quarta-feira, 29 de abril de 2015

De xamãs, bruxos, druidas e mercenários: a desmistificação de um ideário isomórfico no paganismo brasileiro

Fonte: http://www.portalangels.com/img/arvores_celta.bmp
Toda vez em que me sinto convidada a refletir sobre celticidade, paganismo, druidismo e assuntos afins (os -ismos dos quais Pierre Bourdieu sempre nos convida a fugir, ante a limitação que trazem à experiência), de imediato me coloco a ponderar sobre a existência - ou não - de uma cosmovisão compartilhada, que permita ao paganismo brasileiro se articular em torno de uma "mesma bandeira" na vivência desse tipo especial de sacralidade (pois é, de que tipo de sacralidade estamos mesmo falando?) 

Afinal, são tantas as associações, agremiações, redes, os templos, conclaves, covens e coventrículos, que isso, por si só, já seria o bastante para refutar a ideia de unidade pagã no Brasil, ainda mais de isomorfismo na prática, vivência, bem como na teorização em torno de tais temas.

Indo por partes, não se trata de uma crítica pontual a uma ou algumas vivências de paganismo no Brasil, mas uma opinião balizada tanto na abordagem que tenho feito ao longo de trinta e tantos anos de senda pagã, bem como em nível de interação "antropológica" com outras percepções de vivência e imersão no tema. 

Feita essa consideração, primeiramente creio não existir no Brasil uma comunidade pagã, com a força integrativa que a palavra comunidade tem (comum, repartido). Existem, ao meu ver, tradições pagãs distintas, em várias formas de vivência do sagrado, plurifocais, sobretudo. Aliás, não é ponto de vista, é fático: basta googlar para constatar a diversidade institucional.

Unidade, no sentido antropológico de uma sociedade clânica, estabelece-se a partir de referenciais comuns (desde totens, deidades reverenciadas e demais expressões de irradiação do poder espiritual do coletivo), que são entronizados por todos os membros do grupo de maneira sincrônica, influenciando habitus, atividades, papeis sociais e, claro, relacionamento com a ancestralidade.

Basta observar, por exemplo, a experiência da menstruação compartilhada entre as mulheres em algumas sociedade tribais ou, ainda, as catarses coletivas, que chamam a atenção para o verdadeiro significado de clã. Existe um só pulsar no grupo, de modo que a ideia de individualidade é praticamente nulificada, para dar espaço à identidade com o grupo. 

Em uma comunidade unida em torno da divisão de papeis (não sou dukheimiana, mas a percepção funcionalista dele é interessante para espelhar o que desejo argumentar a respeito de vivência em GRUPO), os membros repartem valores essenciais para a vida do grupo que, no caso, não se dissocia da vida privada.

Aliás, inexistia essa distinção entre privado e público, privado e comum, no âmbito dessas mais antigas sociedades antigas (as celtas eram apenas um exemplo disso), de modo que esse é o ponto central para se questionar o construto de unidade pagã, quer seja no âmbito da bruxaria, feitiçaria, bem como do druidismo e do xamanismo, além de outras categorias cuja reelaboração antropológica é necessário fazer.

O romano, lastreado na experiência grega de divisão público/privado, fazia essa distinção até pela forma de organização estatal, bem como pela separação entre religião e política (um livro muito bom sobre isso é A cidade antiga, de Coulanges). 

Mas sociedades bárbaras (dentro das quais as celtas se destacam) não operavam nessa distinção, até pela unidade religiosa em torno da qual gravitava a política (prova disso é a divisão de papéis entre druidas em uma mesma sociedade).

Não existe no Brasil, diferentemente da Inglaterra e Dinamarca, uma unidade em torno da construção de um ideário druídico isomórfico. Nem na Inglaterra, a bem da verdade, existe, mas, ao menos, há um consenso que envolve os vários grupos que se reúnem, mas, que, na pior das hipóteses, mantém uma divisão meramente política diante de crenças e valores compartilhados.

O mesmo para a Gália, Galícia e parte da Dinamarca (onde se tem focos de druidismo). Até em Portugal não se tem planificação, o que mostra que, a bem da verdade, o caminho druídico é condizente com o tipo de sociedade em que está estruturado. Ou seja, sociedade celta distinta, druidismo distinto.

Tenho minha desconfiança de que esse ímpeto unitário se deve muito a uma visão romântica do séc. XIX em que fecundava a ideia de volkgeist (espírito do povo) no seio da aristocracia germânica ainda não unificada. Essa unidade, para a futura unificação, foi importante para que a nação se desenhasse. 

Mas, no caso brasileiro, em especial, não há o menor sentido - e possibilidade - de se construir (ou reconstruir) unidades antropologicamente situadas, ainda mais em cima de relatos e escritos cuja verossimilhança até hoje se discute em termos de qualidade de tradução.

Aliás, esse é outro grave e grande problema, a questão das fontes. 

