sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O futuro diáfano das tradições sagradas no paganismo na bruxaria brasileira...parte 1

Quando decidi criar esse blog para compartilhamento de experiências pessoais e familiares na trilha do Sagrado e do Feminino, deparei-me com um interessante movimento de visibilização do paganismo no Brasil, por volta dos anos 90 e início dos anos 2000. Naquela época, o must do momento era a transposição conceitual do que vinha sendo desenvolvido, sobretudo, no trabalho wiccano europeu e estadunidense e, mais especificamente, nas tradições wiccanianas de cunho feminista, a exemplo de Starhank na Dança Cósmica das Feiticeiras.

Fonte da imagem: http://www.desocultando.com.br
Prato cheio para o que entendi ser um momento auspicioso de revelação ao mundo do que a latinidade androcêntrica e cristã sufocou durante séculos sob o manto das perseguições e deslegitimações. 

Estava fortemente embalada pela literatura ecofeminista, de cunho ético-religioso, bem como pela vivência como mulher e protagonista de uma trajetória bem diferenciada, destacada de um paradigma que se estabeleceu como politicamente docilizado, no qual a figura da mulher é submetida a um papel secundário de produção de conhecimento. 

Pois bem.

Passados alguns anos de consolidação dessas vertentes, bem como da eternização dos debates em torno das sempre lembradas distinções entre wicca e bruxaria, penso ser um momento muito propício para outras reflexões, sobretudo em relação aos rumos para os quais essas e outras tradições têm se direcionado. 

Acompanhei, com minha natural curiosidade antropológica, formação e dissolução de covens, efervescência de escândalos, fortalecimento de novos pensamentos. Tudo bem observado à luz de uma contemplação que, a despeito de não pretender ser nada descomprometida, ao menos não renega o lugar de fala, para que as impressões possam, ao final, servir de base para futuras gerações de bruxas e bruxos. 

Impressionismos à parte, tentarei ser sucinta e pragmática nesse arremedo de reflexão e, com isso, creio ser muito importante enfrentar as razões pelas quais opto em seguir meu caminho solitário há 30 anos...

Afastei-me de pessoas queridas, é bem verdade e, talvez, dentro disso, seja natural que tenha que arcar com um ônus existencial de não mais interagir com pessoas que, em outros tempos, representaram empatia no caminho da bruxaria brasileira. 

Arrependimentos? 

Nunca, pois a cada dia os sinais que a Natureza revela trazem a certeza de ser o caminho correto a seguir. Caminho correto pela languidez no fluxo de uma constância de paz. 

Creio se tratar de inerente resultado da busca do caminho que, para mim, é solitário, por mais que estejamos em uma senda coletiva. O coven ou o clã marcam afinidades mágicas no compartilhamento de dados e fontes, mas não se colocam em supremacia no que diz respeito a deslegitimar a experiência pessoal de vivenciar a bruxaria em cada ponto longínquo de nossos corpos. 

Por mais que possam ser compartilhadas receitas "de pé de caldeirão", poções, bruxedos e praguejos, a construção de uma egrégora constitui um movimento energético que é próprio e específico de cada mônada ou agregação energética. Por isso nunca destinei esses escritos a repartir conhecimentos familiares que, além de serem herança do que está em minhas entranhas, constituem atitudes que somente fazem sentido para mim...

Tenho, ainda, como boa ariana em signo solar, ascendente e vênus, uma repulsa natural a todo e qualquer foco ou tentativa de dogmatização em regras e liturgias, ainda mais em se tratando de ovações a sacerdotes e sacerdotisas tidos como salvadores do paganismo no Brasil. 

Sinceramente? 

Vejo nisso uma série crise de identidade, baixa autoestima e, sobretudo, ausência de conhecimento. Quando se projeta na figura idolatrada de um chefe espiritual uma pecha de protagonismo áureo, corre-se o risco de se legitimar a falta de senso crítico a respeito da Arte. A aceitação cega é, para mim, o primeiro passo para o emburrecimento espiritual, nada tendo de libertador, mas, antes, de opressor e sufocante.

