domingo, 24 de julho de 2016

Cem dias de plenitude e celticidade: amizade

Disponível (avaliable): https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/60/f9/c4/60f9c46f06e82a3d62b8a293e6fa7167.jpg, acessoem 24 de julho de 2016.
Tem sido recorrente prática no meio pagão a postagem de uma série de reflexões sobre o percurso ou a jornada no autoconhecimento, independentemente da tradição (http://100diaspagaos.tumblr.com/).

Druidas, bruxo/as familiares, simpatizantes e wiccano/as, não importa: o/a iniciado/a que irrompe rumo à experiência na senda de conexão ao Sagrado e à ancestralidade apõe em uma espécie de diário de campo - usualmente por 100 dias- dia após dia, sua saga heroica, pois ela representa o pano de fundo de sua própria história

Na postagem anterior, chamada Meus tesauros de felicidade: o retorno à ideia mágica de simplicidade no viver, listei uma série de thesaurus de valor para o que considero uma vida plena e feliz na simplicidade. Com essa percepção bem vívida, decidi aliar o propósito de compartilhamento do meu percurso na vida ancestral com os cem dias de narrativa do significado que esse rito de passagem adquire para mim.


Listei tesauros de hoje, com os quais começarei meu novo ciclo de aventuras são: amizades, reciprocidade, veracidade, transparência, desapego, adeus, olá. O tema inicial não poderia ser outro mesmo: AMIZADE, pois ela constitui o suporte ou alicerce para que o/a iniciado/a possa galgar os obstáculos sentindo-se acalentado/a pela força e pelo carinho que apenas os vínculos fraternos e clânicos podem propiciar.

Os celtas nunca foram conhecidos por uma unidade política, sempre optando pela vida em clãs distintos sem um poder central - em face de seu espírito libertário, independente e sem amarras - cada qual sob o jugo de um líder escolhido pela força, honra, determinação e coragem (bem diferente dos tradicionais sistemas de consanguinidade e nobreza). 


Dani (e) e eu (d)
Tais nichos - quase sempre reunidos em volta do vínculo de sangue - criavam a atmosfera perfeita para que, na figura do clã, os laços mais fortes e profundos pudessem ser firmados, estabilizando internamente a tribo, bem como a fortalecendo diante dos inimigos (vide o  texto Resgatando os tempos antigos de honra no bom combate).

A amizade, assim, era o ponto de apoio que atrelava os membros do clã em uma sociedade celta, mantendo a solidariedade entre os indivíduos. Liames invisíveis, pautados no empenho da palavra, bem como na honorabilidade de se portar em uma retidão de caráter eram a tônica a transformar a amizade em uma verdadeira corrente sinérgica de força, uma egrégora de poder incomum.

Por mais que o/a iniciado/a decida percorrer a senda no caminho solitário, formar profundos e autênticos vínculos de amizade é importante para obtenção do apoio necessário ao curso da trajetória


Tulio (e) e eu (d)

As amizades verdadeiras - que enfrentam vicissitudes e intempéries - são o poder secreto sempre à disposição do inciado/a. Não era à toa que as corporações druídicas nas sociedades celtas se firmavam a partir de conselhos de anciões, ou, ainda, nos covens, permanece a prática de se reunirem os membros para comunhão de afinidades. 

Nas tradições familiares, a conexão pelo sangue já imanta, no plano físico, a materialização do elo entre os membros. Laços são fundamentalmente o material energético a coligar pessoas que se lançam no mundo mágico. A amizade, então, passa a ser um substrato invisível, mas forte e contundente, a alimentar sintonicamente as pessoas cujos corações reverberem em consonância.

Daí o segundo tesauro, a reciprocidade, como resultante de um vínculo clânico de fraternidade, a partir do qual se elabora uma tessitura de relações - expectativas e demandas - firmadas na mutualidade, ou seja, em laços de devolução, restituição e/ou compensação. 


Tulio (e), eu (c) e Zeca (d)

Longe do conceito romanista de obligatio, a ideia aqui contextualiza-se em uma dimensão moral, diáfana, que se confunde com a manutenção da paz no grupo (lembrando que a ordem de paz, para os celtas, possui um profundo significado imanente de revelação dos deuses, ancestrais da casa). 

Não existe cobrança, uma vez que que a reciprocidade lança ao mundo o propósito de se honrar com a palavra e a conduta leal, inalcançáveis por contrato ou tratado.

Aliás, um excelente parâmetro para se perceberem arremedos de amizades: descompasso no fiel do tratamento dispensado. Lembro-me de haver convivido com uma pessoa que me foi muito querida. Convidava-a para os solstícios, equinócios e celebrações lunares, trocava confidências, enfim, vivenciava a percepção de vínculo. 

Detalhes, porém, começaram a se avolumar: percebi nunca ser convidada para sua casa (para o celta, a casa é a própria alma do membro do clã, sendo ato de mais valiosa honra o convite para ingresso em uma residência), suas celebrações, seu mundo. Minha presença em sua vida era bem interessante quando essa pessoa me procurava para tirar dúvidas, solicitar material. Ou seja, uma seta unilateral.

