terça-feira, 28 de outubro de 2014

Enfim, o fim e outros começos: é tempo de Samhain no limiar da roda céltica da poesia!

Fonte da imagem: http://carverscompanion.com/Ezine/Vol5Issue1/KMenendez/dh_comem_plq.jpg

Fáilte, Samhain!

Dia 31 de outubro é, sem dúvida, o dia mais preciosamente mágico para as comunidades e famílias pagãs que reverenciam a roda celta do viver-morrer: trata-se do giro para Samhain, o dia de reverência ancestral às casas, bem como de desnudamento dos véus estelares que separaram os mundos dimensionais dos vivos e dos mortos. 

Já estou vivenciando internamente o momento da finalização: minha roda inicia seu fim na sexta-feira, culminando energeticamente na derrocada da roda de 2014 no dia 02 de novembro [aliás, nunca é demais repisar a coincidência de celebrações em culturas e países distintos, Dia de Finados, Dia de Todos os Santos, Dia dos Mortos]. Diante do fim, o inevitável: preparar-me para ele, com o agradecimento pela colheita do ano e a projeção do que desejo para minha vida na outra roda

Esse é o sentido de Samhain!

Nada simbólico, mas vivencial: não se trata de metáfora, analogia, representação ou simbolismo. Viver a roda é experienciá-la em cada ponto longínquo de nosso corpo e alma, coligando emoção, necessidade e o conhecimento sobre a data, para que a magia seja plenificada. 

É sentir a morte de nossas células, bem como a revitalização de nossas almas no ressurgimento, firme, forte e pleno, de nossos corpos restaurados em sua plenitude e força. 

O viver mágico consiste no percurso de uma senda que nos aloja cada vez mais conectados com o Sagrado e mais distantes do que se convenciona chamar de "mundo". Não há palavras para traduzir essa bem-aventurança em estar presente no aqui e no agora, vivendo a roda da vida e edificando a sina que nos leva ao passeio frugal até a casa de nossos ancestrais. 

Fonte da imagem: http://druids.wikispaces.com/
Não se trata de "Dia das Bruxas" ou simplesmente "Halloween", como muito se pretende agregar à ideia, mas, antes, de uma finalização dos oitos festivais de colheita que sinaliza o término do ano celta. 

Isso porque, em outras postagens tive oportunidade de comentar a simplicidade da estrutura temporal para os celtas: inverno e verão, dia e noite, início e fim. 

Seguiam o curso/fluxo de uma Natureza percebida nas dicotomias cujas nuances e meio-termos pontuam a mandala da roda (a exemplo da modificação gradativa do gelo para a floração, ou, ainda, do dia para o entardecer). 

O fim, com isso, não sela extinção, para impulso criativo para outros e novos ritmos. O fim não é tristeza, mas o enredo adocicado do júbilo celebrado entre irmãos que concebem a morte como parte de um processo natural e inexorável de retorno aos braços do Sagrado para o renascimento em outra vida. 

Girando pelos oito sabás, Samhain marca a morte sacrificial do Cornífero - símbolo fálico de fertilidade - que, adiante, em Yule renascerá no ventre fecundado da Grande Mãe provedora. O Cornífero atingiu seu ápice de espargimento seminal, cumprindo a tarefa de povoar e disseminar. 

Fonte da imagem: http://3.bp.blogspot.com/_pychv6QG8iU/TPUsVD1DDzI/AAAAAAAADBU/DrjZ_eFxVCE/s400/celtic.jpg
Como adulto e macho, Ele ruma para o direcionamento consciente do seu fim. Tragédia, fatalidade ou evitabilidade? Não importa, pois a narrativa celta marca - ao contrário da pegada grego-romana -  a adoração pelo abraço da morte, já que o destino nos encaminha para as moradas de nossos antepassados. O Deus morrerá no invólucro de uma roda para despontar revigorado em outra existência, razão pela qual Samhain e Yule se dão tanto as mãos!

A tessitura das fronteiras encontra-se tênue, ao mesmo tempo em que as vibrações findam por formar egrégora forte de conexão com o Outro Mundo na noite do dia 31 de Outubro, possibilitando toda sorte de comunicação com os antepassados. Sim, claro, já que a senda vivificada nesse dia invoca o perecimento do Deus Cornífero, o ato reverencial consiste na devoção aos que já foram. Por isso Samhain remonta ao silêncio, à austeridade e, sobretudo, ao respeito a quem não está mais em carne. 

O acionamento dessa egrégora é essencial para compor, noutro giro, a polaridade da realização do devir em Yule. Afinal, só podemos seguir e cumprir nossas metas fortalecidos e confiantes, tarefa assumida pela coligação ao passado e catalisada pela colocação de velas acesas (na cor laranja, roxa ou preta) nas janelas das residências [guiando os caminhos e abençoando os liames consolidados na noite sagrada].

A tradição recomenda, ainda, a colocação de comidas (à base de abóbora, cereais e carnes), acepipes e bebidas (vinhos quentes) a serem partilhados durante a noite para os ancestrais se nutrirem do alimento abençoado. Pode soar ingenuidade acreditar que não, mas os espíritos se nutrem dos campos eletromagnéticos elaborados em torno dos alimentos consagrados. 

Noite de queima, por excelência, dos agradecimentos pelas colheita, em ervas auspiciosas para tanto, como manjerona, manjericão, louro. Se a Lua estiver bem aspectada, faço, ainda, outra queima, de tudo de desejo alcançar e construir no ciclo seguinte, queimando com cravo, canela, gengibre, mirra ou alecrim. 

Escrevo tudo em uma lista, imanto a vontade em uma rima entoada ao som de tambores e sopro três vezes antes de jogar no caldeirão. Esse ano não estou certa sobre acender a lareira (o que é ideal), pois está chovendo muito aqui no cerrado e a lareira que temos fica no jardim. Mas os pedidos no caldeirão já resolvem. 

De resto, reúna quem você mais ama e glorifique suas ancestralidade nessa noite auspiciosa! Seja feliz, forte e pleno!

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