quarta-feira, 9 de julho de 2014

Sobre lobos, cordeiros e matilhas: a era da inocência chega ao fim na arte secreta da bruxaria...

Fonte da imagem: http://lupusalimentos.com.br/wp-content/uploads/2013/09/alcateia_lobos.jpg

Paradoxalmente à ideia de calar e deixar o mundo escorrer pelos olhos atentos, costumo falar sobre o que "cientificamente" é discutível com alguma margem de argumentação válida em termos de reconhecimento pelo outro.

Comento tudo que passa diante de meus olhos físicos e etéreos: desde palpite político, discussão religiosa, gastronomia, literatura e até música, nada me escapa, pois a percuciência me persegue desde os tempos mais remotos de minhas lembranças de vidas. 

Se isso é ruim ou bom, não sei nem muito me interessa em termos de binário, mas acredito sempre que o senso crítico é essencial para não sermos carregados como cordeiros prontos para a imolação... Mas hoje minha reflexão não está no falar, e sim no escutar.

Percorrer uma senda espiritual solitária traz o conforto de me permitir observar o mundo e, para além dele, voltar-me para minhas idiossincrasias mais paradoxais. O bastante para evoluir, crescer e firmar os marcos de um caminho que, ao final, só pode realmente ser percorrido por mim. Quanto mais me volto para a contemplação do mundo, mais percebo dentro de meu íntimo a necessidade de silenciar em relação a alguns preceitos de fé que somente fazem sentido para mim. 

Proselitismo reverso, ao meu ver, é tão ou mais pernicioso do que a tentativa de arrebanhar seguidores por intermédio da palavra, já que, a pretexto de libertar - clamando a reciprocidade como fundamento de ação - acaba sodomizando a liberdade do outro, por meio de uma agressiva e massiva forma publicitária de convencimento e manipulação. 

Quando me deparo com guerras deflagradas ou com liturgias folhetinescas das promessas de beneplácito por meio da bruxaria minha espinhela se arrepia de cima a baixo: o bastante para refletir sobre os rumos que a Arte tem tomado em um mundo repleto por informações superficiais ou falsas a respeito de ideias que parecem ter saído de um livro de histórias infantis.

A velha fala replicada em larga escala - "não existe bruxa má" - ou, ainda, a "bruxaria é do mal", trazem logo a mente a ilustração lúdica de unicórnios planando em nuvens de algodão-doce, tamanha a ingenuidade - ou ignorância mesmo - em se acreditar nas polarizações éticas, como se tudo e todos pudessem ser alojados em gavetas etiquetadas com "mal" e "bem". 

Em um encontro de bruxos e bruxas do qual participei tempos atrás ouvi algo bem parecido, por ocasião de uma "palestra" proferida por um expert no ramo (ou, ao menos, supostamente expert). Invocando um Conselho das Bruxas, essa foi a pérola da vez, na medida em que o rapaz - cheio de razão - afirmou e reiterou a ideia de que inexistem bruxas más. Em outro encontro - diante de outro grupo - ouvi algo a respeito do conteúdo semântico pejorativo relacionado à palavra "bruxa", que agregaria um sentido ruim ou repleto de dor, sofrimento e irascibilidade. 

Se não tivesse bem com a estima e a ancestralidade, talvez entrasse em depressão profunda ao ouvir isso, pois, afinal, negar a nomenclatura e tudo o que está por trás da palavra "bruxa" é refutar a historicidade, o passado e, sobretudo, os vínculos etéreos mais arraigados em termos de existências e encarnações. É negar a própria essência e, dentro disso, nulificar-se.

Sinceramente não sei de onde surgiu ou se elaborou essa percepção arco-íris sobre a bruxaria, mas desconfio que pode advir - quero crer - de uma baita injeção de otimismo na crença de um mundo hermeticamente melhor (talvez no qual inexistissem crimes, corrupção, etc. etc. etc.). Ou seja, um mundo absurdamente inexistente!

