sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Pranayama: quando respirar é imergir e elevar

Dias atrás passei os olhos em uma reportagem postada em um desses sites internacionais bem conceituados, que replicam o paradigma dominante de ciência causal e determinista: falava em como a "respiração de bebê" poderia ser "benéfica para a saúde", sendo reconhecida ali como até mesmo preferível à respiração curta e torácica. 

Por que, então, ficamos tanto tempo sem essa pérola de validação científica, o bastante para uma notícia como essa trazer assombro e novidade? 

Por que a respiração abdominal, "de repente", explodiu como uma "novidade" terapêutica, quando, no mínimo, mínimo, ela já bem lá é mencionada em textos sagrados e tradicionais do yoga há séculos e séculos? 

Não sei, ao certo...

O fato é que nunca imaginei que iria ler algo assim lá, mas, tomada por uma inerente curiosidade em saber como o assunto seria abordado, arrisquei-me a ler, ficando bem feliz em perceber que, finalmente, a respiração diafragmática ou abdominal (como simplificamos nas práticas de yoga) foi reconhecida em seus inúmeros benefícios à saúde. 

Fiquei ainda mais surpresa ao ler na reportagem a referência a algumas técnicas apropriadas da literatura do yoga e, por conta disso, achei interessante aprofundar aqui um pouco mais o assunto, contextualizando-o na tradição do yoga. 

A respiração é o primeiro ato autônomo que realizamos quando aportamos nesse plano: recém-saídos do calor e do aconchego do útero de nossas mães, somos destacados da proteção de uma redoma que nos conforta e alimenta pelo cordão umbilical para adentrar um mundo totalmente desconhecido, onde o primeiro ato de sobrevivência consiste em sorver o ar e impulsionar internamente esse fluxo mágico.

Por isso a respiração, na literatura indo-védica, tem um significado místico de conexão às esferas celestiais de criação, como se vê no capítulo 4, verso 29 da Bhagavad Gita, que traz a referência expressa, "(...) apane juhvati pranam pranepanam tathapara / pranapanagati ruddhva pranayamaparayanah", traduzido por:

"Outros, tendo suspendido o movimento do prana e do apana, oferecem o prana no apana, assim como o apana no prana, engajados na prática do pranayama" (Barbosa, 2018, p. 95)

Outra tradução interessante está na Bhaktivedanta Database

"Há ainda outros, que estão inclinados ao processo de restrição da respiração para permanecer em transe, eles praticam oferecendo o movimento do alento expirado ao do alento inspirado, e o alento inspirado ao alento expirado, e assim acabam entrando em transe, suspendendo toda a respiração. Outros, restringindo o processo alimentar, oferecem o alento expirado em sacrifício a este mesmo alento.

Nesse sentido, para compreender melhor o pranayama, precisamos ir até a raiz da palavra prana como "força vital universal, uma energia psicofísica vibrante, semelhante ao pneuma dos gregos antigos (Feuerstein, 2005, p. 179), ultrapassando, assim, a mera ideia de sinonímia com "ar" ou "éter", para introduzir um elemento transcendente, presente em todo o Cosmos. 

Com um conteúdo inicialmente relacionado à religiosidade, a exemplo da recitação do Gayatri mantra (Kuvalayananda, 2008, p. 21) e da Bhagavad Gita, o prana e o pranayama se destacam, depois, com uma posição independente no contexto psico-fisiológico que Patanjali lhe confere nos Yoga sutras. 

Georg Feuerstein traz uma tradução a partir do prefixo pra, que indica o movimento contínuo, "respirando", e do radical an, "respirar",  reforçando, assim, o impulso vital e contínuo de energia, que se desenvolve no apâna prâna, a respiração relacionada à metade inferior do corpo, vyâna prâna, que circula em todos os membros, udâna prâna, respiração superior e samâna prâna, localizada na região abdominal. 

A partir dessa noção de prâna como força motriz universal, o pranayama compõe um dos oito angas (membros) do yoga, mencionado em vários textos, sobretudo na literatura de Patanjali, como uma espécie de senda ou caminho óctuplo (Feuerstein, 2005, p. 180).

Pranayama (prāṇāyāma, प्राणायाम do sânscrito) é uma palavra designativa de um movimento: prâna (respiração ou força vital) + âyâma (extensão) (Feuerstein, p. 180), um processo de controle da respiração e, a partir dela, da própria mente em seus estados de inquietude

Com isso, longe de ser um ato meramente mecânico, o pranayama é um dos pilares do processo de experienciação e expansão da consciência para estados mais elevados, por isso sua importância nas práticas de yoga, seja em um momento específico, ou, ainda, na realização ao ásana, ocasião em que harmonizamos (ou "encaixamos" organicamente) a postura à respiração (e não o contrário, como usualmente pode ser feito em exercícios usuais e funcionais). 

Uma das grandes diferenciações, porém, em relação à maneira como enxergamos a respiração no Ocidente e a riqueza consciencial que a prática do pranayama oferta está na importância das retenções no processo respiratório.

Isso porque tendemos a acreditar - até porque respiramos!!!! - que a otimização da respiração está no fluxo de entrada e saída do ar, chamados respectivamente de puruka e recaka na literatura yóguica. 

Somos condicionados, desde cedo, a produzir o fluxo do "inspira e solta" rápido, raso e superficial, que se aloja da traqueia para o centro do tórax, local em que reside a glândula timo (relacionada à expressão do emocional e sua conexão com o sistema imunológico) a receber o impacto dessa afoiteza.

