos é mais. Falar menos, expor menos, reagir menos. A certeza de não se estar movendo, com isso, inutilmente o Universo, pois, afinal, dentro das leis inexoráveis que nos regem em nível subatômico, ainda não observei um ciclo perfeito de Carnot, no qual bradamos, berramos, gesticulamos e praguejamos ad eternum sem queda energética. 

Aliás, minha experiência - que não serve de teorização, mas apenas de vivência reflexiva - tem mostrado o dispêndio vampirizador de energia por ocasião de todas essas atitudes que findam por acarretar a migração da energia vital de uma pessoa para outra, tanto em termos de parasitismo como de vampirização. O parasita psíquico se acopla na pessoa falastrona e vive como um cancro até dizimar - após longos períodos de doenças a longo prazo provocadas - o organismo no qual se instala. O vampiro drena, mas não provoca, se comparado ao parasita, o largo espectro de doenças. 

Independentemente de um ou de outro, falar demais é gastar energia que poderia ser canalizada para trabalhos mágicos mais interessantes do que o ataque sem sentido. Até para quem opta pelo ataque psíquico é preferível calar a boca e realizar o engenho na solidão do lar (ou imantando formas-pensamento, praguejando, queimando ou fazendo dagydes). Sei lá, tudo, menos uma movimentação bucal cansativa, que só desgasta quem abre a boca e, de outro lado, quem está na interlocução. 

Já participei de grupos de e-mails, de covens, de orkut. Enfim. Já passei muito tempo respondendo às provocações de outras pessoas ao longo de minha vida. Diante de tudo isso que escolhi vivenciar, hoje vejo que poderia ter passado minhas tardes aprofundando leituras, aprimorando técnicas ou simplesmente dormindo. 

Agora penso que o melhor a fazer é calar diante de situações absurdas que se esquadrinham diante de meu caminho, pois não sou palmatória do mundo, não pretendo salvar a alma de ninguém e, por fim, não sou dona da verdade do outro. Quando muito, mantenho a minha verdade em stand by para eventualmente me deparar com a possibilidade de rever sempre meus valores.


Dias de inverno: inação, reflexão e hibernação na senda da Arte

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Dias de inverno são notoriamente conhecidos como momentos de silenciamento na busca de um lugar de alma comprometido apenas com o autoconhecimento. O bastante para que o falar em demasia se torne desnecessário e altamente dispendioso. Quanto menos falamos, mais energia interna mantemos - dentro do eterno ciclo de Lavoisier de reelaboração de eventos e energia - com menor perda, de modo a garantir um metabolismo harmonioso.

Ultimamente tenho observado em minha trajetória um desejo ardente de me manter afastada e quieta em relação aos chamados espaços virtuais, como se tivesse aquela sensação de "cansaço" ou fadiga que, no fundo, apontam apenas a observância desse ciclo bucólico de guardar para mim a contemplação de minhas idiossincráticas percepções mundanas. 

Não sei bem se cansei ou se a ponderação dos quarenta e um giros de roda de existência tem me encaminhado para o vagar na palavra, fala, manifestação etc. Ao invés de comprar as brigas de outrora, hoje prefiro conversar comigo e me espectar, pois já concluí que muitos dos atropelos que identifico nos outros nada mais são do que os expurgos que me são meramente projeção de minhas limitações.

Sentada em frente ao altar, sempre que posso me prostro em observação dos oráculos - runas, tarot, vela etc. - pois a leitura conflui para o silêncio que expande a compreensão em torno dos assuntos diuturnos que sempre insistem em sobrevoar o cotidiano. A senda de autoconhecimento, dentro disso, consolida a ideia do calar, a virtude inerente da Terra e que nos remete à compreensão de nossas limitações com vistas à superação rumo à excelência do estado de alma.

O silêncio é o maior instrumento do inverno para o autoconhecimento. Quando deixamos de produzir energia cinética e térmica, voltamos a atenção para nosso corpo e, com muita afinação, podemos chegar até a escutar a reverberação de cada respiração, bem como o impacto benéfico em relação a cada molécula do nosso corpo físico. Ouvimos melhor nossos pensamentos confusos, aquietamos nossas angústias e, com isso, tudo flui melhor. 

Sem deixar de mencionar, em nível de autodefesa psíquica, o benefício que o silêncio traz em encobrir perante nosso desafeto nossas atitudes, nossos pensamentos e energia, contribuindo, assim, para que nos fortaleçamos em termos de fechamento psíquico em relação a eventuais agressões.

Ultimamente tenho experienciado a confirmação sobre o beneplácito do silêncio, pois diante de uma briga ou discussão - ou, ainda, diante de algo que soe estranho aos meus ouvidos - minha melhor resposta é o calar. Já percebi que não se gasta energia, saliva e sinapse nervosa com quem insiste em adotar posturas ortodoxas e autoritárias. O melhor a fazer é calar e deixar realmente a pessoa falar e se centrar no que ela acha ser sua razão universal. 

Não estou afirmando isso com aquele ranço de pseudo superioridade, pois de nada adiantaria essa atitude sem que a postura emocional de desapego não acompanhasse a conduta. Não se trata disso, mas, antes, de simples desapego. Ainda me encontro no silêncio pelo simples cansaço em não falar, responder ou dialogar, mas creio que um dia possa exercitar o total desprendimento emocional para não mais nutrir qualquer tipo de reação quando escutar algo que me incomoda. 

Afinal, se as palavras me incomodam talvez seja porque eu receba de volta o que lancei no mundo e, em especial, para a pessoa que reage. Talvez eu aperte os botões do outro e, com isso, produza uma sinergia de devolução de apertos de botões. Enfim, não importa muito. Mas creio que o desistir de responder, retrucar ou reagir seja um honesto caminho, já que aquela empáfia que usualmente vem com a raiva cede espaço para o cansaço que se resolve e dissipa mais facilmente do que a ira (lembrando que esta está relacionada aos domínios do fogo, enquanto o cansaço e a letargia remontam ao elemento terra que rege a resignação no calar).

Com isso, falar menos é viver mais. E melhor...