quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Mitos, velas e magia: a completude dos 4 elementos

Fonte da imagem: http://www.ecopedia.com
Uma das primeiras lições que se aprende na Arte relaciona-se à compreensão dos elementos (água, fogo, ar e terra), bem como a canalização de seus atributos em instrumentos potencializadores dos desideratos a serem concretizados no plano causal.

Falamos bastante sobre incensos, velas, sal, cristais e cálices, coligando sempre cada qual desses artefatos ao respectivo elemento que lhe dá direcionamento simbólico. 

O sal representaria a terra, o cálice, a água, a vela, o fogo e o incenso, o ar. Por aí vai uma extensa lista de instrumentos e artefatos dedicados ao elementos. Esse é supostamente o básico protocolo reproduzido no que se tem como uma "sabedoria popular" a respeito da Arte, presente em boa parte das discussões sobre bruxaria, magia e outros sistemas de transformação. 

Lendo meu livro de anotações, contudo, passei - cada vez mais - a refletir sobre uma percepção unidirecional que se costuma fazer a respeito da vela - quase sempre relacionada aos elementos fogo e ar - o que apontaria para trabalhos mágicos mais propícios à interação com tais elementos.

A abordagem que vou propor aqui hoje passa por outra percepção, de natureza integrativa, uma vez que os elementos, uma vez plasmados em artefatos tridimensionais, não se encontram, via de regra, em estado de pureza. 

Por que estou propondo essa perspectiva? 

Para simplificar...

Ao invés de se desesperar ante a falta de um ingrediente ou instrumento, quero propor uma forma mais fácil e criativa de redirecionar instrumentos, aproveitando, ao máximo, suas propriedades mágicas. 

A conexão com o Sagrado precisa ser simplificada, e não tornada complexa e difícil, até por uma questão de democratização do conhecimento. Longe vão os tempos em que se andava por aí com uma mala cheia de cálices, athames, punhais, bússolas, espadas e outros instrumentos bem marcantes da magia cerimonial.

A palavra-chave: simplicidade.

Creio que todo esse rol de instrumentos não é imprescindível para a bruxaria (tradicional), executada com os elementos e, quando muito, com artefatos que fazem parte do cotidiano (no meu caso, da cozinha da minha casa).

Remeto o/as interessado/as ao texto De magos, bruxas e feiticeiros: relíquias semânticas na obra de Jeffrey Russell, onde exploro melhor a questão do uso dos instrumentos em face das distintas tradições mágicas.

Mas, enfim, voltemos à vela. 

A base sólida da vela é composta por parafina, do latim "pouco afim", um derivado do petróleo que nada mais é do que uma cadeia orgânica (ou seja, composta por carbono). Só de observar a origem de uma vela - por mais que seja elaborada ou manuseada - é possível correlacioná-la ao elemento Terra, por vários indicativos.

Petróleo, ou óleo de pedra, nada mais é do que o sangue da própria Terra, uma demonstração cabal que esse elemento não necessariamente se materializa em um aspecto solidificado. 

O petróleo transita entre o estado sólido e o líquido, mas não é isso que define sua origem a partir do elemento Terra, e sim sua conexão direta com ele, na medida em que seja o resultado de um processo lento de decomposição de dejetos que se alojam nas camadas da biosfera.

Fonte: http://www.drm.rj.gov.br
Entranhamento: eis o verdadeiro sentido, ao meu ver, que define uma substância - e, por resultado, um instrumento - como sendo imanação do elemento Terra. 

Assim, não seria exagero afirmar que o petróleo a originar a parafina da qual se elabora uma vela promana do elemento Terra

Aliás, ela, como um casulo, é a responsável pela superposição de camadas e mais camadas de dejetos orgânicos, que se somam para consolidar a substância.

A chama da vela - talvez o que é mais óbvio para os curiosos na Arte - é a imanação do elemento Fogo. Isso é o básico. Mas, observando bem, esse fogo é alimentado pela Terra (parafina), bem como pelo Ar

Trata-se da mais perfeita harmonização entre elementos, trazendo para um mesmo instrumento a possibilidade de ser um artefato completo para se realizar algum encantamento. 

Basta a clarificação - ou seja, a percepção consciente por parte do/a estudioso/a na Arte - do significado de cada um desses elementos para a composição da vela (necessidade + emoção + conhecimento).

Ao final - e não menos importante - temos a integralização de todos os elementos pela intromissão da Água presente na liquefação da parafina, formando uma área ao redor da chama, que escorre, aos poucos, na medida em que derrete.

Uma simples vela reúne-se a miríade de todos os elementos, podendo ser utilizada, assim, para bruxedos que envolvam qualquer um deles. O mais proeminente, contudo, ainda é o fogo, que já caiu nas graças populares, pelo fato de estar mais explícito no artefato. 

Mas, ante a falta de outros instrumentos, ou, como proposto, para simplificar o processo, pode-se redirecionar o foco de uma vela, relacionando-a a todos os elementos. Tudo começa e termina nos elementos.

Outra simplificação? 

Pois bem. 

A limpeza energética da vela, bem como sua programação para o foco a ser trabalhado. Costuma-se besuntá-la de baixo para cima (para retirar ou limpar) com algum óleo ou essência de espargimento, como benjoim, arruda, mirra, cânfora, mas, já que a água remete à limpeza, na ausência de ingredientes, podemos fazer uso de uma boa água espalhada ao longo da vela. Basta, depois, deixar a vela secando. 

Depois da limpeza, o direcionamento do foco do ritual ou bruxedo. Mais óleo, formulado a partir da erva correspondente ao propósito almejado, besuntando-se a vela de cima para baixo, para atrair o propósito e imantá-lo na vela. 

Uma outra forma de fazer isso consiste em escrever no corpo da vela o propósito, o que pode ser feito por meio de uma palavra, frase ou, ainda, pela inscrição de símbolos rúnicos, glifos ou sigilos. Costumo fazer a inscrição com uma ponta de faca quente, que derrete a parafina, gravando no corpo da vela o desiderato.

Tudo isso são possibilidades, e não liturgias dogmáticas, de caráter obrigatório. 

Quero dizer, com isso, que não tenho a pretensão de lançar verdades absolutas, mas apenas propondo formas alternativas para trabalhar magicamente com instrumentos. Sobretudo, quando se percebe em um mesmo instrumento a integralização de todos os elementos.

Afinal, somos todo/as UM...

Céad mille fáilte!

Fonte da imagem: http://www.hotref.com/category/20/Trinity-love-knot-candle-holder-wedding-favors_2077_r.jpg



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