quarta-feira, 18 de julho de 2012

O lar mágico na elaboração diária dos pequenos ritos



Durante esses intensos dias de reflexão em meio a uma verdadeira revoada de pássaros metafóricos que voaram para bem longe, debrucei-me no ofício sagrado das tarefas domésticas, limpando, reciclando e restaurando a paz outrora colapsada no lar que, em algum momento, era comum, mas que, a despeito de sê-lo, nunca foi sentido, pela outra parte, como sendo algo suficiente seu, o bastante para produzir a vontade de igualmente partilhar a frugalidade de a ele se dedicar com o afinco necessário para haurir da casa, por beneplácito, os frutos sagrados do aconchego...


Para essas pessoas, não sei, talvez, a estrutura física seja o bastante, mas, para quem vive uma senda de plenitude elaborada diuturnamente, uma parede adquire um significado muito mais profundo do que se possa imaginar.


Numa dessas conversas que em nada desembocaram, ouvi uma pessoa dizer - enquanto varria o chão - que deveria morar sozinha para aprender a "dar valor na limpeza da casa", com a finalidade de, com isso, não sentir tanta "raiva por ter que limpar a sujeira que os outros fazem na casa".

Nesse contexto, penso, é bem difícil mesmo compartilhar algo, não podendo eu pretender forçar alguém a sentir prazer onde apenas eu estou sentindo, por conta do valor que, desde cedo, internalizei como modus vivendi. Cada qual tem uma perspectiva que é lhe peculiar e que depende, em boa parte, do que lhe foi transmitido geracionalmente. 


Daí, hoje, eu perceber nitidamente o quão diferentes podem ser os caminhos que, dependendo da vontade, tornam-se impossíveis de serem agregados, principalmente quando ainda se insiste na educação binária de crianças, encaminhando-se as meninas para as prendas domésticas, enquanto os meninos apreendem o valor "sublime" de serem machos...


De outra sorte, também não me posso permitir encaminhar minha vontade para a nulificação, fazendo cessões unilaterais, quando, a bem da verdade, o outro lado sequer realizou o mínimo necessário para pretender melhorar enquanto ser trilhando uma trajetória evolutiva. Daí inevitavelmente, a apartação, resoluta, por realmente considerar que, a despeito do amor, e, exatamente por sentir amor, devo lançar ao Universo...


A casa, em minha família materna, sempre foi e é vista como um prolongamento do eu, um templo sagrado que merece ser tratado com honrarias dignas da realeza, pois é o lugar onde todos os dias descansamos a cabeça das pequenas batalhas travadas durante o percurso do viver. Ela, a rigor, tem uma consciência em si mesma, pois agrega toda a energia de quem nela reside - no caso, eu e os companheiros caninos, felinos e da flora urbana, numa confluência de sentimentos e vibrações.    


Essa verdadeira egrégora formada pela reverberação das peculiares energias necessita de especial atenção. Para isso existem os pequenos rituais, as liturgias naturais que, reproduzidas, acrescentam, dia após dia, mais e mais vibrações de amor, paz, tranquilidade e prosperidade. Eis a razão pelas quais as bruxas sempre têm vassouras, limpando física e energeticamente o ambiente familiar, para que possam preparar bruxedos e poções. 


Acordar cedo, abrir a casa para a entrada bem-vinda do Sol que dá o ar de sua graça e praticar os ritos de invocação dos ancestrais, deusas e deuses que protegem a egrégora dos meus familiares também é um rito de intensa felicidade, pois traz ao coração a noção de pertencimento a um mundo lúdico que, para muitas pessoas, não passa de um devaneio onírico. Para quem segue, contudo, um caminho personalíssimo de entrega de si à doação universal, nesses pequenos rituais reside a plenitude de se conectar ao divino, vivenciando verdadeiros estados de graça em plena luz do dia!


Todo esse cuidado, porém, nesses últimos tempos de tormenta a que me expus, cedeu espaço a um condicionamento que nada tem de saudável pois no arroubo existencial de frustradas tentativas de me resolver com o outro, não tinha observado o nascimento de lindas flores de amoras, prenúncio das frutas que, daqui a pouco, brindarão meu jardim e minha vida! Hoje, contudo, ao sair, pela manhã, bem cedo, para a limpeza do jardim, visualizei o espetáculo ofertado pela Mãe Natureza, materializado nas flores de amora, que mais lembram pedaços de algodão em seu nascedouro!


Meu coração - que fora recentemente pisoteado por um ser que pouco ou nada compreendeu de mim - voltou a pulsar no ritmo da Mãe Terra, pois, ao olhar as pequenas flores que se amontoavam, ressurgiu aquela sensação de bem-aventurança que, há 7 meses, não mais acessava... Precisei, então, acordar, de um sono profundo, para redescobrir a riqueza acessível em meu lar, bem aqui, na palma da minha mão. Isso ninguém poderá tirar de mim, nem mesmo o desafortunado que ousou retirar pedaços de mim.


Percebi que, a despeito de todas as mazelas e diante de todos os atropelos em que nos colocamos, nada é suficientemente mais forte do que o inerente amor que pulsa dentro do nosso peito, quando estamos em sintonia com nossa essência mais profunda. 


Com isso, voltei a sorrir largamente, por, enfim, constatar que, a despeito dos talhos produzidos na minha alma pelo contato com um ser gélido e cruel, nada ou ninguém é capaz de extorquir minha fé na felicidade plena, erguida pela dignidade com a qual me lanço, todos os dias de minha vida, a perseguir flores de amoras em todas as etapas do percurso.


Blessed be! )O(

Nenhum comentário:

Postar um comentário