sábado, 19 de janeiro de 2013

A reverência ao Sagrado e as relações com o masculino


Todos os dias revisito mentalmente uma série de situações em que a sacralidade feminina é diuturnamente colocada à prova, sobretudo, por certa insistência de uma tipologia de masculino - acredito ser o rescaldo do paradigma até então dominante e que, por agora, decai rapidamente ante novas ondas de libertação feminina e feminista - que tenta, com sofreguidão, desqualificar as expressões do Sagrado que nos dignificam como representações da própria Deusa.

A mais visível delas diz respeito ao proselitismo com que determinadas ideologias religiosas, de cunho patriarcal, suscitam vozes em torno da supremacia do masculino como monopólio da criação - a ideia de masculinidade de Deus - em detrimento de uma Deusa a gerar toda a vida. 

Para tanto, valem-se de um dogma de construção que espelha, ao final, o androcentrismo como via única de expressão possível de religiosidade, sem considerar, com isso, os anos de cultura matrística em que a Grande Mãe se firmou, una e única, como epicentro de toda cosmogonia creacionista (estamos falando de, pelo menos, 10.000 anos de História pré-cristã de cultos lunares).

O discurso a sustentar essa onda desqualificatória está quase sempre vinculado a uma naturalização de atributos que seriam exclusivos da ontologia do "ser mulher", como, por exemplo, a submissão, "fragilidade", a vulnerabilidade e, sobretudo, a santificação mariana (de negação da sexualidade) da maternidade, em detrimento  do poder de Deusa e fêmea, geradora da vida a partir da autonomia de sua sexualidade. 

Tal modelo de masculinismo amedronta-se com a possibilidade de "perder" o poder instaurado por um período longo de patriarcado fomentado pela hegemonia política do cristianismo que, valendo-se da apropriação de boa parte dos cultos pagãos, paulatinamente se imiscuiu no ideário popular de práticas religiosas. 

A perda do poder, contudo, nada mais revela a ausência imanente dele, na medida em que, pelo medo, receia-se perder o que, de fato, não se tem, ante a virtualidade com a qual tal discurso se estabeleceu: via medo, e não conscientização. Via culpa, não responsabilização. Via dependência, e não autonomia espiritual. 

Isso porque o medo impõe barreiras e, com elas, inerentes guerras: a síntese da era fálica, que prestigiou guerras, poder, hierarquia e triangularização, a antítese da circularidade e da parceria de que se revestem as relações pautadas na consciência do feminino. 

Diante disso, eis a pergunta: como, então, podemos nos relacionar com o masculino sem agredir nossa sacralidade?

Em um primeiro momento - esse, por agora, em que vivemos a era da queda dos mitos, dentre os quais, da criação e do androcentrismo deídico - tenho como improvável realizar qualquer mudança sem algum sacrifício. Afinal, o ofício sacro tem sido exatamente o caminho trilhado por muitas mulheres conscientes que, a partir do momento em que enxergam e vivenciam a Deusa dentro de si, optam por não realizar pactos de submissão (direta ou velada) com os resquícios da opressão patriarcal. 

O estabelecimento de relações equalizadas, responsáveis e circulares entre homens e mulheres parece ser a tônica para a mudança paradigmática nas interações, por via da elaboração de um diálogo aberto, franco e sensível, que atenda ao compartilhamento de demandas emocionais, mentais e, sobretudo, espirituais, pois, assim, a superação do abismo binário pode ser viabilizada.

A dignificação do ethos da Grande Deusa presente em cada mulher adquire, então, lugar de destaque na agenda de modificações substanciais nas relações de intimidade. Esse, talvez, seja o grande desafio para a humanidade, tendo em vista os 2.000 anos de reprodução robótica do modelo masculinista.

Abracemos, então, a linda jornada que nos espera, capitaneando o grande rol de transformações que o Terceiro Milênio traz nas doces e suaves palmas de suas mãos. 

