terça-feira, 23 de setembro de 2014

Ostara, Alban Eilir ou simplesmente let it be: vivendo o florescer da regeneração do espírito

Fonte da imagem: http://www.freewords.com.br/wp-content/gallery/ipe-amarelo/ipe-amarelo-arvore-flores5.jpg

Passei o dia de ontem às voltas com a recuperação de um mal-estar súbito no fígado, órgão que sempre está associado à raiva, frustração, mas também a eventuais ataques ou desequilíbrios concentrados no plexo solar, eixo vital de energia). 

Com isso me lembrei não ter postado nada sobre a chegada da Primavera, dia 22 de setembro, a partir das 22h32min. Não postei texto, ou celebrei a roda ontem, por estar totalmente esgotada e drenada em minha força vital - bem designativo de déficit no fígado - e, com isso, apenas agradeci, como, de fato, agradeço todos os dias em que desço da minha casa para o trabalho, atravessando uma extensa alameda repleta de ipês amarelos e paineiras.

Hoje, contudo, senti-me renovada pelos raios de sol de angulação auspiciosa para trabalho de cura, pois a Lua está Negra em Virgem, em um dia dedicado à intensidade da guerra, fazendo-me lembrar da força de Morrighan, a grande Deusa e seus três corvos, que providencialmente dilaceraram as vísceras de CuChulain quando o herói, enfim, pereceu. 


Fonte da imagem: http://1.bp.blogspot.com/-Bu0-zxkqyjM/UlhxctCkvtI/AAAAAAAAGo0/T7zcx1rhPs4/s1600/the_goddess_morrigan_by_wintersmagic-d2rtiv4.png

Conectada à Deusa Negra em mente/coração e ao som dos tambores e bodhráns da banda escocesa Albannach, abri todos os caminhos até a chegada ao meu local sacro de atividades. Depurei, ao longo da trajetória, a alma e o corpo de toda e qualquer ligação que pudesse manter a sensação de drenagem e a falta de energia. 

O fígado, disciplinado, respondeu atentamente ao chamado ancestral, motivado pela energia e respiração, coordenando o ritmo da visualização à vibração da cor verde a sibilar "eu respiro e me curo, afastando todo o mal e a doença". Esses são os comandos básicos aos quais a alma atende, quando devidamente acionada pela repetição ritmada de frases ou rimas. 

Essa foi, então, minha especial forma de consagrar à Primavera festiva meu processo especial de regeneração e cura! Viver a senda é percorrer o caminho, experienciando em cada ponto remoto de nossas células vitais o chamado para a harmonização com o Universo. Meu especial dia de celebração da roda da vida, em qualquer que seja a reverência feita pelos mais diversos clãs, nesse ou no outro hemisfério!

Ostara ou Mabon em termos de calendário de hemisférios distintos, ou, ainda, dentro da roda celta de celebração da vida, Alban Eilir, que reúne os atributos vitais de regeneração e vida, na abundância da lactação, do nascimento e, sobretudo, de luz, muita luz! A luz que dissipa a incerteza, a dúvida, a mácula da doença e, sobretudo, o véu da ignorância...

É tempo de regeneração da Terra, que saiu do inverno rigoroso para se refestelar na abundância das florações. Ipês amarelos se reunindo como buquês, enquanto paineiras se acotovelavam para saudar o Sol despontando de maneira absolutamente majestosa!

Eis que a cura vem chegando! E quando uma egrégora se agita, transformação, na certa, sempre ocorre! Que venham os desafios para serem transmutados em dádivas!

terça-feira, 2 de setembro de 2014

De magos, bruxas e feiticeiros: relíquias semânticas na obra de Jeffrey Russell

Fonte: http://imguol.com
Depois da finalização do doutorado, voltei a me dedicar às leituras lúdico-científicas sobre o viver mágico e bruxesco e, no meio das pérolas, deparei-me com o livro História da Bruxaria, de Jeffrey B. Russell e Brooks Alexander (São Paulo, Aleph Editora, 2008), um sólido e consistente compêndio organizado por um historiador medievalista estadunidense com formação na Universidade de Berkeley.