Não seria exagerado afirmar que "alimentamos" nosso timo e coração de ansiedade quando respiramos assim, de forma fragmentada e rápida. Ao invés de produzir serenidade, nossa programação nos leva à manutenção da agitação e da ansiedade.  

Fazemos, então, uma confusão fisiológica enorme, que traz, muitas vezes, sofreguidão e ansiedade, por meio da respiração ofegante e curta, apenas direcionando o ar para o cardíaco ou, quando muito, para a região central do tórax, como náufragos em busca de uma boia de salvação. 

Isso porque é no kumbhaka, a retenção do ar com o abdômen cheio ou, ainda, a permanência sem ar,  o trabalho primoroso de respiração cósmica plenificada, alavancando-nos para estados de consciência diferenciados, ao tempo em que otimiza a capacidade de oxigenação do corpo.

Quando retemos o ar sorvido e deslocado para a região abdominal (puruka), é possível sentir uma pressão interna maior, que permite, por sua vez, ampliação da abertura e permeabilidade dos alvéolos para que a oxigenação se dê e se expanda para o corpo todo, como uma grande e serena onda. 

Esse movimento, quando realizado com foco, disciplina e conhecimento (aliado, por exemplo, à percepção da glândula pineal, ou, especificamente, do ajña chackra), reproduz o sentido de plenificação, trazendo a sensação de completude que nos faz sentir parte de uma realidade extrafísica despojada da percepção e do apego à sensorialidade tridimensional. 

Ao exalar e manter o esvaziamento (recaka), uma vacuidade é experimentada e, com ela, a expansão consciencial, na medida em que, vazio, nosso corpo tem o potencial de ser preenchido com o Todo (inclusive mais oxigênio). 

Esse movimento de ir e vir, tal qual o embalo das ondas do mar, que marca a maior distinção na maneira como ordinariamente vemos a respiração, para o verdadeiro significado do pranayama, razão pela qual respiração e pranayama não são sinônimos.

De fato, a respiração faz parte do pranayama, que envolve, como visto, uma consciência em relação a todo o processo, saindo da mecanicidade para abraçar o significado latente de conexão com o divino. 

Quando experimentamos, aos poucos, com conhecimento da técnica, as retenções, passamos a observar internamente essa "chave" de mudança do sentido do prana no corpo, direcionando-o a locais que demandam maior atenção. 

Um bom começo para realizar essa mudança consiste na modificação do fluxo da respiração: ao inalar, experimente, em 4 profundos tempos , encaminhar o prana para o abdômen, inflando-o como um balão. Depois esvazie o abdômen, sugando o umbigo, também em 4 tempos. 

Aos poucos e com consciência, você pode introduzir o kumbhaka, inalando, retendo, exalando e ficando sem ar, tudo em 4 tempos para cada processo. Em condições usuais, respiramos entre 14 e 20 vezes, mas, com a técnica, é possível aquietar e respirar 1 até 3 ou 4 vezes apenas, aproveitando, assim, o prana dentro de nós. 

Importante, porém, perceber que essa técnica não se destina a produzir um "desafio respiratório", mas um caminho de autoconhecimento. Por isso, fazer o kumbhaka apenas com um sentido egoico, além de não produzir benefícios, pode ser prejudicial para a saúde (desmaio, tontura etc.). 

No caso de dúvida, sempre é bom lembrar do suporte de um instrutor de yoga, ayurveda ou meditação, ou, ainda, alguém que esteja familiarizado com a técnica. 

No mais, basta imergir e se descobrir nesse lindo processo e usufruir dos benefícios para o corpo, o emocional, a mente e o espírito!

Hare Om Tat Sat!!!











domingo, 26 de abril de 2020

Quando mudar o mundo é se transformar...


Sempre estamos às voltas com notícias das mais variadas, mas um ponto, porém, traz um pano de fundo comum: a existência de uma demanda ou um desejo que, por trás de cada notícia veiculada, desperta nossa empatia, fúria ou apreço.

Ora demandamos civicamente posturas de políticos e agentes públicos, ora estamos a protestar diante de uma notícia de cunho político.

Sobretudo protestar, falar, colocar para fora nossa contestação, indignação, nossa opinião!!! 

O protesto tornou-se uma das grandes marcas da contemporaneidade virtual, que reúne nos abaixo-assinados e nas redes sociais nossa forma distanciada de lidar com aquilo que expomos em termos de expectativas, sejam sociais, coletivas ou até mesmo individuais.

Sentimo-nos parte de algo pulsátil quando agregamos esses movimentos, numa espécie de solidariedade anônima, mas que traz uma mágica vinculação nos destinos de nossa sociedade ou comunidade. 

A partir do sucesso de tais pequenas-grandes conquistas, passamos a desejar mais... Pensamos "grande", expandindo as fronteiras do que podemos pensar em modificar. 

Desejamos ardentemente que o mundo "mude", que "as pessoas se transformem" para dar lugar a "um mundo melhor", com harmonia, paz social e harmonização com a Natureza. 

Em idos de pandemia, indignamo-nos diante de quem não usa máscara, não faz isolamento social, ou, ainda, de quem faz carreata e demanda a abertura das porteiras econômicas.  

Bradamos por mudanças na política, na sociedade, na vizinhança, no condomínio etc..

Ansiamos, sempre mais e mais, por um futuro sustentável, com comida organicamente saudável, damos curtidinhas nas fotos campestres e reciclamos nossas roupas, aderindo a um "projeto de mundo novo". 

