sexta-feira, 25 de julho de 2014

Clãs, covens e solitudes: derradeiros momentos de escolhas

Fonte da imagem: http://allthingsarthurian.files.wordpress.com

Dias atrás fui brindada pela visita de um grande amigo e dirigente de um coven, sacerdote da mais alta nobreza de espírito e dotado de uma sensibilidade ímpar, uma aura altamente sofisticada. Correspondemo-nos há 10 ou 14 anos e, por ocasião da realização de um evento aqui no Cerrado, ele veio com sua sacerdotisa e, de quebra, fez minhas novas tatuagens (amei).

Passamos um dia muito bom aqui. 

Fiz um almoço consagrado (para variar, só poderia ser porco assado mesmo, em homenagem aos nobres ancestrais celtiberos), elaborando com todos um clima descontraído demais, o bastante para produzir muita reflexão e alegria - a despeito de me fazer imergir em uma profunda ponderação. 

Em relação a esse aspecto, em especial, sou extremamente grata ao meu querido amigo e irmão de longas eras, tanto pelas maravilhosas tatuagens, quanto pelo diálogo providencial e enriquecedor. É importante trocar ideias e se permitir a abertura da alma para outros posicionamentos. A interlocução com ele possibilitou uma mudança vetorial nos rumos de minha vida. Gratidão, gratidão, gratidão.

Trocamos muitas ideias a respeito da Arte, bem como conversamos a respeito do saudável desenvolvimento do paganismo no Brasil. O diálogo com ele renovou em mim algumas questões que insistia em deixar no "quarto de despejo de resoluções". Aqueles pensamentos que demandam escolhas que eventualmente não desejamos ou não estamos prontas para fazer.

Pensei, especificamente, na minha colaboração para o desenvolvimento consciente do paganismo no Brasil e, confesso, dentro disso, um filme passou rápido à minha frente, com as pitorescas cenas que fizeram parte da minha vida durante toda a senda elaborada. Lembrei-me da minha mãe, minha avó e, claro, de toda a linhagem ancestral originária da minha família.

Conectei-me com a egrégora ancestral da casa de onde exsurgi. Com as fortes e impetuosas mulheres que carregaram o nosso nome antes mesmo de eu sequer a pensar em vir para esse mundo. Uma pontada de saudade da casa da vovó bateu em meu peito.

Isso, claro, não veio isoladamente...

Por que tive essa epifania?

Porque, em certo momento, tive o insight que sempre me persegue e que pode servir de experiência útil para quem está adentrando na Arte: desenvolver um coven

Manter-me na solitude? 

Mudar para perto da minha mãe e celebrar com ela nossos segredos de família? 

No caso de estruturar um coven, publicizar mistérios que só fazem sentido para nossa casa? 

Verter para o cerimonial da tradição na qual fui iniciada? 

Quais as implicações?

Fico surpresa (no melhor sentido da palavra) com as pessoas que rapidamente optam pela criação de um coven - ou clã - pois às vezes me sinto morosa demais, já que há 20 anos pensando nisso... 

Exatamente por me enxergar em um túnel do tempo que me ocupa esse lapso todo que o diálogo com meu amigo trouxe respostas. E mais perguntas. Na espiral sem fim que povoa o limiar de um momento, a eternização do ciclo de vida-morte-vida.

Não encontro respostas e, confesso, cada dia tenho mais dúvidas, todas saudáveis, sem pensarmos que temos a eternidade para experienciar tudo até a final integração monádica. 

Mas, enfim, voltando à preocupação...

Ela não é desarrazoada. 

Afinal, minha família migrou em face de uma maciça perseguição religiosa que vitimou clãs e pessoas na Espanha, um território cuja marca maior reside no multiculturalismo. A publicização, nesse contexto, pode denotar para mim aniquilamento. Dentro disso, sinceramente falando,  acredito que o mundo pós-moderno - muito menos o Brasil varonil - não têm mostrado sinais de melhoria ética no respeito à diversidade e ao multiculturalismo. Ainda mais quando a pauta se refere à expressão de espiritualidade e religiosidade.

A questão aparentemente é simples se focada com o distanciamento que usualmente usamos para avaliar ou julgar aquilo em relação ao qual não temos a experiência vivificada. Mas quando, por momentos - átimos de segundos - permitimo-nos empaticamente tentar perceber a sensação de uma fogueira e do sofrimento inerente ao arder das chamas, a coisa adquire outro significado. Afinal, como diz o ditado, pimenta nos olhos dos outros é refresco e, com isso, fácil demais é falar sem saber empiricamente o significado do que está sendo julgado.