As andanças pela Antropologia Jurídica (por meio da pesquisa etnográfica e das leituras correlatas) trouxeram um incremento na sensibilidade para o tema, unindo a vivência no Sagrado Feminino e na ancestralidade a um desejo enorme pela articulação com o instrumental que a academia traz de suporte para os processos interpretativos. 

Noutro giro, têm colaborado sensivelmente para uma remodelagem dos próprios processos intuitivos tão mal compreendidos pela "ciência tradicional", mas paradoxalmente satisfatórios sob o contexto de uma proposta fenomenológica de imersão nesses temas tão controvertidos. 

Embalada por essa euforia, voltei minha atenção para esse livro e, com isso, decidi compartilhar algumas reflexões bem embrionárias, com a consciência bem leve no sentido de não formar ilhas de pretensões quanto à verdade, mas, antes, de dividir propostas interpretativas razoavelmente construídas. 

Antropólogo/as, mago/as, feiticeiro/as e bruxo/as que me perdoem em suas áreas, mas em uma sociedade marcada pela complexidade (Morin), a retirada de marcos divisórios é altamente saudável quando nos posicionamos no sentido de procurar compreender processos de construção de saber.

Havia lido a obra acima logo no ano de sua edição, mas costumo sempre revisitar os livros, uma vez que nossas ideias, pensamentos e concepções se modificam diuturnamente. Estou apreciando agora uma leitura mais pausada e deliciosa, atentando para detalhes que, outrora, não foram observados.
Fonte: http://img.travessa.com.br/livro

Gosto muito desse tipo de leitura, que une o acadêmico/científico à ludicidade que a narrativa histórica e mítica traz para a estruturação do pensamento. 

Esse toque acadêmico, ao meu ver, torna o trabalho ainda mais interessante, uma vez que boa parte da literatura referente à bruxaria no Brasil - tem se revestido ultimamente de uma superficialidade ímpar, pautada pela falta de referências e dados confiáveis, para não dizer o mais completo senso comum em termos de conhecimento. 

Com isso, entre estudar bruxaria bebendo à fonte de antropólogos, sociólogos, historiadores e mitólogos, ou recorrer às bruxas e aos bruxos circunstanciais (ou seja, as pessoas que vão dormir clérigas e, no meio da noite, decidem ser bruxo/as "desde sempre"), é preferível buscar alento nos primeiros. Isso porque o relato histórico-antropológico se reveste de elaboração sofisticada, segura e profunda, que pode muito bem ser complementada, tanto por outras fontes, dentro e fora da academia.

Comprometidos com a interpretação sobre as vivências, deixando clarificado o ponto de vista nativo, antropólogos tendem, em regra, a adotar uma visão séria e específica não só em relação ao fenômeno, mas ao sentido que ele adquire para quem o vivencia, imergindo naquilo que se entende por "fusão de horizontes" (nativo e antropólogo). 

Muito honesto sob a perspectiva de se falar em sociedades no ontem e hoje, ainda mais quando se tem à frente movimentos que pretendem se apropriar de determinada "herança", no intuito de reivindicar o monopólio de conhecimento (o que historicamente deu azo à exclusão, perseguição e apartação).

Já o folhetim de colagens e plágios usualmente feitos pelos neófitos de plantão não trazem muito, a não ser a consolidação de alguns dados instrumentais básicos (por exemplo, referência de algumas ervas, cristais, astros etc.) que já estão no senso comum e, portanto, não demandam maior elaboração mental para acesso. Diria até que não passam de simples feitiçaria oportunista, ou, nas palavras de Evans-Pritchard, baixa magia, de cunho imediatista e instantâneo, dissociado da imersão no viver bruxesco (neologismo essencial para mim, no intuito de diferenciar da magia e feitiçaria).

