sexta-feira, 28 de julho de 2017

Quando a sombra encontra o sol: idas e vindas de Morrighan, a Senhora dos Três corvos

Todas as vezes em que me pego em uma reflexão intensa e silenciosa, achando estar em uma zona de conforto, algo surpreendentemente mágico acontece. Vem de mansinho, sem pedir licença, entra de sola e se apresenta como uma possibilidade, mais uma nesse cenário enriquecedor que é o viver. 

São esses os momentos em que simplesmente "sumo" do mapa, deixo de escrever, fico reclusa e depois ressurjo, contando novas histórias e me preparando para novas jornadas. Quase quatro meses de silêncio aqui, no meu recôndito sagrado, o que me fez, confesso, muita falta. 

Escrevo isso porque achei, durante esse tempo, que as deusas e a Natureza haviam me abandonado... 

Sim, por alguns meses me peguei em uma intensa mudança em minha vida e, com ela, encuquei com o predomínio do elemento terra em meu momento, quer seja por me sentir atrelada ao chão, ou, ainda, por acreditar que estava em um processo de veneração ao cobre, ao vil metal que muito nos seduz e cativa. 

Sempre veneradora do Sagrado, celebrando lunações e conjurando bruxedos, desde maio me vi dedicada a outros projetos que marcaram e estão marcando minha vida. Antes disso, minhas tardes eram dedicadas ao puro ócio criativo, ao yoga e ao deleite. Às rodas de magia, às comidas que preparava e ao sono reparador. Ao aconchego do colo do Gabriel, ao café às 17h00, aos filmes e às séries no laptop...

Mas compreendi que esse foi um ciclo. 

Não tenho dúvida de que retornará, mas, enfim, o ciclo, esse ciclo, ao menos por esse tempo, foi-se...tristeza? 

Sim, sim, uma pontada, porque, afinal, estava me sentindo muito "terra", e, nessa sensação, achando estar abandonada. A boa e velha característica da terra, o apego que tanto nos move ao sofrimento em não querer "deixar ir embora" no fluxo da vida. 

Meus rituais começaram a minguar, fiquei desanimada. Murchando aos poucos, enquanto paradoxalmente outros setores da minha vida começavam a se intensificar em meio ao que senti como o mais perfeito prenúncio de caos. 

Até a acolhedora cachoeira ficou para trás nesse processo, pois fui tomar banho um dia desses e tive muito frio, com aquela sensação de alfinetadas na pele. Não senti a conexão, senti frio e solidão em meio à paisagem acolhedora. Ainda que estivesse super bem com o estímulo do Gabriel para eu me banhar nas águas da cachoeira, simplesmente não foi. Não aconteceu. 

Forcei-me a me (re)ligar quando, a bem da verdade, não estava nesse fluxo. Por outro lado, entendi, num lampejo de conexão, que o inverno é o inverno, uma estação de recolhimento, e não de espargimento. Que era hora de parar, de respeitar o fluxo, dentro e fora de mim. 

Também, pudera, está frio aqui no cerrado e estamos experienciando temperaturas baixas, com sensação térmica próxima a zero grau em alguns momentos. É o momento de reduzir a entropia a algo próximo a zero e imergir na estaticidade que nos impele ao autoconhecimento. 

Atividade nova, novos desafios, dentro e fora do trabalho. 

Licenciamento da carteira que tão gentilmente me ajudou nos processos em que atuei. Olhar para o site e não mais ver meu nome nos processos. Substabelecer para meu pai... Coligar o tempo lá com a faculdade, trabalhar 14 horas por dia, todos os dias. Meu corpo cansou, vacilou, imunidade baixou...

Meu yoga, distante...

Isso mexeu comigo, o bastante para me sufocar, desanimar, convolar-me em alguém em quem não quero me tornar, mas, estava, estou, sei lá. Falta de paciência, cansaço. Sem ânimo para DR. Vontade de simplesmente bicar tudo e todos. Os sintomas. A TPM de rompante, levando consigo o resquício daquilo que não tenho: calma, paciência.

Porém, quando descobri, no mais profundo mergulho de uma solidão desesperadora (é aquela quando ninguém mais consegue nos entender, por mais que gritemos, choremos e esperneemos), enfim, minha alma decidiu lutar.

Hoje, porém, (re)descobri a verdade, a minha preciosa verdade. Ela já estava voltando... No final de semana, fiquei feliz em ir até o riacho do condomínio com o Gabriel e simplesmente descansar o pé na água...Sem compromisso com nada a não ser com a própria experiência. Sem me cobrar ou me sentir cobrada. Sem dar satisfação da minha vida e das escolhas que faço - afinal, estou buscando é fazer o melhor, e não o pior...

Foi pela manhã, quando usualmente faço a conexão com a ancestralidade durante o percurso entre minha casa e a pista, uma estrada linda por um vale iluminado pelo sol de inverno. Conjuro os elementos, a casa ancestral, lacro os chackras e, hoje, num ímpeto, entrei na egrégora daquela que sempre está ao meu lado: Morrighan, a grande senhora dos três corvos. 

Cheguei até ela quando fui até a lojinha em que me abasteço de produtos e vi a estátua dela. A minha tinha sido vilipendiada pelos gatos que, na patada, quebraram-lhe as asas. Agradeci e depositei a Morrighan em seu nicho. 

A vontade de meditar, então, retornou. A conexão, com aquele frio na barriga, veio à tona e hoje, hoje, nessa linda manhã dourada, senti a presença dela no sangue que subiu em mim. No ímpeto, na ira. No fervor das entranhas. 

Pedi a ela que abrisse o caminho para que eu enxergasse o que não estava conseguindo perceber. Que defraudasse o véu de quem contra os meus atentasse. Não sei bem quanto tempo fiquei assim, mas o estado de transe êxtase parecia uma eternidade. 

Foi quando cheguei ao meu trabalho e tudo que precisava saber e fazer, enfim, veio à tona. Teias foram tecidas. Verdades foram ditas. E minha alma, enfim, descortinou a sensação de cansaço. 

Compreendi, pois, que a egrégora em que estou é da mais profunda destruição do que é realmente ilusório. Não nos outros, muito menos nas instituições. Mas em mim e na forma como depositava fé em idealizações que somente faziam sentido para mim.  

Percebi, enfim, que não posso fugir do que se me apresenta. Que essa é a energia da Grande Senhora dos Corvos, que está comigo esperando esse momento passar. Que não posso tentar correr, com sofreguidão, para uma vida e um ciclo que não estão aqui. 

Que preciso, enfim, abraçar a sombra, e não sair correndo em rota de fuga do que foi minha escolha em parte do meu caminho. Fugir disso seria fugir de mim mesma e, sinceramente, acho que já isso demais na vida. O tempo, agora, é de me abrigar nesse caos e esperar que tudo passe...


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