A bem da verdade, ao observar algumas cerimônias e imersões pagãs - tanto em alguns grupos de wiccanos, como, também, em supostos clãs de bruxas que, ao final, praticavam wicca jurando ser bruxaria (o que é bem comum e nada de espantoso, a não ser a ignorância conceitual) - ou trocar ideias com pessoas ligadas ao tema, passei a desnudar um campo simbólico extremamente rico a me oferecer subsídios para encontrar, em certo sentido de minha experiência, muitas semelhanças entre rituais cristãos e o que vi sendo praticado por aí.

Se, por um lado, é bem verdade que o cristianismo se apropriou de muitos ritos pagãos para se estabelecer como paradigma dominante, por outro, o afã em se consolidarem rituais com forte pegada dogmática mostra-se um contra senso à ideia do que é bruxaria. Bruxaria, não wicca. 

Distinções? Poderia tecer infinitas, mas creio que a lucidez antropológica me permite o silêncio em não discernir o que não existe sob a perspectiva de um debruçamento mais científico e acadêmico. Enfim.

Muitas regras, muitos dogmas. Torres de observação para lá, espadas para cá. Uma miscelânea de magia cerimonial (afinal, muitas vezes cristã mesmo) com elementos pretensamente sincréticos, mas que, ao final, constituem a mais perfeita síntese da zona na qual um dito ecumenismo brasileiro verteu a bruxaria. 

Nada pessoal, apenas a percepção de estar em uma zona de guerrilha, dentro da qual cada sacerdotisa ou sacerdote desejam, ávidos, se fazer senhor ou senhora das almas alheias. Da minha, não. Ela é minha e da Natureza. Quando muito, da minha família, a quem presto reverência em face da linhagem que se sucede, por eras, em torno do cerne do nome de La Vega. 

Não se criam bruxas por atacado, muito menos se elabora uma bruxa com o uso de capas, pentagramas e vassouras. Muito menos com a pretensa arrogância em se posicionar como oráculo de representações e mandatos religiosos. Longe vai na História a origem divina do poder temporal, a despeito de certos líderes realmente acreditarem ser representantes da Deusa na Terra. Será esse um processo consciente? Quero acreditar que não, pois, se pensar que sim, daí a coisa verte para a má-fé e para o charlatanismo...

Dentro de tal aspecto, tenho acompanhado nas redes sociais e nos vídeos disseminados por aí rituais, receitas, cerimônias e toda sorte de reunião de bruxos e bruxas, não sem me espantar, por várias razões. A primeira, como dito antes, em face da proliferação de receitas apresentadas como infalíveis e democraticamente acessíveis a todos e todas, mas que são fruto de esforços pessoais e energéticos de quem as elaborou, agregando, assim, por óbvio, representações que são pessoais. 

Muito menos que isso, contudo, tenho me assustado com o contingente de asneira por metro cúbico proferido de palavras. Absurdos como "bruxas do bem", do "mal", de Marte, de Júpiter. Elfos com ciganas, capas com tigres-de-dente-de-sabre. Como disse meu companheiro, um verdadeiro cosplay a céu aberto, um ziriguidum deídico que atenta apenas contra a seriedade de quem está verdadeiramente a fazer algo com sentido. 

Constranjo-me a cada dia que passa com essa horda avassaladora de seres mágicos encarnados em protagonistas de RPG (a crítica não é dirigida a eles), reproduzindo falas e replicando ideias que nada têm de significativas para o enaltecimento da bruxaria no Brasil. 

A crença antropológica da identidade plural brasileira verte emanações para a forma como se estabeleceu uma honraria, no Brasil, a egrégoras que nada têm a ver umas com as outras. 

Como reverenciar panteões distintos???? Como chamar para uma egrégora deidades romanas, conquistadoras, ao lado de hordas celtas ou vikings? 

Alguém já se atentou para a total ausência de empatia energética desse tipo de configuração? Isso é uma falta de enfrentamento adequado de forças tão díspares, ainda mais quando se trata de forças que representam inimizades culturais seculares. 

Não consigo compreender, por mais que tente. Deusas africanas com a bodisatva Kuan Yin de um lado, Minerva com Pomba Gira de outro. O desfile das deidades femininas é, no plano simbólico e até mesmo astral, o mesmo farfalhar egoico de uma passarela de übermodels. Mas, para alguns setores pagãos, parece não ser bem esse o panorama. 

Crepúsculo das deusas...e de uma era de seriedade? 

Talvez...



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