terça-feira, 8 de março de 2016

Bruxinhas, fadinhas, delicadinhas e outras -inhas: quando a celticidade do Feminino não precisa pedir licença para se empoderar!!

Fonte da imagem: https://patywitchmaeve.files.wordpress.com/2008/09/bamba.jpg
Dia 08 de março sempre marca uma data controvertida, sendo um dia prestigiado por uns, repudiado por outros. 

Algumas mulheres recebem (e odeiam) rosas vermelhas nas entradas de lojas, restaurantes - para onde se dirigem com seus parceiros que se descobrem, em UM dia, eternos românticos apaixonados -, enquanto outras se reúnem para discussão de uma pauta de enfrentamento da violência contra a mulher, já que 80% da violência praticada advém dos parceiros (esses aí do restaurante e da amorosidade sazonal). 

Impossível vivenciar o dia de hoje de uma forma indiferente, pois até os últimos raios do Sol a lembrança do significado do Dia da Mulher concita os corações e as mentes à reflexão sobre o Sagrado Feminino. 

Que Feminino? Que Sagrado? Afinal, em uma sociedade fluida e líquida, a vivência identitária cis e trans são a tônica do momento. As certezas cederam espaço para a volatilidade de papeis na pós-modernidade, acarretando, com isso, necessidade premente de também modificarmos nossas percepções sobre como experienciamos do Sagrado Feminino em nossas sendas. 

Mas nunca é demais voltar no tempo para relembrar os eventos que culminaram na consagração do Dia 08 de Março. Em 1857, 130 operárias foram trancadas em uma fábrica em New York, morrendo carbonizadas em virtude de um incêndio proposital, reação à ocupação e reivindicação por melhores salários e condições de trabalho. Já no ano de 1910, decidiu-se durante uma Conferência na Dinamarca homenagear as mulheres, consagrando-se em 1975 - pela Organização das Nações Unidas - esta data como representativa da luta.

Com isso, longe de se sagrar um dia para festejos, o Dia da Mulher traz a necessidade imperiosa de se retomar a uma agenda séria de debates, discussões e reflexões sobre o papel da mulher na sociedade, no intuito de superar o machismo, a misoginia, bem como a desqualificação e o preconceito.

É sobre esses dois temas - desqualificação e preconceito - que tratarei hoje na postagem "mágica" do dia, contextualizando a questão no âmbito do mundo da Arte e suas inerentes controvérsias. 

O Feminino e o Sagrado...

Assunto polêmico também no mundo mágico, tendo em vista a variedade cultural de tradições a cultuar a Grande Mãe em múltiplos aspectos: como genetriz autônoma, amante do filho, guerreiro celibatária, mãe, sacerdotisa, rainha. São tantas as personificações que não se torna tarefa das mais fáceis elaborar uma perspectiva do que se está comemorando no dia 08 de Março no mundo dos mistérios.

Pois bem, tentarei a outra via, qual seja, elencando o que não se comemora no mundo mágico no dia 08 de março. Algumas tradições, a pretexto de militarem um feminismo esotérico de fachada, enaltecem a grandiosidade da mulher, enaltecendo, contudo, sua parcela de fragilização, submissão e, sobretudo, subserviência a uma atribuição de papel de procriadora e nutriz, num paralelismo com o que nominam mundo natural (como se todas as fêmeas nesse mundo realmente se portassem de forma unívoca).

Na cosmogonia, política e nas relações jurídicas no âmbito da sociedade celta, as mulheres mantinham uma relação de igualdade e independência em relação aos homens, podendo adquirir bens, bem como usar, gozar e dispor deles, ao seu bel-prazer. Chegava até mesmo a manter - em uma verdadeira separação de bens -  seu patrimônio até mesmo em virtude da dissolução do casamento.

Aliás, mulheres podiam denunciar o casamento, dando impulso ao divórcio, sem que isso fosse tomado como um drama na vida pessoal e coletiva: ou seja, os celtas não necessitavam de atribuição de culpa para dissolver a sociedade matrimonial. Quem detinha a maior quantidade de bens era tido como chefe da família e mesmo diante da igualdade patrimonial, a sociedade familiar não era gerida sem que houvesse plenitude no acordo de vontades entre os cônjuges. 

