quarta-feira, 3 de julho de 2013

As above so below: os pequenos rituais de limpeza e purificação...

Sempre fui adepta dos aromas exóticos que os incensos oferecem aos olfatos mais aguçados e sensíveis, por entender que paladar e olfato são as portas de entrada para percepções sensoriais mais profundas. 

Desde o sândalo - com sua acentuada nota de docilidade cortante - até o jasmim em sua fragrância cítrica, tudo sempre foi (e é) uma novidade em termos de busca por cheiros diferenciados para finalidades distintas no mundo mágico. 

Acordei inspirada pela Grande Mãe de Sabedoria Infinda a compartilhar algumas ideias sobre profundidade que um ritual de limpeza oferece a partir da escolha dos elementos usados para se depurar o ambiente. 

Isso, ao longo da trajetória familiar - sobretudo nas lições sábias da matrilinearidade do clã de La Vega - descobri pouco a pouco o que a Natureza revelava como conhecimento gratuito, materializado no uso de instrumentos, ervas, defumadores e substâncias como acetona, amônia e cânfora.

A limpeza astral - ou energética - contextualiza-se bem nessa jornada mítica rumo ao maravilhoso mundo dos cheiros, a partir da qual se desenvolvem  os pequenos (ou grandes) rituais mágicos em suas distintas expressões de finalidades. 

Dentro do preceito hermético de reflexividade entre mundos etéreo e físico - materializada na famosa frase "as above so below" ["como acima é abaixo", primeira lei hermética ou máxima de Trismegisto]- a limpeza e a purificação do espaço ocupam um lugar central, pois, por intermédio delas - como condição necessária e suficiente - os enredos mágicos e bruxedos tomam forma, harmonizando os planos dimensionais e desfazendo nodos, miasmas e demais formas-pensamento que eventualmente plasmamos, herdamos ou plantamos em nossas imanações conscientes ou inconscientes. 

Desde as antigas tradições de magia (cerimonial, alta magia) até a bruxaria tradicional - bem como a familiar - existe certo consenso em se ter nos planos (astrais, energéticos, anímicos etc.) dimensões coexistentes a formar uma realidade una, e não dual, como usualmente se cristalizou ao longo da historicidade, sobretudo a ocidental, que se especializou numa cisão - a dualidade - entre o mundo natural e o dito "espiritual".

[Nesse sentido prefiro usar a palavra "mundo etéreo ou invisível" ao invés de espiritual, por acreditar que a palavra "espírito" foi indevidamente apropriada e descontextualizada por algumas manifestações religiosas, de modo a agregar certo ranço de discriminação com tudo que não estaria contextualizado numa egrégora de cristandade, a exemplo do que Blavatsky e Kardec construíram em termos de dogmática em suas respectivas agremiações de base cristã]

Voltando ao tema e diante de tal raciocínio, a limpeza e a purificação "do que está acima" reverberam no plano do visível (ou seja, na dimensão densificada do físico), harmonizando, assim, as esferas dimensionais do que se vê e não vê. 

Na bruxaria familiar - bem como na própria wicca - a limpeza está simbolicamente vinculada à figura da vassoura - usualmente de piaçava - ora tida como artefato alegórico, ora erigido como verdadeiro instrumento cerimonial. 

Na Idade Média a vassoura passou a ser a marca identitária das praticantes de bruxaria, sob a alegação de galgarem as bruxas altos voos em cimas de suas vassouras, lambuzadas por unguentos que venciam os obstáculos da gravidade. Outros tantos relatos falam no uso no cabo da vassoura como o cajado cerimonial que, ao ser descoberto em eventual inspeção inquisitorial, transformava-se facilmente em um objeto ingênuo (vassoura).

Não importa o vasto contingente de interpretações dadas ao uso da vassoura, pois vale a regra: o que é é, a partir da agregação entre necessidade (que atrela motivação e desejo), emoção (gatilho subconsciente) e conhecimento (dados transmitidos), elementos vitais para o trabalho mágico e que se materializam na vassoura como um primeiro momento de limpeza etérea e física. 

O altar varrido invoca a percepção de limpeza a partir do elemento Terra presente tanto na piaçava da vassoura, como no movimento delicado e respeitoso de devoção ao espaço. Varrer esparge e bane uma categoria mais perceptível e densa de energia, iniciando, assim, o ritual mais profundo de purificação. Eis a razão pela qual se varre sempre um espaço de dentro para fora e, de preferência, para a rua.

