domingo, 6 de janeiro de 2013

Os mistérios da Grande Deusa e a virtude do silêncio

Em idos de contemporaneidade em que o feminismo tem sido a constante na rediscussão dos papeis sociais de homens e mulheres, nada mais providencial do que se rediscutirem também os dogmas de estruturação de uma cosmogonia patriarcal e androcêntrica que sempre deixou o feminino alijado do exercício espiritual de poder.

Sob a escusa de uma androginia totalmente falsa, a religiosidade ocidental cristã alicerçou as bases da reprodução endêmica de uma dogmática religiosa na qual a figura da mulher ora é retrata em um espaço subalterno, ora é trazida em grau de acessoriedade, uma vez que a primazia do exercício de ofícios religiosos e ritualísticos, muitas vezes, é monopólio do homem.

Com a incessante inovação das matizes espirituais exsurgentes no chamado neopaganismo (e suas irradiações múltiplas), o cenário está sendo redesenhado no sentido de se atribuir ao Sagrado Feminino papel central na força creativa, restaurando-se, assim, os estudos sobre as antigas culturas pré-cristãs (mormente a celta) que tinham na equalização entre gêneros o ponto central das narrativas mítico-religiosas.

Muita procura tem sido realizada ultimamente. Algumas, imbuídas no firme propósito de resgatar a tradição da Deusa e, com isso, reformar-se a concepção tradicional androcêntrica para a porosidade da racionalidade em que se esteia, dando-se vazão, assim, à sensibilidade inerente à manifestação dos arquétipos da Grande Mãe.

Um cuidado, contudo, motivou essa postagem: a busca também realizada por partes de pessoas totalmente levianas em seus propósitos e que buscar "assuntar" o tema apenas como um mecanismo de aumento de acervo intelectual, sem qualquer compromisso com a devoção e o respeito necessários às coisas do espírito.

Tive a oportunidade de conviver com uma figura que tentou obter de mim informações (mistérios) sobre o Sagrado Feminino, insistindo em haurir conhecimento imediato e instantâneo sem se verter ao necessário debruçamento na vivência da senda. 

Figura completamente perdida, transitava em todos os nichos espirituais, numa verdadeira miscelânea de egrégoras, perceptível a olho nu pelo fato de ostentar no pescoço toda sorte de símbolos de proteção das mais variadas ordens. Segundo constava de nossas conversas, faltava para "sua coleção" o triskelion (símbolo primordial do Sagrado Feminino), bem como o símbolo dicotômico do yin e yang (??), o que me fez acreditar piamente em seu desespero de causa.

Convidado para um evento em um grupo de mulheres, um evento, em especial, chamou minha atenção: durante todo o ritual, a coluna vertebral da pessoa deu, a todo tempo, sinal de vida, acarretando, com isso, uma total falta de atenção à liturgia, pois, claro, impossível é a concentração diante da dor. O racional, então, estratificou seu coração, tornando-o um terreno estéril para qualquer tentativa de se acessar o divino...

Isso não foi o que me deixou ressabiada em relação a compartilhar os estudos no Sagrado Feminino, mas, antes, a total falta de compromisso desse ser em sequer reunir esforços para - tomando conhecimento dos postulados - manter-se no mais chauvinista comportamento, consolidando seu machismo estrutural  em doses homeopáticas de queda de sua máscara. 

Assim, depois de se apresentar como sendo uma pessoa altamente evoluída, cordata e respeitadora do feminino, o convívio foi o bastante para observar o desrespeito à personificação da Deusa nas mulheres de sua vida, haja vista que, inseguro, fraco e covarde, não hesitava em vilipendiar cada uma das mulheres com quem ousou, um dia, relacionar-se. Ou seja, apenas discurso, nada mais que discurso.

Desconfiada disso, calei. Esse é o ponto central dessa postagem. Calar é a melhor virtude a ser exercitada no caso de dúvida em relação à real intenção de uma pessoa que decide nos interpelar para que revelemos os sagrados mistérios ancestrais de reverência à Sagrada Mãe. Silêncio crucial e vital para que os tempos da Inquisição não retornem aos nossos dias.

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