terça-feira, 9 de julho de 2013

Fluxos, refluxos e inconstâncias: a necessidade de repensar os dias sagrados de poder menstrual

Em idos de pós-modernidade onde menstruar transformou-se em um verbo incômodo, inconveniente e, sobretudo, em verdadeira palavra impronunciável, importante desvendar alguns tabus arraigados nas as sociedades "modernas" que transformam cotidianamente o Sagrado Feminino em objeto de chacota e desumanização...

Desde as propagandas de absorventes - que fazem questão de atrelar ao fluxo menstrual uma conotação de intenso sofrimento e infelicidade plena (basta observar as propagandas que trazem a "plenitude" de se usar uma "calça branca") - até as inúmeras teorias a respeito da experiência em vivê-lo (experienciá-lo ou não experienciá-lo, eis a questão), o assunto virou vitrine nos mais distintos nichos, o que o torna ainda mais interessante de ser analisado sob a perspectiva de enlace com o Sagrado Feminino. 

Em algumas tradições antigas (refiro-me, sobretudo, às sociedades proto-cristãs nas quais se deu o apogeu da cultura patriarcal a relacionar a menstruação a pecado e sujeira), o período de fluxo menstrual era considerado o momento de ápice na expressão de poder feminino e, dentro disso, de magicidade. Isso remonta a uma ideia ancestral de força contida no sangue, já que em tempos remotos não se sabia, ao certo, a razão pela qual a mulher sangrava mensalmente sem fenecer, ao passo que o homem ferido em uma guerra poderia vir a óbito por razão de um leve ferimento infeccionado.

Sangue aglutina na vermelhidão vívida e férrea o poder de vida, mas é bem verdade que também marca o prenúncio de morte nas antigas batalhas dominiais na Europa antiga tão marcadas em nosso consciente coletivo pela identificação imediata com os filmes épicos ou beligerantes. O rubro atrai a atenção de nosso cérebro, reverberando o apelo à ira, raiva, auto-estima, paixão e ao poder (tanto que a pedra representativa dos cardeais e papas, bem como do/as advogado/as) na mandala cromoterápica. 

Naquelas comunidades anciãs os ciclos menstruais das mulheres conviventes no mesmo grupo apresentavam sincronia, marcando a pontual ocasião em que se deveriam se recolher dos afazeres diuturnos para vivenciarem o momento de expressão plena na conexão com o sagrado. 

Reunidas em uma casa comunal procediam a rituais depurativos, bem como a técnicas de visualização e profetização, além do compartilhamento de histórias de suas ancestrais, afastando-se, assim, da comunidade (e de seus parceiros e companheiros) para experienciarem um momento único ao lado umas das outras. 

Tais ciclos observavam os períodos de 28 dias, correspondentes às fases lunares (Nova, Crescente, Cheia e Minguante) que igualmente se sincronizavam a uma misteriosa teia de vida a unir em conexões causais toda sorte de eventos e fenômenos. Lua e sangue, nesse contexto, trouxeram para as práticas pagãs modernas heranças simbólicas muito fortes para a catálise dos eventos a serem conduzidos por ocasião de algum bruxedo ou feitiço.

Quando os dias primeiros de declínio do fluxo sanguíneo (resultante da descamação do útero) coincidem com a Lua Negra (3 dias antes da Lua Nova) e a ovulação coincide com a Lua Cheia, temos o ciclo da Lua Branca, momento propício para a magia de fertilidade (em qualquer que seja a área, não necessariamente em termos de reprodução). Basta observar a proximidade entre a ovulação (período auspicioso para fecundidade) e a Lua Cheia, apogeu de maior expressão de plenitude do satélite. 

A coincidência entre a descida do fluxo e a Lua Cheia, bem como entre a ovulação e a Lua Negra, remontam à Lua Vermelha, tempo de reflexão, alta meditação e trabalhos relacionados à sombra, limpeza e depuração. Essas correlações são importantes para quem deseja trabalhar a conexão com o Sagrado Feminino em termos de veneração ao próprio corpo e seus pequenos ritos. 

Diante da maciça propaganda em torno da menstruação importante revisitar algumas questões que podem influenciar os ciclos acima descritos. Refiro-me especificamente aos alteradores hormonais - ou seja - aos métodos contraceptivos que implicam ingestão de substâncias e alteração do metabolismo feminino.

É sabido que a ingestão de anticoncepcionais altera o ciclo, evitando a ovulação. Com isso o mecanismo mágico acima descrito modifica-se substancialmente, já que, a rigor, inexiste a fase de expulsão do óvulo. Em relação a tal, um pequeno ajuste: o período de descamação uterina (e sangramento) passa a ser critério para se identificar o ciclo da Lua (Branca ou Vermelha)

Assim, se a descamação ocorrer em um dia de Lua Negra tem-se a Lua Branca como orientadora dos trabalhos mágicos, ao passo que o sangramento na Lua Cheia aproxima o ciclo da Lua Vermelha. O diferencial nesse sentido, consiste em não se adotar a ovulação com critério definidor da lunação, fincando-se o parâmetro na fase de descamação uterina. 

Importante ressaltar - dentro do tema - que o uso de método anticoncepcional  constitui metodologia altamente invasiva e alteradora metabólica, na medida em que o funcionamento orgânico feminino é modificado por meio de agentes externos e alheios ao sistema. 

Em linhas gerais trata-se de uma transformação por meio de uso de verdadeiras "bombas" hormonais que podem acarretar efeitos colaterais geralmente inóspitos para a mulher. Por outro lado, considerando-se a possibilidade de malogro dos métodos físicos (tabelinha e coito interrompido),  o uso de métodos contraceptivos subsiste como uma realidade (ou necessidade) para a mulher pós-moderna. 