Fonte da imagem: http://religion.lilithezine.com/images/Pagan-Goddess-Mother-Earth.jpg




domingo, 6 de janeiro de 2013

Os mistérios da Grande Deusa e a virtude do silêncio

Em idos de contemporaneidade em que o feminismo tem sido a constante na rediscussão dos papeis sociais de homens e mulheres, nada mais providencial do que se rediscutirem também os dogmas de estruturação de uma cosmogonia patriarcal e androcêntrica que sempre deixou o feminino alijado do exercício espiritual de poder.

Sob a escusa de uma androginia totalmente falsa, a religiosidade ocidental cristã alicerçou as bases da reprodução endêmica de uma dogmática religiosa na qual a figura da mulher ora é retrata em um espaço subalterno, ora é trazida em grau de acessoriedade, uma vez que a primazia do exercício de ofícios religiosos e ritualísticos, muitas vezes, é monopólio do homem.

Com a incessante inovação das matizes espirituais exsurgentes no chamado neopaganismo (e suas irradiações múltiplas), o cenário está sendo redesenhado no sentido de se atribuir ao Sagrado Feminino papel central na força creativa, restaurando-se, assim, os estudos sobre as antigas culturas pré-cristãs (mormente a celta) que tinham na equalização entre gêneros o ponto central das narrativas mítico-religiosas.

Muita procura tem sido realizada ultimamente. Algumas, imbuídas no firme propósito de resgatar a tradição da Deusa e, com isso, reformar-se a concepção tradicional androcêntrica para a porosidade da racionalidade em que se esteia, dando-se vazão, assim, à sensibilidade inerente à manifestação dos arquétipos da Grande Mãe.

Um cuidado, contudo, motivou essa postagem: a busca também realizada por partes de pessoas totalmente levianas em seus propósitos e que buscar "assuntar" o tema apenas como um mecanismo de aumento de acervo intelectual, sem qualquer compromisso com a devoção e o respeito necessários às coisas do espírito.

Tive a oportunidade de conviver com uma figura que tentou obter de mim informações (mistérios) sobre o Sagrado Feminino, insistindo em haurir conhecimento imediato e instantâneo sem se verter ao necessário debruçamento na vivência da senda. 

Figura completamente perdida, transitava em todos os nichos espirituais, numa verdadeira miscelânea de egrégoras, perceptível a olho nu pelo fato de ostentar no pescoço toda sorte de símbolos de proteção das mais variadas ordens. Segundo constava de nossas conversas, faltava para "sua coleção" o triskelion (símbolo primordial do Sagrado Feminino), bem como o símbolo dicotômico do yin e yang (??), o que me fez acreditar piamente em seu desespero de causa.

Convidado para um evento em um grupo de mulheres, um evento, em especial, chamou minha atenção: durante todo o ritual, a coluna vertebral da pessoa deu, a todo tempo, sinal de vida, acarretando, com isso, uma total falta de atenção à liturgia, pois, claro, impossível é a concentração diante da dor. O racional, então, estratificou seu coração, tornando-o um terreno estéril para qualquer tentativa de se acessar o divino...

Isso não foi o que me deixou ressabiada em relação a compartilhar os estudos no Sagrado Feminino, mas, antes, a total falta de compromisso desse ser em sequer reunir esforços para - tomando conhecimento dos postulados - manter-se no mais chauvinista comportamento, consolidando seu machismo estrutural  em doses homeopáticas de queda de sua máscara. 

Assim, depois de se apresentar como sendo uma pessoa altamente evoluída, cordata e respeitadora do feminino, o convívio foi o bastante para observar o desrespeito à personificação da Deusa nas mulheres de sua vida, haja vista que, inseguro, fraco e covarde, não hesitava em vilipendiar cada uma das mulheres com quem ousou, um dia, relacionar-se. Ou seja, apenas discurso, nada mais que discurso.

Desconfiada disso, calei. Esse é o ponto central dessa postagem. Calar é a melhor virtude a ser exercitada no caso de dúvida em relação à real intenção de uma pessoa que decide nos interpelar para que revelemos os sagrados mistérios ancestrais de reverência à Sagrada Mãe. Silêncio crucial e vital para que os tempos da Inquisição não retornem aos nossos dias.

O que ando lendo...