No campo da literatura específica sobre bruxaria, melhor sorte não se encontra, pois além das referências serem, quase sempre, pautadas em impressionismo do/a autor/a - que "aciona" uma fonte mágica familiar, tradicional ou alienígena para se legitimar em campo - persiste dúvida quanto a pontos-chave, a exemplo da autenticidade das fontes, legitimidade do conhecimento de autores e autoras, entre outros. 

Foi importante, é bem verdade, a coletânea wicca dos anos 80-90 no Brasil, pois muito se traduziu e importou, tanto dos EUA como da Inglaterra. Mas depois de devidamente clarificados os referenciais, o percurso de publicização de tais referências iniciou uma descendente que, ao meu ver, acelera a cada dia a decadência ética no meio bruxesco. 

Isso por conta da falta de adequada compreensão do que são a bruxaria, wicca, feitiçaria e a magia, levando o/a leitor a se embrenhar por uma celeuma de confusas terminologias e sincretismos que nada têm de pluralismo cultural ou multiculturalismo, mas de rasteira bricolagem, ou, como C. Geertz tensionou sob a alcunha de "teses centauro", recortes e colagens de práticas distintas, sem a devida articulação ou contextualização das referências donde as práticas promanam.

Uma fornada de livros de autoajuda e "diários familiares" que lembram a literatura Crepúsculo (quem dera fossem Anne Rice) pretende invocar uma herança única, quase sempre de um ancestral que apenas o/a próprio/a sacerdote conhece, parecendo um plágio de Gerald Gardner com sua avó pouco conhecida, a Bruxa Um. Ou seja, autorreferencial, dogmática, hermética e validade em si. 

Deusas e deuses são acionado/as, ora como projeções sincréticas de uma Grande Mãe (como se toda a mulher, ou as deusas fossem, à unanimidade, mães, procriadoras e matriarcas), ora na autogênese de um eco feminismo que ainda não encontrou espaço, dada a fragmentariedade nas concepções pretensamente universalistas de mundo, geralmente o eurocêntrico, branco, capitalista e inconscientemente cristão.

Ao longo de 30 anos de biblioteca, reuni um compêndio considerável de livros que me serviram de base para, no aqui e no agora, firmar uma ideia (ainda que provisória) sobre a frágil base em que se lastreia o campo do conhecimento sobre bruxaria no Brasil, quer seja em termos de vivência, como, também, no acervo de informações. 

Sem polemizar muito sobre um assunto que tem se tornado enfadonho e apartatório (hereditariedade versus aquisição do status de bruxo ou bruxa), importante repisar que a herança de uma mãe letrada, literata, filósofa e bruxa (aí, sim, por nascimento, nome, ancestralidade e, se não bastar isso tudo para quem adora um pedigree, vivência em um modus vivendi estritamente) constituiu todo o diferencial, já que a senda pressupõe PERCURSO, e não apenas o folhear de páginas e mais páginas de livros e, no caso da pós-modernidade selfie, o "passar de dedos com L.E.R." pelo touch screen de uma Wikipedia e demais acervos pasteurizados).

Com isso, não posso deixar de mencionar as confusões semânticas nas traduções equivocadas feitas na afoiteza, que trazem conteúdos confusos e que podem nos dar a falsa sensação de profundidade, mas que encobrem, ao final, despreparo por parte de grupos, clãs e pessoas pretensamente comprometidas com o estudo da bruxaria e mais interessadas em fincar raízes na egolatria de elaboração de dogmas para se auto legitimar no monopólio do poder de dizer o que é bruxaria, de onde surgir, como se expressa...

Ou, pior ainda, arvorar-se na prerrogativa de autocraticamente rotular, definir ou afirmar quem é ou deixa de ser bruxo ou bruxa. Mais até, de separar semanticamente até mesmo o que é wicca e bruxaria, bem como quem é wiccan ou bruxo. Gavetas, gavetas e mais gavetas de classificação, com o diferencial equivocado de alojar dentro delas um microcosmo da mais completa bagunça - já que estamos falando em metáforas...

