domingo, 29 de abril de 2018

Lua Rosa e Samhaim: preparando a alma para o fim da roda do ano e o início de mais um ciclo!

"The night is dark, the way unknown
I journey with no light or sign, no fear or hope,
Without knowing if I'm near or far from you, Mother, 
For I see the path behind,
But not where you are leading me[1]"
Mirella Faur (2016, p. 17)


Às 21h58min a Lua resplandece e fica Cheia, marcando o Plenilúnio em Escorpião, nesta, que é a primeira Lua Cheia do outono e, por esta razão, chamada de Lua Rosa, marcando a mudança de estação. 

Por aqui, a temperatura está progressivamente baixando, a chuva escasseando e o ar ficando mais seco: é a Natureza se preparando para a chegada do Inverno, a estação da latência e da hibernação, ocasião em que guardamos nossas reservas energéticas para enfrentar as baixas temperaturas.

Nos locais de alto inverno, onde a oferta de comida fica rarefeita - como nas tundras e florestas geladas -, o outono marca o finalzinho da preparação do estoque de alimentos para que, diante do clima adverso, não falte alimentação. 

Aqui não neva, ainda, mas o momento é de internalização, onde a gratidão pela colheita farta do ano cede espaço para a mudança drástica de estação, com a finalização do ciclo da roda para os antigos celtas, que tinham no calendário agrícola e nas estações marcantes (inverno e verão) sua forma de marcar o tempo e o curso da história. 

Dia 1o. de Maio no Hemisfério Sul comemoramos Samhaim, fim e início do ano celta, noite sagrada em que os véus dos mundos se abrem para que as dimensões e o seres possam se comunicar entre si. 

É o início da estação escura do ano, dedicada às deusas que representam a face escura da Grande Mãe, a sombra presente em todas nós. 

Mirella Faur no livro As faces escuras da Grande Mãe: como usar o poder da sombra na cura da mulher, lembra que a sombra é a parcela reprimida de nossas características psíquicas, reprimidas tanto individual como socialmente

Creio que a metáfora do quartinho de despejo seja a mais adequada para tentar retratar o que a sombra significa, um lugar onde "jogamos" tudo aquilo que desejamos negligenciar ou não enfrentar: uma hora, ao abrir a porta, tudo cai em cima de nós, lembrando-nos que não podemos fugir de nós mesmas. 

Nosso elo de comunicação com a sombra reside, quase sempre, nos sonhos, insights, bem como nos movimentos inconscientes nos quais nos vemos "lançadas", bem como nos atos falhos e em tudo que representa uma materialização de algum impulso que não sabemos muito bem de onde tiramos: uma espécie de padrão contra o qual passamos boa parte do tempo em luta.

Escrevi, certa vez, um conto chamado O monstro e a face, retratando nele meu encontro com minha sombra, quase sempre feito de maneira conflituosa, de início, mas, depois, ao compreendê-la melhor (por me compreender melhor), harmonizando-me com ela. 

Nessa fase de Samhaim (sem luz, sombra), cultivamos a conexão com as deusas escuras, tais como Andraste, Morrighan, Cailleach, Cerridwen, Macha e Maeve, além das emblemáticas figuras de Morgana, Rhiannon e Sheela-Na-Gig, todas reunidas em torno da ideia de deusas escuras, que nos colocam em contato com nossas sombras e fazem aflorar o que reprimido foi pela herança patriarcal de controle.

Essa época do ano marca a introspecção para que nos renovemos...

O horizonte iluminado pelas velas mostra o caminho para quem já deixou essa egrégora poder encontrar sua senda. Tudo é austero e lembra o findar dos dias, para que novos dias se avizinhem.

Reza a lenda que Morrighan e Dagda deitam-se em Samhaim às margens do rio Shannon para selar uma união mágica entre vida (Dagda) e morte (Morrighan). 

Tudo envolto em magia, mas, também, em reverência e calmaria. Tempo de meditação, sobretudo nesta noite auspiciosa de Lua Rosa, que marca a vinda do novo. 

Por aqui o mundo giro, a roda se une, tal qual um grande ouroboros. 

A Natureza em seu magistral recado, enviou uma enxurrada para o condomínio, que fez com que o curso do rio mudasse e, com ele, a cachoeira secasse. Foi assustador, de início, mas marcou dentro de mim a ideia de mudança no fluxo da minha própria vida. 

Mergulhei, a partir disso, em minha sombra, para compreender, ao final, a razão interna das projeções que, por afinidade, encontraram outras projeções, na reciprocidade de relações. Decidi estar e permanecer comigo e, por certo, tenho sido minha melhor amiga e companheira. Eu e minha sombra.

É hora de deixar o antigo sair e brindar o novo na mudança produzida por Samhaim e potencializada pela Lua Rosa. Esse é o sentido de tudo. 

Céad mille fáilte!!!!


[1] "A noite é escura, o caminho desconhecido, eu sigo sem luz ou qualquer sinal, sem medo ou esperança, sem mesmo saber se estou perto ou longe de ti, Mãe, pois eu vejo a estrada atrás de mim, mas não sei para onde Tu me levas, Mãe" (tradução da autora)

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