domingo, 6 de janeiro de 2013

Morríghan, a gigante lavandeira do vau do Unshin

Na liturgia dos ciclos comemorativos nos diversos focos de historicidade celta, o dia 06 de janeiro é tradicionalmente consagrado à deusa Morríghan (Morrigan ou Mórrigán), deidade densa, complexa e fascinante, regente da guerra, senhora da Morte e da expressão livre de uma sexualidade sem amarras pudicas. 

A força de seu arquétipo lembra a realeza e a grandiosidade da Terra, o poder inigualável que advém das entranhas da Natureza em sua forma mais rústica e sacral.

Agrega, ainda, a força uterina que imerge tanto nos segredos da vida (já que o útero é o caldeirão criativo que acolhe toda a atividade poética de gestação) como da morte (bastando lembrar que o mesmo útero verte o sangue sagrado quando o óvulo não é fecundado: uma pequena morte mensal a que todas nós, mulheres, damos impulso naturalmente), tendo como animal-totem o corvo, ave que se refestelava nos campos dos dejetos dos guerreiros e das guerreiras mortos nas batalhas, ao mesmo tempo em que era "os olhos" da Grande Guerreira (quando não a própria incorporada na ave).

Ao lado de Badb (corvo) e Macha (senhora dos cavalos), Morríghan compõe a trindade deídica das filhas de Ernmas, ancestral matrística de Bánba, Fótla e Ériu (um dos nomes da Irlanda-esmeralda), trindade, por sua vez, originária do nobre povo de Errin. 

Durante a primeira batalha de Moytura, as morrígna atacaram bravamente os Fir Bolg por intermédio da invocação das intempéries das chuvas, do fogo e do sangue derramado sobre as cabeças dos inimigos, reforçando a intrínseca conexão dos celtas com a magia como instrumento hábil a mudar os rumos de uma batalha. 

Já na segunda batalha de Moytura, Morríghan ocupa um lugar central nas narrativas, pois se encontra com Dagda na véspera de Samhain - lembrando que as datas eram comemoradas durante três dias, numa repetição do padrão da trindade - um ano antes da luta, em um encontro já predeterminado à beira (vau) do rio Unshin

Esse épico encontro marca a grandiosidade de ambos os deuses - expoentes máximos dos princípios universais contidos na polarização do masculino e do feminino - já que Dagda, ao chegar ao local com sua potestade física, depara-se com uma mulher grande, que apunha um pé em cada margem do vau, prostrando-se na água para lavar as armas e os cadáveres ensanguentados daqueles que iriam morrer no dia seguinte. 

O vau - parte rasa do rio (nem fundo, nem raso, ou seja, o ponto de equilíbrio) foi cenário para a revelação feita por Morríghan a Dagda dos segredos das linhas inimigas, bem como para o conúbio sexual entre os deuses, selando, assim, a unidade entre o masculino e o feminino sagrados, o que garantiria a vitória no dia seguinte. 

Essa contraposição entre vida (ato sexual) e morte (sexo feito em cima dos cadáveres dos guerreiros mortos) marca a lírica da percepção celta sobre a naturalidade do processo de vida-morte-vida, que se espirala numa constante universal de infinitude, chamando a reflexão sobre a conhecida coragem com que o celta se lançava para a batalha, já que, imbuído de fé, nada temia...

Na véspera da batalha, é a vez de Lugh, o guerreiro-sol, receber de Morríghan o incitamento (roscad) para se lançar em campo, comandando os Tuatha Dé Danann à vitória contra os Fir Bolg no exato local onde, um ano antes, tivera a deusa o encontro sexual com Dagda. 

Com isso, muito mais do que uma mera alusão como ceifadora e arauto da morte, Morríghan exerce papel fundamental nas narrativas celtas como profetisa e cuidadora, uma vez que tanto os incitamentos para a batalha, como as revelações sobre os detalhes do campo inimigo mostram a omnisciência dessa deusa em relação ao devir, ao mesmo tempo em que, por intermédio de sua fala, procura acautelar seus compatriotas em relação à necessidade de cuidado.