Mas, enfim, quando nos deparamos com uma notícia não lá muito agradável a esse "Projeto Nova Gaia", parece que vem uma bomba atômica lá de dentro do estômago revolto, fazendo com que nossos dedinhos digitem rapidamente - tec, tec, tec - palavras de ordem, textos inspirados e concitadores da revolução invisível que pretendemos, todos os dias, realizar. 

Falo isso muito em função da identificação em face dessa "saudável" rebeldia: uma eterna rebelde "cara-pintada", idealista desse projeto todo de melhoria de vida no Planeta Terra. Quando percebia, já estava a vociferar textos e mais textos, citando vários autores, para pretender, com isso, modificar substancialmente a maneira de pensar do outro. 

A docência foi bem esse caminho de modificação de pequenos mundos, 20 anos de longas aventuras e histórias, nunca desistindo do projeto transformador para que nosso ambiente e casa, em nível global, desse aquele salto quântico rumo à ruptura com os chamados antigos paradigmas. 

Ultimamente, colocando-me a observar e, sobretudo, a me observar, observar esse ser que está agindo nesse corpo, tenho mudado minha percepção. Não racionalmente, por convicção de ser melhor ou mais valoroso, mas porque, no dia-a-dia dessa vida toda que está aí, o processo emerge e, dentro dele, quando vejo, já estou sentindo, de outra forma, necessidades distintas das que embalavam meus "grandes projetos". 

Esses dias de recolhimento têm sido um providenciais, pois, no início, pegava-se mentalmente especulando em que esse processo todo iria desembocar ou, dito de outra forma, "como o mundo seria depois da pandemia". 

Fui de teoria conspiracionista até estudos de ocupação de outros planetas, vida sustentável no deserto. Tudo que acenava uma resposta para os "novos contornos da Terra" fui agregando, puxando, lendo, deglutindo e empurrando aqui para a mente, já esgarçada por tanto fluxo e especulação. 

Quando dei por mim, percebi que a frase que mais estava usando era "as pessoas são" ou "as pessoas deveriam", numa formulação mágica a trazer a solução para todos os desafios da humanidade. O empírico, contudo, atravanca, pois "as pessoas" não fazem e nem sequer devem fazer coisa alguma do que eu especulo...

Daí, meu mundo caiu... 

Antes de perguntar "se o mundo irá mudar após tudo isso", se "as pessoas serão assim, assim ou assado", comecei a olhar para meu quartinho de despejo emocional, sentindo a necessidade de pensar em como eu posso mudar diante da vida?

Estou está satisfeita com sua vida? 

Não, não me refiro ao conformismo, mas a realmente comecei a me perguntar se estou vivendo de uma maneira que me traz contentamento como estado de plenitude...

Não estou? Então, o que me impede de mudar? Passei a sentir mais isso, essa necessidade de escutar a voz do coração. 

Dinheiro? Trabalho? Pessoas? Viagens? Relacionamentos?

Tudo isso são externalidades, nada disso está em mim e no potencial transformador.

Daí comecei a perceber um fluxo bem positivamente disruptivo, em como posso e já estou transformando minha vida, a partir da superação do comodismo, do conformismo, da preguiça, da zona de conforto e do medo para fazer aquilo que o coração manda...

O mundo passou, então, a estar diferente só porque decidi mudar meu pequeno mundo! Esse, acho, é o grande convite para todos, sem cobrança, expectativa: que cada qual seja a mudança que pretende ver no mundo (M. Gandhi)!!!

Hidratação, desobstrução e purificação com o jala neti

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🕉Com o outono trazendo a seca, importante cuidar do sistema respiratório e as narinas são a porta de entrada dele. A prática constante de jala neti (kriya de limpeza nasal) hidrata, desbloqueia e purifica.

🕉Ferva água filtrada (500 ml) e espere ficar com a temperatura morna para fria.

🕉Adicione meia colher rasa de sal e, para hidratar, 2 gotas de óleo de gergelim.

🕉Coloque no recipiente, encoste o bico na entrada da narina de um dos lados, penda a cabeça para o lado e forme um fluxo de água. Ela entra pela narina que está acima e sai pela de baixo.

em caso de sinusite, acrescente 2 gotas de própolis
em caso de rinite, use 2 gotas de limão

ao terminar, pode pingar 1 gota de óleo de gergelim em cada uma das narinas, pois ele tem vitamina E, responsável pela hidratação.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

