segunda-feira, 16 de março de 2015

Deusas de corpos fecundos, preenchei nossas almas de esperança!!

Fonte da imagem: http://riedmiller-foto.de/wp-content/uploads/2013/04/Naturhistorisches_Museum_Wien_22.jpg

Sempre que assisto a filmes sobre comportamento humano, procuro fazer conexões com minha senda espiritual, tentando perceber nos significados latentes deles elementos que me façam refletir melhor sobre todo esse acervo simbólico no qual nascemos e vivemos, bem como sobre a pressão que alguns estereótipos ainda exercem sobre nosso comportamento. 

Trata-se de um cuidado necessário para naturalmente se manter coerência em relação ao discurso e a prática, sob pena de imergir em uma hipocrisia prejudicial para o crescimento pessoal. 

Ou, por outro lado, do mínimo necessário para se manter a lisura da alma e a quietude interna, cotidianamente assolada pela constância dos modelos comportamentais que buscam limitar a experiência humana em adágios hedonistas do mais profundo vazio (como se vê em reality shows estilo BBB, Real Housewives etc).

Hoje liguei a televisão em um filme sobre anorexia em adolescentes: relata a história de uma jovem que acessou um site direcionado à devoção da anorexia e, com isso, passa a, pouco a pouco, parar de comer. O bastante para modificar toda sua vida, desde o relacionamento com sua família, até a perda de amizades caras a seu convívio.

Aos poucos, a fisionomia da jovem perde o brilho inerente à idade, e a mente, povoada pelo controle exercido on line pela blogueira administradora do site em questão, perde a sanidade. Foi necessário passar por uma tragédia familiar para que a adolescente pudesse voltar à vida e lutar contra essa sombra, alcançando, ao final, sucesso nessa batalha de improvável êxito.

Olhando a mensagem do filme, lembro-me das reiteradas propagandas e dos bombardeios midiáticos em torno de uma "ditadura da magreza", que pretende sempre deslegitimar o recente impulso libertário para que as mulheres "reais" (ou seja, de curvas) se aceitem (sugiro fortemente uma pesquisa sobre o sucesso da campanha da Dove, que já faz dez anos, a Campanha pela Real Beleza).

Isso acontece exata e pontualmente concomitante ao movimento oposto, qual seja, de conscientização das mulheres sobre a auto aceitação e a reverência a si, independentemente da sua forma, volume e peso. 

Paradoxal? Sim, se considerarmos o Brasil como o segundo país que mais investe na área estética (parece que ninguém por aqui se encontra satisfeita com seus corpos), o bastante para fomentar essa discussão.

Nunca fui magra de acordo com um paradigma dominante (magreza, cabelo loiro, com chapinha, bolsa a tiracolo e óculos de marca) e sei bem o que isso significa em termos de desconexão com os estereótipos dominantes, que exigem uma dedicação diária à academia de caras e bocas, quase sempre sob o discurso hipócrita de "preocupação com a saúde", mas que encobre uma síndrome de baixa autoestima que impele, no fundo, para a construção imagética voltada para a satisfação do outro.

Sempre busquei fugir disso, nada obstante ser bombardeada subrepticiamente pelas mensagens contidas no duplo discurso dos relacionamentos, que ora "ovacionavam" meu vanguardismo (ou "autenticidade" e "singularidade", como já ouvi muitas vezes), ora se mantinham - pela linguagem de adoração aos seus próprios corpos - no paradigma dominante (que doce ilusão).

Isso me faz retornar - pois já postei algo sobre o tema no texto Esse ainda é um mundo de homens - à contraposição entre as macérrimas deusas greco-romanas e o esplendor da mítica Vênus de Willendorf, uma estatueta entre 9 e 11 cm, talhada (segundo a datação do carbono) há 30 mil anos.

Prova mais cabal da existência de um culto pré-cristão (o que atrai bastante minha atenção em termos de paganismo) de adoração ao feminino, bem como de intrínseca associação da mulher à Natureza, a estátua releva detalhes interessantes. 

Seios fartos e caídos, marcando tanto o peso da idade, como a experiência da amamentação e nutrição. Protuberância de carnes em um corpo de quadris largos, indicativo da maternidade: a deusa de Willendorf é uma humana de existência real, e não um arquétipo inalcançável a impor condições irrealizáveis a nós, mulheres.

Ela traz cicatrizes, ventre avantajado e largura, lembrando-nos do que significam as marcas da maternidade. Não se ocupa em evitar o inevitável: a passagem dos anos e o devenir da morte, mas, ao contrário, orgulha-se de ser o que, de fato, é: deusa plena no esplendor do que significa a concretude da vida!

Qualquer que seja a tradição pagã atual, a preocupação no resgate a tais concepções de mundo é a constante, eixo principal e elemento central de uma agenda que pretende - em nível planetário - insurgir-se contra séculos e séculos de opressão das mulheres. 

As deidades celtas são, sobretudo, fartas, plenas, enfim: SOBERANAS. Eriu, uma das deusas componentes da trindade - Banba e Fódla - tem na etimologia de seu nome a referência à plenitude e fartura (piHwerjon, abundante, segundo estudos linguísticos da Universidade de Gales). Ou seja, a magreza nunca foi a marca designativa das antigas civilizações pré-cristãs de origem celta.

Fonte da imagem: http://1.bp.blogspot.com/-rhDkyazOqZI/T6PptIZg6VI/AAAAAAAACs0/YgGXQrTkkCk/s320/2emki1c.jpg

E não poderiam mesmo estar, uma vez que a mulher, na sociedade celta, lutava lado a lado dos homens nas batalhas, não sendo crível a tese de apologia à magreza, até por questões de sobrevivência. Afinal, em sociedades cuja expectativa de vida não ultrapassava 30, 35 anos, a manutenção de um corpo saudável - que sobrevivesse ao frio intenso do inverno, bem como às vicissitudes das batalhas - era imperativo.

Com essa miríade de valiosas informações, passei, ao longo dos anos, a me aceitar mais, a olhar mais carinhosamente para cada marca, cicatriz e celulite em meu corpo, amando-me como sou e procurando, dentro disso, realizar escolhas que me libertam dos estereótipos. O resultado? Felicidade. Simples realização frugal a me embalar para a superação das obviedades.




Um comentário:

  1. Foi o que eu sempre te falei. Esses padrões não chegam nem perto da realidade, além de que não traduzem beleza. Bonito é o natural, como se é. E você, hehe, nem preciso comentar o quanto você é linda.

    Gabriel

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