Estou terminando de ler a obra mais recente de Mirella Faur chamada Círculos Sagrados para mulheres contemporâneas: práticas, rituais e cerimônias para o resgate da sabedoria ancestral e a espiritualidade feminina, editado pela Editora Pensamento (São Paulo, 2011), uma leitura agradável, didática e, sobretudo, profundamente coesa, coerente e completa.

O centro da discussão - como é, aliás, tema central de toda a minha senda no caminho da Grande Deusa - parte da desconstrução de um paradigma patriarcal e androcêntrico de criação cósmica, para se restaurar o primado da reverência às várias emanações do arquétipo da Deusa e, a partir de tal desconstrução, viabilizar uma vivência pautada na prevalência de uma concepção feminina de divindade, responsável, por sua vez, pela rediscussão dos valores espirituais, religiosos e até mesmo políticos no mundo atual.

Não posso deixar de aplaudir o apreço da autora ao feminismo espiritualista, principalmente diante do pluralismo do movimento que, contextualizado à luz da espiritualidade, chama-nos à reflexão sobre nossos papeis como mulheres da Deusa!

Uma boa leitura!

A mudança para o giro da roda do norte...

Em dias de mudança planetária, preparo-me para uma grande transição pessoal, pois deixarei a egrégora de celebração de giros de roda do ano pelo hemisfério sul para abraçar a dança da roda do norte (hemisfério norte).

Surpresos? Surpresas? Não tem sido uma decisão fácil, mas confesso que oportuna em função da profunda reflexão que tenho feito sobre o tema. Apenas deixei par publicizar algo que, agora, consegui diagramar em meu coração. 

Em outros momentos - aqui no blog, bem como em outros locais em que publico minhas reflexões sobre o Sagrado Feminino e a mitologia deídica celta (como no maravilhoso site Templo de Avalon, no texto "O giro da roda do sul: o universo simbólico do sagrado"), já havia fincado a ideia de girar pela egrégora do sul, coadunando meus ritmos pessoais ao movimento de rotação da Terra - bem como de translação - ao ajuste feito em relação à localização espacial que ocupamos. 

Lembro-me de ter mencionado, naquele texto, a relevância de girar pelo sul, justificando, ainda, no efeito Coriolis a escolha dessa maneira de celebrar o sagrado, bem como no impacto das estações do ano aqui, para legitimar meu giro anti-horário  em relação aos rituais da roda do ano celta. 

Encontrei, ao longo desse tempo todo de dedicação aos mistérios antigos da Sagrada Deusa, muita informação relevante a respeito dessa dicotomização de  celebrações, ouvindo sábias mulheres que, representando ambas as práticas - do sul e do norte - ponderaram muito a respeito do que hoje tomo como reflexão para a iniciática senda de mudança que estou prestes a assumir em minha vida como andarilha da Deusa.

Estou convicta a desacelerar o ritmo do sul para, pouco a pouco, modificar o vetor das celebrações rumo ao norte, ainda que contrário a tudo que já vivenciei em termos de culto ao Sagrado Feminino. Tal mudança levou em consideração a preexistência (até mesmo temporal) de uma egrégora do norte que, antes mesmo das tradições no sul - no último século - começarem a apregoar, já existiam há mais de 10.000 anos [refiro-me ao período Paleolítico, bem como ao Neolítico].

Um vórtice de poder elaborado milenarmente no hemisfério norte pelas culturas pré-cristãs datadas do Paleolítico precede os cultos recentes da formação de uma egrégora no sul, de modo que a separação (norte/sul) poderia trazer uma fragilização energética em torno do cone formado em reverência à Grande Mãe. O desejo, assim, de não dividir a matrilinearidade que me trouxe ate aqui, bem como a busca da harmonização e uniformização do fluxo energético movimentou minha mudança interna e, com ela, irradia-se para a modificação externa de meus rituais e celebrações.

A predileção pelo norte, dentro disso, surge pelo simples fato de as culturas pré-cristãs matrísticas, bem como seus remanescentes nas sociedades patriarcais já rodarem há mais tempo do que as manifestações no hemisfério sul poderiam realizar. Por outro lado, o ressurgimento da tradição da Deusa, bem como o resgate dos postulados celtas de celebração da roda trouxeram consigo a recenticidade na formação do vórtice de poder, o que poderia manter certa dissonância ou desarmonia com o que já está disposto magicamente como fluxo energético.

