quarta-feira, 9 de julho de 2014

Dias de inverno: inação, reflexão e hibernação na senda da Arte

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Dias de inverno são notoriamente conhecidos como momentos de silenciamento na busca de um lugar de alma comprometido apenas com o autoconhecimento. O bastante para que o falar em demasia se torne desnecessário e altamente dispendioso. Quanto menos falamos, mais energia interna mantemos - dentro do eterno ciclo de Lavoisier de reelaboração de eventos e energia - com menor perda, de modo a garantir um metabolismo harmonioso.

Ultimamente tenho observado em minha trajetória um desejo ardente de me manter afastada e quieta em relação aos chamados espaços virtuais, como se tivesse aquela sensação de "cansaço" ou fadiga que, no fundo, apontam apenas a observância desse ciclo bucólico de guardar para mim a contemplação de minhas idiossincráticas percepções mundanas. 

Não sei bem se cansei ou se a ponderação dos quarenta e um giros de roda de existência tem me encaminhado para o vagar na palavra, fala, manifestação etc. Ao invés de comprar as brigas de outrora, hoje prefiro conversar comigo e me espectar, pois já concluí que muitos dos atropelos que identifico nos outros nada mais são do que os expurgos que me são meramente projeção de minhas limitações.

Sentada em frente ao altar, sempre que posso me prostro em observação dos oráculos - runas, tarot, vela etc. - pois a leitura conflui para o silêncio que expande a compreensão em torno dos assuntos diuturnos que sempre insistem em sobrevoar o cotidiano. A senda de autoconhecimento, dentro disso, consolida a ideia do calar, a virtude inerente da Terra e que nos remete à compreensão de nossas limitações com vistas à superação rumo à excelência do estado de alma.

O silêncio é o maior instrumento do inverno para o autoconhecimento. Quando deixamos de produzir energia cinética e térmica, voltamos a atenção para nosso corpo e, com muita afinação, podemos chegar até a escutar a reverberação de cada respiração, bem como o impacto benéfico em relação a cada molécula do nosso corpo físico. Ouvimos melhor nossos pensamentos confusos, aquietamos nossas angústias e, com isso, tudo flui melhor. 

Sem deixar de mencionar, em nível de autodefesa psíquica, o benefício que o silêncio traz em encobrir perante nosso desafeto nossas atitudes, nossos pensamentos e energia, contribuindo, assim, para que nos fortaleçamos em termos de fechamento psíquico em relação a eventuais agressões.

Ultimamente tenho experienciado a confirmação sobre o beneplácito do silêncio, pois diante de uma briga ou discussão - ou, ainda, diante de algo que soe estranho aos meus ouvidos - minha melhor resposta é o calar. Já percebi que não se gasta energia, saliva e sinapse nervosa com quem insiste em adotar posturas ortodoxas e autoritárias. O melhor a fazer é calar e deixar realmente a pessoa falar e se centrar no que ela acha ser sua razão universal. 

Não estou afirmando isso com aquele ranço de pseudo superioridade, pois de nada adiantaria essa atitude sem que a postura emocional de desapego não acompanhasse a conduta. Não se trata disso, mas, antes, de simples desapego. Ainda me encontro no silêncio pelo simples cansaço em não falar, responder ou dialogar, mas creio que um dia possa exercitar o total desprendimento emocional para não mais nutrir qualquer tipo de reação quando escutar algo que me incomoda. 

Afinal, se as palavras me incomodam talvez seja porque eu receba de volta o que lancei no mundo e, em especial, para a pessoa que reage. Talvez eu aperte os botões do outro e, com isso, produza uma sinergia de devolução de apertos de botões. Enfim, não importa muito. Mas creio que o desistir de responder, retrucar ou reagir seja um honesto caminho, já que aquela empáfia que usualmente vem com a raiva cede espaço para o cansaço que se resolve e dissipa mais facilmente do que a ira (lembrando que esta está relacionada aos domínios do fogo, enquanto o cansaço e a letargia remontam ao elemento terra que rege a resignação no calar).

Com isso, falar menos é viver mais. E melhor...

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