domingo, 9 de agosto de 2015

Entre algodões, sedas e brilhos: O Sagrado e o Feminino na flutuação etérea de nossas vestes

Fonte: http://img08.deviantart.net/33a3/i/2011/270/3/8/maeve_by_lamorien-d4b54q1.jpg
Sempre que me deparo com as usuais reflexões sobre os estereótipos elaborados em torno da experiência do feminino, vem à mente uma necessária - e conflituosa - dicotomia: de um lado, o que é definido como "simplicidade", o apego à contracultura, bem como o reflexo na indumentária. 

De outro, a suntuosidade de um salto alto, maquiagem, jóias, formosas bijuterias e perfumes, apetrechos que reúnem grande preocupação feminina em torno da estima e aceitação. 

Lembrei-me disso nessa semana ao ver a chamada da série As Bruxas de East End, na qual as matriarcas e a nova geração de bruxas desfilam suas melhores e mais sensuais roupas, maquiando-se veementemente e, claro, transformando a realidade ao redor. Ou, ainda, AHS - Coven, onde tivemos a oportunidade de enxergar Jessica Lange vestida de alta costura, orquestrando suas pupilas hipsters, etéreas ou alternativas (toda sorte) com a maestria de uma grande chefe de clã!

Representando o primeiro ethos - corolário da simplicidade - despontam as roupas de algodão, sustentabilidade, cara lavada, feminismos de contestação ao que se toma como paradigma dominante (da estética) que está ocupando o centro das atenções nos últimos dez anos de trajetória dos movimentos feministas.

Uma verdadeira briga a colocar as mulheres em lados tão opostos de uma batalha na qual deveriam, a bem da verdade, aliar-se. O que fazer diante desse atropelo de informações, que nos alojam, mulheres e devotas do Sagrado Feminino, a fazer escolhas?

Aliás, é necessário fazer uma escolha? E, no caso, qual seria? 
Fonte: http://www.loughanleagh.com/wp-content

Por esses dias - em mais um grande momento de impulso criativo movido pelos idos de mudança - lembrei-me de que vivia sempre essa dicotomização de alma, vivenciando essas "fases", quase sempre abandonando uma para abraçar, exclusivamente, a outra. 

Uma hora, passava tempos a fio rodando em um verdadeiro ritual, para saber quais as melhores roupas, os melhores saltos, perfumes e maquiagem, apregoando, assim, meu lado Maeve ou, quem sabe, a Grande Morrighan, gigante guerreira sempre enfeitada em seu mais usual estado. 

Afinal, na cosmogonia celta, boa parte das deusas, rainhas e guerreiras adornavam seus corpos em reverência à Dana (Anu, Danu), como símbolo da prosperidade, fertilidade, bem como da riqueza pela qual aquele povo sempre foi conhecido (basta observar as jóias, como o caso dos belíssimos torques).


Fonte: http://www.antiquaexcelsa.com/images/Iberos_y_celtiberos/grandes/torques.jpg

Ao lado, porém, das deusas plenas - que representam a face mãe/mulher das deidades - existem as deusas anciãs (Cerridwen, Cailleach etc.), que se retiram do mundo para a vivência de uma vida mais austera e ermitã.

Trata-se da fase "algodão cru" (risos): simplicidade e beleza na autenticidade de se apresentar na plenitude da vivência do estado ancestral, no qual não se demanda mais o visual estético para se atingir a deidade, pois a velhice, por si só, já o sagrado. 

Quando passei a me observar diante desse quadro tão rico e vasto de informações, comecei a entender que a polarização de abandono de fase (uma experienciada em detrimento da outra), nada mais é do que a negação da completude e, com isso, o afastamento da ideia de experienciação integral do Sagrado Feminino, já que os aspectos donzela, mulher e anciã são apenas dimensões da mesma senda.

Depois de muito me desfazer de quilos e mais quilos de roupas simples e, depois, de outras, suntuosas, passei a vivenciar a completude, superando a polarização da alma para abraçar minhas fases de mulher multifacetada. Tenho fases de mulher/guerreira/rainha, onde plaino como a Deusa Morrighan rumo ao encontro mágico com Dagda e, depois, recolho-me na face anciã, com meus colares de semestres, roupas de algodão, sapatos de crochê.

Com isso, tenho aprendido, passo a passo do caminho, ser possível coexistirem tantas quantas forem as maravilhosas mulheres múltiplas a significar as dimensões do sagrado que em mim habitam. 

Simples assim. 

Um dia, glorifico a Deusa guerreira que habita neste invólucro, para que possa me lançar nas inúmeras batalhas que se constroem na vida. Acordo, medito, conecto-me ao âmago de toda a linhagem das que edificaram minha passagem pelo mundo. Faço minha máscara de batalha e empunho a espada simbólica da luz e da justiça, sob o manto e a proteção da força dessas deusas. 

Afinal, muito há de ser destruído em termos de injustiça, iniquidade, ignorância e desqualificação do Feminino e, por consequência, do Sagrado, sobretudo em um país que ainda vivencia a contramão da reverência à mulher (somos 7o. em termos de violência contra a mulher). 

Porém, quando a guerreira volta para a simplicidade de seu lar, depois das longas batalhas travadas - com ou sem feridas a lamber - a face aguerrida cede espaço para o momento de vital recolhimento  no silêncio da eremita que não mais necessita lutar. As batalhas pessoais já foram devidamente ganhas, os lucros auferidos, bem como as lições apreendidas. 

Os adornos, as armas e as máscaras são retirados e, com eles, exsurge o mais completo despojamento para a vivificação da plenitude em sua dimensão mais despojada e plena. Tal qual Cerridwen, a guardiã do caldeirão da sabedoria, ou, ainda, Cailleach, a senhora azul do inverno, o lado simples do algodão contraposto à seda mostra o sentido dos ciclos em nossas vidas. 

Sobretudo, a consciência da efemeridade e da finitude de nossa própria respiração e, com ela, a demanda por se viver em uma senda de auto-realização, na qual as fases, os estereótipos e arquétipos são apenas fórmulas para a elaboração do caminho, nada mais.