Pensar no quanto a sociedade brasileira é discriminadora, perversa e intolerante me desanima em termos de exposição das ideias relacionadas ao paganismo, quiçá à estruturação de um grupo formal. Não tenho o menor pudor em me enxergar temerosa (para algumas pessoas pode ser covardia até) e reticente em organizar algo mais formal e elaborado do que as práticas de fundo de quintal que realizo.

Tenho experiências agregadas de vexatória discriminação que me fazem arrepiar o cabelo. O caso em SP da moça que foi sumariamente linchada na rua, sendo chamada de bruxa pelos algozes auto legitimados retira o fôlego em relação à propalação de temas correlatos ao paganismo e à bruxaria. Basta-me ser reiteradamente estereotipada em face da cor do meu cabelo, dos anéis, das tatuagens, das roupas e, sobretudo, das ideias que sustento. 

Nesse sentido, não faço muito esforço para me deixar mais discreta, porque não saberia ou desejaria fazer isso. Isso porque acredito que sou externamente o que sou internamente - não que outras pessoas não sejam - de modo que vivencio minha identidade naturalmente de dentro para fora e de fora para dentro, sem distinção. 

Não consigo explicar de uma maneira melhor, mas como não quero ser mal interpretada, tentarei clarificar minhas ideias. O que desejo dizer, com isso, é que apenas fluo sem me preocupar com qualquer que seja o estereótipo, ainda que tenha consciência de sofrer as consequências da escolha. Os estereótipos existem, mas acredito que se eu agir às avessas, fomentarei ainda mais, tal estereotipização. Na verdade, acredito que seja uma espécie reversa dela.

Com isso, não me preocupo com esse detalhe. 

Vou seguindo a vida normalmente e, para além dessa polêmica, acredito também estar na colaboração para a mudança de perspectiva quanto ao paganismo no Brasil. Esse é um ponto importante para mim e que veio como resposta à minha inquietude em contribuir para toda essa mudança.

O silêncio, dentro disso, aparentemente tem sido a minha melhor companhia, bem como a lealdade de poucos - pouco/as mesmo - amigos e amigas, leva-me ao isolamento que tomo como necessário para me preservar a alma de dispêndio desnecessário de energia. Sinto-me deliciosamente solitária em meu peculiar mundo de abstração mágica, mas plena em completude espiritual na certeza da clarificação de desígnios a povoar meus passos.

Não estou, com isso, criticando ou julgando pejorativamente quem se lança nessa empreitada. Não. Ao contrário, admiro muito a coragem e a disposição de tamanho ato de doação e disponibilidade em se realizar um sério trabalho, pois o paganismo no Brasil precisa ainda romper as fronteiras do preconceito e da intolerância. Apenas não tenho me sentido disposta a percorrer essa jornada, em face de uma necessidade indomável de me manter reclusa em meu estado natural de eremita. 

Isso, claro, não denota o abandono das funções naturais de um sacerdócio solitário, pois o que poderia ser um sacro ofício comunitário convola-se no trabalho pontual caso a caso, numa espécie de artesanato individual que envolve o trabalho pontual com as pessoas que volta e meia me interpelam a respeito da Arte. 

Mas, ainda que desejasse seguir o caminho coletivo, iria esbarrar em outros dilemas: como trabalhar ou harmonizar segredos e mistérios que dizem respeito à minha família de sangue com a necessidade de estruturação de um clã unido por laços de afinidade e empatia? 

A resposta é bem óbvia: não é possível, porque em uma tradição de sangue o vínculo é helicoidalmente firmado em gerações e eras, nos pactos que são eternos. Tal qual o ditado "uma vez bruxa, sempre bruxa", uma família de sangue se lastreia na consuetudinária transmissão de conhecimento, bem como na vivência compartilhada de preceitos que fazem sentido para aquela sinergia.

Isso não desmerece, por outro lado, vínculos de afinidade. 

Não tenho a pretensão de afirmar que a Arte praticada em família é mais ou menos importante do que a firmada pelo liame pactual. Nesse sentido, o mundo mágico já está cheio de desavenças que sinceramente creio serem inúteis e pouco saudáveis para o desenvolvimento do paganismo e, em especial, da bruxaria no Brasil. 

Esses conflitos, para bons entendedores, resumem-se a simplórias disputas pelo monopólio do poder de declaração da verdade, o que, para mim, já se eiva do mais completo fracasso, e por que não dizer, de uma autocracia ímpar, já que elimina o pensamento divergente pela afirmação de existência de linhagens puras ou impuras. O mundo sobreviveu precariamente a uma eugenia já na Segunda Guerra. Vivemos conflitos e guerras em face de eugenias. Por que, então, insistir em adotar o mesmo paradigma em relação ao qual tanto se criticou o mundo crístico? 