Feito isso uma receita sempre infalível: borrifar os quatro cantos do ambiente, em sentido horário (particularmente caminho na Roda da Egrégora do Sul, segundo Coriolis) com acetona diluída em água (solvente universal) na proporção de 1:3 ou, ainda, com amônia em água na mesma proporção. 

De novo a regra - o que é é - pois os acentuados aromas de tais substâncias - bem como sua concentração que até causa náusea - são bons indicativos de limpeza astral. Não há miasma e forma-pensamento que resistam ao acentuado aroma dessas substâncias, conquanto, claro, não seja apenas um ato mecânico de borrifamento, mas, antes, um impulso volitivo no qual a fórmula necessidade + emoção + conhecimento dá a tônica. 

Vivendo e aprendendo com a sabedoria dos membros do clã: tempos atrás uma grande amiga (Dona Maria Beatriz) sugeriu-me a diluição de 5 pastilhas de cânfora em álcool e seiva de alfazema, o que achei pitoresco e interessante de ser investigado. 



Descobri no aroma da cânfora o mesmo aspecto de repulsa olfativa presente na amônia e na acetona, o que me parece ser bem providencial, até mesmo porque nas sendas esotéricas corre o relato de uso positivo da cânfora na época de disseminação da gripe espanhola

A cânfora é usualmente comercializada em pastilhas, mas descobri que pulverizada (ou seja, macerada em um almofariz, o famoso pilão) ela esparge o fogo melhor, aderindo à mistura feita em sede de defumação. 

Ainda que a medicina alopática negue veementemente - alegando ser placebo - nunca é demais mencionar a existência de outros paradigmas científicos e, no caso medicinais, a exemplo da medicina chinesa, aiurvédica  homeopática que, ao longo dos 6.000 anos, têm mostrado a derrocada dos antigos sistemas dualistas (medicina tradicional alopática é um deles, pois se pauta em premissas superficiais de ataque à consequência no plano físico-causal, e não ao plano unicista).

Mas voltando às descobertas... 

Já a seiva de alfazema - nunca é demais lembrar que a origem da planta, muito disseminada em rituais e cultos afro-brasileiros, remonta à Europa (sobretudo em locais de clima temperado, a exemplo da França, que ostenta as mais belas plantações do mundo), utilizada irrestritamente no tratamento da insônia, gripe, tensão nervosa, depressão, bem como no tratamento ginecológico (outro dia falarei mais a respeito).

Seu aroma não é tão pronunciado - em termos de repulsa - como as substâncias acima descritas, mas, antes, agrega um diferencial concomitantemente cítrico (tudo que é cítrico é agente de limpeza e veículo anti-depressivo) e suave, o que lhe encaminha para o trabalho de limpeza, purificação e harmonização. 



Daí a genialidade - grata, Dona Beatriz! - em se elaborar uma diluição de 5 pastilhas de cânfora em 2 porções de seiva de alfazema e 3 de álcool (5:2:3), formando uma mistura agradável ao olfato e que pode ser espargida no sentido anti-horário, pois não se trata apenas de expulsão e banimento, mas, antes, de uma mistura que limpa e harmoniza ao mesmo tempo.

Aliás, de tudo que aprendi até aqui com minha mãe avó e tias, uma dica: o que cheira bem indica que deu certo... O que cheira mal, a menos que seja da essência do elemento o odor (pois se trata de defesa da Natureza) indica erro no trabalho alquímico e a necessidade de voltarmos à experiência, na base da tentativa e do erro (grande lição apreendida com a magnífica Nôra Shannon).

Depois desse pequeno ciclo depurativo no qual Terra e Água são proeminentes como veículos passamos ao trabalho com o Fogo e o Ar: eis a colaboração dos incensos e defumadores tão apreciados no mundo mágico! Mais uma vez vale a regra: emoção + necessidade + conhecimento, elementos anímicos vitais para o sucesso de um ritual de purificação. 

Adepta do incenso por muitos anos - para falar bem a verdade, minha vida mágica inteira - evitei o uso dos defumadores, tendo em vista a praticidade que os palitinhos ofereciam em termos de facilidade na queima. Hoje mesclo o uso de incenso com ervas de defumação de acordo com a finalidade. 

