segunda-feira, 23 de março de 2015

Ode à dignidade (in)contida em um soprar de velas

Fonte da imagem: http://images.fineartamerica.com/images-medium-large-5/wheel-of-the-year-antony-galbraith.jpg
Quando era pequena, sempre desejei fazer 15 anos. Não para debutar, usar vestidos "bombom sonho de valsa" (como diz minha mãe em sua versão pós-feminista revisitada) ou dançar com um príncipe encantado que vira sapo ao menor toque. Nada disso. Desejava a idade avidamente como um marco definidor de um rito de passagem, alavanca para outras etapas da vida.

Os 15 anos representaram o despontar da vida: até pintar a unha de vermelho fiz, para deixar clara essa transição. Mas, assim que chegaram, desejei os 18, pois estava ávida por tirar a carteira, dirigir e desbravar o mundo! Afinal, até mesmo nos aspectos mais profundos da psicanálise junguiana, o carro simboliza autonomia, liberdade e autodeterminação.

Os 21 foram intensamente queridos, para dar um sentido de completa e total capacidade de reger minha vida. Precisava, pois, investir em uma carreira, algo que me trouxesse o suficiente - nunca fui ambiciosa - para viver modicamente. Adveio a transição da Física para o Direito, selando, assim, todo o meu futuro até aqui. Vi, vidi, vici.

Minha mãe contribui significativamente para esses desejos, sempre me dizendo que, ao chegar os 30 anos, eu iria simplesmente "acordar" e ver a vida, o mundo e as relações humanas de uma forma menos idealizada, mais amadurecida. Lembro-me de ter ficado a véspera do meu aniversário acordada, a fim de checar realmente se minha mãe tinha razão. 

Não sei bem se fui sugestionada por tais palavras de força e poder, mas, de fato, ao dormir com 29 e acordar com 30, fui arrebatada por um "derrame" de consciência, observando processos que, outrora, não conseguia sequer sensitivamente acessar. 

Muito da afoiteza ali cedeu espaço para a desaceleração da ansiedade com a qual até então regia meus passos e escolhas, o que definia, muitas vezes, decisões que imprimiram, de certa forma, desconforto à alma (hoje vejo essas escolhas como mero transcurso de vida, sendo grata. Mas, de qualquer sorte, tendo consciência de que foram, naquele momento, dolorosas). O mundo sorria para mim refletindo a satisfação do meu espírito em simplesmente se render ao transcurso da vida. 

Enquanto sonhava com meus 35 anos, comecei a pesquisar todos os cortes de cabelo, em mais um rito de passagem, marcando a transição para a maturidade e a segurança. Afinal, esse são atributos que, em uma mulher, rompem com as convenções sociais, dentre as quais, a eterna fascinação que os cabelos longos exercem no masculino (e que, muitas vezes, reproduzem relações atávicas no binômio submissão/controle). 

Cabelo tosado, feminismo a tiracolo, revolta e indignação com o masculino, misandria: eis o retrato fidedigno do que povoava minha vida nessa época. Amor e dor compunham uma ambivalência que não conseguia distinguir, por mais que tentasse, tamanho o envolvimento em simplesmente ceder à mais profunda imersão nos meandros escondidos de meu emocional fragmentado. 

Cortados os cabelos, aguardei, dia a dia, o despontar dos primeiros fios brancos recém-chegados com os 40 anos. Foi quando, de súbito, tudo parou à minha volta: um dia, minhas células, meus átomos, tudo, simplesmente todo o meu mundo parou em uma respiração. 

Deixei de esperar o devenir dos anos, bem como de ansiar a chegada do "dia seguinte". Parei de pensar nos futuros ritos de passagem - por achar que todos eles já foram devidamente cumpridos ao longo da vida - e passei a me ocupar em me conhecer melhor, esse, sim, um desafiador rito constante de passagem.

Mente inquieta de 15 anos "desde sempre", corpo se modificando dia após dia, marcando os sinais comuns da chegada do inverno. Um dia, enquanto descia por uma escada no jardim da minha casa, meu pé direito (justamente esse, que tantas e tantas vezes tinha me consolidado fortemente ao chão), ao pretender pisar a pedra solta, vacilou. Tremeu, juntamente com todo o resto do meu corpo.

Esfriei. Gelei. Temi. Tive receio de pisar o solo, quebrar meu pé, esfacelar-me em mil pedacinhos! Como? Sempre fui "guerreira", "lutadora", "batalhadora"! Ora, isso não tem nada a ver com ser ou estar isso tudo, mas com simplesmente aceitar, de maneira resignada pela sabedoria, que os processos internos de desintegração da matéria, começaram a dar os primeiros sinais de vida.

O peso não diminui como outrora... O cabelo e as unhas têm sua estrutura modificada: perdem queratina e elasticidade. Os seios pendem com a inerente gravidade, bem como a musculatura corporal passa a conviver com a flacidez. 

A imunidade "gira a chave", transformando uma gripe em verdadeira doença degenerativa, pois o organismo, diante de superbactérias e supervírus, demora mais para se recuperar. Uma sinusite que antes eliminava com duas horas de natação, passou a me enviar direto para a cama, acometida com labirintite (não que eu esteja moribunda - como esse relato pode dar a entender, rs - mas apenas uma constatação) e atestados. Até plano de saúde valeu a pena pagar por agora, rs, pois, antes, achava um dinheiro desperdiçado, já que nunca ou muito raramente adoecia. 