A completude do caminho do yoga

Estamos vivenciando um momento ímpar na história da civilização, principalmente por conta diversidade de conhecimento, culturas e valores compartilhada pelo acesso mais facilitado que o mundo virtual trouxe em relação às tradições e ensinamentos de outros povos.
Nesse contexto, muitos conhecimentos e práticas ancestrais e orientais, como as medicinas ayurvédica e chinesa, o tai chi chuan, a meditação e, sobretudo, o yoga, têm se popularizado no Ocidente e, especificamente, aqui no Brasil, nos últimos 10, 15 anos. 
Basta acessar uma rede social(instagramfacebooktwitter), para perceber uma vasta agenda de aulas on line, cursos ou formação via ensino à distância, lives, hangouts, postagens, sem falar na famosa selfie tirada ao se reproduzirem posturas (particularmente não as encaro como asanas, mas isso é assunto para outra postagem), redimensionando novas situações a conviver com a tradicional prática presencial no shala[1]
Esse cenário, contudo, quando não contextualiza minimamente o yoga em relação à sua essência, história e seu posicionamento enquanto darshana[2], pode difundir a falsa e estereotipada percepção de que yoga se limita à realização de posturas ritmadas de acordo com a respiração e sob os auspícios do mantra OM.
Empiricamente falando, o yoga revela uma senda de autoconhecimento, com forte conteúdo de compreensão de nossa essência para além dessa dimensão material, constituindo também a busca de superação da inquietude mental para se chegar a um estado contemplativo de transcendência. 
Não se confunde, portanto, apenas com o momento da prática no tapetinho, mas, antes, extrapola e, para além dele, ressignifica a senda do praticante que está disposto a imergir nesse universo rico e a reconfigurar a maneira com a qual, até então, sentia, percebia e vivenciava sua estadia no Planeta Terra. 
Para tanto, prática, estudo, meditação e, sobretudo, disciplina, desapego e resiliência, são elementos essenciais na integração dessa senda, que ora projeta um forte componente devocional, verdadeiro compromisso bhakta[3] em relação a alguma deidade ou à transcendência impessoal, ou, ainda, ao aspecto meramente de estudo e compreensão, presente no jnana-yoga[4]
Historicamente falando, o yoga traz um forte componente sócio-político, a partir da ideia de contestação à casta bramânica responsável por monopolizar os ritos e o conhecimento para o grupo social do sacerdote. 