História famosa que retrata essa situação é da Deusa-Rainha Maeve, poderosa e riquíssima soberana, que mantinha livremente um casamento aberto. Indo e vindo no gozo de sua sexualidade livre, a nobre mantinha um séquito de amantes diante do clã, sem que isso lhe fosse imputado como uma falta moral. 

Jean Markale aponta, ainda, outro aspecto importante para que possamos entender, nos dias atuais, as razões imediatas do hermetismo diante de uma casa mágica de raízes celtas ou celtíberas: quando a mulher se casava, ela não deixava de pertencer à SUA casa ancestral para ingressar na do marido, a menos que isso fosse patrimonialmente avençado (MARKALE, 1989, p. 58)

Até mesmo em termos de transmissão hereditária e consanguínea, a matrilinearidade era a marca a distinguir as sociedades celtas, permitindo, com isso, que as filhas entrassem na linha sucessória em patamar de igualdade com os filhos. 

Nesse panorama, a mulher desempenhava um papel predominantemente empoderado, não sendo vista como frágil, vulnerável, obtusamente estéril de direitos. Aliás, o relato de Suetônio sobre a ferocidade da Rainha Boudicca, monarca dos Icenis, mostra, a bem da verdade, que a mulher celta poderia ser o que bem desejasse: mãe, matriarca, sacerdotisa, guerreira. 

A hegemonia, contudo, do Império Romano, que dizimou a cultura celta, trouxe a personificação de outros atributos, ovacionados como marca representativa de um modelo de mulher atávico: submissa, passiva, encantadora e encantada. Uma donzela a ser salva. Dentro disso, as dicotomias inerentes: a fadinha, sendo a primazia da delicadeza, em oposição ao estereótipo da bruxa, corcunda, velha, feia, com uma ruga no nariz e responsável por impingir dor e caos ao mundo.

Até mesmo nas usuais referências que a língua portuguesa faz a respeito do tema, a bruxa "boa" converte-se na "bruxinha", uma entidade apelidada "carinhosamente" com um diminutivo que... diminui (afinal, não é esse o significado da palavra diminutivo??). 

Não somos bruxinhas. Não somos fadinhas, princesas ou princesinhas, muito menos sacerdotisinhas ou qualquer que seja a nomenclatura que aglutine a partícula - inha em sua formação. Motivo simples: somos plenas, firmes, fortes e, sobretudo, poderosas, qualidades incompatíveis com qualquer tentativa - ainda que feita de boa-fé e com as melhores das intenções - de acarinhamento pela diminuição. 

Radical? Ortodoxo? Talvez. 

Para quem não está acostumado a respeitar a diferença, reconhecer em si resquício do patriarcado não é tarefa fácil. Não estou vociferando que tais nomenclaturas são universalmente reconhecidas como atos de desqualificação ao Feminino Sagrado, mas contextualizando antropologicamente a perspectiva de serem alcunhas que podem desagradar e desrespeitar quem se sente plena em sua força e seu poder. 

Se existem bruxinhas, fadinhas, princesinhas e sacerdotisinhas que se sentem bem com tais nomes, ótimo. Apenas lembro que nem todas as mulheres são iguais, muito menos refletem uma mesma forma de vivenciar o Sagrado. 

Sobretudo as bruxas... Mulheres de extremo poder, cultuadoras de suas idiossincrasias, que vivenciam seus atributos, quaisquer que sejam eles, como condição inerente à senda ancestral. 

Bruxas - e não bruxinhas - não temem o colapsar das máscaras, o enfrentamento de espelhos, a vida. Para essas mulheres, a luta é a condição de existência mais visceral, que urge do estado de alma cônscio dos segredos da vida e da morte, da sombra e da luz. 

No paradigma da bruxinha, fadinha, princesinha e outras -inhas, os atributos lunares de sombra são repudiados, relegados ao lado eclipsado da psiquê, para que, com isso, desponte a miríade de qualidades que fariam a "bruxinha" do bem evoluir e crescer espiritualmente. 

Será? 

Eis o ponto crucial de reflexão no dia 08 de Março, dia da Mulher: o Sagrado Feminino constitui a vivência uterina dos estados mais profundos de conexão com o poder, incongruente e incompatível com toda e qualquer tentativa de reduzir a um espectro pálido o que, por nascimento, detém a potestade e a plenitude.

Feliz dias das Mulheres!!!!



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