Grosso modo - e de maneira bem rasteira - isso é incidir no mesmo equívoco histórico tão debatido na pós-modernidade de pagãos e neopagãos ávido/as pela liberdade de expressão de suas crenças e práticas. O mundo pagão e, mais especificamente, a bruxaria, não necessita de tamanho desserviço à coletividade, pois o paradigma oficial já cumpre bem esse papel etnocêntrico e apartatório. 

Mas voltando ao livro, achei-o de uma honestidade ímpar, pois Russell inicia sua abordagem pontuando alguns equívocos que percebeu ao longo de sua observação e pesquisa (sim, ele chegou a entrevistar e acessar alguns bruxos e algumas bruxas para encetar o acervo). Separei alguns deles, muito mais para provocar a reflexão do que para propriamente desenvolver os temas:


  • curandeiro/a ser sinônimo de bruxo/a (pois dentro da percepção antropológica, sobretudo nas matizes africanas, o/a curandeiro/a ocupava um status social de praticar magia em contraponto à bruxaria);
  • concepção errônea sobre as bruxas praticarem missas negras como liturgia unívoca (ele faz um passeio histórico na corte de Luís XIV, onde se praticavam missas negras como forma de satirizar o catolicismo);
  • bruxaria ser um fenômeno característico da Idade Média (a partir do relato sobre as inquisições no apogeu da Idade Moderna) ou, ainda, esparsa na Antiguidade.
  • a Inquisição ser a única responsável pela caça às bruxas, quando as perseguições também eram secularizadas (França);
  • bruxaria ser compreendida como superstição, uma vez se constituir em um sistema de práticas calcado em uma cosmovisão coerente em termos de fundamento (não de dogmas);
  • bruxaria se contextualizar em um mundo "sobrenatural" ante ao princípio unitário de Physys;
  • formação etimológica equivocada da palavra witch em cima de um conteúdo midiático muito forte em torno da suposta "herança celta" que significaria "sabedoria". 
Muito interessante, confesso, esse último ponto. Sobre ele vou me debruçar agora, até mesmo por acreditar na vivificação da palavra - entendendo, com isso, que o simbólico e narrado tem tanto significado real e material quanto o que podemos vislumbrar no plano físico. 

Mas, enfim, vamos lá.

Russell desconstrói a ideia de pertencimento da palavra witchcraft ao campo semântico do verbo witan no inglês antigo, que redundaria numa arte de sabedoria (wisdom). Com isso, a "arte dos sábios" não seria uma definição apropriada para a palavra witchcraft, usualmente tomada como uma via ou caminho de mudança da realidade (arte de modificar o mundo segundo o próprio desejo). 

Wiccian, verbo a partir do qual Russell deriva wiccan (bruxo) e wicce (bruxa), remonta ao ato de "lançar um feitiço" (spell) ou "lançar um encantamento" (p. 13). Nos dicionários de old english podemos encontrar a referência a "fascinar" no sentido de "encantar" (to charm, que, depois, vai se aproximar da noção de glamour, outra palavra designativa de encantamento no tronco francês). 

A palavra etimologicamente vinculada à sabedoria é, para Russell, wizard (mágico), pois deriva da raiz wise acima descrita, que teve o apogeu de sua utilização no século 19 (especificamente a partir de 1825 (p. 14). Quer seja um ou outro tronco semântico, a palavra apresenta muita controvérsia. 

Sorcerer, derivada do francês sorcier (e introduzida na Inglaterra entre os séculos XV e XVI), indistintamente passou a representar bruxo ou feiticeiro, a despeito de originariamente ser vinculado à feitiçaria, ou seja, à prática específica de um procedimento com o simples propósito de alcance de uma finalidade.

Mageia, donde promana o radical -mag (que bem próximo está da palavra galega meiga, correlata à bruxa) que dá ensejo à magia, advém do grego, remontando ao que estava mais próximo à tentativa de cientificidade de práticas intelectuais sofisticadas, quase sempre relacionadas a cientistas em auxílio de reis e monarcas. 