Trata-se de um fluxo que toma corpo desde 1.600-1.220 anos antes de Cristo, com algumas pinceladas imersas nas Upanishads, passando pela compilação mais famosa, os Yoga Sutras de Patanjali (200 a.C-400 a.C.)
Com a gradativa consolidação do yoga como um sistema (darshana), não seria necessária a figura intermediária do sacerdote a oficiar sacrifícios de obtenção do soma[5], para se atingir a verdade em Brahma, num verdadeiro deslocamento da religiosidade formal e tradicional coletivo para a mística individual, retirando, aí, a força do acesso à divindade por meio de sacerdotes e centrando no caminho pessoal essa busca. 
No fragmento da Mundaka na versão de Swami Prabhavananda dos Upanishad[6] é possível perceber essa reflexão sobre o  acesso direto, a partir da austeridade, do autocontrole e da meditação em silêncio (1975, p. 60), razão pela qual faz muito sentido essa transição do estado ritualista para um no qual o rito é abolido para dar espaço a um modo místico e filosófico de agir, pensar, meditar etc. em encontro ao Eu Superior sem intermediação sacerdotal.
Nesse sentido, a própria ideia de senda individual, por meio da prática de um sadhana[7], por exemplo, dá a tônica da transição do rito para o caminho solitário que vai se elaborando ao longo do percurso, por intermédio da vivência dos angas[8] (membros), revelando para o praticante seu Eu Superior, por meio do discernimento e da elevação.
Esse, em especial, é o ponto central que dissocia o yoga de uma prática lúdica, de natureza psicofísica: yama, niyama, asana, pranayama, pratyahara, dharana, dhyana e samadhi, os 8 angani do Yoga, retratados classicamente nos Yoga Sutras de Patanjali, especificamente no capítulo 2-29, chamado Sadhana. 
Panoramicamente falando (pois falaremos em cada um), yamas são preceitos éticos e, portanto, de observância interna e pessoal pelo praticante, no dia-a-dia de sua conduta: ahiṁsā, satya, asteya, brahmacharya e aparigraha
Em linhas gerais, ahiṁsā é a prática de não violência, um preceito genérico, que não apenas se relaciona ao aspecto qualitativamente físico, mas a absolutamente tudo que diz respeito à agressividade, refletindo, em nossa jornada no dia-a-dia, a modulação de nossas conduta, para que, não nos violentemos ou projetemos nos demais seres essa violência, em nível algum.
Satya é a verdade maior, que deriva do coração desapegado, ou seja, à coerência entre o pensar, falar, agir e viver. Daí surgem esses reflexos e, dentro deles, as irradiações. Um sentimento escondido, não comunicado sob a máscara de "está tudo ótimo", uma "volta" ou "ardil" que damos em nós mesmos e projetamos no outro, impedindo-o de escolher livremente.
Asteya se relaciona com a abstenção em não se apropriar do que não lhe pertence que diz respeito à honestidade em pensamento, palavra, ação, modo de vida. Não se trata apenas de não furtar objeto, mas de toda prática que diz respeito a produzir desequilíbrio em relação ao outro nesse fluxo de ir e vir de abundância, em todos os sentidos.
Brahmacharya relaciona-se à prática de uma vida espiritual regrada (BARBOSA, 2015, p. 89), marcada pela austeridade na ação dentro da conduta, muitas vezes confundida com o mero celibato, mas com sentido bem mais amplo do que isso. 
Aparigraha encaminha para o não cobiçar, contentando-se com sua realidade despegada. 
Já os nyamas estão relacionados às práticas a serem observadas pelo yogui ou pela yogini, sendo, portanto, a manifestação externa de suas ações: sauca, santosah ou santosha, tapas, svadhyaya, isvarapranidhana.  
Sauca constitui a limpeza, tanto externa, como interna, mental, a exemplo do que fazemos com os kriyas. Santosah ou santosha revela o contentamento interno, um olhar de plenificação, de bastar a si com o que se tem ou se alcança. 
Tapas representa sacrifício ou, como fala Feuerstein, a capacidade de suportar extremos (2005, p. 236) mantendo o brilho interno. 
Svadhyaya relaciona-se ao estudo e meditação, almejando o saber interior.
Ishvarapranidhana constitui a entrega, oferecendo a prática ao mestre supremo e que, individualizado, reside no coração do yogui ou da yoguini
Asana é o "assento firme e confortável" (Patanjali), enquanto o pranayama constitui o fluxo de inspiração e expiração, bem como retenção (kumbhaka) do prana, por intermédio da consciência do que isso significa em termos de sutilidade.  
Pratyahara se manifesta no recolhimento dos sentidos (audição, olfato, tato, visão, paladar), evitando, assim, a conexão, por intermédio da identidade com o objeto externo disposto no chamado mundo visível ou perceptível (que é uma imitação ou representação). 
Dharana constitui a "fixação da mente (citta) em uma território" (BARBOSA, 2015, p. 101), enquanto dhyana é o foco ou a fixação da atenção em um único objeto, com convicção, atingindo-se, então, o samadhi, por meio do esvaziamento da "forma autêntica e semelhante à natureza do objeto" (BARBOSA, p. 101).
Assim, não constitui o yoga uma mera prática física e lúdica, mas, antes, um modo de vida, desde o aspecto espiritual, passando pelo ético, emocional, psicológico, mental e físico, razão pela qual não pode ser retratado superficialmente como uma sequência de poses, muito menos pelo aspecto meramente meditativo, pois essa polarização acaba desfocando da beleza e da profundidade desse sistema filosófico.
Dentro disso, o yoga é uma senda, um percurso, um caminho, e não um instrumental a ser acionado momentaneamente, por ocasião das aulas ou do convívio familiar, para se pretender mudar de vida e "sair da Matrix" (esse é o senso comum que tem se estabelecido).
É uma dedicação, dia após dia, por intermédio do enfrentamento as ciladas da mente arredia e indisciplinada, que nos faz cair no auto engano. 
O aporte imagético e o discurso subjacente a ele são também ciladas egoicas que, nesse sentido, atribui as chamadas fraquezas ao yoga moderno, que acaba reproduzindo o dilema estereotipado.
Isso requer uma profunda auto-observação em relação aos movimentos internos de fomento à concorrência, crítica velada, isso e tudo mais, dão a tônica do que o yoga moderno precisa depurar. 
Acredito que o caminho para isso seja desenvolver uma estratégia de abordagem orgânica, sensível, mas, ao mesmo tempo consistente, que se escoime nos textos, na leitura das peças mais relevantes e, sobretudo, na introdução de seus sentidos na prática diária do yogui
Nesse sentido, os cursos de formação têm um papel importantíssimo, quando comprometidos com essa verdade, pois permitem uma imersão profunda nesse universo desconhecido, alavancando o mergulho no próprio universo desconhecido do praticante, revelando seu dharma[9]
Por isso acredito que formação vertical ainda seja muito importante. Aprender asana e realizá-lo é importante, mas não representa a totalidade da experiência edificante que o yoga pode oferecer em termos de autonomia existencial. 
Para os professores-facilitadores-instrutores, creio que deva ser interessante introduzir, nas práticas, temas e elementos filosóficos, compartilhando, assim, informações congruentes sobre o yoga
Para os praticantes, creio que a disciplina e o foco na necessidade de estudar os textos seja prioritário (jnana yoga), devotando-se ao sagrado (bhakti yoga), realizando ações (karma yoga), imergindo na meditação profunda (raja yoga) e também no incremento postural (hatha yoga), advindo, daí, o ajustamento do Eu ao Si-próprio, ou, como presente na etimologia da palavra yuj, jungir, integrar ou unir!
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[1] Shala significa "casa".
[2] Darsana traz a ideia de visão ou vista.
[3] Bhakta significa devoto, do bhakti, devoção, que origina o bhakti yoga, yoga da devoção.
[4] Jnana yoga, traduzido como yoga do conhecimento, estudo.
[5] Soma, traduzido como extrato, libação usada nos rituais antigos védicos.
[6] Upanishads são textos antigos védicos, transmitidos oralmente. 
[7] Sadhana significa um caminho ou meio, senda. 
[8] Angas, traduzindo para membros, ou elementos componentes do yoga.
[9] Dharma, aqui empregado no sentido de vocação, dentro do caminho de austeridade e retidão na descoberta do Eu-em Si. 

segunda-feira, 30 de março de 2020


A imagem pode conter: flor, planta, natureza e atividades ao ar livre

“E as pessoas ficaram em casa. E leram livros, e escutaram, e descansaram, e se exercitaram, e fizeram arte, e jogaram jogos. E aprenderam novas formas de ser, e ser em quietude. E ouviram mais profundamente. Algumas meditaram, algumas rezaram, algumas dançaram. Algumas encontraram suas sombras. E as pessoas começaram a pensar diferente. E começaram a se curar. E na ausência de pessoas vivendo na ignorância, no perigo, no egoísmo e na inconsciência, a Terra começou a se curar. E quando o perigo passou, e as pessoas se juntaram novamente, elas choraram seus mortos e fizeram novas escolhas, e sonharam sonhos novos e criaram novas formas de viver e de de curar completamente a Terra, da mesma forma que eles haviam sido curados”.

- Kitty O’ Meara

quinta-feira, 12 de março de 2020

Notas de esperança em meio ao devaneio existencial em torno do COVI-19


Decidi utilizar meu blog para pontuar algumas questões sobre o COVID-19.