Paradoxal...

Já que não vejo ser possível publicizar e iniciar ninguém no que é intrínseco a uma estrutura familiar, sobrevêm outra pergunta: encampar, então, a tradição na qual fui iniciada aqui em Brasília? Em princípio, sim. Ainda que a egrégora seja distinta do panteão ancestral que elabora energeticamente o esteio dos meus flancos espirituais. 

Não teria problema em migrar, em tese, do tradicionalismo da bruxaria para a religiosidade wiccana. Outro grande mito a apartação pela discriminação, pois, sinceramente, conheço mais honestos e honestas (e competentes) wiccanos e wiccanas do que bruxos e bruxas mesmo. 

Isso porque em minhas andanças e trocas - tanto em grupos como em conversas de pé de caldeirão - encontrei charlatães de toda sorte. Hoje me limito e permito dialogar com quem respeito e admiro. O resultado disso está na deferência com a qual me refiro tranquilamente a essas pessoas aqui, pois elas sabem quem são para mim: como ariana tripla, converso, dou pitaco e participo somente daquilo no que acredito. O resto e para o restante, mais silêncio.

Não, a questão não está na migração, mas, antes, na incapacidade que vejo em harmonizar uma egrégora de um coven com a herança que me foi brindada. Não acredito ser interessante misturarem-se egrégoras, até mesmo porque, em termos de ancestralidade, é possível se pensar em energias dissonantes e incompatíveis. Um exemplo disso consiste nos ancestrais ritualísticos provenientes de sociedades que se lançaram como conquistadoras, em contraponto a sinergias ancestrais dos que sofreram os influxos da conquista.

Tenho como temerário em relação à sobrevivência do clã, já que estamos falando de energia e polarização. Não celebro com meus amigos o que celebro quando estou só, porque as práticas afetas ao meu sangue e clã fazem sentido para minha família de sangue. Mas celebro rodas com meus amigos e minhas amigas, numa espécie de território energético neutro, pois cada qual tem sua ascendência. 

Isso iria de contraponto ao hermetismo do culto dos ancestrais da terra, protagonistas primevos da expressão arquetípica deídica. Com isso, confesso, tenho muita dificuldade em alinhavar energias diferenciadas, sem deixar de mencionar egrégoras coletivas de rodas. Não, não creio ser possível me fragmentar a esse ponto (e, de novo, não estou julgando pejorativamente quem faz, mas reconhecendo uma limitação ou desiderato ideológico/espiritual meu). 

O que, então, dentro dessa miscelânea de ideias aqui, poderia eu fazer? Hahaha (rir sempre é excelente, até porque desconheço bruxas e bruxos taciturnos e que se privam desse ato máximo de liberdade), enfim. Elaborar a continuidade da egrégora familiar de sangue, transmitindo para a descendência o que adquiri. Uma opção... Seguir na posição neutra, digna de uma Suíça, rodando e girando, de um lado, e prosseguindo solitária no caminho que só pode ser percorrido por mim. Um e outro são viáveis. 

O primeiro traz outra ponderação: alinhar a ancestralidade à harmonização da vida com um parceiro sensível a isso (mas que se contente em subsistir fora do sistema tradicional, ainda que compartilhados sejam os ritos suíços). 

Talvez seja tema para outra postagem a reflexão sobre parcerias e casamentos entre pessoas de perspectivas religiosas e espirituais distintas, mas, em breve afirmação, malograda é, para mim, a união nesses termos, quando se trata de transmissão de conhecimento ancestral.

No segundo, de executoriedade já exercitada, comprovada, sentida e vivificada, o caminho é bem fecundo, pois a missão de pura e simplesmente viver um estado de alma já me encaminha para a plurifuncional atividade que cerca a Arte. Um óleo aqui, uma poção ali, uma massagem integrativa acolá. Um mapa astral, uma dagyde, um cristal. 

Lá e cá, qualquer que seja o propósito, já me impelem tanto para a auto realização quanto para - quando instada - o auxílio a quem necessita. Daí o conforto em saber que, de uma forma ou de outra, estou colaborando para desmistificar as fábulas em torno da atividade mágica de transformação do Universo.

Com isso e depois de tudo isso que tais ponderações representaram para mim, posso, hoje, enfim, quedar mais tranquila em relação à sensação de puro pertencimento ao mundo pagão. Com orgulho disso. Com gratidão. E com Amor...

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