Basta lembrar da busca incessante dos alquimistas reais pela pedra filosofal, saga da qual nem mesmo Sir Isaac Newton passou incólume, já que na boca pequena corre o boato famoso de sua filiação às práticas alquímicas em momento anterior à dedicação à Física e às Ciências Naturais.

Essa primeira cisão contrapõe antropologicamente alguns conceitos: feitiçaria, bruxaria e magia. A feitiçaria consiste, em Russell, na utilização de instrumentos, ervas e utensílios de maneira prática e voltada para determinado fim, enquanto a bruxaria consiste na vivência em senda, uma qualidade intrínseca, inerente e invisível de algumas pessoas. 

Nesse contexto, todo/a bruxo/a pratica feitiçaria, mas não se pode afirmar que todo/a feiticeiro/a é bruxo/a, na medida em que a bruxaria pressupõe um conjunto de práticas contextualizadas em uma senda pessoal ou familiar de vivência em uma cosmovisão na qual a interconexão - visível ou invisível - é a chave de compreensão para tudo.

O próprio Evans-Pritchard na obra clássica Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande,  traça uma linha diferencial - no âmbito das sociedades africanas - entre aquelas pessoas cuja mera presença física já ocasionava malefícios em uma comunidade (bruxos e bruxas), daquelas pessoas que, não possuindo tal qualidade ontológica, valiam-se de um instrumental prático para alcance de um fim específico (feiticeiro/as). 

Fonte da imagem:  http://www.wargamesfoundry.com/

Com isso, um/a bruxo/a age no mundo - e o transforma - apenas por existir nele, enquanto o/a feiticeiro/a, sem a vivência mágica ou a imersão em um saber/viver diferenciado, contrapõe-se à bruxaria (doctor witches) ou, ainda, apropria-se de aspectos dela para mudar algo.

Importante ressaltar que ainda que se trate de uma comunidade (no caso, a experiência de Evans-Pritchard nos azande) com tradições distintas sob o ponto de vista eurocêntrico, Russell crê na herança arquetípica - com padrões relativamente universalizáveis, porém não homogêneos sob o aspecto analítico-comparativo - a via interpretativa para tais proximidades, encetando, com isso, as distinções entre magia, bruxaria e feitiçaria tão largamente confundidas no senso comum do mundo esotérico.

O/a mago/a, por sua vez, possui um acervo mais sofisticado, como os sábios que auxiliavam a nobreza nas cortes: alquimistas, astrólogos etc., quase sempre cercado por muita erudição, livros e, sobretudo, conhecimento formal, quase "científico". 

O/a bruxo/a, ao contrário, não acessa o conhecimento formal por erudição, mas por vivência intuitiva em um percurso ou agir mágico - razão pela qual não se vale de um uso litúrgico e erudito de instrumentalizações, mas de utilização de um poder pessoal que já lhe é inerente. 

A relação com o mundo de ervas, cristais, astros de demais artefatos presentes na Natureza potencializam tal poder, tido por colaboração interconectiva, na qual a bruxa representa parte de um cosmos maior do que sua existência e, por isso, nada de sobrenatural, mas, antes, de perfeitamente acessível por outros meios que não a racionalidade.

Esse ponto é interessante para se entender a cisão com a magia acima descrita, uma vez que a ritualística formal e repleta de instrumentos é marca característica do sistema de alta magia (alta por supor também uma ideia de cosmos, mas sofisticada sob a perspectiva de erudição e conhecimento formal, o binômio que separou de vez a ciência do dito "sobrenatural").

O uso de espadas, cálices, bolines, athames etc. passaram a identificar a atividade mágica (alguns escrevem mágicka para distinguir do ilusionismo), quase sempre fulcrada numa outra dimensão de interação energética: hierarquia entre o mago e as entidades com as quais irá dominar, convencer ou articular em prol de sua causa. Daí a função primordial do círculo mágico, qual seja, de produzir um enredo sinergético de proteção para que o/a mago/a possa elaborar seus pactos com os seres de outros orbes. 