Será uma experiência ímpar na senda espiritual, mas acredito estar preparada para a mudança, pois meu coração já entoa o ciclo espiralizado de um poder que se imanta do norte, espaço geográfico onde vou buscar, em minha ancestralidade, a certeza de trilhar o caminho que julgo mais adequado à reverência que diuturnamente faço à Grande Mãe.

Que venha, então, a nova egrégora, imantando de luz minha trajetória!

Fáilte, grande giro da roda do norte!!!

Ho!

Fonte da imagem: http://www.dancinggoddessdolls.com

Morríghan, a gigante lavandeira do vau do Unshin

Na liturgia dos ciclos comemorativos nos diversos focos de historicidade celta, o dia 06 de janeiro é tradicionalmente consagrado à deusa Morríghan (Morrigan ou Mórrigán), deidade densa, complexa e fascinante, regente da guerra, senhora da Morte e da expressão livre de uma sexualidade sem amarras pudicas. 

A força de seu arquétipo lembra a realeza e a grandiosidade da Terra, o poder inigualável que advém das entranhas da Natureza em sua forma mais rústica e sacral.

Agrega, ainda, a força uterina que imerge tanto nos segredos da vida (já que o útero é o caldeirão criativo que acolhe toda a atividade poética de gestação) como da morte (bastando lembrar que o mesmo útero verte o sangue sagrado quando o óvulo não é fecundado: uma pequena morte mensal a que todas nós, mulheres, damos impulso naturalmente), tendo como animal-totem o corvo, ave que se refestelava nos campos dos dejetos dos guerreiros e das guerreiras mortos nas batalhas, ao mesmo tempo em que era "os olhos" da Grande Guerreira (quando não a própria incorporada na ave).

Ao lado de Badb (corvo) e Macha (senhora dos cavalos), Morríghan compõe a trindade deídica das filhas de Ernmas, ancestral matrística de Bánba, Fótla e Ériu (um dos nomes da Irlanda-esmeralda), trindade, por sua vez, originária do nobre povo de Errin. 

Durante a primeira batalha de Moytura, as morrígna atacaram bravamente os Fir Bolg por intermédio da invocação das intempéries das chuvas, do fogo e do sangue derramado sobre as cabeças dos inimigos, reforçando a intrínseca conexão dos celtas com a magia como instrumento hábil a mudar os rumos de uma batalha. 

Já na segunda batalha de Moytura, Morríghan ocupa um lugar central nas narrativas, pois se encontra com Dagda na véspera de Samhain - lembrando que as datas eram comemoradas durante três dias, numa repetição do padrão da trindade - um ano antes da luta, em um encontro já predeterminado à beira (vau) do rio Unshin

Esse épico encontro marca a grandiosidade de ambos os deuses - expoentes máximos dos princípios universais contidos na polarização do masculino e do feminino - já que Dagda, ao chegar ao local com sua potestade física, depara-se com uma mulher grande, que apunha um pé em cada margem do vau, prostrando-se na água para lavar as armas e os cadáveres ensanguentados daqueles que iriam morrer no dia seguinte. 

O vau - parte rasa do rio (nem fundo, nem raso, ou seja, o ponto de equilíbrio) foi cenário para a revelação feita por Morríghan a Dagda dos segredos das linhas inimigas, bem como para o conúbio sexual entre os deuses, selando, assim, a unidade entre o masculino e o feminino sagrados, o que garantiria a vitória no dia seguinte. 

Essa contraposição entre vida (ato sexual) e morte (sexo feito em cima dos cadáveres dos guerreiros mortos) marca a lírica da percepção celta sobre a naturalidade do processo de vida-morte-vida, que se espirala numa constante universal de infinitude, chamando a reflexão sobre a conhecida coragem com que o celta se lançava para a batalha, já que, imbuído de fé, nada temia...

Na véspera da batalha, é a vez de Lugh, o guerreiro-sol, receber de Morríghan o incitamento (roscad) para se lançar em campo, comandando os Tuatha Dé Danann à vitória contra os Fir Bolg no exato local onde, um ano antes, tivera a deusa o encontro sexual com Dagda. 

