sábado, 19 de janeiro de 2013

A reverência ao Sagrado e as relações com o masculino


Todos os dias revisito mentalmente uma série de situações em que a sacralidade feminina é diuturnamente colocada à prova, sobretudo, por certa insistência de uma tipologia de masculino - acredito ser o rescaldo do paradigma até então dominante e que, por agora, decai rapidamente ante novas ondas de libertação feminina e feminista - que tenta, com sofreguidão, desqualificar as expressões do Sagrado que nos dignificam como representações da própria Deusa.

A mais visível delas diz respeito ao proselitismo com que determinadas ideologias religiosas, de cunho patriarcal, suscitam vozes em torno da supremacia do masculino como monopólio da criação - a ideia de masculinidade de Deus - em detrimento de uma Deusa a gerar toda a vida. 

Para tanto, valem-se de um dogma de construção que espelha, ao final, o androcentrismo como via única de expressão possível de religiosidade, sem considerar, com isso, os anos de cultura matrística em que a Grande Mãe se firmou, una e única, como epicentro de toda cosmogonia creacionista (estamos falando de, pelo menos, 10.000 anos de História pré-cristã de cultos lunares).

O discurso a sustentar essa onda desqualificatória está quase sempre vinculado a uma naturalização de atributos que seriam exclusivos da ontologia do "ser mulher", como, por exemplo, a submissão, "fragilidade", a vulnerabilidade e, sobretudo, a santificação mariana (de negação da sexualidade) da maternidade, em detrimento  do poder de Deusa e fêmea, geradora da vida a partir da autonomia de sua sexualidade. 

Tal modelo de masculinismo amedronta-se com a possibilidade de "perder" o poder instaurado por um período longo de patriarcado fomentado pela hegemonia política do cristianismo que, valendo-se da apropriação de boa parte dos cultos pagãos, paulatinamente se imiscuiu no ideário popular de práticas religiosas. 

A perda do poder, contudo, nada mais revela a ausência imanente dele, na medida em que, pelo medo, receia-se perder o que, de fato, não se tem, ante a virtualidade com a qual tal discurso se estabeleceu: via medo, e não conscientização. Via culpa, não responsabilização. Via dependência, e não autonomia espiritual. 

Isso porque o medo impõe barreiras e, com elas, inerentes guerras: a síntese da era fálica, que prestigiou guerras, poder, hierarquia e triangularização, a antítese da circularidade e da parceria de que se revestem as relações pautadas na consciência do feminino. 

Diante disso, eis a pergunta: como, então, podemos nos relacionar com o masculino sem agredir nossa sacralidade?

Em um primeiro momento - esse, por agora, em que vivemos a era da queda dos mitos, dentre os quais, da criação e do androcentrismo deídico - tenho como improvável realizar qualquer mudança sem algum sacrifício. Afinal, o ofício sacro tem sido exatamente o caminho trilhado por muitas mulheres conscientes que, a partir do momento em que enxergam e vivenciam a Deusa dentro de si, optam por não realizar pactos de submissão (direta ou velada) com os resquícios da opressão patriarcal. 

O estabelecimento de relações equalizadas, responsáveis e circulares entre homens e mulheres parece ser a tônica para a mudança paradigmática nas interações, por via da elaboração de um diálogo aberto, franco e sensível, que atenda ao compartilhamento de demandas emocionais, mentais e, sobretudo, espirituais, pois, assim, a superação do abismo binário pode ser viabilizada.

A dignificação do ethos da Grande Deusa presente em cada mulher adquire, então, lugar de destaque na agenda de modificações substanciais nas relações de intimidade. Esse, talvez, seja o grande desafio para a humanidade, tendo em vista os 2.000 anos de reprodução robótica do modelo masculinista.

Abracemos, então, a linda jornada que nos espera, capitaneando o grande rol de transformações que o Terceiro Milênio traz nas doces e suaves palmas de suas mãos. 

Fonte da imagem: http://religion.lilithezine.com/images/Pagan-Goddess-Mother-Earth.jpg




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