Citei esse exemplo para me aprofundar na importância que a reciprocidade adquire como um termômetro do que significa um elo de amizade entre pessoas que se dizem afins uma da outra. 

Não se espera porque não se faz necessário esperar: o vínculo é tão espontâneo que o compartilhamento se intensifica com o transcurso do tempo. 

O/as verdadeiro/as amigo/as abrem as portas de seu coração, sua alma e sua casa, para abrigar em pouso fraterno quem desejoso está de um bom travesseiro para recostar a cabeça depois de um dia de batalhas. Essa é a verdade do vínculo, a veracidade do propósito de se compartilhar uma vida com seres amados o bastante para que possamos desembainhar a espada em sua defesa.

Diziam os romanos que os celtas, quando não estavam em guerra, costumavam brigar entre si para manterem a forma... Amigos e amigas discutem, brigam, exaltam-se: esse é o resultado de não se usar máscara e se colocar na lisura de alma para conversar sobre as divergências. Depois aquietam a alma, respiram fundo e, cada qual, pondera. O grupo pára, reflete. A egrégora solidária se pacifica. 

A transparência é, pois, requisito essencial, dentro dos tesauros de amizade, para que os verdadeiros laços sejam amorosamente apertados, compondo, assim, o triskelion clânico onde inexiste distinção entre início e fim.

Quando fui percebendo isso, naturalmente comecei a agradecer pelo tempo em que meu caminho andou com o de outrem, bem como a me despojar da presença das pessoas em minha vida. Não, não, não tem a ver com O/A OUTRO/A. Não há culpa, responsabilização do/a outro/a, mas, mas, antes, protagonismo na decisão. 

Decidir não estar com outra pessoa apenas e tão somente porque não se faz mais necessário o percurso para que ambos extraiam dele a virtude da sabedoria. Afinal, na constância do eterno retorno da vida-morte-vida, estamos a encontrar pessoas, reencontrar outras e estabelecer ligações que vêm e vão na espiral cósmica. 

Não se trata também da percepção vitimista de eliminar o outro por não corresponder às expectativas, mas, antes, de uma languidez de alma centrada, que leva à internalização do rompimento sem o conflito quanto à responsabilização. 

Aliás, percorrer a senda iniciática é, sobretudo, ser protagonista das escolhas. 

Deixei de usar meu tempo disponível na tentativa de investir em algo que ilusoriamente só existia em minha mente condicionada e, com isso, comecei a decidir de outra forma. 

Deletei contato, apaguei telefones. Não porque desejei fazer de rompante, mas porque percebi que manter na memória do celular um número para o qual nunca ligava e do qual não recebia ligações não fazia sentido. 

O adeus é importante, ainda que achemos ser visceral o vínculo que nos une a quem consideramos [basta lembrar o abrupto corte com a mãe, quando o cordão umbilical cingido nos remonta à necessidade de respirar por conta própria]. 

É preciso deixar sair o antigo para que novos processos possam adentrar a nossa porta! O olá a novos percursos é essencial para a manutenção do equilíbrio universal. 

Simples assim! 

Amigos e amigas se falam, estando longe ou perto. Sabem hábitos uns dos outros, perguntam sobre a vida, a família, choram. Sabem quando vir, bem como quando sair. Uma benção separar por vínculo quem realmente nos quer bem. Saber ouvir a voz do coração para estar próximo a quem verdadeiramente chamamos de amigo ou amiga é cumprir a primeira etapa iniciática em novas vidas: formar laços sinceros, autênticos e leais!

Céad mille fáilte!


Disponível (avaliable): https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/564x/fc/a1/95/fca1952274e407251053d76f36c35ac4.jpg, acesso em 24 de julho de 2016.




4 comentários:

  1. Ótimas reflexões. Fiquei pensando na reciprocidade e na importância que ela assume nos relacionamentos. Acredito que ela faz parte de uma tríade indispensável para os laços que construímos durante a nossa jornada. Reciprocidade, confiança e intimidade; onde há confiança, há intimidade, e com a intimidade, a reciprocidade é intrínseca. Dificilmente há a presença de uma dessas características sem a outra. Por isso reciprocidade é tão confundida com cobrança. O que é natural, como esperar reciprocidade de alguém que não confiamos plenamente, em um laço com a inexistência de intimidade. Mais fácil é apontar cobrança, de certa forma, até facilitando a compreensão do papel do outro em nossas vidas, ou seja, alguém que nada tem a oferecer para somar na caminhada.
    Reciprocidade transcende obrigação, exigência. Ela é sinergética, é primordial, tradicional, tribal, clânica (como você usa), familiar, “moving back and forth”, e, infelizmente, é muito mal-interpretada.

    Forte abraço.

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  2. Olá Alessandra.. procurando uma imagem do Imbolc encontrei seu blog e amei logo de cara. Amo blog com conteúdo inteligente e tudo referente a magia sem mistério. Passarei o dia xeretando seu cantinho com prazer. Seja abençoada sempre... Com carinho Regiane.

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    1. Muito obrigada, Regiane, sinta-se bem-vinda!!!! Tento sempre simplificar mesmo! Se quiser, também pode propor temas que terei o maior prazer em elaborar algo!

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