quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Navegando nas doces águas da superação: a Imramma e a mítica celta

Fonte da imagem: http://upload.wikimedia.org/wikipedia
Na mitologia celta, barcos e naus estão sempre relacionados a transições para o Outro Mundo, ligando o espaço material às dimensões espirituais tidas como destino certo e inevitável dos grandes heróis e das grandes heroínas que se lançam, sem medo, a jornadas mágicas rumo a desconhecidos destinos irrefragáveis (Cuchulain, Deirdre e Noise, posteriormente estereotipados para Tristão e Isolda e, por último e não menos importante, rei Arthur).

Marcando a linha tênue a dividir um mundo regido pelo elemento Terra (lugar de origem do guerreiro, rei ou herói, representativo de estabilidade, equilíbrio e segurança) e o desconhecido éter (a compor no pentagrama a integralidade da alma no símbolo universal da espiritualidade), o barco desliza pela Água, elemento primordial da emoção, do lúdico, do onírico e do inconsciente coletivo, geralmente levando seu ocupante para um lugar não visível e habitado por seres do Outro Mundo.

Lembra-nos que a jornada, para o herói (ou heroína) envolve sempre uma superação de seus limites, uma geas (tabu ou proibição, como no caso de Cuchulain, em relação a não machucar ou comer carne de cachorro) ou uma morte encarada como fase para outra vida.

Nos contos arturianos, após sua derrocada por Mordred (que ora aparece como filho bastardo com sua irmão Morgana Le Fay, ora como sobrinho), Arthur solicita a Gawain que recolha sua espada - a poderosa Excalibur - e a devolva para a Dama do Lago, senhora de todos os domínios, que se aloja em um sidhe na água.

A espada - símbolo fálico do poder espiritual (authoritas) plasmado na legitimidade que confere ao poder temporal (potestas) retorna, com isso, ao receptáculo universal doador da vida (água), para ser guardado pela sagrada Mãe até que outro seja o momento de sua empunhadura por parte de alguém digno e nobre. 
Fonte: http://image.librodearena.com/b/9/309449/dama-del-lago.jpg

Arthur, então, em seus últimos suspiros, cônscio de que sua jornada terminara - freudianamente matando seu filho e sendo morto por ele - é colocado por Gawain em uma nau sem remos ou velas, que parece "saber" o destino para onde levar o rei herói (Avalon). 

Avalon é o mítico lugar que se encontra para além das dimensões visíveis do que se conhece por Glastonbury Tor, inacessível a qualquer mortal - apenas iniciadas poderiam lá penetrar - e morada pós-morte de guerreiros de alma digna. O acesso até lá é cheio de percalços e ilusórias trapaças, pois a saga heroica celta está repleta de situações e charadas nas quais o que se mostra como fácil e belo esconde, em verdade, o catastrófico e horripilante.
Fonte da imagem: http://d.lib.rochester.edu/sites/default/files/imagecache/large/dmmorte.jpg

Da terra para Avalon segue Arthur, deixando para trás tanto um ciclo heroico de coragem, honra e justiça como, também, dolorosas lembranças, como a traição de Guinevere e Lancelot e a seca em Camelot (que dá origem à busca pelo Santo Graal como única forma de salvar a terra seca, símbolo da Soberania perdida quando a rainha-fada Guinevere trai o bom rei). Do material e visível para o espiritual e etéreo, a bela narrativa arturiana é exemplo clássico da relação celta com a água e o barco.

Em outro tema, Tristan chega à Irlanda para se encontrar Yseut (Isolda) em um barco sem velas ou remos, culminando na trágica morte dos amantes. Art, filho de Conn, chega à ilha de Creidé, que o aloja em um quarto de cristal (representativo da água e da terra em harmoniosa composição). 

O barco, em todas as narrativas, faz a passagem do usual, estável e previsível para o destino fatal a envolver necessariamente uma superação que finda por elevar os padrões de consciência dos heróis e das heroínas: trata-se da Imramma, a viagem fantástica rumo à recuperação de um amor perdido, de uma tarefa a ser cumprida ou de um enfermo deixado em algum lugar.

Eis a razão pela qual a morte, aqui, é elemento central, uma vez não ser possível uma transposição de consciência (evolução espiritual) sem dolorosa ruptura. Voltar não é opção para os heróis e as heroínas celtas, sendo a morada etérea o único lugar para fixarem residência, uma vez terem cumprido suas respectivas jornadas.

Tolkien em O Senhor dos Anéis aproveitou muito dessa composição mítica quando encaminhou Frodo, Bilbo, Gandalf e os Elfos para as fronteiras da Terra-Média. Não foi sem propósito, uma vez que o pequeno hobbit havia se superado em todos os sentidos (inclusive lutando contra seu alter ego Gollum que, ao final, salva a todos) e, liberto e cônscio, não poderia mais voltar para o Condado. 

O mesmo há que se falar de Gandalf, uma vez que o mago renascido não mais pertencia àquele orbe, já que encarou o além-vida. Quanto aos elfos, por excelência de alma, não poderiam mais habitar um lugar em que o homem e sua simplicidade anímica iriam substancialmente envolver na mundanidade. Bilbo, por fim, encontrava-se na fronteira entre vida e morte, pois envelhecera no decorrer dos anos, sendo contemplado com a fantástica "viagem" proporcionada pelos elfos.

Quando partem o fazem em uma nau deserta. Não se veem marinheiros, capitães ou subalternos. Ela parte cálida e silenciosamente pelas águas até desaparecer no horizonte, que sempre foi considerado pelos antigos como a linha divisória entre o mundo real e o Outro Mundo.

A sabedoria celta incorpora na metáfora da nau uma aquisição de sabedoria no transcurso de jornadas repletas de dor e superação, desembocando no cisma com o status de vida anterior (seguro e firme) por intermédio de tarefas que alojam as personagens em um novo patamar de elevação espiritual. 

Nada passa incólume dentro do processo, o que nos lembra da necessidade de superação de nossas próprias mazelas e dos limites para, com isso, alcançarmos outras dimensões experienciais. Não há retorno para a alma elevada, que se desprende dessa jornada a partir do estrito cumprimento de sua dignificada sina: eis o caminho do/a guerreiro/a! Céad mille fáilte!


Fonte da imagem: https://masalladelaultimafrontera.files.wordpress.com/2008/11/drakkar.jpg





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