Depois de 8 anos de yoga, meu joelho acostumado a fazer trikonasana hoje se encontra dolorido por uma espécie de torção, que me faz sentir uma dor permanente todas as vezes em que insisto em fazer um esforço maior. Acima de tudo, medo. O medo de esfacelar-me de novo, esse estranho desconhecido.

Trágico? Claro que não: é V-I-D-A, em seu curso natural a ser cumprido! Por que iria eu achar isso mórbido, bizarro e depressivo, se é apenas uma perspectiva inerente a todo e qualquer ser? Devo, pois, regozijar-me disso! Ser feliz com isso. Viver apenas!

Mas olhar e encarar a vida não é simplesmente fazer de conta que isso não ocorre. Ao contrário, é me sentir plena e grata tanto por chegar até aqui com dignidade, quanto celebrar os ciclos de eterno início e fim. É perceber em cada buraco de celulite e rasgo de estria as marcas apenas existentes em quem vive, profundamente, suas experiências, sem medo das sequelas. 

É olhar de frente cada um desses processos, pois a observação atenta do ritmo de desconstituição de cada pedacinho de matéria nos impele a realizar melhores escolhas para viver a trajetória que ainda está disponível até o dia incerto em que os olhos se cerrarem para essa realidade. 

Com isso, ao contrário de lamentar essas bençãos (que muitas pessoas evitam, quando evitam se olhar no próprio espelho), passei a ponderar e avaliar melhor os caminhos e as escolhas a fazer.

Dia 27 de março farei 42 anos outonais. O outono, aliás, é a estação que mais me motiva a enxergar no deslinde do tempo o beneplácito do Universo. Sinto-me no outono há tempos, mas a plenitude desse contingente de anos só agora me traz a sensação de estar vivendo os melhores dias de minha vida na mais pura gratitude.

Sim, o joelho, o pé, os músculos, o cabelo branco e o quedar dos seios me fazem olhar melhor para o que se apresenta à minha frente e realizar escolhas que possam trazer mais e mais sensação de bem-aventurança. 

Muitas pessoas podem achar que sou excêntrica por desejar viver assim, contemplando o que seria uma decrepitude. Para mim, contudo, é a mais ancestral forma de me conectar com o Sagrado. 

Sou do tempo em que os mais velhos (sim, mais velhos, nome lindo: velho, velho, velho. Não podemos negar a beleza que a mídia tenta encobrir, tentando converter a palavra "velho" em "melhor idade") eram respeitados pela juventude, que legitimava o conhecimento adquirido pela experiência durante a vida. 

Um tempo em que a sabedoria consistia em simplesmente se compreender que uma existência é mensurada pelo número de experiências que nos tornam pessoas melhores. 

Estando sozinhas ou, ainda, em relacionamentos, o joelho vacilante marca a prudência com a qual o corpo, marcado por toda trajetória, reconhece caminhos que não mais está disposto a trilhar. Histórias novas, que repetem, dentro de nós, padrões antigos que, a essa altura, devem ser superados pelo simples fato de sabermos deles em face da replicação em nossas vidas.

Ser grata com a vida que tenho recebido do Sagrado - das minhas maternas ancestrais - é aprender a me poupar de sofrimentos que estão além do mínimo, do básico, em termos de escolha. Carma, com isso, não é insistir no sofrimento, mas, ao contrário, perceber a fonte da dor dentro de nós e superá-la, sendo gratos pelo que até então se vive, deixando a vida seguir o fluxo do rio.

É sentir a dor do joelho desencadear a percepção de desejar aproveitar mais a vida, minimizando as situações de dor ao que é inerente ao transcurso da vida. Aliás, a vida, em si, já se incumbe de nos trazer desafios - é o dharma para os indianos, a sequência do viver, pura e simples. Mas insistir nas escolhas que trazem episódios recorrentes está longe de ser depuração de carma: é acumulação de mais e mais carma.

Dizem que é o caminho do amor ou da dor a via para amadurecimento. 

Hoje, às vésperas dos meus 42 anos, esse binário não mais significa cisões, porque, afinal, quando se começa a transcender a tudo isso, amor e dor fragmentam-se para deixar romper a quietude da alma que se liberta, pouco a pouco, das ilusões do mundo.

Feliz aniversário!!!

Breithlá Sona!




5 comentários:

  1. Sempre, e sempre, um relato que não apenas nos mostra uma Pessoa que se des-cobriu mas que se re-inventa....

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  2. Delícia de texto. Vi minhas angústias (passadas) e meu próprio amadurecimento nele.

    Parabéns,
    Renato.

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  3. Grata, Tulio, e Renato. Ele reflete um pouco de cada um/a de nós.

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  4. Dos meus distantes 42, agradeço a viagem realizada pela trajetória até aqui, sempre aprendendo com essa inconfundível, inimitável e inesquecível personalidade, tão especial para todos que temos o privilégio de aprender e apreender sempre, bebendo nessa fonte inesgotável de sapiência, vivacidade e despojamento...Te amamos Alê

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  5. Devo confessar que atualmente enfrento dificuldades em aceitar a transição de uma etapa da vida sem ter conquistado valores que considero fundamentais. O seu texto me permitiu refletir sobre isso.

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