domingo, 10 de julho de 2016

A senda iniciática no percurso do Sagrado

Uma das perguntas mais frequentes que tenho recebido ao longo dos anos diz respeito à curiosidade diante do tema "iniciação": "como fazer para iniciar na senda das Artes Sagradas?". Ou, então, "quanto tempo leva para me iniciar?" e até mesmo "como faço para me tornar uma bruxa?". O número de pessoas insatisfeitas com os sistemas religiosos vigentes tem aumentado a cada dia, dentro e fora do Brasil, possibilitando, com isso, tais inquietudes.

Como tanta demanda vindo à tona, algumas comunidades têm aberto espaço para a diversidade religiosa. A Islândia, por exemplo, está em vias de inaugurar um templo para as deidades nórdicas, assim como na Grécia e na Grã-Bretanha, cada vez mais cultos pagãos estão dividindo a pauta de festividades com as seculares celebrações cristãs. 

Na Escócia, o Festival do Fogo em Beltane é exemplo forte disso, ao lado das celebrações de equinócios e solstícios feitos em círculos de pedras como o Stonehenge, que nos remetem a dimensões mágicas e simultâneas a desafiar a parca racionalidade.

Em face de tamanho incremento, falar sobre iniciação é sempre providencial, até para desmistificar algumas ideias que permeiam o ideário do mundo mágico. Sem pretender polemizar - ou ofender quem pensa diferente - quero compartilhar algumas reflexões feitas ao longo de anos dedicada à vivência do sagrado.

Em alguns sistemas tradicionais wiccanos, por exemplo, a iniciação ocupa espaço formal, quase sempre fincado em um lapso temporal de um ano e um dia após a dedicação, para que o neófito possa mergulhar em estudos profundos dos principais pontos. Depois do lapso, um rito de passagem é realizado, para apresentar o novo membro ao coven e, a partir daí, ingressar nos mistérios que apenas a irmandade compartilha. 

Não vejo como uma regra fixa, apesar da literatura convergir para um período de tempo (um ano e um dia) tido como necessário ao aprendizado. Além da herança familiar, fui iniciada em uma tradição contestadora de boa parte das regras ortodoxas da liturgia wiccana, o que, por certo, atraiu muito minha afeição, na medida em que me apresentou respostas muito mais convincentes do que a dogmática wiccana usual. A imersão ali se deu em face de uma concentração de práticas mais próximas da bruxaria tradicional do que da ritualística wiccana, a começar pela ausência do isolamento casular.

Outra experiência que agreguei foi em um círculo de mulheres que reverenciavam as deidades femininas de distintas culturas. Cheguei a participar de reuniões, mas não adentrei a iniciação (Beltane), pois, de última hora, escutei o chamado da minha ancestralidade, que cultua os aspectos deídicos na polarização de forças, e não na invocação singular do Feminino. 

O que ficou de experiência em relação aos círculos dos quais participei: em ambas a ideia de senda iniciática estava presente, levando-me a perceber nesse passo um importante fundamento divisor de águas no caminho mágico.
Um mito que sempre povoa as perguntas: mas, e na bruxaria, sobretudo, tradicional? 

Existe a liturgia rígida de uma iniciação formal, sujeita a regras e dogmas? 

Ou, ainda, será exigível algum lapso temporal a partir do qual uma pessoa pode ser chamada de bruxo/a? Ou, então, de uma forma mais "pasteurizada", "quais os requisitos que tornam uma pessoa um/a bruxo/a?"

Não existe uma resposta definitiva, até mesmo porque é necessário fazer algumas distinções entre tradições familiares por sangue e tradições herméticas em covens formados por afinidade. Não me arrisco ir mais: receio cair em superficialidade ao tentar desenvolver mais em áreas que me são distantes em face da minha senda específica.

Nas tradições familiares, o legado é transmitido pelo vínculo sanguíneo, por força da egrégora formada por gerações que perpassam existências e encarnações, por intermédio de um filete ancestral de informações dispostas em um suceder helicoidal, espiralizado, onde os dados estão dispostos no imaginário coletivo, vivenciadas e revisitadas pelas gerações vindouras. Isso é o que traz a perpetuidade do conhecimento, ora levado adiante por relatos orais, ora registrados nos livros sagrados (da família ou dos membros).

O "nascer bruxa" faz muito sentido dentro de tal paradigma, porque se trata de uma condição inerente ao percurso que a família fez ao longo do suceder de gerações, passando o conhecimento para a frente, mantendo, assim, acesa, a centelha do legado no simbólico coletivo. Por isso que, uma vez bruxa, sempre bruxa! O "tornar-se" bruxa é apenas uma contingência de se rememorar o conhecimento potencializado e ainda não vivificado para, a partir do empírico, acessar o subconsciente e revelá-lo.

Em tradições assim, tanto pode haver uma iniciação sem a rigidez cerimonial - quando a mãe entrega a filha à Lua do dia de seu nascimento - ou não, a depender do grau de formalização com que a família celebra seus ritos e finca suas tradições. Iniciações e ritos de passagem seguem, nesse plano, os ritmos naturais que usualmente se concentram nas mudanças biopsíquicas da mulher (menarca, gestação e menopausa). A iniciação, portanto, estaria relacionada à transposição de cada uma dos portais presentes nas inerentes modificações da sazonalidade. 