Com isso, muito mais do que uma mera alusão como ceifadora e arauto da morte, Morríghan exerce papel fundamental nas narrativas celtas como profetisa e cuidadora, uma vez que tanto os incitamentos para a batalha, como as revelações sobre os detalhes do campo inimigo mostram a omnisciência dessa deusa em relação ao devir, ao mesmo tempo em que, por intermédio de sua fala, procura acautelar seus compatriotas em relação à necessidade de cuidado.

A "nota de amor" (nada romântico, diga-se de passagem) na vida mítica de Morríghan exsurge de sua relação conturbada com o herói Cu Chulainn, que se inicia quando o guerreiro ainda era uma criança e se deparou com o corvo a rir da faceta de espanto do garoto ao se deparar com um fantasma perambulando entre os despojos de uma batalha. Quando instado pela troça da ave (greesacht) quanto ao medo de fantasmas ser um impeditivo para se tornar um grande guerreiro, Cu Chulainn se ergue, encoraja-se e cumpre sua missão, tornando-se o maior herói mítico da Irlanda.

O nobre guerreiro, contudo, passa boa parte de sua breve jornada tripudiando do amor da Deusa por ele, pois mesmo diante da beleza de Morríghan (que lhe prometera fartura ante o casamento entre ambos), o altivo homem responde-lhe que "I have no time for a woman´s backside", despertando, assim, a ira ferrenha da Deusa que, dali em diante, passa a acompanhar - na forma de corvo - os passos à espera da morte de Cu Chulainn. 

Morríghan ainda tenta dissuadir o herói do desprezo a ela lançado, em outro encontro, sob a forma de uma mulher ruiva a conduzir uma carruagem conduzindo uma vaca. Quando o guerreiro pergunta a origem do animal, é Morríghan quem responde, sendo interpelada por Cu Chulainn, que não admitia uma mulher responder por um homem. 

Mesmo quando a deusa se transforma em corvo e prostra-se sob os galhos de uma árvore declamando os versos que conhecidamente anunciavam sua chegada, o encontro ainda é tenso e servirá de pano de fundo para o derradeiro encontro de morte entre os enamorados. 

Isso tudo, sem deixar de mencionar os três ferimentos impingidos por Cu Chulainn a Morríghan - quando a deusa se apresentou a ele nos combates contra os guerreiros de Connacht na forma de uma bezerra, uma enguia e uma loba - curados graças ao ludibrio da deusa em relação ao herói, vindo a receber dela a benção para a cura das feridas.

Ao final, na batalha contra as hordas de Maeve, Cu Chulainn recebe a profecia de um druida a indagar do herói se ele percebera a presença da "lavadeira do vau" a lavar seus restos mortais. Mesmo assim, na noite anterior, a deusa apaixonada ainda tenta impedir a morte do amado, incendiando a carruagem de combate de Cu Chulain, em vão. 

Ao ser ferido nas entranhas que se espargiram ao solo (mais uma vez a menção à terra, que a todos e todas recebe para o abraço final), Cu Chulain amarra-se a uma pedra para que pudesse permanecer de pé e lutar e, com isso, assiste à chegada do corvo (Morríghan), que pousa em seu ombro e, depois, vai ter com as entranhas espalhadas de Cu Chulainn... 

Eis o fim da jornada do guerreiro recepcionado, no além-vida, pela deusa que passou parte do seu tempo repudiando.

A egrégora de Morríghan invocada nesse dia 06 de janeiro nos remete à reflexão sobre os aspectos sacrais de despojamento, bem como da reverência ao feminino. Além disso, detentora dos segredos da vida e da morte, propala uma energia fecunda para lidar com situações adversas, conclamando-nos para as batalhas em nossas vidas, bem como para a necessidade do desapego do que não está destinado a fazer parte de nossas experiências, bastando lembrar de Cu Chulainn que, nas vida da deusa, sempre representou desencontro em relação ao desiderato dela em se ligar afetivamente a ele.

Assim, longe de representar uma deusa difícil, incongruente e complexa, Morríghan se revela como a mais completa personificação de atributos múltiplos, sempre embalada pela determinação, força e garra com a qual se lançava rumo ao seu destino.