Falar que inexiste o propósito deliberado de se destruir alguém - como se isso fosse uma inexistência de finalidade destrutiva - é o mesmo que dizer que inexiste o céu no horizonte. Uma percepção ingênua, que pode até denotar o tal otimismo, mas que, a bem da verdade, não sei bem se é a mais pura demência, pueril perspectiva lúdica de um elo perdido ou, ainda, estado de coma profundo. 

O dogma de fazer tudo sem prejudicar ninguém é, como obviamente o nome já diz, um dogma, mas isso não quer dizer que tenha algum significado para quem deseja deliberadamente destruir, aniquilar, prejudicar outras pessoas. Isso existe? Claro que existe e a História bem mostra que a constância no planeta Terra não tem sido muito lá de países vivendo em harmonia, com ninfas saltitando pelos bosques orvalhados. 

De outra sorte, se a constância fosse unilateralmente a destruição, o planeta já teria explodido há tempos, o que mostra o desacerto em se acreditar nas polaridades puristas. Nem bem a bondade, nem bem a maldade. Os predicativos mesclam-se nas variações distintas do que nós, seres humanos, podemos produzir uns em relação aos outros. 

Com isso, tanto existem péssimos católicos, espíritas, umbandistas, bruxas, fadas, budistas, porque não é a rotulação sozinha que produz o estrago, mas a forma como se escolha a realização de alguma manobra destrutiva em relação a alguém. O que me espanta, por agora, é observar como a reação defensiva de alguns setores da bruxaria tem reacendido e acolhido a mesma óptica depreciativa e destrutiva que alimentou as fogueiras que assassinaram tantas irmãs. 

Daí o silêncio. Eis o estado da arte. O Estado da Arte pós-moderna no crepúsculo de uma era de ingenuidade em relação à bruxaria. Menos é mais. Falar menos, expor menos, reagir menos. A certeza de não se estar movendo, com isso, inutilmente o Universo, pois, afinal, dentro das leis inexoráveis que nos regem em nível subatômico, ainda não observei um ciclo perfeito de Carnot, no qual bradamos, berramos, gesticulamos e praguejamos ad eternum sem queda energética. 

Aliás, minha experiência - que não serve de teorização, mas apenas de vivência reflexiva - tem mostrado o dispêndio vampirizador de energia por ocasião de todas essas atitudes que findam por acarretar a migração da energia vital de uma pessoa para outra, tanto em termos de parasitismo como de vampirização. O parasita psíquico se acopla na pessoa falastrona e vive como um cancro até dizimar - após longos períodos de doenças a longo prazo provocadas - o organismo no qual se instala. O vampiro drena, mas não provoca, se comparado ao parasita, o largo espectro de doenças. 

Independentemente de um ou de outro, falar demais é gastar energia que poderia ser canalizada para trabalhos mágicos mais interessantes do que o ataque sem sentido. Até para quem opta pelo ataque psíquico é preferível calar a boca e realizar o engenho na solidão do lar (ou imantando formas-pensamento, praguejando, queimando ou fazendo dagydes). Sei lá, tudo, menos uma movimentação bucal cansativa, que só desgasta quem abre a boca e, de outro lado, quem está na interlocução. 

Já participei de grupos de e-mails, de covens, de orkut. Enfim. Já passei muito tempo respondendo às provocações de outras pessoas ao longo de minha vida. Diante de tudo isso que escolhi vivenciar, hoje vejo que poderia ter passado minhas tardes aprofundando leituras, aprimorando técnicas ou simplesmente dormindo. 

Agora penso que o melhor a fazer é calar diante de situações absurdas que se esquadrinham diante de meu caminho, pois não sou palmatória do mundo, não pretendo salvar a alma de ninguém e, por fim, não sou dona da verdade do outro. Quando muito, mantenho a minha verdade em stand by para eventualmente me deparar com a possibilidade de rever sempre meus valores.


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