terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Relacionamentos ecléticos: de A a Z no caminho espiritual da parceria

Fonte da imagem: https://blogmanamani.files.wordpress.com/2011/05/quintas-da-lua.jpg
Esse post já é ancestral em minhas reflexões, mas, até agora, confesso que estava amadurecendo um pouco mais a ideia e ponderando sobre esse tema, considerado tabu dentro de algumas comunidades mágicas: relacionamentos afetivos entre pessoas de tradições religiosas ou de predileções espirituais distintas são bem sucedidos?

Pode até parecer um tema batido e sem importância, sobretudo, em uma Nova Era de universalismo inominado e amor fraternal disseminado nas redes sociais, impelindo-nos para respostas positivas e lúdicas a respeito do assunto.

Será?

Afinal, nunca se falou tanto em respeito, ecletismo, liberdade religiosa e democracia. Até reality show está mostrando relacionamentos ecléticos, em uma esperançosa visão animadora (não sei, ao certo, se a animação diz respeito a continuar assistindo ao reality ou se diz respeito a uma legítima pretensão de pacífico convívio).

Não creio ser um assunto batido, muito menos tranquilo de se discorrer a respeito. Aliás, tenho por arenoso o terreno, fato que me fez aguardar o momento mais adequado para meu coração, enfim, poder elaborar algo com o mínimo de nexo.

Acredito ter se tornado um clichê ingênuo falar que "o amor pode enfrentar tudo", pois essa afirmação, grosso modo, já encerra em si o problema estrutural (bom, se pode tudo é porque, no usual, carece de fundamento para não temer, sequer, o tal "tudo" de maneira árdua e sofrida) - de base - que, se não encarado de maneira séria e transparente, pode acarretar infelicidade e separação intransponíveis.

Bom, de qualquer forma, não é um tema simples. 

Vou me explicar melhor. 

Primeiro, inexiste uma resposta simplista e binária - sim ou não - porque se trata de uma situação que depende fatalmente de um ingrediente empírico. Ou seja, de nada adianta fazer inferências genéricas em cima de comportamento humano, seara na qual a imprevisibilidade e e a singularidade são sempre variáveis que desafiam os programas de computador.

Ou seja, não existe uma resposta infalível, mas especulações firmadas a partir de reflexões que tanto beiram a discussão meramente hipotética, ora se fincam nas experiências já vividas por cada um. 

Na hipótese - sempre a hipótese "científica" - prevalece a ideia de respeito ao credo, a partir de uma racionalização dos problemas, para, para além deles, ver o relacionamento eclético como a resultante de uma superação das limitações humanas em lidar com o que não é afim.

O apelo à liberdade de crença, bem como ao respeito que deriva da dignidade da pessoa humana ditada constitucionalmente nos orientam em direção a um estado mais depurado de espiritualização. 

Dentro disso, somos levados - quer seja pelo plano moral e filosófico, ou ainda, pela perspectiva religiosa de respeito ao próximo (tônica de algumas tradições espirituais e religiosas) - a crer na possibilidade de pacífico convívio e, quem sabe, dentro do sincretismo brasileiro, elaborar uma "terceira via" religiosa/espiritual. 

Esse é o panorama... 

Suficiente para a compreensão? 

Não creio. 

Elucubrar sobre o tema não traz a integral percepção de vivenciar as áreas de conflito em termos de relacionamento eclético. Aliás, até mesmo em relação ao plano meramente hipotético já teríamos muitos problemas, proporcionais ao arraigamento dogmático. 

Poderia tranquilamente propor: a dificuldade na articulação de tradições espirituais e religiosas distintas é diretamente proporcional ao caráter dogmático da senda. 

Quanto mais entranhadas em verdades excludentes de outras perspectivas, mais se estabelece um distanciamento valorativo entre os parceiros. 

Ou seja, somente é possível se falar -e viver - um relacionamento eclético quando existe uma relativização na apreensão dos dogmas que sustentam as visões unilaterais que seriam excludentes uma da outra. 

Radical? 

Pode ser, mas, ao menos não encontramos surpresas do gênero:"não sabia que seria assim". A isso chamo lucidez de propósitos, tanto em relação ao percurso de autoconhecimento, quanto em relação a lidar com o outro. 



Na minha singela experiência, os relacionamentos ecléticos podem ser um fracasso se os parceiros não desenvolvem um legítimo respeito pelo credo um do outro. 

Com isso, proselitismo, nem pensar! Creio ser esse o ponto principal: não se faz proselitismo, pretendo empurrar goela abaixo tradição ou credo estranhos à vivência do outro. 

O proselitismo, em todas suas facetas - diretamente ou, mais tortuoso, por meio de metáforas e manipulações - constitui tanto um desrespeito à liberdade religiosa - direito fundamental individual consagrado na Constituição Federal - como temerária imiscuição no carma alheio.

É muito comum que a profissão de fé dê azo para uma liturgia de dogmas voltados para o convencimento a respeito de uma suposta supremacia da religião ou da tradição espiritual da pessoa. 

Aliás, creio, muitas vezes, que isso pode estar relacionado ao sentimento de pertencimento que nos traz a identificação com determinada vivência religiosa ou espiritual. 