Fáilte, Mór Ríogain! Ho!

Referências:


  1. FAUR, Mirella. O Anuário da Grande Mãe: guia prático de rituais para celebrar a Deusa. 2 ed. São Paulo: Gaia, 2001.
  2. MACKILLOP, James. Myths and legends of the celts. London: Penguin Books, 2005.
  3. QUINTINO, Claudio Crow. O livro da mitologia celta: vivenciando os Deuses e as Deusas ancestrais. São Paulo: Hi-Brasil, 2002.
  4. SQUIRE, Charles. Mitos e lendas celtas. Trad. Gilson B. Soares. Rio de Janeiro: Nova Era, 2003.
  5. The Mabinogion. Trad. Lady Charlotte E. Guest. New York: Dover Publications, 1997.
Fonte da imagem: http://pagannazgul.tumblr.com







sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Não existem atalhos para a evolução espiritual...


A "Nova Era" trouxe a diversidade nas opções de expressão e vivência da espiritualidade, culminando na proliferação democrática (e, muitas vezes, acrítica e irresponsável) de técnicas, filosofias, experiências, credos, seitas e métodos para que a humanidade possa viver melhor as chamadas "questões do espírito" e, de certa sorte, crescer rumo à elevação de um padrão coletivo de crescimento.

Com isso, longe estamos dos momentos medievais bipolares em que a celeuma mundial se restringia à disputa política e ideológica entre catolicismo e protestantismo, tendo em vista o pluralismo também se irradiar para a busca incessante de opções outras de viver a espiritualidade, principalmente se considerarmos o intercâmbio com as tradições orientais, seus mistérios e excentricidades. 

Como opção ante tal caldeirão fecundo, há tempos visito e vivencio a cosmogonia pré-cristã pautada na celebração do Sagrado Feminino como via de questionamento e desconstrução de um ethos religioso e espiritual marcado pelo androcentrismo e patriarcado, experienciando uma jornada solitária de autoconhecimento, por intermédio da vivência de uma senda de plenitude e bem-aventurança.

A predileção pela Tradição da Deusa trouxe, por sua vez, o aprendizado diuturno em relação a não enveredar por "atalhos espirituais" para ascensão a uma frequência vibratória, tendo em vista eu acreditar (por vivenciar com sucesso) em um crescimento que envolve a honestidade em relação às minhas limitações, bem como a necessidade de superar o que estiver dentro do que me programei a enfrentar nessa configuração material. 

Simples assim: não se barganha - em nível espiritual - uma evolução instantânea, mas, antes, (re)elabora-se uma jornada (árdua, decorrente trabalhosa, mas, sobretudo, bem-aventurada) calcada no firme propósito de se pisar com os próprios pés a trilha de crescimento e elevação. 

Esse caminho solitário pressupõe um lançamento rumo a experiências que, por seu turno, quase sempre trazem tentativas que logram êxito (alcançam um ethos de felicidade pessoal), ou, ainda,  imbuem-nos de dor (o que impropriamente chamados de erro apenas porque não compreendemos bem a neutralidade do caminho). 

Independentemente do quantitativo de alegria ou dor (sensações ainda marcadas em um binário no qual insistimos em julgar tudo e todos), acredito residir na empiria da jornada a validação de uma senda peculiar e individualizada, pois só assim é possível - ao meu ver - falar-se em crescimento espiritual. 

A despeito de apregoar o sucesso do enfrentamento de mim mesma no decorrer dessa trilha, não posso deixar de mencionar as vezes em que caí (por ignorância, principalmente), fulminada por escolhas que resultaram em experiências aparentemente infrutíferas, mas que, no fundo, trouxeram a expertise e parcimônia com as quais hoje contemplo - com gratidão - a indiscriminada propaganda enganosa de ofertamento de fórmulas "mágicas" para "limpezas cármicas", como se o desenvolver causal que as eras, vidas e escolhas trazem para nosso aqui e agora fossem realmente uma garagem a necessitar de um bom jato de água com sabão e esfregão...