Primeiramente, como se trata de um vírus "novo" - ou seja, que não havia aparecido dessa forma antes, é inevitável que, como vírus, haja espargimento e contágio.

Simples assim.

Daí, como o vírus é "novo", estamos no início e, diante disso, inevitável perceber que teremos aí um tempo para a imunidade se ajustar.

Pessoas contrairão e não manifestarão os sintomas (assintomáticos), pessoas contrairão e manifestarão, em graus diferenciados.

A escala de propagação é em P.G., em média 2, 3 ou 4 para 1 infectado. Ou seja, o início. Simples assim.

Pessoas irão morrer (isso não é drama, é estatística, ou seja, ciência em cima dos dados que, desde já, mostram as mortes, dentro dos grupos de risco) e precisamos levar a coisa a sério, mas sem a pressão e o pânico.

Grupo de risco: sobretudo idosos (com taxa de letalidade entre 14% e 18%), depois pessoas com comorbidades (ou seja, quadro de patologias superpostas).

Comorbidades: diabetes, hipertensão, doença pulmonar crônica, doenças pulmonares e respiratórias em geral - asma, bronquite, enfisema etc.), imunossuprimidos em geral, portadores de câncer.

Não se sabe como o vírus reagirá, pois ele, como todo vírus, segue um fluxo, onda espécie de onda. Não sabemos como ele se comporta no calor, na oscilação. Tudo ainda sendo estudado.

Ele demanda cuidados que, a bem da verdade, deveriam ser o protocolo mínimo da BOA EDUCAÇÃO: a) tossir e espirrar tampando a boca; b) lavar periodicamente as mãos até o meio do antibraço c) usar álcool 70%.

Outros pontos importantes: evitar aperto de mão, abraço e beijo, não compartilhar talheres, evitar aglomerações e lugares fechados e sem circulação ou ventilação.

E, diante disso, "qual é a minha"?

Meu, a questão não é se eu vou pegar ou não, se vou morrer, ou não. Passa longe disso, até por conta das estatísticas.

A questão é se posso, sem saber que sou portadora, transmitir a alguém que é idoso ou do grupo de risco, porque a transmissão é COMUNITÁRIA, a partir das ocorrências de transmissão local dos últimos dias.

Por isso as providências institucionais e governamentais - locais, nacionais e internacionais. Porque o isolamento é uma medida de diminuição da zona de propagação. quanto menos as pessoas circularem, menos vírus lançam no ar.

Simples assim.

Países fecham fronteiras. 

Simples assim. Porque não querem replicar a propagação, e também não desejam que seus nacionais sejam atingidos. 

Qual o problema disso?

Sejamos honestos conosco: se alguém chega à nossa casa, nessas condições, ficaremos tranquilos? Nunca, porque empiricamente, sem isso acontecer, já se está intranquilo. 

Então menos hipocrisia.

O covid-19 é "criado"? É alien? É da F.E.M.A? É conspiração contra a China? Estratégia dos EUA? É o Coelhinho da páscoa, os arcturianos, a Nessie, que o trouxeram?

A pergunta: em que isso ajuda?

Vou dizer: EM NADA. Os gurutubers, instagramers e facebookers prenunciadores do caos e do apocalipse não AJUDAM em nada, pois ficam com a bunda na cadeira, na frente do computador, repassando informação que polui a mente e traz tensão e medo.

Eles não estão na China ajudando, eles não estão nos postos médicos e nos hospitais ajudando, sabem por que?

Porque eles mesmos são medrosos, ou, no melhor dos mundos, alienados também, quando, na polaridade, afirmam que tudo é ficção.

Epidemia se enfrenta com CIÊNCIA e DISCERNIMENTO.

Não com verborreia.

Quer ajudar? Compre máscaras, vitaminas, alimentos saudáveis e DOE, então, para quem está no grupo de risco do grupo de risco. Idosos que estão abandonados à sorte, que estão nas ruas.

Pessoas que estão fora do SUS, dos planos de saúde, da dignidade. Isso, sim, é ajuda, não cristal, corrente, mesa radiônica, ficar só orando, mantrando, yogando.

Aliás, cristal, corrente, mesa, yoga, meditação, oração deveriam servir e servem para que deixemos de ser um pouco (muito) lunáticos em devaneio, devaneio no passado alien-annunaki ou no futuro missão-marte-abdutora, para estarmos no AQUI E NO AGORA, com a percepção de desapegar da HORDA DE DESALENTO que nós mesmos projetamos coletivamente.

Ore, mantre, yogue-se e cristalize-se para ser alguém melhor na vida, procurando olhar o outro, e não seu umbigo...

Tira a bunda da cadeira, fecha a matraca, tira a mão do mouse e vá fazer algo...

Esse é o maior desafio para essa raça que se diz humana, mas que parece ser humanoide (ou seja, robotizados sencientes): lidar com o sentimento de medo, apego, temor, pânico, restrição, desconhecimento.

Dar azo ao ESCLARECIMENTO, à REFLEXÃO PONDERADA, ao ESVAZIAMENTO DE ILUSÕES...

Cuide de si, mude seu PADRÃO VIBRATÓRIO para, com isso, MUDAR A FORMA COM QUE ENXERGA O MUNDO, com a qual AGE NO MUNDO.

Ajude... Seja ÚTIL em sua vida para com outras pessoas.

Mude seus hábitos alimentares. Cuide do que ingere pela boca, pelos olhos e pelos ouvidos: somos essencialmente alimentados por esses sentidos.