[importante aqui fazer uma diferenciação entre tradições em que a bruxaria é elaborada tanto por homens, como por mulheres. A referência que faço é, por óbvio, a partir do lugar de fala de uma tradição matrilinear, na qual a arte é ofício sacrossanto feminino. Mas nos ofícios masculinos também os ritos de passagem seguem a sazonalidade segundo as liturgias do clã. Independentemente das linhagens matri, patri ou matri-patrilineares, os ritos de passagem marca mudanças de ciclo].

Por que dessa ausência de rigidez e formalismo na bruxaria tradicional de natureza familiar? 

Ante a percepção de não ser um sistema religioso - ao contrário da wicca, que se consolida como tal em face da institucionalização progressivamente fincada até para se firmar no campo - a bruxaria se encontra alojada nas práticas profanas de transformação a partir da conjugação ao Sagrado. Daí ser inerente a ela uma ausência de sistematização, na medida em que as práticas variam de família para família, de clã para clã.

Mas não é a única senda de acesso ao conhecimento sagrado das Artes.

Em tradições formuladas por vínculos de afinidade, por sua vez, a iniciação pode representar uma mudança de fase, um abandono formal de uma experiência, para o abraço em um novo mundo de vivências, a partir de uma celebração litúrgica a marcar bem tais limites. A sacerdotisa e/ou o sacerdote encampam tal ofício que, no caso das tradições familiares, é formulado pela matriarca do clã. 

Para o/as solitário/as, a iniciação representa importante decisão de percurso singular, uma vez que o/a neófito/a arca integralmente com a responsabilidade existencial de suas escolhas, suportando sozinho/a os resultados de suas decisões, quer seja sob a perspectiva ética, ou, ainda, energética. O caminho solitário sempre apresenta um sabor especial de entrega, pois o/a iniciado/a se lança ao caminho por conta própria, sendo o protagonista de seu aprendizado.

O que representa, enfim, a iniciação?

Abandono ou abnegação...

Introspecção...

Morte...

Renascimento...

Conhecimento...

Abandono de uma percepção de mundo crivada pelo senso comum. Sair de uma egrégora para abraçar o sagrado é transpor a experiência do cotidiano, para transformar a vida, em si, na senda. Afinal, bruxaria não é um ofício mágico de mudança de estados da Natureza, mas o viver no estado de conexão à Natureza, lugar de fala de onde é possível operar mudanças. Transformar o externo é, sobretudo, estar conectado a ele, o que não pode ser possível no campo da separação entre o iniciado e o mundo circundante.

A abnegação, aqui, não adquire uma faceta de sacrifício crístico - nem pode, pois se trata de paganismo - mas, antes, da conscientização da necessidade de afastamento do paradigma até então vivenciado, por pura incompatibilidade com o caminho a trilhar adiante.

Só a partir da renúncia do trivial elaborado como estado mental petrificado no imaginário coletivo que é possível operar no plano mágico, menos denso. Essa é uma parte difícil, mormente diante de tudo que a pós-modernidade oferece como anestésico para nossos instintos primordiais. O retorno à Physys é condição essencial para firmar a síntese da busca pelo sagrado.

introspecção está marcada no silenciar, por meio da desconexão dos ritmos caóticos da artificialidade do mundo robótico para abraçar o vazio necessário ao alcance do conhecimento oculto e ancestral, só revelado a partir do acesso que a solitude propicia. A máxima saber, ousar, querer, calar, aqui adquire um significado especial, na confluência das ações: é preciso calar para saber direcionar o querer e, assim, ousar.

Morte, essa palavra tão temida e desconhecida. Toda iniciação marca uma morte, uma finalização ou término de um ciclo, no qual a vida, da maneira como o/a neófito/a a vivenciava, extingue-se, tal qual a pupa abandona o casulo, para enaltecer a nova existência na forma de borboleta. A morte, aqui, advém de uma escolha e, como toda escolha, supõe perdas representativas de pequenas mortes. Ao contrário, então, de se vislumbrar na morte um fatídico momento de tristeza, na senda iniciática essa valoração é substituída pela consciência de que todo fim se coliga a um começo e a novos fins, indefinidamente.

Daí o renascimento como estado simultâneo, a partir de um novo momento que se esquadrinha. Nada pode ser como antes, sob pena de não se galgar conhecimento. O ciclo vida-morte-vida é o próprio percurso no qual a iniciação é apenas um mote para a passagem para outras etapas. O conhecimento reside, pois, não em um objetivo a ser alcançado, mas no que foi adquirido ao longo da trajetória.

A partir da experienciação de tais sensações - ao meu ver, não redutíveis a cronologias, mas a estados de alma - é possível adentrar os segredos antigos. É um chamado interno a encaminhar o/a neófito/a para imergir na senda o segredo de uma boa iniciação, demandando, assim, seriedade, dedicação, compromisso e austeridade. 

Com essas reflexões, convido quem deseja se iniciar no percurso mágico para o abraço de um mundo novo, presente dentro de cada uma de nós em potencialidade pouco exploradas pelo sucateamento que o plano de racionalização produziu na humanidade. 

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