Isso, por si só, já seria o bastante para fazer despencar qualquer aspecto de isomorfismo e homogeneidade na vivência do sagrado a partir da experienciação de uma unidade pagã no Brasil, porque se tem uma verdadeira cisão na literatura. Tanto a inglesa vitoriana, quanto a irlandesa e a escocesa não batem muito em termos de homogeneidade na contagem de mitos e lendas. 

Quando se trata de tradução de textos em inglês, piora, pois tanto se trata da língua do conquistador (que a reescreve segundo seu bel-prazer), quanto, um erro crasso: não se traduz esse tipo de literatura: entende-se, transpondo-se do português (tronco que nada tem a ver) para a melodização que o texto traz. 

O inglês e o gaélico são línguas com sonoridade e melodia (por isso se cultivava muito o hábito de recitar poema) que têm significado. A tradução em cima disso retira o atributo poético. Tanto isso faz sentido que, no âmbito da bruxaria, muito se faz em termos de trabalhos ritmados e rimados, exata e pontualmente por conta da sonoridade que, por si só, aciona o subconsciente na abertura de canais comunicativos. 

Ainda nessa discussão sobre desmistificação pagã, tenho como impossibilidade extrema a figura do "reconstrucionismo", quer seja druídico, pagão, bruxesco ou celta. A palavra encobre precariedade em se reerguer vivências, sobretudo, considerando tudo o que já acima mencionei. 

É antropologicamente inconsistente, ao meu ver, fazer qualquer tipo de anacronismo em que se consiga, ao final, (re)construir algo que, de toda sorte, não tinha unidade cultural. Esse é só um dos primeiros problemas, e olha que não estou sendo lá muito profunda em termos de apreciação antropológica. 

Acredito que a Antropologia seja o nicho mais adequado - e não a História ou a Ciência Política (a despeito da contribuição que ambas trazem para o estudo em suas respectivas áreas) - para se buscar imersão nas vivências em torno do paganismo em suas expressões distintas, uma vez que é um ramo de conhecimento que adentra os aspectos culturais/estruturais da sociedade a partir do horizonte do campo, e não apenas em face de uma abordagem documental e distanciada. 

O que vejo como sendo mais grave, contudo, são as tentativas de encontro de horizontes que não se comunicam (a não ser por uma enorme confusão metodológica em relação a fontes e caraterísticas), como, por exemplo, um "druidismo xamânico", pelas óbvias razões de o xamanismo estar relacionado com outras tipologias de povos para-além da Europa (especificamente nas tribos indígenas do norte, do centro e do sul). São sistemas diferentes, baseados em organizações políticas diferenciadas (a exemplo da estratificação na organização do druidismo) e, portanto, incompatíveis para serem tratados como afins ou similares. 

Existe alguma aproximação, que é a tentativa sempre de se universalizar a experiência, mas, olhando especificamente as culturas da Europa e das Américas, não é a universalização, mas o relativismo o viés adequado, até para não silenciar ou invisibilizar uma cultura em função de outra. Aliás, aproximar xamanismo de druidismo é negar, para mim, protagonismo histórico à América, em benefício de uma cultura etnocentricamente tida como superior.

Essa ausência de uma discussão mais séria traz problemas emergentes: o maior deles consiste na superficialidade de reflexão sobre aspectos culturais densamente ricos, além, claro, da apologia ao que tenho como "reserva de mercado" a encobrir um proselitismo feito sob a máscara da libertação crítica, mas que encobre a luta pelo poder articulado em rede. 

Na dinâmica foucaultiana, a capilarização torna o poder invisível o bastante para não ser contestado, de plano e pronto, favorecendo, assim, o monopólio por parte dos mercenários e das mercenárias de plantão, pessoas que podem até achar que estão fazendo um serviço à coletividade, mas que estão profundamente imersos em teias de vínculos egoicos renovados. 

Onde subsiste o egoico não existe espaço para vivência clânica, o que, mais uma vez, finda por desconstruir a mítica de unidade pagã no Brasil (a menos que se relativize também a noção de unidade, o que, por si só, desconstrói o sentido de unitário).

Talvez no dia em que as mulheres de uma comunidade pagã intuírem, menstruarem e reverberarem sincronicamente ou, ainda, os homens do grupo realizarem suas sagas heroicas  compartilhando um mesmo cenário, acreditarei em unidade pagã no Brasil. Ou, talvez, no dia em que sérias discussões sobre métodos interpretativos forem travadas, com critério e despojamento de alma, provável que acredite na tão sonhada unidade.

E, sobretudo, no dia em que todas essas institucionalizações findarem suas divergências internas e externas, compartilhando totemicamente pontos comuns, creio ser possível se falar em unidade pagã. Até lá, penso que o melhor a ser feito é contemplar o componente idiossincrático que inflama as discussões entre líderes e transforma boa parte do que seriam boas reflexões em uma "pantomima sagrada": eis a unidade!


Deireadh seachtaine deas agat!!

Fonte da imagem e créditos:
http://st.depositphotos.com/1834913/2120/v/950/depositphotos_21201671-Light-green-ornate-four-leaf-clover-background.jpg


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