terça-feira, 22 de novembro de 2016

Liberdade, Arte e Soberania

Quando lemos - a partir do paradigma "oficial" - as histórias deturpadas sobre bruxas más que tentam corromper as princesas, logo nos deparamos com um retrato caricato: velhas, corcundas, verruguentas, rabugentas, antissociais e... solteiras

A "velha bruxa" invejosa sempre deseja diluir os sonhos casamenteiros das princesinhas adormecidas, que esperam inertes pelo beijo de despertar. A partir daí, um mundo novo se apresenta para as noviças, que supostamente alcançarão o ápice de suas vidas na legitimidade que lhes confere o garboso príncipe beijoqueiro. 

Antes do beijo, princesas imaculadas...

Depois do beijo, a felicidade que só faz sentido se existir um príncipe que torne a existência da princesa factível. Absurdo? Até uns tempos atrás, inspirador de gerações de mães que, desejosas em recriar a fábula, transformavam suas filhas em princesas resignadas, condicionando-as ao caminho do automatismo emocional...

Os contos de fadas e a mitologia celta operam no contra fluxo desse modelo estereotipado de final feliz, sendo até mesmo considerado pouco sangrentos, por reunirem elementos excêntricos de narrativas. Um dos ingredientes principais - revelador dos mistérios e segredos mais abscônditos - reside na total inversão de perspectiva quanto à aparência: nas histórias celtas, usualmente a beleza guarda perigos, enquanto a feiura esconde segredos revelados usualmente por uma quebra de algum encantamento.

Vejam a narrativa do Casamento de Gawain, por exemplo, uma história conhecida também pela Soberania (Ou Sir Gawain e a Dama Abominável), na qual o rei Arthur é concitado por uma velha feia a romper um feitiço, não se antes prometê-la em casamento a um de seus cavaleiros, Sir Gawain. Na noite de núpcias em que a horrenda mulher se apresenta para ele, deve Gawain decidir se deseja tê-la bela durante o dia e feia à noite ou o contrário. 

O cavaleiro, resignado com seu destino selado pelo monarca, fala para a anciã que ELA poderia escolher o estado que melhor lhe aprouvesse e, a partir de tal fala, sem perceber e de boa-fé, quebra o encantamento que um bruxo lançou sobre a anciã - na verdade, uma princesa. Caso clássico de encobrimento por intermédio da ilusão da aparência, mote das histórias celtas.

Outro ingrediente importante - e ponto de reflexão dessa postagem - diz respeito à posição das mulheres nos contos celtas. Ao contrário das histórias tradicionais europeias em que a mulher é submissa, ingênua e fadada ao destino de se coligar ao homem para compor a completude, os contos celtas apontam heroínas protagonistas de suas histórias, que não demandam complementariedade binária para serem íntegras.

As deidades celtas - Morrighan, Macha, Ceridwen, Maeve, entre outras - estão longe de encarnar o papel de acessoriedade com que elaborou um arquétipo de mulher empoderada. 

Morrighan deita-se com Dagda na vau do Shannon e abençoa os Tuatha em uma das batahas contra os invasores do Eire. Enamora-se de CuChuláin e, diante da ofensa contra ela irrogada pelo guerreiro, envia o séquito de corvos para se alimentarem das vísceras do herói ferido em sua última batalha.

Macha vive com Crunniuc até o momento em que o marido dá com a língua nos dentes e revela ao Rei Conchobar que a esposa corria mais que os cavalos reais. Exposta ao ridículo e obrigada a correr estando grávida de gêmeos, a deusa não perdoa o marido: retira-lhe todas as bençãos (colheita, fartura, abundância e felicidade), amaldiçoa os homens do Ulster e simplesmente vai embora com seus filhos.

Maeve, a rainha plena, tanto se deitava com quem bem entendesse, como, também, era o cabeça do casal, pois no casamento celta que liderava a família era o consorte que trouxesse um dote maior, independentemente de ser homem ou mulher. Ceridwen era a deusa anciã, guardiã dos segredos do caldeirão do conhecimento, que engravida e dá à luz a Taliesin, uma das personificações de Merlin, sem ser fecundada por um encontro carnal com um homem. 

São muitas as histórias de bem sucedidas "solterices" e não é sem propósito que, na maior parte dos contos e das histórias celtas, as mulheres constroem suas sendas na solitude, sem o vínculo matrimonial, a despeito - como no caso de Ceridwen acima narrado - de exercitarem, por exemplo, a maternidade.

As "bruxas" solteiras, nesse paradigma, dão o alerta para o véu ilusório da aparência de beleza que se encerra por trás das historietas medievas: finais felizes de nulificação do feminino, que soterra a sabedoria ancestral encoberta pela feiura da bruxa má. É um recado iniciático: desnude o véu da ignorância sobre as questões do mundo físico que a senda dos segredos etéreos se revelará para quem ultrapassa a fronteira do que é visível apenas para os olhos físicos. 

Dito de outra forma: da transcendência da obviedade que a aparência física mostra reside a sabedoria do conhecimento do oculto e do sagrado, tangível apenas pelo acesso que os olhos da alma revelam. O vórtice frontal aloja fisiologicamente - entre as sobrancelhas - a glândula pituitária que, associada à pineal, concentram enorme capacidade cognitiva em nível de processos intuitivos conscientes, um bom começo para se falar em transcendência do visível.

