quarta-feira, 28 de maio de 2014

Proselitismos, preconceitos e preservação: as difíceis escolhas no caminho da Arte

Fonte da imagem: http://flickrhivemind.net/Tags/sorgina/Interesting
Publicizar ou manter hermética a prática da Arte? Revelar identidades ou se proteger da publicização? Propalar os ventos de mudança, bradar aos quatro cantos a diversidade e o ritmo pagão dançante ou quedar silente nos rituais secretos e realizados ao arrepio da noite?

Ultimamente tem sido essa uma questão a me impulsionar ao mais profundo silêncio e recolhimento nos últimos meses, pois é impossível fechar os olhos para cenas brutais, tais como o linchamento de pessoas que têm seus nomes ligados ao caminho da mão esquerda (pois, ao final, nada justifica o exercício da vingança com as próprias mãos, que gera carma e atrasa os passos evolutivos), ou, ainda, como o torcer de nariz de algumas pessoas que somente acionam o cristianismo para se colocarem em um pedestal de desqualificação e apartação social do que não é o paradigma dominante.

Silêncio e hermetismo sempre estiveram relacionados à preservação dos ritos e mistérios que formam as distintas tradições na bruxaria. Em termos de hereditariedade a questão ganha vulto quando se fala na sobrevivência do clã familiar diante da perseguição religiosa (séc. XV ao XVIII), conjuntura que levou muitas famílias (muitas delas exterminadas totalmente) às fogueiras e forcas. 

Na historicidade européia são muitos os relatos sobre os disfarces adotados por famílias de bruxas. Não raro os altares dedicados aos ancestrais comungavam espaço com a cruz cristã, no intuito de desviar os olhos e a atenção dos inquisidores. Ou, ainda, as vassouras que aparentemente destinavam-se à limpeza física diante dos atentos espectadores, mas que se transformavam em bastões de poder, instrumentos de limpeza psíquica ou, ainda, em meio de locomoção tão logo a saga inquisitorial deixava a casa investigada.

Tenho acompanhado nas redes sociais o desenrolar de aguerridos embates - para não dizer verdadeiras jihads - nos quais irmãos e irmãs de Arte são atacados por incongruentes manifestações de ortodoxia, menosprezo e discriminação, não lhe restando outra escolha a não ser o revide, o que, muitas vezes, dispende uma energia brutal que bem poderia ser canalizada para outras finalidades, a exemplo do mero bloqueio.

Não existe argumento ou diálogo ante o fanatismo em torno do dogma, uma vez que a compreensão cede espaço para a irredutibilidade e incompreensão, materializando-se a discussão no descompassado entre o respeito à liberdade religiosa preconizado na Constituição Federal de 1988 e as práticas discriminatórias que têm se asseverado no Brasil.

Quando se trabalha em grupo - seja em um clã familiar, bem como em covens ou groves - o impacto de tais ataques podem ser minimizados ou aplacados pelo suporte do grupo, por intermédio de rituais específicos de elevação de cones protetores ou, ainda, pelo aporte emocional fortalecedor de vínculos entre os membros. Na senda solitária, contudo, esse percurso de segurança de grupo cede espaço para a necessidade de maior preparação individual para lidar com as vicissitudes e os ataques, tarefa nada simples.

Uma bruxa imersa em um vasto mar de afoitos fanáticos, com isso, pode se aproximar bastante de um enxame de moscas em torno de um pote de mel. Em pouco tempo exaurem-se as forças - ainda que poderosa a bruxa - e a praticante (nada obstante fortalecida e poderosa) queda inexoravelmente diante do ataque quantitativo e maciço, já que todo ataque psíquico se potencializa pelo somatório das formas-pensamento que promanam de várias pessoas ao mesmo tempo e em rede. Por mais preparada que esteja a praticante seu potencial se esgota diante da desproporcionalidade da ofensa em face da fonte emissora dos ataques.

Derrotismo? 

Covardia?

Não penso que seja isso, bem como não penso ser desacertado se revelar praticante da Arte, por acreditar que cada pessoa tem uma forma peculiar de vivência na senda espiritual. 

Apenas acredito que o silêncio - quando espontâneo e praticado sem violência à alma - marca uma estratégia de sobrevivência e, mais do que isso, um dos saberes da Arte: saber, ousar, querer, CALAR. Para que a necessidade de apregoar a fé ardorosamente? Não seria suficiente apenas saber de si? Já não bastariam - como exemplo vívido - as críticas e o denuncismo de proselitismo que tão fervorosamente nós, pagãos e pagãs, apontamos em direção a cristãos que falam pelos cotovelos? 

"Silence is golden", já tantas vezes entoado em música cult dos anos 50-60, mas que se reveste de uma sabedoria invulgar, que nos leva à necessidade de reflexão num momento de crise e ruptura na ordem cósmica. As forças do Universo estão se realinhando em torno da cisão entre a Era de Peixes e o advento da Era de Aquário, que marca a superação do paradigma da consolação crística (sofrimento iconoclasta recalcado em uma aparência de misericórdia e compaixão) para o universalismo asséptico de uma espiritualidade que não se baseiam em ortodoxias.

Ou, para quem se afeiçoa ao Oriente cosmogônico, Era de Ferro, ou Kali Yuga, um período marcado por avassaladoras situações de profunda entropia cósmica, que marca o final do ciclo de vida para o recomeço na reiterada roda de dharma-karma. Não tenho muito aprofundamento sobre sistemas orientais - já que, por óbvio e sem desprestigiar outras tradições - minha cosmovisão me encaminha para a contemplação da ancestralidade da minha origem céltico-ibérica, mas qualquer que seja ele, os relatos míticos são uníssonos na impermanência (ciclo vida-morte-vida) dos mundos e da materialidade.

Com isso e, muito para além disso, o tempo de entropia nessa pós-modernidade marca a necessidade de silenciar, não de publicizar. Mesmo que a Era de Aquário seja o paradigma a superar uma ordem antiga e que a Constituição Federal tenha laicizado o Estado, não se pode afirmar o mesmo dos indivíduos que, pela mais superficial empiria, cada dia se revelam mais preconceituosos e agressivos na condução de suas opiniões. 

No Brasil, penso, nossa máscara de beneplácito cordato encobre a resultante do que a opressiva estrutura eclesiástica lusitana diuturnamente inculcou no universo simbólico, caracterizada pela tensão entre culpabilidade e expiação, amalgamadas em um sinérgico recalcamento de sombras, responsável pela projeção da sombra não compreendida em um bode expiatório (bruxas).

Por trás da aparência de evolução espiritual contida no sorriso largo de quem se arvora da candura reside um verdadeiro quarto de despejo, cujo conteúdo latente ainda não conseguimos explicitar e, por não consegui-lo, reproduzimos a perversa saga de extirpação do outro. 

Silêncio, nada mais, nada menos. Necessário para manter vivo o fogo sagrado da ancestralidade e, a julgar pelo picadeiro no qual o Brasil paulatinamente está se convertendo, enviando para a pantomima digna de um Coliseu quem apenas está reverenciando suas heranças.