Não estou desejando realizar uma apologia pró ou contra o uso do anticoncepcional, mas o adequando às práticas mágicas realizadas pela "bruxa moderna", no intuito de transmitir conforto - e, no caso, aplacar eventual culpabilidade judaico-cristã ainda resistente -  a quem deseja potencializar os efeitos dos bruxedos e encantamentos sem abrir mão do conforto em lidar com as marcas de dor e sofrimento que a auto-culpa patriarcal produziu em nós. Por isso sugeri o ciclo parcial de agregação à Lua (a partir do momento de descamação uterina).

Sem culpa!

Voltando ao enredo ancestral, durante os dias de poder menstrual as antigas matriarcas não dividiam seus leitos com seus parceiros em algumas culturas, preservando a energia gerada ali para a realização de trabalhos psíquicos (como os de cura), bruxedos e visualização de presságios. Isoladas, contavam com a reverência dos parceiros à misteriosa figura da Grande Mãe nutriz que, dadivosa em seus bálsamos, produzia a conexão e se plasmava nas mulheres do clã. 

Pouco a pouco, porém, com a progressiva transposição de uma sociedade cooperativa para o modelo patriarcal, as tradições de isolamento feminino foram cedendo espaço para o convívio entre homens e mulheres, o quem posteriormente, com o "salto" quântico para as sociedades industriais, selou de vez a preservação de tais tradições em ternos de coletividade. 

No lugar da veneração, do culto e da troca, a cólica, a TPM e o mau humor, todos fortemente catalisados por uma propaganda maciça de desqualificação do ciclo menstrual, para se reputar ao período um momento de sofrimento, dor e, claro, loucura. 

Existem relatos bem interessantes de inexistência de tais "sintomas" (sintomas da derrocada da sociedade pós-industrial, e não da menstruação) em comunidades indígenas, bem como em coletividades que não compartilham a ordem esquizofrênica da divisão do trabalho. 

Atualmente as demandas por equalização de gêneros têm trazido importantes reflexões nos círculos mágicos e clãs a partir do questionamento acerca da necessidade de apartação feminina durante o período menstrual. Nos locais onde a liturgia ainda se mantém na devoção unilateral ao arquétipo da Deusa o afastamento acena ser condição elementar para o êxito dos trabalhos mágicos. De outra sorte os círculos mistos tanto podem trabalhar a miscigenação de forças (masculino e feminino), como também observar a apartação entre os pares durante o período. 

O que transparece como mais adequado? 

Eis a dúvida para a qual a resposta mais razoável ainda parece ser a relativização de acordo com a perspectiva adotada pelo clã, coven, ou, ainda, pela bruxa solitária. Não se trata de um niilismo incongruente ou sincretismo que tudo permitem, mas, antes, de uma adequação ao que o grupo ou a bruxa solitária reverenciam como elaboração de suas respectivas maneiras de sagrar o Feminino.  

Para a prática de bruxaria solitária é bastante interessante o isolamento como natural resultado de experienciação dessa senda de autoconhecimento. Passei muito tempo de prática solitária preservando-me nos dias de sangue e utilizando o tempo útil no recolhimento da meditação, quase sempre por meio do afastamento dos afazeres profissionais e do convívio social. 

É bem verdade, contudo, que o afastamento também acenava ausência de empatia energética na parceria que um relacionamento poderia oferecer, tendo em vista que nem todas as pessoas professam o mesmo caminho de autoconhecimento que eu (nem estou sugerindo isso).

Mas diante da afinidade energética e do compartilhamento de temas comuns na senda de conexão com o sagrado não vejo problema em imergir nos mistérios do sangue com o parceiro, conquanto isso seja decidido em comum pelo casal, bem como desenvolvido ao longo de um tempo de dedicação recíproca ao desenvolvimento energético e psíquico (caso contrário estaríamos diante de parasitismo ou vampirização psíquicos). 

Considerando a plenitude de um ciclo energético altamente rico, fértil e poderoso, a união sexual entre parceiros durante o período de declínio de fluxo sanguíneo (ou até mesmo prosseguindo na ovulação) potencializa toda sorte de elaboração mágica elaborada pelo casal, atuando como catalisador de eventos cuja mentalização (ou visualização) demanda ser plasmada do plano sutil para o psíquico (ou físico). Daí a crucialidade em desenvolver um relacionamento harmonizado, na medida em que os planos sutil e físico entrelaçam-se na formação de egrégoras. 

Com isso, a rigor, valeria o mesmo princípio hermético: necessidade, conhecimento e emotividade na realização do ato. Por intermédio da adequada preparação ritual forma-se um vórtice energético altamente produtivo e que pode chegar até a empreender a uma ruptura dimensional para permitir acesso a outros planos existenciais. 

Quer seja um simples esbat no qual Deus e Deusa unem-se no hiero gamos para o alcance da unidade, como em um sabbat ou no cotidiano das práticas pagãs, a união sexual entre parceiros durante o período de declínio menstrual é hábito saudável e sugestionável para o equilíbrio energético entre os pólos.

Sem deixar de mencionar os benefícios para a fisiologia feminina encontrar-se com seu contraponto (no caso adotei o paradigma heteroafetivo/sexual como referência em virtude de minha experiência pessoal, sem prejuízo da liberdade que a plenitude de escolha sexual acarreta), na medida em que as feridas patriarcais de outrora passam - pela confluência harmoniosa dos parceiros - a ceder espaço para a verdadeira cura energética ante a conscientização sobre equalização, completude e complementaridade. 

"(...)
Que a estrada se abra à tua frente.
que o vento sopre levemente às tuas costas
Que o sol brilhe morno e suave em tua face.
Que a chuva caia de mansinho em teus campos.
E até que nos encontremos de novo.
Que os Deuses te guardem na palma das mãos
(...)"





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