Essa herança que fortemente impregnou de sincretismo a bruxaria reelaborada como resultado de uma suposta trajetória de reconstrutivismo celta tem dividido muitas tribos, na medida em que ora se aloja para a wicca a formalização de uma instituição religiosa, quer seja no culto à Deusa e ao Deus como casal polarizado em uma cosmovisão igualitária, como, ainda, na elaboração eco feminista de auto criação com a qual algumas tradições cultuam apenas a Mãe e alojam o masculino para uma posição de consorte e subalterno adorador.

A partir daí, outras importantes ideias defluem: a wicca, a despeito do tronco linguístico comum - wicca, wicce e wiccian - não configura sinônimo de bruxaria no sentido antropológico do que significa esta como uma vivência no âmbito de um grupo social, pois se trata de uma religião neopagã, contemporânea, caracterizada pela formalização, bem como pela elaboração de um expediente litúrgico e dogmático, ora centrado em uma cosmovisão matrilinear de deidade central, ora polarizada no arquétipo do casal sagrado e complementar.

É sincrética, tanto no sentido instrumental - pois se vale de artefatos utilizados na magia cerimonial - como no reverencial, uma vez que se apropria de elementos cosmo-explicativos de várias expressões religiosas (desde a greco-romana, passando pela celtíbera, nórdica etc.). 

Sobretudo, é recente na História da ocidentalidade, uma vez que seus primeiros escritos remontam aos trabalhos importantes de Gerald Gardner, Margareth Murray (séc. XIX/XX), Alex Sanders - em uma primeira e segunda gerações, bem como dos pós-neopagãos de cunho ativista, como Margot Adler, Starhawk, Laurie Cabot, entre outras (estou simplificando a lista, muito mais ampla).

A bruxaria, por sua vez, remonta à vivência ancestral ressignificada na pós-modernidade sob o conjunto de práticas contextualizadas numa vivência de cosmos onde tudo se liga. Eis o sentido pelo qual não comporta a alcunha de religião, já que, grosso modo, nada existe para ser religado (na medida em que teia da vida coliga tudo e todos no Universo). 

A dualidade macho-fêmea não constitui o ponto central da bruxaria, muito menos a reverência a uma Grande Mãe e um Deus consorte. Parte do acervo finca-se na apologia ao tronco ancestral do qual advém o/a bruxo/a, quase sempre transmitido oralmente, de geração a geração e silenciosamente (motivo pelo qual se reveste de hermetismo).

O lacre hermético em torno de mistérios e segredos, contudo, não poupou a bruxaria da influência sincrética no uso de artefatos importados da magia cerimonial, pois não são raros os casos em que famílias guarnecem suas casas com punhais, cálices, bolines, pentáculos, ou, ainda, formalmente apresentam uma fachada cristã, encobrindo, contudo, segredos de família. 

No Brasil colônia, por exemplo, era costume destinar uma cristaleira ou armário para alojar imagens de santos, velas e relicários no topo e, dentro (e lacrado) escondiam-se ingredientes e instrumentos de poder, com a finalidade de disfarçar e desviar a atenção de olhares curiosos. Na Europa, a vassoura sempre foi um subterfúgio para esconder a verdadeira natureza do cajado, instrumento fálico de poder que bruxos e bruxas poderiam portar.

Magia, bruxaria, feitiçaria e wicca são práticas distintas de experienciação de uma senda de transformação da realidade sensorial. Cada qual com suas especificidades e singelezas. Traçar zonas limítrofes não retiram de cada qual sua importância para o engrandecimento do paganismo no mundo e, sobretudo, no Brasil. 

Mas, de outra sorte, evidenciar as distinções e ressaltar as diferenças é, no mínimo, um passeio histórico, sem deixar de mencionar a busca pelo próprio caminho em tão vasta trajetória de possíveis percursos. Existe espaço para todos, sempre! Com respeito e reciprocidade, pois longe devem permanecer os tempos de Inquisição, na qual o paradigma dominante e oficial espoliava a beleza e a riqueza em ser diferente.