Muito se fala sobre as diferenças entre incensos e defumadores... Confesso ter rido muito nos últimos 20 anos de proliferação de artigos na  rede virtual (por isso ainda prefiro os sebos e livros físicos, a exemplo da Estante Virtual) que nada esclarecem, mas, antes, trazem mais e mais confusão para as mentes percucientes e sedentas de conhecimento mundano.

O incenso consiste em uma mistura que traz como base uma resina, carvão ou massala na composição de um pó que tanto pode ser macerado e amassado em torno do palito, como, também pode ser usado in natura, ou seja, no próprio pó. 

O defumador é uma mistura herbal ou resínica granular que não contempla a maceração como modus operandi. As diferenças residem, assim, em um primeiro momento, tanto na composição da mistura (pois no caso do incenso, o carvão e a massala são as notas mais perceptíveis, a começar da cor e da textura), como na coloração. 

Sem deixar de mencionar a necessidade de maior expertise no manuseio de defumadores, pois dependendo das resinas e das ervas usadas, torna-se necessário o domínio na articulação entre o fogo e o ar, ao contrário do incenso, no qual o acendimento é mais simples. 

Há quem diga que o nível de adentramento nos planos sutis é mais profundo quando se utiliza a defumação ambiental para a purificação, mas lembro que os relatos históricos dão o mesmo crédito para o incenso e para a queima herbal/resínica, já que, ao final, a equação necessidade+emoção+conhecimento é a mesma. 

Aliás, a queima de incenso/defumador agrega os três elementos (fogo, ar e terra), sendo profunda a purificação realizada. Seguindo, porém, a velha máxima do "que é é", o volume de resina/erva transmutado em ar tende a ser maior no caso da defumação, o que acena para uma proporcional limpeza, se comparada à sutileza com a qual o incenso revela seu alcance mais imediato. 

Dentre os absurdos que já li a respeito da polêmica incenso versus defumador uma última ressalva: a defumação não é um instrumento exclusivo dos sistemas sincréticos afro-brasileiros, assim como o incenso não é monopólio inventivo da Índia, pois a utilização de ambos remonta a povos das mais distintas origens e raízes, o que torna seu uso de irrestrita propagação. O diferencial reside na destinação do uso do material, e não em uma alegada eficácia relacionada ao sistema religioso e mágico a ser manuseado. Há espaço para ambos.

Dada a necessidade de uma profunda limpeza, opto pelo manuseio do defumador granular, pois além de permitir a liberdade na escolha das ervas e das resinas, permite maior aprendizado na lida com os elementos, já que não se trata pura e simplesmente de atear fogo, mas, antes, de harmonizar a relação fogo-terra-ar para que a misture vingue e cumpra seu propósito. 

Ao final do processo de limpeza e purificação sempre imanto a energia com sal grosso, o eterno incompreendido elemento. Muito também se fala sobre sua potencialidade repulsiva (algumas pessoas equivocadamente entendem que um banho de sal grosso deve ser feito da cabeça aos pés), mas na liturgia europeia antiga - sobretudo na bruxaria familiar - o sal FIXA, pois a despeito de advir da evaporação da água, sal é elemento Terra, fixador universal de motivação e propósito. Ou seja, não contém em si mesmo o propósito de banimento, mas como cristal fragmentado, é programado para tal, como um computador. 

Daí, quando depurada a casa, a colocação de sal nas frestas e portas dar azo para a formação de uma barreira energética: não se trata da propriedade intrínseca do sal grosso, mas da programação (equação necessidade + emoção + conhecimento) feita a partir dele e após o ritual completo de limpeza. Afinal, "o que é real a terra fixa, a água purifica e assim permanece; o que é ilusório o fogo transmuta, o ar carrega e assim fenece" sabedoria antiga imersa nas brumas esquecidas por uma humanidade que se especializou no uso da razão e se esqueceu dos meandros do invisível...

Caed mille fàilte!  







2 comentários:

  1. Gostei muito mesmo da sua elucidativa explanação acerca das purificações, em palavras acessíveis e instigantes, que fazem o leitor buscar mais sobre o assunto em pesquisas bibliográficas, e, no meu caso, me auxilia a não complicar muito dentro do quesito "conhecimento" da tríade da magia.
    Muito me inspira em dar uma especial atenção no momento de juntar os elementos no pilão -almofariz(!)- em uníssono com o Grande Artífice Do Universo e assim poder ascender a Chama Sagrada em meu pequeno altar, para assim poder emanar as vibrações em todas as esferas e reinos, afastando assim todos os elementais e forças que não estejam em perfeita sintonia com o universo.

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