A "nota de amor" (nada romântico, diga-se de passagem) na vida mítica de Morríghan exsurge de sua relação conturbada com o herói Cu Chulainn, que se inicia quando o guerreiro ainda era uma criança e se deparou com o corvo a rir da faceta de espanto do garoto ao se deparar com um fantasma perambulando entre os despojos de uma batalha. Quando instado pela troça da ave (greesacht) quanto ao medo de fantasmas ser um impeditivo para se tornar um grande guerreiro, Cu Chulainn se ergue, encoraja-se e cumpre sua missão, tornando-se o maior herói mítico da Irlanda.

O nobre guerreiro, contudo, passa boa parte de sua breve jornada tripudiando do amor da Deusa por ele, pois mesmo diante da beleza de Morríghan (que lhe prometera fartura ante o casamento entre ambos), o altivo homem responde-lhe que "I have no time for a woman´s backside", despertando, assim, a ira ferrenha da Deusa que, dali em diante, passa a acompanhar - na forma de corvo - os passos à espera da morte de Cu Chulainn. 

Morríghan ainda tenta dissuadir o herói do desprezo a ela lançado, em outro encontro, sob a forma de uma mulher ruiva a conduzir uma carruagem conduzindo uma vaca. Quando o guerreiro pergunta a origem do animal, é Morríghan quem responde, sendo interpelada por Cu Chulainn, que não admitia uma mulher responder por um homem. 

Mesmo quando a deusa se transforma em corvo e prostra-se sob os galhos de uma árvore declamando os versos que conhecidamente anunciavam sua chegada, o encontro ainda é tenso e servirá de pano de fundo para o derradeiro encontro de morte entre os enamorados. 

Isso tudo, sem deixar de mencionar os três ferimentos impingidos por Cu Chulainn a Morríghan - quando a deusa se apresentou a ele nos combates contra os guerreiros de Connacht na forma de uma bezerra, uma enguia e uma loba - curados graças ao ludibrio da deusa em relação ao herói, vindo a receber dela a benção para a cura das feridas.

Ao final, na batalha contra as hordas de Maeve, Cu Chulainn recebe a profecia de um druida a indagar do herói se ele percebera a presença da "lavadeira do vau" a lavar seus restos mortais. Mesmo assim, na noite anterior, a deusa apaixonada ainda tenta impedir a morte do amado, incendiando a carruagem de combate de Cu Chulain, em vão. 

Ao ser ferido nas entranhas que se espargiram ao solo (mais uma vez a menção à terra, que a todos e todas recebe para o abraço final), Cu Chulain amarra-se a uma pedra para que pudesse permanecer de pé e lutar e, com isso, assiste à chegada do corvo (Morríghan), que pousa em seu ombro e, depois, vai ter com as entranhas espalhadas de Cu Chulainn... 

Eis o fim da jornada do guerreiro recepcionado, no além-vida, pela deusa que passou parte do seu tempo repudiando.

A egrégora de Morríghan invocada nesse dia 06 de janeiro nos remete à reflexão sobre os aspectos sacrais de despojamento, bem como da reverência ao feminino. Além disso, detentora dos segredos da vida e da morte, propala uma energia fecunda para lidar com situações adversas, conclamando-nos para as batalhas em nossas vidas, bem como para a necessidade do desapego do que não está destinado a fazer parte de nossas experiências, bastando lembrar de Cu Chulainn que, nas vida da deusa, sempre representou desencontro em relação ao desiderato dela em se ligar afetivamente a ele.

Assim, longe de representar uma deusa difícil, incongruente e complexa, Morríghan se revela como a mais completa personificação de atributos múltiplos, sempre embalada pela determinação, força e garra com a qual se lançava rumo ao seu destino.

Fáilte, Mór Ríogain! Ho!

Referências:


  1. FAUR, Mirella. O Anuário da Grande Mãe: guia prático de rituais para celebrar a Deusa. 2 ed. São Paulo: Gaia, 2001.
  2. MACKILLOP, James. Myths and legends of the celts. London: Penguin Books, 2005.
  3. QUINTINO, Claudio Crow. O livro da mitologia celta: vivenciando os Deuses e as Deusas ancestrais. São Paulo: Hi-Brasil, 2002.
  4. SQUIRE, Charles. Mitos e lendas celtas. Trad. Gilson B. Soares. Rio de Janeiro: Nova Era, 2003.
  5. The Mabinogion. Trad. Lady Charlotte E. Guest. New York: Dover Publications, 1997.
Fonte da imagem: http://pagannazgul.tumblr.com







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