terça-feira, 5 de abril de 2016

Entre mitos, histerias e alegorias: resenha crítica do filme A Bruxa, de Robert Eggers (2015)

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Quase aos 46 minutos do segundo tempo, quando o filme já estava para sair de cartaz, fui assistir ao A Bruxa, que rendeu ao diretor - Robert Eggers - o prêmio no festival de Sundance (2015). 

Já vinha lendo algumas críticas, algumas delas bem pitorescas, talvez, pelo fato dos resenhistas provavelmente terem imbuído seus espíritos do afã de espera de um mar de sangue e tensão em "pulos" vistas em outras formulações - como Jogos Mortais, O Albergue, Invocação do Mal etc.. 

Achei até risível comparar estilos de terror e suspense tão diferenciados assim, mas até perdoável, dada a ignorância em torno do tema sempre recorrente que a bruxaria representa no mundo pós-moderno. 

Após a projeção, inclusive, um grupo que estava atrás de nós grunhiu algo parecido com "que saco", o que me deu a certeza de estar diante de uma obra-prima em ineditismo de gênero, uma nova proposta, pouco compreendida em seus propósitos. 

Realmente, para esse público, A Bruxa não é um filme indicado, por várias razões. A primeira delas: trata-se de um thriller psicológico, elaborado a partir de uma vasta pesquisa histórica sobre a histeria coletiva experienciada na América puritana do séc. XVII (1630), que instaurou ali uma comoção geral de perseguição à bruxaria. 

Ou seja, ler um pouco não faz mal, pois permite ao espectador aproveitar mais os detalhes contidos na narrativa persecutória daquele século, a exemplo do fabrico de unguento para voo, feito com banha de uma criança não batizada. É um filme de primor numa reconstrução do ambiente de época. 

Segundo, a narrativa do filme é elongada, podendo os apressadinhos acima de plantão - habitantes do mundo Rivotril e Ritalina - sentir desconforto em uma filmagem "arrastada", repleta de detalhes e imersões nas imagens e símbolos espargidos ao longo de uma hora e meia de projeção. 

Sem deixar de mencionar a harmonização com a uma trilha sonora impecável e igualmente perturbadora (violinos rasgados, coral ao fundo), que marca subconscientemente a alma da pessoa mais resistente às influências subliminares. 

O ambiente noir - tipicamente sombrio, para os mais desavisados - contrapõe as belas paisagens da Nova Inglaterra com o clima pesado da culpabilidade judaico-cristã, ingrediente maçante de todo o enredo, irritante até, o bastante para se entender a razão pela qual muitas mulheres foram queimadas ao pretender respirar ares mais leves do que a rotina automatizada de devoção a uma deidade que demanda a tristeza, infelicidade e, sobretudo, o domínio da Natureza. 

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As personagens travam conflitos psicológicos gritantes, satisfazendo a todos os gostos: mãe assexuada e devota às preces que nada adiantam, pai castrador e centralizador, irmão ingresso na puberdade, casal de gêmeos irritantes e ingenuamente deslocados para uma posição de vassalagem das picardias do Príncipe Black Phillip, bode dançante tabulador do pacto.

Por fim, a protagonista (que depois fiquei sabendo ser uma novata) Thomasin, adolescente-mulher a conviver em um clima clerical opressor e envolto no mar de hipocrisias a deixar os mais fervorosos de cabelo em pé. Incesto, pedofilia, manipulação e mentiras dão o tom da latência a pulsar naquela família puritana. 

Em certos momentos, a impressão que se tem, ao mergulhar num maniqueísmo nada saudável (mas do qual não se tem como fugir), é que a família inteira gravita em torno de uma pegada passivo-agressiva em relação a qual Thomasin sempre tenta escapar. 

Sufocação: eis o ambiente em que a jovem vive, sendo ora objeto de desejo de seu pai a enxergar nos loiros cabelos o que foi, um dia, sua mãe devota, ora foco de uma negociação com uma família, por sobrevivência do clã que está a enfrentar escassez. Ora a libertária que aciona o imaginário dos irmãos, para, ao final, e, na cena mais apodítica que marca o fim da autocracia crística, num libertartianismo que deixaria Francisco de Goya plenamente satisfeito, ante a transposição de sua sequência El Aquelarre para as telas de cinema. 

Onde está a bruxa nesse enredo? Afinal, o título do filme é The Witch...

Aliás, eis um importante ponto: ela não é o pano de fundo esperado pela juventude dourada de Hogwarts a se acotovelar nas filas do cinema. O filme é uma narrativa cuja estética reproduz o cenário da ovação ao simbólico da libertação feminina ante um mundo falocêntrico, androcêntrico e, sobretudo, castrador da expressão mais ampla de alegria e mundanidade. Se os cinéfilos "massacre-da-serra-elétrica" observassem bem, veriam o subtítulo a informar: A New-England folktale
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Isso mesmo: folktales, narrativas populares imersas no imaginário da época, dimensionadas, sobretudo, na contestação de uma ordem repressora que desqualifica a mulher, negando-lhe a experienciação de sua virilidade e conexão à Terra. 

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Quem já leu A Feiticeira de Jules Michelet ou, então, O culto das bruxas na Europa Ocidental, de Margaret Murray (aliás, a indicação mais simplista para os críticos mencionados acima poderem realmente perscrutar melhor o contexto em que as práticas persecutórias se deram), historiador e antropóloga, respectivamente, deverá, por certo, compreender no filme a complexidade dos cultos marginais europeus, remanescentes de uma contracultura a se indispor contra essa pressão tórrida à figura da mulher, em um Novo Mundo marcado pela escassez de alimentos, doença e alienação. 

No que diz respeito ao comentado ponto: bruxaria, importante salientar que se trata de um paradigma cristão o enredo dos cultos marginais, recortados desse imaginário retratado, que agrega elementos sincréticos de uma traditional folk witchcraft específica desse contexto de contendas com a Igreja (ou melhor, as Igrejas, primeiramente Católica e, depois, no caso da Nova Inglaterra, Anglicana e Protestante). 

Na diversidade que as diversas tradições aglutinadas sobre a alcunha de paganismo, há de se ressaltar a vastidão do que o paganismo oferece em termos de saída de um modelo cristão de contracultura de práticas de bruxaria, ainda que permeado de sincretismo com deidades e entidades cultuadas dentro daquele paradigma. 

Independentemente de retratar, ou não, o arcabouço de práticas, não é nele em que o filme se escoima, mas na estética de uma nova forma de se fazer um thriller dessa expoência, reunindo-se elementos vitais para se compreender, ao final, a libertação da alma de Thomasin de uma abóbada de aprisionamento e condicionamento, elevando-a (literalmente), a outro patamar de interação com a Natureza e, claro, rs, com o protagonista Black Phillip!

Parabéns, Robert Eggers!