quinta-feira, 12 de julho de 2012

O Sagrado e o ritual na singeleza dos pequenos atos diários de uma vida

Em muitas culturas, rituais sempre são uma maneira sacra de se atingir o divino. Para nós, ocidentais, pode ser uma maneira automática e sem sentido de reproduzir uma liturgia que, a bem da verdade, não entendemos muito. 


Daí a ilusória irresignação ante a ida a uma missa, um culto, ou, ainda, um terreiro de umbanda. A falta de paciência e a ansiedade tomando conta do relógio, ávido para que as horas passem e, com elas, o "fatídico" ritual aparentemente sem nexo. 


However...tudo ao nosso redor está disposto em ritos aparentemente inócuos e sem sentido. Será?


Rituais, contudo, são gatilhos subconscienciais, baseados em procedimentos ancestrais, que se destinam a adestrar a mente perdida em devaneios, chamando a atenção para os símbolos que estão presentes da liturgia, com a finalidade de acessar o arquivo ancestral do inconsciente coletivo, reacendendo as fagulhas de procedimentos que estão no universo das ideias a mais tempo que nossas existências corpóreas nessa ou em outras encadernações. 


Longe de ser uma reprodução automática, quando internalizado em sua motivação mais profunda, o rito nos conecta à grande teia de interações gravadas no arquivo universal de símbolos, mais ou menos como se fosse uma grande nuvem cósmica pairando sobre nossas cabeças, esperando o tempo certo do acionamento. 


Quando se realiza um ritual, volta à mente racional o apelo ao sacro, orientando nossa sabotadora número um para a ligação com os campos emocional e espiritual, dissipando, assim, por momentos, a dualidade que tanto nos afasta de nossos eixos. 


Além disso, a liturgia de um ritual lembra sempre da necessidade de impulso rumo a uma disciplina interna bem clara e específica para que alcancemos nossas metas evolutivas, por meio da internalização do que se mantém como hábito, para que o objetivo seja atingido. 


Com isso, os pequenos rituais diários passam a ser hábitos muito saudáveis de harmonização da alma e de socialização do espírito, de modo que, quando o adotamos o rito no expediente diário de viver, tudo muda ao nosso redor.


Lembro-me de que não era muito fã de varrer a casa, muito menos de passar pano no chão ou, ainda, limpar mesmo o meu lar, por achar que isso não tinha muito a ver comigo ou, ainda, sob a escusa - desculpinha esfarrapada mesmo - de "não ter sido educada para fazer isso". 


Confundia egocentrismo e imaturidade com falta de habilidade e conhecimento técnico, como se varrer um chão demandasse mesmo um procedimento específico e árduo de aprender... 


Doce ilusão de uma mente infantil, que não deseja crescer em termos de desafios. Ainda bem que podemos mudar com a vida!


Quando descobri, contudo, aos poucos, em minhas reflexões, que o ato de varrer é mágico, bem como também o é a limpeza do chão para a retirada de miasmas e de energias que se acoplam em nossas raízes, passei a observar nisso um sentido muito perfeito e inteligente de realizar os pequenos rituais de prosperidade, pois, a rigor, não se pode pretender alcançar longos passos no percurso se a trilha está repleta de obstáculos. 


Os japoneses, por exemplo, não entram em casa com sapato vindo da rua, assim como os indianos passam boa parte do seu dia varrendo as sacadas e as frentes de suas casas, acreditando na magia benfazeja da prosperidade. Para onde quer que nos voltemos em termos de abundância de culturas, o ato é sempre designativo de boa sorte.


E mais... 


Quando mudei minha perspectiva, passei a acautelar minha alma diante da irresignação de me sentir ofendida por varrer o chão, invadindo-me, com isso, pouco a pouco, um sentimento enorme de gratidão por fazer isso em devolução a tudo que a Natureza, de bom grado, provê ao meu crescimento e mantença. 


De espírito indolente e egocêntrico, voltei-me para a expertise do aprimoramento da alma em outras funções também pouco exploradas por mim em minha adolescência: lavar, cozinhar, arrumar minha cama, lavar a alma, enfim, lavando meu lar.


Não basta, porém, pegar uma vassoura e fazer, de maneira embrutecida e desgostosa. O ato mágico é incompatível com a arrogância de se entender superior demais para varrer um chão: é necessário agregar vontade à ação, o preceito básico em todo e qualquer ato mágico...


Necessidade e vontade na ação, unindo-se os campos racional, espiritual e emocional em uma conjugação só, para que o mundo se transforme em pleno ar! 


A composição, aqui, permeia o plano etéreo, regido pelo AR (a comandar os desígnios do abstrato), passando pela aglutinação com o FOGO como mola propulsora da ação, para que a consciência da responsabilidade venha com a amálgama da TERRA e com a colaboração da ÁGUA, vertida de nossas frontes quando, diante de um trabalho bem feito, chegamos a suar. Todos os elementos se unem, portanto, para a realização de um bom trabalho de gratitude.


Purificar o ambiente em que se vive é irradiar, de dentro para fora, bons fluidos, já que o lar nada mais é do que o prolongamento de nossa alma, uma vez que projetamos no mundo ideal e imantamos, no físico, tudo aquilo que geramos em termos de formas-pensamento. Esse pequeno ritual nos prepara para a vida, campo onde iremos aglutinar constantemente nossa vontade em torno de várias metas que traçamos ao longo do nosso percurso.


Como disse, certa vez, Renato Russo, "disciplina é liberdade", numa alusão, aparentemente paradoxal para alguns, de aglutinação do bem mais precioso - liberdade - com uma maneira tida no senso comum como cerceadora - disciplina. 


Mas o ser humano que não reflete sobre sua postura e não consegue domar a si mesmo, no que traz de menor e mais pífio dentro de si, não consegue ir adiante, pois falece dentro dele o impulso necessário para, diante das adversidades, chamar para si a responsabilidade de administrar sua própria vida. 


Quem não varre seu próprio chão não consegue dar conta de sua própria vida e, com isso, necessita sempre de pactos para que as outras pessoas façam o que, a rigor, é missão de cada qual. Com isso, tudo que gera limita-se a colorir devaneios existenciais dentro da mente e, como bem sabemos, água parada no odre também apodrece...



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