Nunca antes havia me deparado com tamanho "saldão espiritual" disseminado no "mercado esotérico", no qual seres em completo desespero, marcado/as por culpa, atropelo e medo (e pouca paciência ou coragem para enfrentar seus dilemas) saem como franco ou franca atiradores/as, na esperança de evoluir "à fórceps", não raro empenhando cifras consideráveis em cursos, congressos pirotécnicos, cristais, pêndulos, mesas radiônicas, baralhos, canalizações etc. etc. etc., como se a senda fosse possível de ser alienada ou, ainda, cumprida por outrem, por intermédio de uma "procuração".

Não se delega a rédea da própria vida a ninguém sob a escusa de se estar respeitando "os desígnios" de guias, mestres ascensionados/as etc.. 

Isso é descompromisso com a responsabilidade de se realizar a escolha sem que o destino seja marcado pela inexorabilidade e pelo determinismo. Além disso, um credo (seita, método etc.) de credibilidade NUNCA atrela a pessoa em situação de dependência, mas, antes, libera o ser para que ele/ela possa, de per se, ser sujeito de seu caminho rumo ao crescimento. 

Tudo que refoge a isso é a mais pura expressão de CHARLATANISMO, fraude forjada à guisa de convencimento pelo desconhecido que a espiritualidade oferece. Paga-se um preço muito alto pelo uso e abuso da boa-fé objetiva e do desespero das pessoas na "evolução a jato": estagnação na cadeia causal de ascensão e, quando não, decrepitude, doença, loucura. Por isso, cada vez mais tenho concluído que não se brinca com o que não se conhece a fundo...

De outra sorte, consultar oráculos também pode ser muito interessante, principalmente se fazemos isso por nós mesmos/as, pois, nesse caso, conectamo-nos com nossas egrégoras, bem como, em nível subconsciencial, com os arquétipos presentes no inconsciente coletivo, acionando energias amistosas, formadas a partir de formas-pensamento saudáveis, alimentadas por um modus vivendi contínuo (a senda propriamente dita), e não por "picos de iluminação" fomentados por terceiros que não a pessoa que está vivendo seu dharma e carma.

Simples assim... 

Sem histeria, neurose, obsessão ou paranoia, mas, antes, na leveza do fluxo com o qual o Universo é apenas sentido como unidade da qual fazemos parte integrante. 

Mas, ao contrário, quando deixamos de lado a senda de esforço próprio pelo conforto de nos posicionarmos como espectadores de nossos dilemas, a partir da desenfreada reiteração de consultas (e consultorias) e na "delegação" de nossas vidas a outras pessoas, incorremos no vazio terapêutico, porquanto não enfrentamos as idiossincrasias que usualmente encobrimos (até de nós mesmos/as, quem dirá de um terapeuta), na esperança de "alguém lá em cima" (será mesmo em cima???) fazer isso por nós. 

Ou seja, atribuímos o cumprimento do destino ao "jogo de dados celestiais", o que me traz a lembrança da pantomima olímpica com a qual o panteão pagão (principalmente o grego) se refestelava às custas da tripudiação do/as mortais. 

Se "Deus não joga dados", muito menos guias, mestres, egrégoras, espíritos, energia (ou qualquer nome dado, a depender da tradição seguida) deveriam jogar conosco (e não jogam!!! Deixem as egrégoras em paz!). Ou, no mínimo, nem poderiam, pois a evolução é NOSSA

A escolha é nossa, bem como também é a responsabilidade em desvendar nossas mazelas espirituais para, a partir delas, podermos trabalhar nossas almas. 

Com isso, todo auxílio prestado por nossos afins no mundo extra físico há de ser tênue, não cabendo espaço, nesse contexto, para o uso de uma muleta a amparar nossas pernas sãs que insistimos em não usar, pois a inutilização acarreta a perda total de função e, com isso, a repetição na escolinha da vida, ante a insistência de se patinar infinitamente...

Não existem atalhos para a evolução espiritual, mas, antes, um lindo caminho empírico que somente é acessível quando nos dispomos a nos enxergar e, com isso, pegar as rédeas de nossas vidas em nossas mãos!!!!

Fonte da imagem: http://mrbtg.wordpress.com/