quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Sobre casas, altares e almas: a mudança externa plasmada a partir de nós


Na simbologia junguiana a casa - ou a residência, de maneira geral - sempre esteve associada à ideia de estrutura, alicerce de sustentação da psiquê, chamando, assim, o foco de atenção  no campo de interpretação onírica  para o universo de elaboração do ideário inconsciente de um indivíduo. Nesse contexto, toda casa nada mais é do que a projeção energética e peculiar de quem nela reside, quer seja por um estilo na decoração, bem como até mesmo pela forma com que os móveis e objetos estão dispostos. 

Isso me faz lembrar que assim como todo lar reflete a personalidade e o estado de alma de quem mora nela, um altar devocional (ou reverencial) aglutina a maneira diferenciada como cada uma/um de nós deseja expandir-se energeticamente para o ambiente, produzindo, assim, um foco coeso e límpido de energia a ser destinada em futuros encantamentos, bruxedos ou feitiços. 

Nas tradições distintas - tanto de wicca como de bruxaria - a destinação dos altares reflete objetivos múltiplos, bem como as disposições dos instrumentos inspiram a maneira com a qual cada wiccano/a, bruxo/a, mago/a ou feiticeiro/a atribui significado especial ao que celebra. Na magia cerimonial os altares tendem a ser mais ornamentados e repletos com os instrumentos de poder (punhais, espadas, turíbulos, almofariz etc.) para que a criação da egrégora imante as ferramentas, em contraponto ao modelo wiccano de elaboração de um altar para reverência à Deusa e ao Deus e, a posteriori, realização dos trabalhos mágicos. 

Daí a colocação de imagens representativas dos arquétipos da Grande Mãe como forma de celebrá-la dia-a-dia, já que a wicca baseia seus fundamentos numa ideia de religiosidade. Na bruxaria - conjunto de práticas de transformação ambiental e pessoal - o altar congloba a egrégora em si mesma (sem a noção de religare, pois, ao contrário, a ligação com o todo já existe), sendo um local de energia para onde convergem a representação dos elementos e dos ancestrais.

Tanto poderiam ser os ancestrais da família ou os arquétipos de deidades, mas não necessariamente o arquétipo Deusa e Deus, em face de ser um componente forte da temática wiccana). Seja qual for a tradição ou o sistema mágico, o foco sempre é o mesmo: o que somos se debruça pelo que construímos ao nosso redor nas construções físicas e energéticas desenhadas por nossa vontade

Depois de um longo tempo celebrando sozinha ou com meu amigo Marco Tulio, refleti bastante e decidi compartilhar o conhecimento e o resultado do percurso com outras pessoas, por entender que tudo aquilo que almeja o crescimento espiritual não pode ficar retido em uma pessoa. 

Precisa circular, levar consigo a carga de renovação para que democraticamente outros seres tenham condição de fazer sua própria história. Não se trata de um coven a bem da verdade e nem poderia ser, pois minha família é meu coven de onde retiro minha herança como bruxa. Fui iniciada numa tradição aqui em Brasília e até poderia transmitir esse legado, mas também não me sinto impelida a fazer algo mais tradicional. Refiro-me a algo mais fluido, um grupo de pessoas que estão unidas energeticamente por vínculos de fraternidade e que têm no ir e vir a maior expressão de liberdade.

Daí as palavras-chave para 2014: frater, confraria, sobretudo CLÃ!

Clã, grupo de pessoas ligadas pelo parentesco e por uma linhagem, tanto física como simbólica e reunidos em torno de um totem deídico, que pode ser o ancestral originário do grupo. A resultante, enfim, dos elos ancestrais que se alinhavam e aperfeiçoam, lembrando-nos de nossas caminhas de outros tempos e, ao mesmo tempo, chamando nossa atenção para a renovação de nossa morada, de nosso altar. Para a renovação, ao final, de nós mesmo/as em nossos propósitos de vida. 

Um clã se sustenta energeticamente porque é movido, acima de tudo, pelo imenso amor entre seus membros, bem como a inerente afinidade no reencontro de almas que estavam apenas esperando o tempo certo de maturação da alma para que as missões fossem iniciadas. Um clã se firma pela coragem em se realizar o sacrifício necessário para a doação da centelha de energia que habita em cada um/a de nós que dele fazemos parte. Nem mais, nem menos: todo/as construímos em patamar de igualdade o momentum mágico com a projeção de nossa parcela de divindade. Um clã se faz, enfim, pela derrocada das tormentas e pela observação lânguida do que ficou para trás...

Casas, altares e almas... moradas de clãs, nada mais. Tudo mais!

Mílle cèad fàilte!



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