Laurie Cabot em seus dois livros (O despertar da bruxa em cada mulher e O poder da bruxa), compartilha técnicas interessantes de acionamento dessas glândulas. Batidinhas leves no meio da testa, com o polegar indicador, dedo médio e anular unidos também produzem um despertar de consciência do terceiro olho, que se abre, aos poucos, para perceber os processos quando nossos sentidos basilares não conseguem. Automassagem com unguento ou óleo essencial de sândalo ou alfazema produzem um efeito catalisador da abertura subconsciencial, sendo de grande valia para a abertura ou conexão. 

Quando nos permitimos "olhar" com os olhos da alma o que se nos apresenta, começamos a observar detalhes passavam outrora despercebidos, como, por exemplo, no meu caso, tenho me dedicado - ao longo da trajetória - a me observar melhor nessa questão de lidar melhor com a liberdade e soberania, o bastante para não mais cogitar em sequer permitir qualquer arranhão em minha essência, sobretudo, nas escolhas em termos de afetividades.

A questão é bem simples: não existe uma regra para a vida em liberdade na Arte e no Sagrado Ofício iniciático. Conheço bruxas solitárias, bruxas noivas, enamoradas, viúvas (hahaha, boa parte da minha família materna) e casadas. Também conheço bruxas solteiras, mães solteiras. Cada uma com seus desafios, bençãos e propósitos, levando-me a piamente crer - por experiência própria - que o caminho de cada uma lhe é inerentemente peculiar, não existindo uma lei - ao contrário das histórias infantis - apregoando que "bruxas não se casam", ou, ainda, "bruxas não têm filho/as". 

Esses "mantras de certeza" trazem cobrança e violação à alma, além de impedirem a experienciação de novos horizontes. Creio que estamos aqui de passagem, nessa que é uma, dentre várias possíveis existências e, por conta disso, a viver a senda, com todos seus desafios, é essencial para a lapidação da alma. Com ou sem alguém. Mas sempre na plenitude de percorrer com dignidade o caminho.

O caminho é o objetivo, estar ou não com alguém é a contingência. Para a mulher empoderada, a "bruxa" plena e consciente de seu poder, percorrer com liberdade e soberania o caminho é a única forma de se conhecer, de compreender suas sombras e seus desafios e, com isso, galgar voos cada vez mais altos. 

Compartilhando minha experiência, gosto de viver na solitude, sinto-me extremamente bem no aconchego do meu lar e na companhia de meus familiares. Ao elaborar um relacionamento, não busco completude de alma, pois me encaro como plena, não me faltando pedaço. O outro não é uma muleta para mim e, dessa forma, procuro manter sempre a autonomia - não porque seja uma meta, mas porque minha alma é assim. 

Tive relacionamentos que iniciaram tal qual as fábulas das princesas, desnudando-se, pouco a pouco, para situações em que minha boa-fé foi colocada à prova, bem como minha sacralidade. Findaram-se, mostrando que, para a alteridade, pode ser complicado efetivamente viver uma senda ao lado do feminino liberto. 

Nesses casos, meus olhos da alma me mostravam o que eu mesma, com os olhos físicos, recusava-me incessantemente a ver. Pode demorar um pouco, ou, então, até mesmo várias eras e existências, mas, em algum momento, a sensação de volta à morada da alma passa a compor a deliciosa melodia da plenitude. Eis o segredo: sensação constante de bem-aventurança.

Quando passei a sentir isso sistematicamente, em cada rompimento de um relacionamento que me ocupou durante quase três anos, percebi o quanto é valioso não lutar contra minha alma, mas, antes, ouvi-la.

Percebi isso numa tarde de paz em que estava no yoga, um caso interessante. Estava em casa e iria faltar ao yoga, por estar cansada. Mas, a certa altura, percebi que estava me sabotando e, com isso, levantei-me e segui para minha aula. Levei meu celular comigo, e, depois da aula liguei para meu então namorado. 

Muito gentil e atencioso, ao final, deu aquela facada: disse que meu celular havia tocado e que eu não precisava fazer aquilo... Que eu estava mentindo, que não estava no yoga. Em um impulso, retornei à sala e pedi para minha professora falar onde eu estava. Nem mesmo assim ele acreditou. E, com isso, foi-se o fim de uma história que, a bem da verdade, lá atrás, sempre me mostrou ser fadada a esse retumbante fracasso.

Falta de confiança. Falta de escuta e de compreensão. Talvez uma projeção da conduta dele, não sei, pois o retrospecto dele - não meu - acena para desdobramentos de verdades. Mas não se trata disso e, naquele dia, aos 43 anos de idade, descobri que sou eu quem deve decidir mudar a vida, e não a concepção das pessoas sobre a vida. 

Fiquei tão envergonhada em pedir para a professora de yoga fazer isso e me senti tão constrangida com minha fúria em expor minha vida para minhas colegas - não por elas, que são uns amores, mas por mim - que decidi não mais lutar. Não mais aparar arestas que sempre estão dirigidas a mim e à minha plenitude. 

Eis o sentido de ser livre: não me submeter à desconfianças de quem é inseguro com sua própria existência. Não devo provar inocência diante de um Tribunal do Ofício da Santa Inquisição androcêntrica, não mais. Esse incidente só revelou, ao final, o que estava embaixo do tapete e que apenas eu não desejava ver: o quão custoso é para minha plenitude e paz de espírito me colocar à disposição para a lâmina do algoz. Não serei vítima, mas protagonista da minha liberdade, corolário da soberania tão incompreendida pelo masculino atávico, que não se reelabora ou reinventa...

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