Sobretudo, perceba o OUTRO: idosos e portadores de comorbidades. Cuide deles, evitando ser você um vetor transmissivo. Se ficar de paranoia, ligue para as autoridades sanitárias, ou vá ao hospital nas hipótese recomendadas.

Mas faça alguma coisa sem ser apregoar a destruição, porque disso, o mundo está cheio!!!!!!!!!!!!!!!!!!

quarta-feira, 11 de março de 2020

Yoga solidário!


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🕉 Compartilhando nosso encontro no SÁBADO, dia 14/03, às 8h00 no Centro de Formação e Cultura Nação Zumbi Zumbi para nosso AULÃO de YOGA & MEDITAÇÃO!!!
🕉 Endereço: Quadra 29, lote 21C, Bairro São José - São Sebastião).
🕉 Traga seu tapetinho, sua água, venha com roupas confortáveis e com muita animação!!!
🕉 Contribuições: R$20,00 (revertidos para o Centro de Formação e Cultura Nação Zumbi Zumbi).
🕉 Informações: (61) 99941 0964 (Silvania Dias) / (61) 99652 2580 (Alessandra de La Vega).
🕉 instagram: @zumbinacao / @alessandra.delavega.5

domingo, 26 de janeiro de 2020

Yoga, uma jornada de autotransformação...

A imagem pode conter: Alessandra de La Vega
A trajetória existencial humana é marcadamente caracterizada por inúmeras situações que acabam se transformando em verdadeiros marcos em nossa existência, seja porque imprimem sensações que se prolongam e trazem alegria, leveza, plenitude, saudade ou dor, seja porque, a partir delas, contundentemente a vida não pode ser mais a mesma. 

Trata-se de um divisor de águas na jornada, uma espécie de raio incidental que, cortando o curso causal da existência, imprime novos caminhos. 

Ou, usando uma metáfora mais imaginável sensorialmente, uma enxurrada que modifica o curso do rio, de tal forma que, depois da chuva, a geografia não pode mais ser a mesma, como no imaginário de Heráclito de Éfeso, para quem subsiste a impossibilidade do rio e do ser humano não serem mais os mesmos diante da efemeridade...

A primeira pedalada sem rodinhas, o primeiro tombo, o primeiro beijo, primeiro dia de aula: inícios, de maneira geral, trazem aquela sensação mista de borboletas na barriga, um friozinho gostoso diante do desconhecido que se apresenta, como uma esfinge, para que o desvendemos. 

A primeira vez em que participei de uma prática de yoga, lá pelo ano de 2005, foi exatamente assim, uma enxurrada que reconfigurou minha existência... 

Isso porque, desde criança, sempre tive curiosidade inata em relação às questões do céu, da terra, da água e do ar (como diz a música), elaborando um mundo lúdico de fadas, gnomos, bruxas e magia que, depois, com a idade, foi compartilhando espaço com outras buscas espirituais. 

O percurso, contudo, configurava-se a partir de uma evasão de mim para o "alcance das estrelas", num processo racional de conhecimento distanciado da alteridade divina e do ambiente, sem que nele necessariamente eu estivesse presente como elemento de potencial e latente transformação. 

Essa apartação acabava por desconsiderar um percurso de internalização e solitude necessários para a penetração, a fundo, nas questões mais viscerais, ora registradas nas camadas mais densas da psique, alma, espírito e, sobretudo, consciência, ora nas mais sutis e impenetráveis pela racionalidade ordinária. 

Cultos, rituais, transcendência para encontrar a luz, a salvação, Deus. 

Independentemente de credo, religião ou prática espiritual, os caminhos duais de transcendência marcam numa espécie de catapulta espiritual, para que, por meio de orações, mágicas, sigilos, ingredientes etc., saiamos da experiência carnal entendida como ordinária, profana e comum (até mesmo pecaminosa), para a sublimação em um mundo de amor, compaixão, discernimento e poder. 

Familiarizada com as catarses, recusava o yoga e a meditação...

Meu melhor amigo presenteava-me com livros e mais livros nesse tema, mas, àquela época, não lia coisa alguma, porque a quietude que apresentava a partir deles era incompatível com o fulgor do pulsar dos "meus" átomos arredios. 

Praticante ávida de natação (5.000, 6.000 metros por dia), acreditava piamente que yoga "não era para mim", pois era muito "devagar, quase parando", não produzia tônus (rsrsrs). Meditação, então, impossível, pois "não conseguia" (essa era a programação mental), achava que não "era para pessoas ansiosas". 

Foi quando, em 2005, bem estressada com a vida profissional e acadêmica, conheci a prática de yoga com a yogini Kátea Barros no Centro Olímpico da Universidade de Brasília, para onde fui por muita, mas muita insistência de um colega de profissão. 

Uma fenda disruptiva, então, deu início à mais acalentadora sensação de plenitude e leveza que poderia experimentar. 

Primeiro, porque desfiz o mito de morosidade que cerca o imaginário de quem não conhece o mundo do yoga. Permanecer nos ásanas, harmonizando aspectos tão caoticamente dispostos em minha fisiologia foi o primeiro desafio, já na primeira prática, pois sequer permanecer nas posturas consegui. 

Respiração ofegante e torácica de um lado, membros trepidando de outro... 

Mente perdida nos prazos processuais, espírito-não-sei-onde-estava... 

