sábado, 26 de maio de 2012

Dia 26 de maio de 2012: a inesquecível Marcha das Vadias

Autor da foto: Marco Tulio Chaves de Oliveira - Marcha das Vadias/2012

Hoje tirei o dia para me emocionar ao participar da Marcha das Vadias aqui em Brasilia, juntamente com 3.000 pessoas que se reuniram, em um coro uníssono, para conclamar o Brasil à reflexão sobre o machismo ainda muito presente nesse país. 


Durante cada minuto em que lá estive, minha vida passou por mim como se estivesse naquele "derradeiro" instante em que se passa um filme...Muitas cenas do passado, muitas marcas de situações em que, como toda e qualquer pessoa, passei por percalços que me fizeram chegar até aqui com a maior dignidade do mundo, não sem promoverem ensinamentos em relação aos quais sou extremamente grata.


Hoje aprendi - como tenho aprendido a cada dia - que sempre posso fazer escolhas, e não simplesmente me deixar ficar em uma situação desconfortável, sob a escusa de suportar, de maneira "resignada" e mariana, uma vida de progressivas tentativas veladas de agressão, de quem quer que seja. 


Oferecer a outra face deixou de ser opção para minha vida, porque aprendi - de tudo que vivi até aqui - que a primeira pessoa no mundo a quem devo amar sou eu mesma e, dentro dessa máxima, erigindo-me como o epicentro do meu amor, derivam todas as escolhas ao meu redor. Amar ao próximo como a mim mesma pressupõe amar a mim. Não se trata de egoísmo, mas de saber efetivamente quem sou e, dentro disso, valorizar-me a tal pouco que nada - nem ninguém - consiga sequer arranhar a admiração que nutro por mim mesma.


Já internalizei a ideia de que damos e ofertamos apenas o que nossa alma pode doar, nem mais, nem menos. Isso vem sempre à mente quando o assunto é relacionamento - em qualquer nível que seja - pois, via de regra, a maior lamúria que temos a colocar - de maneira vitimizada - reside na expectativa da outra pessoa empreender a milagres e realizar o nosso "sonho de consumo", quando, a bem da verdade, quem deve se auto-realizar somos nós, ninguém mais.


Mas, se de um lado, não é justo nutrir expectativas em relação aos outros, de outro, por certo, não é justo com nossa alma que nos limitemos em relação ao que se delineia, pouco a pouco, como um natural curso para as finalizações de ciclo. 


Muito menos que desaceleremos nossos processos para aguardar que outras pessoas se impulsionem - em suas trajetórias - para um ritmo compassado que apenas faz sentido para nós e ninguém mais. Tem um ditado que diz que "quando doamos nossa luz para outra pessoa, o mundo fica mais escuro", lembrando sempre que a cada qual compete seguir o curso de sua sina, tendo em vista que a cada uma ou um de nós é dado um plano de metas que somente faz sentido para... cada um ou uma de nós!


Tudo bem, não devemos esperar nada de ninguém, mas, em idos de pós-modernidade, negociações são básicas entre as pessoas, em todos os níveis, pois marcam a maturidade com a qual saímos de relações de manipulação para a liberdade de contratação. 


A tônica para o terceiro milênio passa pelo desnudar das máscaras idiossincráticas que trazemos de outras eras, para que a luz possa revelar nossos propósitos e, com isso, elevar nossos espíritos, cada dia mais, na base da parceria, da verdade e do compartilhamento, e não mais à guisa de mascaramento de nossos fantasmas não revelados ao próximo.


Mas, relacionamentos "contratados"? Poderiam me perguntar...


Toma-lá-dá-cá? Diriam outras. Ou, ainda, "o amor não seria incondicional? Então por que cobrar?" - outras mais perguntariam. Muitos equívocos são reproduzidos em torno de máximas medíocres, que se transformaram em iconoclastia pura. 


O amor é incondicional, sim, mas, em termos de relacionamento, acho importante e saudável sempre ter em mente que somos também seres políticas e políticos e, como tais, pactuamos e deliberamos, construímos consensos para que possamos interagir. 


Dentro disso, penso que a igualdade passaria exata e pontualmente pela elaboração de uma nova agenda de relacionamentos pessoais: a negociação igualitária e sem manipulação, ethos incompatível com as vitimizações que diuturnamente levaram à deterioração das relações cívicas entre homens e mulheres.


Hoje na Marcha, por segundos, peguei-me refletindo a respeito disso. Regozijei-me por estar ali, num ato de civismo puro, na maior emoção em exercitar - mais uma vez - minha postura de simplesmente ser quem eu sou. 


Mas se estava, por um lado, feliz, por outro coloquei-me a pensar - com certa pontada de tristeza - que ainda precisamos marchar - e muito! - para conscientizar as pessoas sobre a realidade que é o machismo. 


Que precisamos marchar até mesmo dentro de nossas casas, nas pequenas lutas diárias até mesmo com nossos parceiros, amigos, namorados e maridos, para que possamos viver na igualdade, e não meramente como autômatos que reproduzem a logística masculinista. Muitos são os homens - e as mulheres também - machistas, ainda que não se reconheçam como tais e, na mais pura acepção de ignorância, reproduzem o ciclo de violência nos menores gestos, achando que estão transcendendo mundos!


Ou, ainda, que precisamos lembrar, sempre, que não devemos nos submeter a ninguém, bem como não subjugar ninguém, exatamente por sabermos, ao longo da História, o preço existencial de ser algoz e vítima, em tantos e tantos desencadeamentos helicoidais de várias existências.


Que precisamos, enfim, avançar bastante para que não nos submetamos - sob a desculpa de "relevar" - ao subjugo, pois ainda que, em nível moral ou espiritual - sei lá - existam justificativas para as pessoas serem do jeito que são, sempre existe, em cada uma ou um, a possibilidade de fazer escolhas e modificar a própria trajetória! 


O bacana, então, de se fugir do lugar comum do "a gente só dá o que tem" é saber que podemos ter e ser muito mais do que nossas frágeis máscaras tentam mostrar. Que temos potencialidades infinitas que podem ser acessadas em uma só vida, bastando, para isso, apenas a abertura para o novo, pois, para ele entrar, o velho realmente precisa sair!


E viva o dia de hoje! E viva a MARCHA DAS VADIAS!

2 comentários:

  1. Estou aqui para agradecer pelo excelente texto, pois, suas palavras me fizeram mais forte. No dia 8 de março deste ano tive a oportunidade de ouvir grandes mulheres falando sobre suas experiências de vida e mostrando como as mulheres são fortes e guerreiras, os discurso da professora Drª Alessandra de La Vega e das demais professoras (do centro universitário onde estudo) me permitiram refletir sobre a minha importância na sociedade. Hoje após ler esse texto sobre a marcha das vadias me surpreendi ainda mais, pois, pensava que já conseguia enxergar todas as nuances da opressão que a mulher sofre e de como é possível vencê-la, mas acabei percebendo que a reflexão deve ser maior e mais profunda. A mulher tem um histórico de subjugação, mas a história é escrita todos os dias, portanto, cabe a nós nos levantarmos e lutarmos por tudo que é importante.

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  2. Querida Jéssica, minha existência já valeu a pena apenas por ler o que seu coração depositou aqui nesse espaço. A docência nada mais é do que o compartilhamento de vivências e perspectivas. A minha enquanto - como você disse - professora, é apenas uma delas, a experiência de também ter passado por boa parte das discriminações contra as quais todas lutamos. O bom de tudo disso reside na fluidez com que podemos mudar nossos dias, a cada dia! Façamos, então, em uma grande ciranda, a grande transformação de nossas vidas!

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