sexta-feira, 6 de junho de 2014

Oroboros: quando o fim é o começo

Fonte da imagem: http://es.wikipedia.org/wiki/Eternidad
A inexorável lei de retorno faz com que nos dirijamos aos confins do Universo para paradoxalmente unirmos os fins aos começos. Por mais absurdo que possa parecer essa frase, estive nela pensando boa parte do meu dia, deparando-me com mais uma situação peculiar que findou por confirmar - no vasto mar das experiências que vivi - o quão relevante e rica é a superação dos ciclos, mesmo que isso leve uma vida inteira.

Reencontrei em meu trabalho uma pessoa com quem travei inúmeras batalhas egoicas ao longo do meu curso de graduação: coisas de carma propriamente dito, uma vez que passamos boa parte do tempo trocando farpas durante o curso de Direito. 

Ao final de quatro anos o exaurimento preencheu minha alma de tamanho cansaço que desisti - não sem tragicamente proceder ao corte visceral das conexões energéticas que nos jungiam - de qualquer tentativa de manter contato e respeito em relação a ele.

Na verdade uma fenda dolorida abriu-se em meu cardíaco, o bastante para sempre retornar à mente as mazelas que, em minha perspectiva, essa figura "aprontava" para mim (presa ao conceito vitimizante de gratuidade na ação alheia). 

Passei quase 18 anos com esse perigoso cancro residindo em minh'alma, sem qualquer possibilidade de resolver o ponto nodal, já que alimentava - no plano do pensamento que sempre finda por criar formas energéticas nebulosas - ressentimento, mágoa e, portanto, vivificação eterna da dor experienciada.

Pois bem...

Assim como o espaço-tempo curvo pode concentrar-se em si e devorar sua cauda de oroboros - renovando as esperanças de se transformar - reencontrei essa pessoa no ambiente de trabalho e, depois de tanto tempo - e, claro, de conversar normalmente sobre a frugalidade da vida - hoje, exatamente hoje, quando estava sentada embaixo de uma árvore frondosa, percebi (por ter sentido isso) que, dentro de meu coração, as razões pelas quais o cancro era alimentado desapareceram. 

Comentei com ele isso e minha alma simplesmente sorriu para mim, porque redescobri, em mais uma experiência, o significado da superação. O que é, pois, superar? É simplesmente revisitar fatos passados sem a lembrança emocional da dor, ira ou do ressentimento. É olhar, talvez, para o outro e vê-lo tão grandiosamente frágil como nós mesmos somos, o tempo inteiro.

Acabei descobrindo - por ele ter me contado isso - os percalços pelos quais passou nos últimos tempos, obstáculos em cima de obstáculos que simplesmente transmutaram a ideia que tinha a respeito dele no mais profundo sentimento de calmaria, contemplação e empatia. Olhei-me, enfim, no espelho e, quebrando-o, devorei minha cauda para renascer em meio aos processos deixados para trás.

Família, relacionamentos, profissão, depressão foram os temas de sua vida. 

Humano, demasiadamente humano, com todas as vicissitudes inerentes à nossa condição sui generis. Ao pensar nisso veio à mente a ideia de eterno retorno, bem como a percepção sobre como a vida - em sua sábia sincronicidade - encontra sempre um jeito de proporcionar os encontros providenciais para que possamos resolver dentro de nós situações que, ao final, não passam de criações de nossa mente.

Consumindo nossas caudas renascemos, edificados em nossas ranhuras, podendo, com isso, olhar para o horizonte desconhecido com outras lentes!

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