quinta-feira, 29 de outubro de 2015

A importância do conhecimento sobre egrégoras

Fonte da imagem: http://2.bp.blogspot.com
Muitos textos sobre esoterismo trazem a palavra "egrégora", quase sempre repetida sem a percepção sobre dimensão do seu real significado.A partir disso, decidi dedicar essa postagem à tentativa de compreender melhor o conteúdo dessa palavrinha tão sofisticada e poderosa, aproveitando a inspiração da chuva fina que nos foi auspiciosamente presenteada pela Natureza.

Não existe consenso entre linguistas sobre o nascedouro etimológico da palavra, termo cunhado e disseminado no meio esotérico a partir dos estudos de Éliphas Lévi, ocultista que viveu no século XIX, momento bastante fecundo nos estudos herméticos. [Apenas registro aqui não ser - ou, ao menos, não me enxergar - ocultista, termo cunhado para designar estudos e práticas mágicas bem distintas da witchcraft (tradicional). Não que eu não respeite o sistema ocultista. Nada disso. Apenas não caminho por essa senda].

O autor cunhou, a partir da palavra ἐγρήγορος (vigilante, desperto) o conceito de egrégora, a partir de sua identificação como "espíritos motores e criadores de formas", recebendo, com isso, muitas críticas, sobretudo dos autores de lojas maçônicas, estudiosos fortemente interessados em desmistificar o ocultismo e os estudos nessa área. 

Pois bem. 

Não me sinto à vontade (preparada) em fazer um tratado sobre ocultismo - pois não é meu ethos de vida - como, também, não creio haver aqui espaço para desenvolver alguma crítica aos argumentos maçônicos. Isso porque respeito ambos, como respeito qualquer preferência mística, esotérica, religiosa e/ou espiritual, a despeito de percorrer a senda do sagrado caminho das artes (sacred craft), muitas vezes colidente com boa parte dos preceitos desses sistemas.

Na verdade, minha pretensão é bastante específica, já que não tenho parâmetro para fazer comparações, uma vez que as percepções acima estão calcadas, de uma forma ou de outra, na compreensão judaico-cristã de elaboração do mundo e dos universos, paradigma não contemplado pelo paganismo, na dimensão de vivência a que esse se vincula e com a qual se compromete.

Porém, o uso disseminado e sem rigor do termo egrégora como "qualquer energia concentrada" me fez escrever algo e cá estou, desde domingo, quebrando a cabeça na tentativa de simplificar e, ao mesmo tempo, esmiuçar um pouco a referência ao termo.

Segundo o dicionário Aulete, advém da palavra grega egrêgorein (velar ou vigiar), sendo a resultante energética elaborada a partir da conjugação de energias de duas ou mais pessoas. Trata-se de uma confluência de forças, sendo, para tanto, necessário o empenho coletivo em sua consecução. 

Acredito ser uma boa percepção para o tema a simplicidade com que semanticamente o termo é cunhado. Com isso, todo o resto seria uma apropriação feita da palavra pelas distintas tradições herméticas, cada qual lhe imprimindo uma peculiaridade a reforçar o próprio campo (o que é normal em termos de poder organizado institucionalmente).

Ou seja, somente existirá uma egrégora quando confluem e se harmonizam as energias de várias pessoas, elaborando-se, assim, uma força coletiva a perpassar todos os membros do grupo, pulsando vividamente e realizando atos alimentada pela energia que a criou. 

Como força psíquica, torna-se necessário o empenho - bem como o direcionamento - de uma forte emoção experimentada por cada um dos membros do grupo - concomitantemente - numa espécie de atmosfera a reproduzir no plano extra-físico os objetivos almejados pelo grupo. Aqui vale a regra da sagrada tríade dos trabalhos na arte, manifestada na emoção, necessidade, bem como no conhecimento.

Afinidade e harmonia entre os participantes, nesse contexto, são elementos imprescindíveis para criar e manter uma egrégora com êxito. Dentro disso, quero chamar a atenção para a mítica de ingenuidade com a qual os neófitos saem por aí, brincando de Harry Potter e sua varinha de fênix, acreditando que a deflagração de um vórtice coletivo de energia densificada não traz maiores implicações para a segurança do grupo. 