Essa fragmentação foi, de fato, o primeiro impacto que recebi de percepção dissintônica em relação aos meus corpos. 

Diante desse horizonte dantesco do "primeiro dia", a prática de yoga foi consolidando um caminho de disciplina, constância e perseverança, resultando transformações substanciais em minha vida.

Começou inicialmente por imprimir mais resiliência, foco e determinação nos propósitos e ações, sobretudo diante de tantas atividades que costumava começar e não continuar na infância, adolescência e fase adulta (lutas, ballet, natação, basquete etc.). 

Nesse sentido, o yoga facilitou a estabilização emocional, aplacando a ansiedade que me fazia desistir das atividades de que tanto gostava, apaziguando meu espírito e edificando a plenitude necessária para o mergulho no autoconhecimento. 

Desde 2005, lá se vão anos sem que eu tenha parado ou abandonado a prática. 

Isso não me faz, por óbvio, uma yogini profissional, imageticamente posicionada nas redes sociais com séquitos de "seguidores", tirando selfies e mostrando malabarismos do Cirque de Soleil

Aliás, a cada dia tenho sentido, mais e mais que, numa foto, para a qual nos "preparamos" e "preocupamos", muito pouco existe de yoga e muito há de mera performance (pois yoga é senda, impassível de ser abduzida, captada, coaptada e limitada no achatamento fotográfico instantâneo e que, consciente ou inconscientemente, pode servir para aporte egoico de superação). 

Aliás, levei bastante tempo para superar o medo e subir no shirshasana

Longe disso, ainda manifesto limitações e contingências, mas, por outro lado, trata-se de clarificar processos, imergir na jornada e, descobrindo mais sobre mim mesma, seguir adiante e organicamente me soltar, entrar nas posturas...

Com isso, antes mesmo de pretender elaborar posturas difíceis, a mágica do yoga foi agindo, camada a camada... 

Primeiro, facilitou a estabilização emocional, aplacando a ansiedade que me fazia desistir das atividades de que tanto gostava, apaziguando meu espírito e edificando a plenitude necessária para o mergulho no autoconhecimento. 

Ainda na externalidade, outro aspecto para o qual o yoga contribuiu bastante foi a redução de peso, pois, no ápice da ansiedade, experimentei uma compulsão alimentar que me fez alcançar 85 quilos, o que era totalmente antagônico à minha formação, pois vinha de um lar “alternativo” (mãe proprietária de uma loja de produtos naturais e tia bióloga, ufóloga, macrobiótica e, depois, vegetariana). 

Pouco a pouco, voltei a me nutrir melhor, retomando antigos hábitos saudáveis de alimentação e, com isso, voltando ao peso usual e saudável. 

Concentração, paciência, resiliência e, sobretudo, discernimento, esses foram e têm sido as grandes contribuições do yoga em minha vida desde então, culminando com o retorno para os estudos sobre espiritualidade e ciência. 

Venho de uma dupla formação, indo da Física (1989-1993) para o Direito (graduação em 1998, mestrado em 2003 e doutorado em 2014), ambas ciências ditas “tradicionais” e dogmáticas, em contraste com a fluidez e a suavidade do yoga enquanto filosofia, conhecimento e, sobretudo, prática.

Com isso, tenho transposto alguns desafios que julgava, até então, intransponíveis (enrijecimento da coluna, medo de realizar uma invertida, entre outros). 

Com o yoga vieram novas literaturas em áreas que guardavam alguma relação entre si (Física Quântica, hinduísmo, budismo, ayurveda, neurociência), que, por sua vez, encadearam novos mergulhos, principalmente no Sagrado Feminino e no Ecofeminismo. 
A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, pessoas sentadas, mesa e sala de estar

Tudo se articulava harmonicamente nessa senda, acarretando, cada vez mais e mais, mais superações em minha vida. 

O yoga, assim, foi um grande apaziguador e curador de muitas feridas, incentivando-me a desejar contribuir para que outras pessoas, sobretudo mulheres, pudessem igualmente usufruir da magia curativa desse caminho de fé e esperança. 

Hoje, após o curso de formação, sigo na senda, compartilhando a prática com quem desejar mergulhar mais em si e, para além de si, no universo em contemplação. 

Durante 8 meses estive à frente do voluntariado em uma ONG daqui da região, o que, ao final, muito mais do que formação ou certificação, trouxe-me, como ser e andarilha, o estreitamento de laços, não apenas com as praticantes envolvidas no projeto social, mas com a comunidade local. 

Tenho aprendido muito sobre sustentabilidade e bem-estar com os comerciantes, artesãos e produtores locais, cultivando o hábito de ir até a Feira do Produtor, bem como a hortas locais para encontrar verduras, legumes, frutas e alimentos orgânicos mais acessíveis e cuja procedência acabo por conhecer mais e melhor. 

Essa jornada ainda está em pleno vapor. 

Não existe chegada, meta, objetivo, pois descobri que o passo-a-passo é, em si mesmo, a jornada inteira, processo transformador que não está acabado, uma vez que a continuidade da impermanência nos faz sempre seguir. 

Mas, diante desse elongamento que se desdobra em si, numa jornada de solitude (e não solidão), desejo, daqui para frente, consolidar minha prática, mergulhar mais profundamente nos estudos e praticar, no meu dia-a-dia, tudo aquilo que, no tapetinho, consigo realizar.  

A imagem pode conter: flor, planta, céu, atividades ao ar livre e natureza
Assim, leve, bem de leve!!!!

Namastê!!!!