Animados - cada qual com sua crença e senda - os parceiros podem cair em um abismo infinito de opressão que, a médio e longo prazo, podem implodir o relacionamento. A desqualificação, bem como as tentativas de argumentação podem transformar o ambiente em algo paranoico e chato, cansativo e destruidor da estrutura relacional.

Isso, sem deixar de mencionar os problemas relacionados à confluência de egrégoras, que podem entrar em rota de colisão no caso, por exemplo, de um ritual comum. Cada pessoa aglutina em torno de si uma horda espiritual e energética que lhe é peculiar, ao mesmo tempo em que o outro também se encontra no mesmo patamar.

Um exemplo.

Em outro post (chamado O futuro diáfano das tradições sagradas no paganismo na bruxaria brasileira...parte 1cheguei a comentar a confusão de egrégoras quando se invocam deidades de panteões distintos. Lembro-me que, na época, falei sobre deidades romanas e celtas, panteões distintos que, a bem da verdade, rivalizam, no tempo e no espaço, não-raro mantendo dissintonias e turbulências no convívio. 

Como, então, conciliar isso? 

Simples, não se concilia, a pretexto de simplesmente fazer de conta que não existem rivalidades até mesmo no plano etéreo entre tradições, clãs e estruturas distintas.

No máximo, quando a estrutura emocional e afetiva é muito forte entre os parceiros, pode ser viável a realização de rituais neutros, ou seja, não se convocando deidades díspares. Ou seja, palavra-chave: uma tentativa de imprimir maior neutralidade em um ritual. Façam suas apostas...

Mas, sinceramente? Quem vai fazer isso? Ou, ainda, como efetivar isso?

Ou, pior, no caso de se abrir mão da invocação das deidades familiares para abraçar a ancestralidade do/a parceiro/a: uma negação da própria ancestralidade? Ruptura com elos e liames feitos há séculos de História? 

Não sei...

Já tive a oportunidade de experienciar uma situação na qual a pessoa não perfilhava credo ou tradição alguma - de fato, não acreditava em nada - realizando, contudo, rituais e, no calor da egrégora, fazendo até purificações sem, contudo, acreditar no que estava fazendo (?!!!?!). 

Segundo relato, o que era feito se dava em virtude da teatralidade do evento, ou, como dito (?), próximo a um RPG. Não, não, não estou inferindo, mas reproduzindo o que ouvi dele de explicação a respeito do assunto.

Ou seja, diante desse mar de incredulidade fica impraticável qualquer tentativa de direcionamento consciente de energia, trazendo, com isso, uma sobrecarga para os demais membros do círculo sagrado. 

Isso porque, a falta de consciência dos processos psíquicos e espirituais milita contra o neófito. E não se pode argumentar que a ignorância é a saída para evitar sequelas psíquicas (Dion Fortune comenta bastante o assunto no livro Autodefesa Psíquica), pois, no caso, a partir do momento que o neófito incrédulo se abre minimamente para a ritualística, passa a se sujeitar às influências energéticas inerentes. Ou seja, uma vez aberta a comporta, os processos psíquicos passam a escoar como água em torrente no pleno fluxo de uma represa.

Para uma harmonização plena, importante, dentro do círculo, o compartilhamento energético por parte dos integrantes. Assim, se um, ao menos, não crê no que está fazendo, não se tem os elementos vitais para a deflagração do ato mágico: emoção e necessidade.

É mais ou menos como se existisse um gap ou lacuna no círculo, acarretando um déficit na circulação da energia em torno de todos. De outra sorte, fazer o ritual, nessas circunstâncias, apenas em "nome do amor" não constitui ato pleno, tendo em vista que não se trata de algo espontâneo, mas sim engendrado para satisfação do/a parceiro/a. 

Outro exemplo sempre lembrado: as distintas formas de execução de trabalhos, que envolvem perspectivas diferentes de utilização de instrumentos, utensílios e ervas. 

Há quem entenda que banhos de ervas devam ser feitos do pescoço para baixo (alegando-se proteção do anjo protetor, numa mítica cristã). Outras tradições propalam o banho integral, da cabeça aos pés. Como harmonizar, dentro disso, posicionamentos distintos em relação ao que é o indicado para o caso?

E no caso de prole, o que fazer em termos de escolha do caminho do/as filho/as? Educação sincrética? Ecumênica? Não orientar? 

Não estou querendo, com isso, afirmar que relacionamentos ecléticos são fadados ao fracasso, assim como também não posso ver um mar de rosas. O propósito desse texto é provocar a reflexão a partir de pontos importantes, que fazem parte do cotidiano de nossas vidas. 

Encarar, com isso, tais obstáculos, enxergando a situação como ela é - e não em cima de uma ilusória perspectiva do que deveria ser - constitui o primeiro passo para se consolidar um relacionamento eclético onde realmente exista o respeito mútuo em relação à fé e aos valores professados. 

Fáilte!!!


Fonte da imagem: http://rlv.zcache.com.pt/trevo_celta_adesivo-r8b92b204fb71465c801b942b9850606f_v9waf_8byvr_324.jpg





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