domingo, 20 de abril de 2014

Redesenhando aquarelas na doce senda do (des)conhecido


Todos precisamos de tempos para a renovação de ciclos e de almas, mas provavelmente não nos damos conta, de imediato, do quanto o impacto de uma mudança provoca novos dimensionamentos em nossas vidas, ao ponto de torná-las, em si, uma nova e una vida que, de tão grandiosa, rompe tempo, espaço e limites, para se fixar como verdade para a nossa alma.

Há tempo estava absorta em meus pensamentos, refletindo sobre a possibilidade de vender um terreno lindo - lugar que havia escolhido para um refúgio de alma - porque, de relance, percebi que não desejava erguer um lar - sem o sentido do aconchego que uma família traz em sua matiz de conjunto e compartilhamento.

Desanimada, deixei tudo para trás, pensei em desistir de tudo, pura e simplesmente. O esqueleto da casa ficou perdido em meus sonhos desfeitos, a mata selvagem tomou o lugar do que seria o acalanto do verde bem cuidado e a esperança simplesmente cedeu espaço para o abandono. 

A energia do fogo transmutador que sempre alimentava meus projetos simplesmente se esvaiu, de uma hora para outra, diante da constatação da mais completa falta de sintonia em relação a construir, a agregar. A transformação do elemento ígneo convolou-se no lado sombra desse elemento criativo, a pura destruição que assola e devassa tudo ao seu redor. 

Dores, frustrações e decepções que se plasmaram nesse processo de desagregação, trazendo apenas a estaticidade. Hoje percebo que não importa o nome que se busca dar a tais negatividades, pois o que é relevante é a superação delas. 


Muito menos responsabilidade atribuível a alguém ou até a mim, já que se trata, grosso modo, do rol de experiências que a teia da vida constrói diuturnamente. Afinal, emoção é emoção, não se justifica, não se prospecta, muito menos se busca a fonte. Apenas se abandona e se agrega, tal qual o movimento de uma onda que vem e vai no mar. 

Receosa, passei dois anos e meio, quase três, sem pisar os pés no que era minha vida, alimentando secretamente um desejo de "me livrar" do que acreditava - por força de uma racionalidade que insiste em me visitar quando a alimento como um cão fiel - ser a minha força motriz, o epicentro de uma monção que carrega a umidade da mudança e o alento ao espírito. 

Vendi meu jipe, elo que me levava a ultrapassar as barreiras que os 12 quilômetros de estrada de chão poderiam representar entre Alto Paraíso e Moinho. Justifiquei minha letargia com a ausência do veículo. Escusei-me no doutorado para justificar o que, no fundo, era o simples abandono de solitude. Desculpas, desculpas e mais desculpas para evitar a vida.

Findei o doutorado - um ciclo igualmente árduo - de modo que nada mais se colocava diante do inevitável: fechar outro ciclo, mais um ciclo de uma vida já cheia de tantos surpreendentes ciclos! Quando dei por mim já estava me esvaindo a felicidade de antes, o que me levou a reelaborar o que era significativo em meu viver, a desconstrução de um mantra que sempre é reproduzido no discurso materialista que nos afasta de nossa conexão com o Sagrado Feminino. 



Remodelando minhas verdades passei a enxergar com novas lentes tudo aquilo que hoje constato ser a cura de minhas dores: feminismo revisitado na amorosidade ao próximo, e não no extermínio fugidio do masculino, busca do ofício no lugar do trabalho árduo que dilacera a simplicidade. Ou, ainda, a tão temida solidão mascarada de auto suficiência e independência. 

Em meio a tanta descoberta (re)encontrei(?) alguém por quem minha alma ansiava de longa data e, com a força inimaginável que ele, seu amor e seu elemento ar produziram, a sinergia produzida foi e tem sido bastante para firmar em meu coração e em minhas atitudes o desiderato de repaginar o livro esquecido do bem viver. Nunca imaginei a força contundente que o ar pode produzir no fogo ao leve toque de brisa...

Voltei a uma época lúdica em que a vida em meu coração era regozijada com a alegria da inocência e, com isso, redescobri como tornar real o que era muito mais uma quimera do que um sonho concretizável. 

Tinha certa em minha mente a ideia do abandono de Brasília como mera fuga, para ver no Moinho um castelo a me acolher em dias de tempestade. Esse escapismo nunca se tornaria real porque não se pode fugir de si, de nossas essências. Não poderia, enfim, pretender simplesmente sair daqui sem me resolver internamente...

Nesse feriado fomos acampar no Moinho e durante toda a véspera fui acometida de muita ansiedade em relação ao que iria encontrar ali. Sequer dormi direito no dia anterior e no trajeto a angústia veio se encontrar comigo. Lá chegando, contudo, descobri a mudança: eu mudara, Alto Paraíso mudara e, sobretudo, na impermanência, o Moinho mudara estando o mesmo de antes. 

Paradoxo?

Não, pois onde o via na casa com as paredes não terminadas ainda de pé - firme e forte - percebi que meu olhar e desejo mudaram. Conversamos um bom tempo sobre nossos planos e, dentro disso, descobri não precisar mais fugir de Brasília para um exílio, mas, antes, necessitar de mais um caminho, dentre tantos outros que construímos em nossas vidas.

Valorizei a energia elétrica quando agradecia à água pela limpeza de meus corpos físico e astral. Lembrei da internet enquanto saudava a Lua Cheia que pendia no céu repleto de estrelas. Beijei secretamente a cama confortável enquanto me aquecia ao lado do Gabriel para ler um bom livro que, por muitas vezes, em Brasília, não conseguia sequer abrir, ante o atropelo da vida insana que se leva aqui. 

Descobrimos ser possível viver com muito pouco, não para abandonar os bens materiais, mas para saber lidar com o desapego e a eventual privação com gratidão pelo simples fato de estarmos juntos e sermos mais fortes assim. Fizemos comida na lenha e no carvão, superando o temor da falta que um botijão de gás poderia trazer. 

As refeições à luz da Deusa Prateada foram nosso presente em meio a tantos pensamentos. O bastante para enfrentarmos duas rodas empenadas e esvaziamento de pneus, tornando-nos mais fortes depois dos aparentes obstáculos. Redescobri a alegria de guiar minha vida e buscar fazer o que meu coração pede para perseguir realizações que se plasmam de dentro para fora.

Esse é o sentido verdadeiro do que tomo hoje por mágico e bruxesco: muito mais que rimas, entonações, ervas, caldeirões. A verdadeira magia está dentro de nós e em nossa potencialidade que se revela em cada momento de decisão pela felicidade. A partir daí tudo se redesenha, remodela e reelabora: eis a vida em sua glória e eternidade! 

Blessed be!



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