sábado, 17 de março de 2018

O Sagrado Feminino entre os véus da vida e da morte: a transcendência no limiar de novos ciclos


A meia-idade (situada entre 38-45 anos) é uma época que marca em nós, mulheres, uma profunda mudança em nossas mentes, almas, corpos e corações, situando-nos para a vivência no fluxo da constância da alma que se liga aos ciclos de vida-morte-vida. 

Tal qual a Lua que se enche, plenifica, esvai e se recompõe, nós, mulheres, igualmente seguimos essa trajetória. Não é à toa que a historicidade ancestral sempre uniu os fluxos das mulheres às lunações da Senhora de Prata: a donzela (pueril, no início da jornada), a mãe/guerreira (que se encontra na plenitude de sua vivência e a anciã, a detentora dos mistérios e segredos que regem a vida e a morte. 

Sangramos com a Lua Cheia, recolhemo-nos com a Lua Negra. 

Amamos sob a luz da Lua Nova, regozijamos na Lua Crescente. 

Extravasamos sensações ditas como "irracionáveis" e "histéricas" nos 28 dias que marca um giro completo no caldeirão diversificado de emoções, sentimentos, sensações e mergulhos, muitas vezes incompreendidos - tantos pelas irmãs de sangue, quanto pelos homens que invisibilizaram o feminino na história. 

Loucas, histéricas, irracionais e todo o desqualificador que paradoxalmente marca amor, respeito, raiva e admiração por nós, mulheres plenas.  

Com isso somos temidas, odiadas, mas também desejadas, pois, afinal, o poder dos mistérios de sangue gravita em torno do cerne da criação, que é feminina. Da intuição, que é feminina. Da soberania, que é feminina.

Da Deusa, que é a expressão máxima do Feminino Sagrado. 


Assim como a chegada dos dias de lunação, a devir dos anos incorpora à jornada da mulher vincos, cicatrizes, marcas de nossa vivência e experiência ao longo de nossa senda espiritual, dotando-nos de sabedoria na contemplação da vida, bem como nos preparando para a continuidade mágica de nosso percurso até o momento de transposição do véu da morte. 

A cultura ocidental - com raras exceções - progressivamente passou a evitar a morte: não se fala sobre o morrer, é um tabu, assunto proibido nas rodas de prosa. Sempre estamos a celebrar a VIDA, não convidando para compor a mesa a Senhora do Negro Véu, cuja presença é inevitável e imprevisível. 

Mirella Faur em seu livro O legado da Deusa: ritos de passagem para as mulheres comenta ser a morte "temida, esquecida, ignorada ou evitada por ser considerada um mau presságio" (2003, p. 232), de modo que, não-raro, tudo é feito para se evitar encarar o final da existência corporal.

A ordem do dia é viver 100, 200, talvez uma eternidade e, com isso, promessas e milagres são emprenhados, apenas porque, ao final, inseguro(a)s sobre o findar da vida, desejemos perpetuar nossa permanência aqui na tridimensionalidade. 

Dicas sobre ilusão da morte, roda de samsara, vida eterna, viver de luz, programação quântica das células, urinologia etc. somam-se no imaginário coletivo para proposição de estratégias de evitabilidade do momento, alojando-nos, quase sempre, para uma reprodução de fórmulas e elixires "da vida", fazendo com que o caminho seja relegado para segundo plano em função da busca permanente de vitalidade. 

Importante considerar, por outro lado, que, ao lado da proposição de evitabilidade da morte, existem culturas (tais como a viking, celta, tradição xamânica, indígena) nas quais a morte é retratada como uma decorrência natural do ciclo de vida conectado à Natureza, bem como às suas regras submetido: tudo que e orgânico nasce, desenvolve-se e morre, completando, dali a frente, outros tantos infindos ciclos.


Nossas células nascem e morrem o tempo inteiro. Nossos cabelos caem, nossas unhas crescem e são cortadas. Nossa pele descama. Nosso funcionamento interno eclode em um eterno ciclo de ordenação e desordenação, para, dali a frente, recompor nossa integridade. 

Não seria exagero dizer que nascemos e morremos o tempo todo sem que sequer tenhamos consciência desse processo, tamanha a alienação e desconexão da Natureza. 

Olhar a Lua e seus ciclos, a maré e seus rompantes, bem como a água e seus refluxos, passou a ser uma espécie de clichê na Nova Era, aglutinando curiosos leitores de blogs, ouvintes de hangouts e leitores ávidos em um processo mecânico de acúmulo de pseudo conhecimento, sem que a vivência corresponda à senda mágica. 

Walk your talk...Ou seja, caminhe de acordo com o que fala...a máxima para a vivência do sagrado. 

E, dentro dela, viver os mistérios da morte nada mais é do que natural decorrência da maravilhosa realidade quântica sobre a qual muito se fala sem se saber o que é (vida e morte são, assim como o elétron, perspectivas dentro de um mesmo sistema).

Por isso os celtas, como povo nobre que sempre foi, investia na vivência plena da vida, bem como na conscientização quanto à mudança que advém com a morte, regida por ninguém menos do que Morrighan, a Grande Senhora dos Corvos!

Para eles, a morte é resultado da honra, do caráter, da retidão e conexão ao Todo realizado ao longo de uma jornada, apenas e tão-somente porque isso é viver. Viver em comunhão com a Natureza, com os elementos, com o Cosmos. 

O enunciado moral de vida após a morte como expiação ou mérito é uma herança judaico-cristã, especificamente cristã, que impele as pessoas a serem boas ante à promessa de recompensa, e não por pressuposto em se ser assim.

Essa perda de sentido trouxe outra perda: ruptura com a Natureza e a desconexão dos mistérios, relegando, assim, a Morte como uma pena, expiação ou consequência de um pecado original. 

Mas para o Sagrado Feminino e, sobretudo, para quem está na senda por afinidade de alma, a Morte é linda, bela e admirável. Ela encerra um, mas inaugura outros ciclos. Cabe a cada uma de nós a escolha sobre como desejamos renovar nossas existências, apenas e porque vivenciamos cada uma de nossas vidas com plenitude, intensidade e sabedoria. 

Esse é o segredo que poucos conhecem. 

O universo masculino, infelizmente, muito longe, ainda que se esforce em pretender a compreensão, pois não se trata de acesso mental, e sim emocional e espiritual. O universo das mulheres ainda não despertas em sua sacralidade, uma perda de sentido do que se deseja criar em vida. 

A transcendência, dentro disso, emerge como uma necessária volta ao conhecimento ancestral sufocado pela ignorância de um mundo repleto de pessoas que temem a Morte. Que não desejam a Morte. Que repudiam a Morte. Mas que não conseguem, à plenitude, compreender seu papel diante da própria existência. 

Céad mille fáilte!!!




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