Isso porque, quando formulada em torno, por exemplo, de um propósito destrutivo, dada sua submissão à lei de ação e reação (não me refiro à concepção wiccana de lei tríplice, mas pura e simplesmente ao retorno da energia por meio de um contraponto, seu espelho em termos de intensidade, direção e sentido), a energia direcionada tende a retornar para a fonte emissora. No caso, para os participantes que elaboraram a egrégora, que recebem o impacto da energia conclamada.

Muito/as podem acreditar que se encontram imunes a tal sequela energética, mas, de fato, poucos têm condição de minimizar o "coice" do vórtice de energia gerado a partir de uma conjuração como essa. Afinal, receber o impacto de uma conjuração que imante boas energias é bem mais agradável do que a congregação de energias que formulam aspectos meramente destrutivos.

Ingenuidades à parte, indiscutivelmente existe força densificada em uma egrégora e, quando não trabalhada adequadamente, pode trazer danos irremediáveis para quem se arrisca sem a devida preparação e o necessário conhecimento. 

"O que vai, volta", um preceito que, longe de ser um dogma (pressuposto que não precisa ser demonstrado), é uma consequência fática, bastando se observar, no plano empírico, a movimentação energética advinda da elaboração de uma egrégora.

Costuma-se - em cima da fala de Lévi - associar uma egrégora a deidades, como se tal elaboração fosse efetivamente a antropomorfização, e não a resultante energética, senciente ou não. Isso dependerá, sobretudo, do propósito para o qual a egrégora foi conclamada. 

Particularmente não compartilho da percepção de serem as egrégoras microcosmos de deuses, ou até mesmo deuses, pelo simples fato de ser inviável energeticamente se formular tamanha concentração de energia senciente e simplesmente "criar" uma entidade de tão magnitude que seja identificada com o poderio de um deus ou uma deusa. 

Ou, ainda, formular-se uma conclamação de egrégora para a "manifestação" presencial de uma deidade de primeira grandeza, assim, num piscar de olhos. Se fosse tão simples assim, Morrighans, Machas, Dagdas e Lughs sairiam por aí, serelepes, como gêmeos, perambulando pelos círculos dos confins do mundo, sendo apenas fruto da egolatria de participantes de covens, e não deidades de alta honorabilidade e respeito. 

Trocando em miúdos, não se banalizam deidades ao bel-prazer dos membros de um grupo conjurando uma egrégora, pois além de falta de respeito, a falta de conhecimento adequado traz malefícios, sobretudo mentais, em transtornos usualmente confundidos com patologias bioneurológicas que, de fato, são resultado de trabalhos não compreendidos muito bem.

No ocultismo básico, há quem chame de forma-pensamento o produto da atividade de biopsíquica voltada para a elaboração do vórtice de energia que molda uma entidade dotada dos aspectos de quem a criou. Mesmo não sendo minha praia, gosto da percepção de confluência energética que tal definição traz.

Ao infundir força - por meio da projeção mental de forma, acrescida da emoção (vetor de vivacidade), plasma-se a forma-pensamento que, mesmo desplugada do criador (autonomia), liga-se a ele/a por conta do aspecto energético transmitido. 

Sua existência assemelha-se, segundo Dion Fortune, a uma bateria que, aos poucos, vai perdendo sua carga, sendo necessário alimentá-la energeticamente, caso se deseje sobrevida. Para absorvê-la - e, claro, absorvendo-a, tendo cuidado em se saber que as características da forma igualmente assim serão - necessário extrair-lhe a "vida" pelo liame entre a egrégora e o grupo, que dividirá, segundo a potencialidade de cada qual, os resíduos da tessitura formulada e dissipada. 

Com isso, tem-se na egrégora, ao final, um nodo concentrado, ligado a quem o produz pela consciência da imantação, elaborada em nível coletivo e, portanto, coligada a todos que participaram da criação. Saber, ousar, querer e calar. No momento certo. Ingredientes vitais para o crescimento na senda do conhecimento universal do invisível. 

Mas, de toda sorte, se nada disso adiantar, então voltemos para Harry Potter e o feitiço da abóbada de proteção a Hogwarts: "protego maxima, fianto duri, repello inimigotum". Quem sabe, né?

Céad mille fáilte!


Fonte da imagem: http://api.ning.com/files/rdGwDgrRKNjPm7toYIC9j1ekAkMfyF-qsLGGOOdgy9DbXOBkGV3VKtfmRHAqtGgzKGlN5qVo3GsI-2m7Tz--NRBExWLWnoyO/Aegishjalmur.jpg




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